Dinheiro, pressão e Bolsonaro: operador de “A Turma” reaparece no financiamento de Dark Horse e conecta os dois circuitos de Vorcaro
Decisão da PET 15.556 e relatório da Polícia Federal apontam Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, na operacionalização dos pagamentos mensais da estrutura usada para monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação. Meses depois, mensagens sobre o financiamento de Dark Horse mostram Zettel acompanhando o fluxo internacional, acionando o dono da Entre e enviando a Vorcaro o comprovante de US$ 2 milhões remetidos ao Havengate. Os documentos colocam o mesmo operador no centro dos dois circuitos financeiros.
Por Raul Silva para O estopim |
13 de setembro de 2026

Há um nome que atravessa duas frentes distintas da investigação sobre o universo financeiro ligado ao Banco Master e a Daniel Vorcaro: Fabiano Campos Zettel.
Os documentos da Polícia Federal e decisões judiciais disponíveis na investigação mostram Zettel, primeiro, na operacionalização dos recursos destinados à estrutura conhecida como “A Turma”, grupo que, segundo a PF, atuava com monitoramento, obtenção de informações sigilosas, pressão e intimidação contra pessoas consideradas adversárias.
Meses depois, Zettel reaparece em outro caminho do dinheiro. Desta vez, nas conversas e operações relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
No primeiro circuito, aparece principalmente a Super Empreendimentos e Participações. No segundo, surge a Entre Investimentos e Participações, antes de os dólares alcançarem o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
O ponto comum entre as duas cadeias é o operador.
Na decisão da PET 15.556, que decretou prisões preventivas na investigação, o ministro André Mendonça reproduziu a conclusão da Polícia Federal de que Zettel participava da “estrutura operacional responsável pela execução e viabilização financeira” das iniciativas do grupo.
O documento afirma que ele atuava na intermediação de pagamentos, na definição dos mecanismos de transferência e, especificamente, “na operacionalização de pagamentos destinados ao grupo informal conhecido como ‘A Turma’”.
O relatório de análise do celular de Vorcaro disponível no acervo da investigação é ainda mais explícito.
A IPJ-A nº 1020625/2026, da Polícia Federal, registra que Felipe Mourão recebia R$ 1 milhão por mês, permanecia com parte do dinheiro e distribuía o restante entre pessoas que trabalhavam para ele.
Na página 5, a PF reproduz uma conversa na qual Vorcaro encaminha os dados da empresa de Mourão ao contato salvo como “Ana Claudia Financeiro1”.

Ela pergunta:
“Vai ser 1mm como normalmente?”
Vorcaro responde:
“Sim”.
Logo depois, segundo o relatório, ela encaminha o comprovante da transferência de R$ 1 milhão.
Na página seguinte, a Polícia Federal identifica a origem daquele pagamento: Super Empreendimentos e Participações S.A., companhia que o documento relaciona a Fabiano Zettel.

“O Fabiano não mandou este mês”
A decisão judicial da PET 15.556 confirma a mesma dinâmica e acrescenta uma mensagem particularmente reveladora.
Na página 11 do PDF, André Mendonça registra que havia “fortes indícios” de que Mourão recebia R$ 1 milhão mensalmente de Vorcaro por intermédio de Zettel.

Uma das mensagens transcritas no processo mostra Mourão cobrando o pagamento:
“Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando.”
Na mesma página, Mourão explica que o dinheiro era repartido.
A decisão também registra a pergunta de Ana Claudia sobre o “1 mm” e o posterior comprovante de transferência para uma conta da King, empresa de Mourão.
A atuação atribuída a Zettel nos documentos não aparece apenas como a de um pagador distante das atividades operacionais.
A IPJ-A contém conversas nas quais seu nome entra diretamente em episódios envolvendo pressão sobre pessoas consideradas problemáticas para Vorcaro.
Na página 47, em um contexto relacionado a um ex-funcionário, Vorcaro escreve a Mourão que seria ideal ele ir “com Fabiano e com polícia”.

O arquivo reproduz também um vídeo publicado nos stories do Instagram por Leandro Garcia, no qual o ex-funcionário dizia que exporia uma situação relacionada ao último trabalho.
Na página 49, a análise apresenta uma conversa direta entre Vorcaro e Zettel sobre os mesmos alvos.

Zettel pergunta:
“Sicário tem os nomes e onde achar?”
Vorcaro responde:
“Tem tudo. Já levantou tudo.”
“Sicário” era a forma pela qual Felipe Mourão aparecia em parte das conversas analisadas.
A decisão da PET 15.556 consolida a avaliação dos investigadores.
Segundo o documento, Mourão atuava na obtenção de informações sigilosas, monitoramento e localização de pessoas, inclusive mediante acesso a sistemas restritos.
A Polícia Federal atribuiu a “A Turma” atividades de vigilância, coleta de informações, pressão e intimidação contra pessoas consideradas adversárias do grupo.
A estrutura financeira estava formalizada
Outro elemento torna a trilha financeira ainda mais relevante.
Ana Claudia Queiroz de Paiva não aparece apenas como a pessoa responsável por executar uma transferência.
A decisão registra que ela participava da gestão dos pagamentos de “A Turma” e integrava formalmente a estrutura da Super Empreendimentos e Participações.
Na página 33 da decisão, ao reproduzir a representação da Polícia Federal, o documento afirma que pagamentos investigados eram efetuados por Zettel e Ana Claudia, a mando de Vorcaro, principalmente por meio da Super.

Em seguida, esclarece que essa era também a estrutura utilizada para os pagamentos mensais destinados a “A Turma”, com os valores seguindo da Super para empresas de Felipe Mourão, entre elas a King Participações Imobiliárias.
A Super também não aparece como uma empresa financeiramente isolada do universo de Vorcaro.
Reportagens baseadas em registros societários e fiscais apontaram que Zettel foi diretor da companhia e que um fundo ligado ao patrimônio de Vorcaro passou a ser seu principal investidor.
A Folha de S.Paulo revelou ainda que Vorcaro declarou pagamentos de aproximadamente R$ 68 milhões à Super em 2023 e que Zettel recebeu R$ 485 milhões da companhia.
É nesse ponto que surge a segunda trilha financeira.
Zettel reaparece no fluxo de Dark Horse
No financiamento de Dark Horse, a empresa que aparece enviando os dólares não é a Super.
É a Entre Investimentos e Participações, de Antônio Carlos Freixo Júnior, identificado nas mensagens pelo apelido de “Mineiro”.
O procedimento relacionado ao filme tramita no Supremo Tribunal Federal na PET 16.292, protocolada em 22 de junho de 2026 e distribuída ao ministro André Mendonça.
A reconstrução feita pela Polícia Federal mostra que, diante de dificuldades para efetuar um pagamento relacionado ao filme, Vorcaro orientou, em fevereiro de 2025, que a operação fosse realizada “via Entre”.
Zettel então perguntou se poderia acionar “Minas”, referência a Freixo, e informou que o dinheiro seria direcionado a um fundo.
Em 11 de fevereiro de 2025, Vorcaro voltou a cobrar Zettel a respeito do câmbio para o filme.
Zettel respondeu que já havia encaminhado a demanda ao “Mineiro”.
Dois dias depois, em 13 de fevereiro, a Entre transferiu US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund.
No dia seguinte, 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante bancário e indicou que a remessa estava relacionada ao filme.
O comprovante divulgado na investigação é uma mensagem SWIFT.
Os dados publicados mostram a Entre como remetente, o processamento pelo Banco BS2 e o destino a uma conta vinculada ao JPMorgan Chase Bank, em benefício do Havengate. E a transferência de US$ 2 milhões não aparece isoladamente.
Segundo o relatório mais recente da Polícia Federal, foram identificadas sete remessas da Entre ao Havengate durante 2025, totalizando US$ 12,33 milhões.
O contrato localizado no celular de Vorcaro previa até US$ 24 milhões para a produção.
A Entre também aparece dentro do universo financeiro do Master
A Entre não estava fora do ecossistema financeiro relacionado ao Banco Master. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários, analisados pela Folha de S.Paulo, apontam que a companhia possuía cotas em sete fundos da rede do Banco Master, sendo a única cotista de quatro deles.
Esses veículos reuniam R$ 2,9 bilhões em ativos. Dois eram cotistas diretos do Hans II, apontado nas investigações como peça relevante da engrenagem financeira do Master.
Outra apuração identificou aproximadamente R$ 614 milhões em operações do Banco Master com empresas do grupo Entre.
Entre os valores mencionados estão títulos emitidos pela Entre Investimentos, aportes do Fundo Máxima e pagamentos envolvendo debêntures.
Esse conjunto estreita significativamente o universo financeiro sob investigação. Para determinar se os dois circuitos compartilhavam não apenas operadores e relações empresariais, mas também a mesma origem efetiva dos recursos, o ponto decisivo será o rastreamento das transferências anteriores à entrada do dinheiro na Super e na Entre.
Colaboração premiada acrescenta nova peça
A investigação ganhou recentemente outro elemento. Antônio Carlos Freixo Júnior firmou acordo de colaboração premiada homologado pelo Supremo Tribunal Federal e, segundo informações divulgadas sobre seu relato, confirmou ter operacionalizado remessas para o Havengate a pedido de Vorcaro.
A própria Polícia Federal afirma que ainda precisa esclarecer origem, trânsito, destino e beneficiários finais dos recursos.
É precisamente nesse percurso que poderá estar a resposta para a principal questão aberta pela sobreposição dos dois circuitos.
O mesmo operador atravessa as duas cadeias
A fotografia documental produzida até aqui é expressiva. Vorcaro aparece no comando das duas operações. Zettel aparece na operacionalização financeira das duas. Empresas utilizadas nos dois circuitos mantêm relações financeiras relevantes com o ecossistema Master.
Os veículos empresariais, entretanto, são diferentes. No circuito de “A Turma”, a documentação disponível permite reconstruir o caminho:
Vorcaro → Zettel e Ana Claudia → Super → King e Felipe Mourão → integrantes da estrutura.
No circuito de Dark Horse, a reconstrução disponível é:
Vorcaro → Zettel → Freixo e Entre → Havengate → estrutura financeira da produção nos Estados Unidos.
É Fabiano Zettel quem atravessa as duas cadeias.
A pergunta central, portanto, nasce diretamente da documentação: como o operador apontado pela Polícia Federal na viabilização financeira da estrutura de vigilância, obtenção de informações e intimidação ligada a Vorcaro passou também a acompanhar o fluxo de dinheiro destinado ao projeto cinematográfico negociado pela família Bolsonaro?
A segunda questão é financeira e pode ser ainda mais relevante: os dois circuitos apenas compartilhavam o operador ou compartilhavam também a origem efetiva dos recursos?
A resposta passa pelas transferências anteriores à Super e à Entre, particularmente entre o segundo semestre de 2024 e fevereiro de 2025.
O elemento capaz de fechar essa cadeia provavelmente não estará em uma nova conversa de WhatsApp. Estará nos extratos bancários.
O que diz Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro afirma que os recursos relacionados a Vorcaro eram privados e que todo o dinheiro recebido foi aplicado no filme.
Em maio, disse à CNN que o valor aportado chegou a pouco mais de US$ 12 milhões e negou irregularidade na operação.
A produtora responsável por Dark Horse também afirmou que prestações de contas foram apresentadas e declarou confiança de que as investigações confirmarão a regularidade da origem e do destino dos valores.
O conjunto documental hoje disponível estabelece um fato central para a investigação: o mesmo operador financeiro aparece nos dois circuitos.
O rastreamento bancário anterior às transferências feitas pela Super e pela Entre é o caminho capaz de estabelecer se essa ligação terminava no operador ou alcançava também a fonte original do dinheiro.
Documentos que devem acompanhar a matéria
A PET 15.556/DF, página 8, contém os itens 23 a 26, nos quais a decisão descreve Zettel como responsável pela intermediação e operacionalização de pagamentos e registra sua atuação no custeio de “A Turma”. É um dos documentos mais fortes para abrir a sequência probatória da reportagem.

Na página 11 da PET 15.556, os itens 34 a 37 registram o pagamento mensal de R$ 1 milhão por intermédio de Zettel, a mensagem “O Fabiano não mandou este mês”, a divisão do dinheiro, a pergunta de Ana Claudia “Vai ser 1 mm como normalmente?” e o registro da transferência.

Na página 21, os itens 74 a 76 tratam da participação de Ana Claudia na gestão das transferências destinadas a “A Turma”.

Na página 33, a decisão reproduz a representação da Polícia Federal segundo a qual Zettel e Ana Claudia efetuavam pagamentos a mando de Vorcaro, principalmente por meio da Super, e registra que a mesma estrutura era usada nos pagamentos mensais de “A Turma”, com passagem dos recursos para empresas de Mourão.

A IPJ-A nº 1020625/2026, páginas 4 a 6, extraída do celular de Vorcaro, registra na página 4 o pagamento mensal de R$ 1 milhão. A página 5 apresenta as conversas e o comprovante. A página 6 identifica a Super como empresa ligada a Zettel e contém o diagrama que liga Vorcaro, Mourão e “A Turma”.
Página 4, 5 e 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução Página 4, 5 e 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução Página 4, 5 e 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Na página 47, Figura 55, está a conversa em que Vorcaro menciona a ida com “Fabiano e com polícia”. O material também reproduz os stories do Instagram de Leandro Garcia, descritos pela PF como publicação na qual ele afirmava que exporia uma situação relacionada ao último trabalho.

Na página 49, Figura 57, aparece a conversa direta de Zettel com Vorcaro: “Sicário tem os nomes e onde achar?”. Vorcaro responde: “Tem tudo. Já levantou tudo.”

A página 125 contém a tabela síntese da Polícia Federal que identifica Zettel, a Super e a King e registra que a Super realizava pagamentos a Felipe Mourão.

No núcleo relacionado a Dark Horse, a referência processual é a PET 16.292/DF. A sequência documental central começa em 5 de fevereiro de 2025, com a orientação “via Entre”; passa por 11 de fevereiro, quando ocorre a cobrança relacionada ao câmbio; chega a 13 de fevereiro, com o SWIFT de US$ 2 milhões no fluxo Entre → Havengate; e alcança 14 de fevereiro, quando Zettel encaminha o comprovante a Vorcaro e relaciona a transferência ao filme.
A PET 16.704/DF, página 1, contém despacho de Edson Fachin determinando a remessa e o levantamento do sigilo dos procedimentos relacionados à PET 15.556, preservadas diligências que ainda exigissem reserva.
A trilha que pode fechar o circuito
O passo decisivo para a continuidade da apuração é confrontar o SWIFT de 13 de fevereiro de 2025 com os extratos da Entre, da Super, do Termópilas, do Astralo e dos fundos do ecossistema Master nos dias imediatamente anteriores à transferência.
A identificação do originador dos recursos que ingressaram na Entre, e não apenas do remetente final registrado no SWIFT, pode determinar se o caso envolve dois circuitos administrados pelo mesmo operador ou uma engrenagem financeira cuja origem também se encontrava conectada antes de o dinheiro mudar de veículo.
O que os documentos já colocam sob luz é o personagem que atravessa as duas estruturas.
Fabiano Campos Zettel estava no circuito de “A Turma”. Meses depois, estava também no caminho do dinheiro de Dark Horse.
Agora, a investigação bancária precisa mostrar até onde essa coincidência operacional alcança o dinheiro.
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Raul Silva é jornalista político e tua na cobertura de poder, instituições, eleições, economia política e conflitos entre Estado, sociedade e grupos de interesse, com foco na interpretação das estruturas que movem a política brasileira.
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