Por Michael Andrade, da redação do Portal O Estopim | 10 de setembro de 2026 | Fonte: Agência Brasil, com informações da TV Brasil
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Site reúne informações sobre cargos, candidatos e funcionamento do sistema político; brasileiros entre 16 e 24 anos representam 12% do eleitorado.
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REUTERS/Manuel Ausloos
Um adolescente de 16 anos criou uma plataforma para ajudar jovens que vão às urnas a entender o funcionamento das eleições e os cargos em disputa. O projeto Votaê foi desenvolvido por Maurício Melzer, de São Paulo, após ele próprio encontrar dificuldades para compreender o sistema político quando tirou o título de eleitor.
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A plataforma reúne explicações sobre os cargos eletivos e informações sobre os candidatos. Segundo Maurício, os dados utilizados são obtidos a partir das informações oficiais disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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A ideia surgiu durante as pesquisas feitas pelo adolescente para entender melhor o papel de senadores, deputados e do Congresso Nacional. Ele percebeu que dúvidas semelhantes também estavam presentes entre amigos da mesma faixa etária.
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Segundo dados apresentados pela Agência Brasil, os jovens de 16 a 24 anos representam 12% do eleitorado brasileiro, o equivalente a 19,2 milhões de pessoas.
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Neste ano, quase 21 mil candidatos disputam cargos em todo o país. Na votação, os eleitores deverão escolher presidente da República, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual ou distrital, dependendo da unidade da Federação.
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Além de iniciativas independentes como a criada por Maurício, informações oficiais sobre candidaturas, partidos e financiamento das campanhas podem ser consultadas nos canais do TSE.
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Para Vitor Amaral, secretário de Comunicação do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), iniciativas voltadas ao público jovem podem contribuir para aproximar essa parcela do eleitorado do processo eleitoral, especialmente pelo uso de ferramentas digitais.
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Foto: Reuters/Manuel Ausloos/Proibida reprodução
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Relatório com dados de 21 países calcula que 20 milhões de crianças e adolescentes sofreram exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia em um ano; no Brasil, estimativa chega a 3 milhões de vítimas
Por Clara Mendes para O estopim |
7 de setembro de 2026
Unicef: 15 milhões de crianças foram expostas a conteúdo sexual online | Foto: Reprodução
Mais de 15 milhões de crianças e adolescentes de 12 a 17 anos foram expostos a conteúdo sexual indesejado em ambientes digitais durante um período de um ano, segundo relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef. O levantamento reúne dados de usuários de internet em 21 países e estima que cerca de 20 milhões tenham sofrido ao menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia.
O relatório “Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil” calcula ainda que 9 milhões de crianças e adolescentes receberam pedidos para participar de conversas de natureza sexual ou compartilhar imagens íntimas contra a própria vontade. Outros 4 milhões tiveram imagens íntimas divulgadas sem consentimento.
Os números não representam todas as crianças e adolescentes do mundo. O estudo é baseado em pesquisas nacionalmente representativas feitas com aproximadamente 21 mil usuários de internet de 12 a 17 anos nos países incluídos no levantamento, além de entrevistas aprofundadas com 100 jovens que sofreram abuso durante a infância.
A coleta reúne duas etapas do projeto Disrupting Harm. A primeira ocorreu principalmente entre 2020 e 2021 em 12 países. A segunda, realizada em 2024 e 2025, incluiu outros nove, entre eles o Brasil.
Cerca de 60% dos casos identificados no levantamento global ocorreram em grandes plataformas de redes sociais e aplicativos de mensagens, incluindo Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp. Os jogos online responderam por 14% das ocorrências.
O relatório também confronta a ideia de que o agressor é, na maior parte das vezes, um desconhecido. Em 57% dos casos, a violência envolveu alguém que a criança ou adolescente já conhecia, como amigos, familiares, parceiros afetivos ou outras pessoas do convívio. Em 38%, porém, o primeiro contato com o agressor aconteceu pela internet.
A subnotificação aparece como um dos principais obstáculos para dimensionar a violência. Mais de 40% dos casos analisados nunca foram revelados pela vítima a nenhuma pessoa. Menos de 1% chegaram à polícia, a profissionais de assistência social ou a serviços de apoio.
Segundo o Unicef, uma das principais razões apresentadas pelas vítimas para não denunciar é não saber a quem recorrer.
Segundo a Unicef o Brasil tem cerca de 3 milhões de vítimas
No recorte brasileiro do projeto, 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que usam a internet relataram ter sofrido exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia em um período de 12 meses. A proporção corresponde a aproximadamente 3 milhões de meninas e meninos.
A exposição a conteúdo sexual não solicitado foi a ocorrência mais comum no país e atingiu 14% dos entrevistados.
No Brasil, 49% das situações envolveram uma pessoa conhecida da vítima. Outros 34% dos entrevistados que sofreram esse tipo de violência disseram que não contaram o ocorrido a ninguém.
As tecnologias digitais estiveram diretamente envolvidas em 66% dos casos brasileiros identificados pela pesquisa. Redes sociais e aplicativos de mensagens concentraram 64% das ocorrências, enquanto jogos online responderam por 12%.
Instagram e WhatsApp apareceram entre as plataformas mais citadas pelas vítimas, com índices de 59% e 51%, respectivamente. Os percentuais não significam que as plataformas tenham cometido os crimes, mas indicam os ambientes em que as situações relatadas ocorreram.
Impactos vão além do ambiente digital
O levantamento encontrou associação entre a violência sexual facilitada por tecnologia e indicadores de sofrimento psicológico.
Crianças e adolescentes que relataram esse tipo de exploração ou abuso apresentaram probabilidade quatro vezes maior de também relatar pensamentos ou comportamentos suicidas e automutilação quando comparados aos demais participantes. Os níveis de ansiedade também foram maiores.
Os dados mostram associação entre os fatores e não permitem afirmar, isoladamente, que a violência digital seja a única causa desses problemas.
Brasil endurece regras para plataformas e crimes digitais
Os dados são divulgados no mesmo ano em que novas normas brasileiras passaram a ampliar a proteção de crianças e adolescentes na internet.
O ECA Digital, Lei nº 15.211 de 2025, está em vigor desde 17 de março de 2026 e obriga fornecedores de serviços digitais acessados por crianças e adolescentes a prevenir e reduzir riscos de exploração sexual, assédio e exposição a conteúdo pornográfico.
A legislação prevê mecanismos de aferição de idade para conteúdos restritos, configurações de segurança, ferramentas de supervisão parental e sistemas para que usuários comuniquem violações.
Quando identificarem conteúdo com indícios de exploração, abuso sexual, sequestro ou aliciamento de crianças e adolescentes, as plataformas devem adotar medidas de retirada e comunicação às autoridades nos casos previstos pela regulamentação.
Em agosto, a Lei nº 15.487 de 2026 também ampliou dispositivos penais relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes. A legislação passou a alcançar conteúdos manipulados ou gerados por tecnologias digitais, inclusive inteligência artificial, e aumentou penas para determinadas formas de produção, divulgação e comercialização desse material.
Dados da SaferNet reforçam que o problema já ocupa parcela significativa das denúncias sobre crimes na internet no país. Entre janeiro e julho de 2025, a entidade recebeu 49.336 denúncias anônimas relacionadas a abuso e exploração sexual infantil, equivalentes a 64% das notificações recebidas pelo canal no período.
Casos de violência ou violação de direitos contra crianças e adolescentes podem ser comunicados gratuitamente ao Disque 100, que funciona 24 horas por dia. Crimes praticados pela internet também podem ser encaminhados aos canais oficiais da Polícia Federal e às ferramentas de denúncia das próprias plataformas.
O relatório do Unicef conclui que a proteção não pode ser transferida exclusivamente para crianças, adolescentes ou suas famílias. A organização defende mudanças no desenho das plataformas, mecanismos de denúncia acessíveis, restrições a contatos indesejados, fiscalização das empresas de tecnologia e sistemas públicos capazes de acolher as vítimas.
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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista do O estopim, com cobertura de direitos humanos, política, Justiça, segurança pública e acontecimentos em tempo real.
Buscadores entregam respostas antes dos links, enquanto Cade e PL 2338/2023 colocam remuneração de conteúdo jornalístico no centro da disputa.
Por Raul Silva para O estopim |
11 de agosto de 2026
Resumos gerados por IA reduzem a chance de clique em sites e colocam financiamento, direitos autorais e futuro do jornalismo no centro da disputa. | Imagem: Reprodução
A expansão de respostas geradas por inteligência artificial nos mecanismos de busca está mudando a forma como leitores encontram notícias e ampliando a pressão financeira sobre veículos jornalísticos. Estudos mostram que usuários clicam menos nos links quando recebem um resumo pronto na página de resultados. No Brasil, a discussão já chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, e ao Congresso, onde o PL 2338/2023 prevê regras para o uso remunerado de obras protegidas por sistemas comerciais de IA.
O impacto atinge um ponto central do modelo econômico do jornalismo digital. Durante anos, mecanismos de busca funcionaram como uma das principais portas de entrada para reportagens. O site publicava a informação, o buscador indicava o link e o leitor seguia até a página do veículo. Com os resumos gerados por IA, parte dessa jornada pode terminar no próprio Google.
Resumos de IA reduzem a chance de clique
Um levantamento do Pew Research Center ajuda a dimensionar a mudança. A instituição analisou a navegação de 900 adultos nos Estados Unidos durante março de 2025. Quando uma página de resultados do Google mostrava um resumo gerado por IA, os usuários clicavam em um resultado tradicional em apenas 8% das visitas. Sem o resumo, a taxa chegava a 15%.
Os próprios links apresentados dentro dos resumos tiveram desempenho ainda menor. Segundo o Pew, eles receberam cliques em apenas 1% das visitas às páginas que continham AI Overviews. Além disso, 26% das visitas com resumo de IA terminaram com o encerramento da sessão de navegação, contra 16% quando havia apenas os resultados tradicionais.
O levantamento não mede especificamente o comportamento dos brasileiros, mas documenta uma transformação importante no funcionamento da busca: a resposta deixa de ser apenas uma lista de caminhos para outras páginas e passa a disputar com essas páginas a atenção do usuário.
O Google lançou o recurso chamado AI Overviews, traduzido pela empresa como Visões Gerais criadas por IA, em maio de 2024. A expansão oficial para o Brasil ocorreu em 15 de agosto daquele ano, junto com outros cinco países e suporte a idiomas locais.
Desde então, a presença da inteligência artificial na Busca aumentou. Em junho de 2026, o Google informou que as Visões Gerais criadas por IA já tinham mais de 2,5 bilhões de usuários ativos mensais no mundo. A empresa também passou a acrescentar mais links diretos, prévias de sites e ferramentas para destacar fontes preferidas pelos usuários.
A transformação desloca parte do poder editorial da página que produziu o conteúdo para a plataforma que o localiza, resume e reorganiza antes de mostrá-lo ao público.
Queda de audiência ameaça receita dos veículos?
No Brasil, a Associação de Jornalismo Digital, Ajor, aponta que um em cada quatro dos 152 veículos acompanhados pela entidade perdeu mais de 20% da audiência em 2025, segundo levantamento citado em reportagem da Agência Brasil, assinada pelo jornalista Lucas Pordeus León.
A redução de tráfego não representa apenas uma queda de pageviews. Para veículos sustentados por publicidade digital, assinaturas, doações ou programas de membros, menos leitores dentro do próprio site significam menos oportunidades de converter audiência em receita e relacionamento direto.
A tendência também aparece em escala internacional. Dados da empresa de análise Chartbeat, reunidos pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, mostram que o tráfego orgânico enviado pelo Google a mais de 2,5 mil sites caiu 33% globalmente entre novembro de 2024 e novembro de 2025. Nos Estados Unidos, a retração chegou a 38%.
O próprio Reuters Institute ressalta que não é possível atribuir toda essa queda exclusivamente ao AI Overviews. Mudanças no algoritmo, nos hábitos de consumo e em outros produtos do Google também interferem nos números. Mesmo assim, dirigentes de empresas jornalísticas consultados pelo instituto esperam uma redução média de 43% no tráfego vindo de buscadores nos próximos três anos.
O Google rejeita a conclusão de que suas ferramentas de IA estejam provocando uma redução generalizada do tráfego da web. Em posicionamento publicado em agosto de 2025, a empresa afirmou que o volume total de cliques orgânicos enviados pela Busca permanecia relativamente estável na comparação anual e que a qualidade média desses acessos havia aumentado.
Segundo a companhia, os resumos de IA estimulam pesquisas mais longas e complexas e podem apresentar mais oportunidades para que diferentes páginas sejam descobertas. O Google reconhece, porém, que determinadas perguntas simples podem ser respondidas diretamente na página de resultados, sem que o usuário precise seguir para outro site.
A divergência expõe o centro do conflito. Para as plataformas, a IA melhora a experiência de busca. Para os veículos que produzem a informação original, a questão é quanto dessa experiência continua enviando público e valor econômico de volta à fonte.
Cade amplia investigação sobre uso de conteúdo jornalístico
No Brasil, o debate ultrapassou o mercado editorial. Em abril de 2026, o Tribunal do Cade aprovou por unanimidade o aprofundamento de uma investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google e recomendou a abertura de processo administrativo.
O inquérito começou em 2019, quando a preocupação estava concentrada na coleta automática de notícias e na exibição de títulos, trechos e imagens nos resultados de busca. Segundo o Cade, a situação mudou com a inteligência artificial generativa, capaz de sintetizar informações diretamente na interface do buscador.
A autoridade concorrencial passou a analisar possíveis efeitos sobre acesso, visibilidade e monetização dos publishers, além de uma eventual apropriação de valor por uma plataforma dominante. A instauração do processo não significa que o Cade já tenha concluído pela existência de uma infração. O procedimento busca reunir dados para aprofundar a análise.
Outra frente está na Câmara dos Deputados. O PL 2338/2023, que cria o marco regulatório brasileiro da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado e está atualmente aguardando parecer do relator na comissão especial da Câmara. O relator é o deputado Aguinaldo Ribeiro, do PP da Paraíba.
No texto enviado pelo Senado, conteúdos protegidos poderiam ser usados livremente em determinadas atividades de pesquisa, jornalismo, educação, museus, arquivos e bibliotecas, desde que obtidos legitimamente e sem finalidade comercial. Fora dessas hipóteses, titulares poderiam impedir a utilização. Quando obras protegidas fossem usadas no desenvolvimento de sistemas comerciais de IA, haveria direito a remuneração.
A definição dessa regra interessa diretamente a jornais, revistas, agências, jornalistas, fotógrafos, escritores e outros produtores de conteúdo. A discussão é sobre quem captura economicamente o valor gerado quando uma reportagem financiada por uma redação passa a servir de matéria-prima para uma resposta automatizada.
Jornalismo entra na economia das respostas
A disputa representa uma mudança estrutural. O mecanismo de busca tradicional organizava links. A nova geração de sistemas tenta responder diretamente à pergunta.
O Reuters Institute descreve esse cenário como parte do debate sobre o chamado “Google Zero”, expressão usada no setor para representar o risco de sites receberem cada vez menos visitas vindas do Google. Em 2026, 10% das pessoas pesquisadas em 48 mercados disseram usar chatbots de IA para consumir notícias, ante 7% no ano anterior. Entre menores de 35 anos, o índice chegou a 16%.
Para o jornalismo, a discussão passa a envolver mais do que adaptação tecnológica. Está em jogo a capacidade de financiar a produção original de informação que alimenta sistemas capazes de responder ao usuário sem necessariamente levá-lo à fonte.
O que acontece agora?
O PL 2338/2023 continua na comissão especial da Câmara e aguarda o parecer do relator antes de avançar no processo legislativo. A regulamentação dos direitos autorais ainda poderá sofrer mudanças durante a tramitação.
No Cade, o processo sobre o Google entrou em uma fase mais aprofundada de investigação após a decisão de abril de 2026. A autoridade pretende analisar como as novas ferramentas de IA alteraram a relação econômica entre a plataforma e os produtores de conteúdo jornalístico.
Enquanto essas duas frentes avançam, buscadores e sistemas generativos continuam ampliando a capacidade de entregar respostas completas. Para as redações, o desafio será preservar audiência direta, reconhecimento de autoria e receita em um ambiente em que a informação pode chegar ao leitor antes mesmo do clique.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, tecnologia e temas de interesse público, com foco nas causas e consequências das transformações sociais.