Textos, fotos, conversas e informações públicas podem alimentar sistemas de IA. O controle permanece concentrado nas empresas que desenvolvem os modelos.
Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026
Usuário acessa uma inteligência artificial que processa dados pessoais e conversas | Foto: Reprodução
A inteligência artificial aprende a partir de grandes volumes de textos, imagens, áudios, códigos e outros conteúdos. Esses dados podem vir da internet pública, de bases licenciadas, de material produzido por especialistas e, dependendo do serviço, das interações dos próprios usuários.
O problema é que raramente uma pessoa sabe se uma publicação, fotografia ou conversa foi usada no treinamento de um modelo. O que levanta questões sobre privacidade na IA.
Treinar uma IA não significa simplesmente guardar páginas inteiras em um banco de dados. O sistema analisa padrões e ajusta bilhões de parâmetros matemáticos.
Isso não elimina os riscos. Modelos podem memorizar trechos, reproduzir informações pessoais ou gerar conteúdos que associam pessoas a dados incorretos.
A ANPD alerta que a raspagem de páginas da internet pode envolver tratamento de dados pessoais. O fato de uma informação estar publicamente acessível não significa que ela possa ser usada sem finalidade, necessidade e transparência.
Na prática, as empresas de IA têm o maior controle operacional. Elas escolhem as fontes, filtram os conjuntos de treinamento e definem por quanto tempo as interações ficam armazenadas.
As regras variam entre serviços e planos. A OpenAI oferece controles para impedir que conversas de produtos de consumo sejam usadas na melhoria dos modelos. A Anthropic informa que usa conversas de consumidores quando há autorização, enquanto produtos comerciais não entram no treinamento por padrão.
O Google informa que determinadas interações com o Gemini podem ser analisadas por equipes humanas e usadas no desenvolvimento de seus serviços. Contas corporativas e educacionais podem ter proteções diferentes.
Isso mostra que “usar uma IA” não descreve uma única relação de privacidade. Tudo depende do produto, da conta e das configurações escolhidas.
Conversas com assistentes podem conter contratos, informações de saúde, documentos internos, dados de clientes, códigos privados ou estratégias empresariais.
Mesmo quando o conteúdo não é usado para treinamento, ele pode ser armazenado para segurança, funcionamento do serviço ou cumprimento de obrigações legais, conforme a política de cada plataforma.
A regra mais segura é não enviar a uma IA pública aquilo que não deveria ser compartilhado com terceiros.
No Brasil, o uso de dados pessoais para treinar IA está sujeito à LGPD. Em 2024, a ANPD suspendeu temporariamente o uso de dados pela Meta e depois autorizou a retomada com restrições, maior transparência, direito de oposição simplificado e exclusão de contas de crianças e adolescentes.
O caso mostrou que o controle não pertence apenas às empresas. Usuários, reguladores e tribunais também podem limitar como os dados são utilizados.
O desafio é tornar esses direitos compreensíveis. Uma opção escondida em menus ou uma política extensa não representa controle real.
O que acontece agora
A disputa deve se concentrar em transparência, direito de oposição e responsabilidade sobre dados retirados da internet. Reguladores europeus já afirmaram que cada sistema precisa demonstrar sua base legal e avaliar os riscos aos titulares. A ANPD também colocou a transparência no treinamento de IA entre suas prioridades.
A pergunta central não é apenas se a IA usa dados. É quem decide, quem lucra e quem consegue dizer não.
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Atlas Siqueira escreve sobre tecnologia, política, infraestrutura digital e economia da inovação. Em O estopim Tech, analisa como decisões técnicas afetam direitos, trabalho e soberania.
A privatização da memória: como a corrida por IA transformou componentes em commodities escassas e encarecidas
Enquanto data centers de IA desviam capacidade de produção de memória, fabricantes lucram bilhões e consumidor brasileiro médio enfrenta aumento de até 30% no preço de smartphones. A inovação beneficia corporações; o custo, as pessoas comuns.
As caríssimas memórias RAM | Foto: Reprodução
Em dezembro de 2025, a Micron Technology, terceira maior fabricante mundial de memória RAM e armazenamento, fez um anúncio que ecoou pela indústria: descontinuaria sua linha de produtos Crucial, voltada a consumidores domésticos, após 29 anos de operação.
A empresa não citaria problemas econômicos ou falhas de mercado. A justificativa era simples e brutal: a demanda por memória de alta largura de banda (HBM) para data centers de IA era tão lucrativa que não fazia sentido continuar vendendo componentes a consumidores individuais.
"O crescimento impulsionado pela IA nos data centers levou a um surto na demanda por memória," explicou Sumit Sadana, executivo da Micron. "Nós tomamos a decisão de sair do mercado de consumidores para melhorar o suprimento a nossos clientes estratégicos maiores em segmentos que crescem mais rapidamente."
Em outras palavras: lucrar com a IA é mais importante que fornecer memória ao consumidor comum.
O resultado? Smartphones e computadores pessoais enfrentam escassez histórica de componentes. Preços explodem. Consumidor brasileiro, já atingido por inflação e tributação agressiva, vê seu poder de compra de tecnologia despencar. E quem lucra? Investidores em data centers, fornecedores de chips de IA, fundos de capital privado e fabricantes que veem suas ações dispararem em valor enquanto planeta enfrenta crise de componentes.
Esta é a história de como a "inovação" em inteligência artificial transformou-se em transferência silenciosa de riqueza dos muitos para os poucos.
O êxodo da memória: quando lucro determina oferta
Como decisões corporativas criam escassez artificial? Até 2024, a indústria de memória funcionava em premissa simples: oferta e demanda. Havia demanda por chips de memória para consumidores (smartphones, PCs, laptops), então fabricantes mantinham linhas de produção diversificadas.
Tudo mudou aceleradamente entre 2024 e 2025. A explosão de investimentos em data centers de IA, impulsionada por Google, Amazon, Meta, Microsoft e startups como OpenAI, criou demanda sem precedentes por memória de altíssima performance. E, crucialmente, essa demanda oferecia margens de lucro radicalmente superiores.
A Samsung é exemplo clássico. Em outubro de 2024, o vice-presidente executivo de memória da Samsung, Jaejune Kim, afirmou que a empresa "observou uma forte demanda por dispositivos de memória para IA e data centers" no terceiro trimestre. Mas havia consequência: essa demanda levaria a "escassez que se intensificará ainda mais" para dispositivos móveis e PCs.
Tradução corporativa: Samsung está desviando capacidade de produção de smartphones para data centers de IA porque ganha mais dinheiro.
A Micron simplesmente formalizou o que outras estavam fazendo tranquilamente. Fechou divisão de consumo. Redirecionou 100% da capacidade para data centers.
SK Hynix fez o mesmo, embora menos dramaticamente. Western Digital reduziu produção de armazenamento consumer.
O resultado acumulativo: produção de memória para consumidor despencou em oferta enquanto demanda permanecia estável (ou crescente).
Um especialista resumiu: "A situação é bastante drástica e generalizada." Segundo pesquisa da Counterpoint Research, o mercado de smartphones enfrentará queda de 2,1% em 2026, revertendo previsões de crescimento.
Crise das Memórias RAM | Foto: Reprodução
Os números da escassez: quanto mais raro, mais caro
Inflação de componentes em escala histórica. Quando oferta se contrai enquanto demanda permanece elevada, preço sobe. Simples economia. Mas os números são vertiginosos.
Memória RAM DDR4: Um módulo de 16 GB da linha Corsair Vengeance RGB Pro custava R$ 650 em 10 de novembro de 2025. No dia 2 de dezembro, mesmo produto: R$ 1.599. Alta de 146% em três semanas.
Chips de memória DRAM: De acordo com o DigiTimes, negociações de fornecimento de DRAM tiveram reajustes entre 80% e 100% apenas em dezembro de 2024, enquanto chips DDR5 experimentaram picos de preço quatro vezes maiores do que no início do ano.
Memória NAND para empresas: Subiu até 60% em novembro de 2025, segundo relatório setorial.
Samsung e SK Hynix: Anunciaram aumentos de até 60% nos preços de seus chips de memória, com mais reajustes previstos.
Qualcomm Snapdragon: Aumentou 20% no preço do processador que equipará celulares topo de linha Android em 2026.
O impacto para smartphones é direto. Apenas os 12 GB de memória de um Samsung Galaxy topo de linha passaram a custar quase US$ 40 a mais que no ano anterior.
Mais preocupante ainda: a Counterpoint projeta que o preço da memória suba mais 40% até meados de 2026, pressionando ainda mais custos finais.
O brasileiro médio e o efeito cascata
Quando decisões corporativas americanas atingem a carteira de quem ganha salário mínimo. Os números são suficientes para assustadores. Mas para o consumidor brasileiro, a realidade é ainda mais dura.
A Counterpoint Research estima que preços de smartphones subirão até 30% no quarto trimestre de 2025, com possível alta adicional de 20% no início de 2026. Alguns modelos poderiam alcançar aumentos acumulados de até 50% se pressão continuar.
No Brasil especificamente, a Samsung estima reajustes entre 10% e 20% nos preços de smartphones das linhas básicas e intermediárias, enquanto smartphones intermediários devem ter altas de 10% a 15%.
Para contexto: um smartphone de entrada que custava R$ 800 em 2025 passará a custar entre R$ 880 e R$ 960 em 2026. Para quem ganha salário mínimo (R$ 1.518 em janeiro de 2026), comprar novo aparelho consome entre 58% a 63% da renda mensal, praticamente impossível sem crédito predatório.
E há problema adicional: impostos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributação (IBPT), 37,5% do valor final de um smartphone premium são impostos, ou até 68,8% se incluir carga indireta. A Samsung desistiu de reduzir preços há tempo porque, em suas palavras, "as margens de lucro são muito apertadas" dada a carga tributária.
Então consumidor não ganha em dobro: sofre tanto com aumento de componentes quanto com sistema tributário regressivo que captura maior porcentagem de sua renda que de milionários.
Um gerente de loja de eletrônicos em Belém previu:
"O efeito mais perceptível nos valores deve aparecer já no primeiro trimestre de 2026 e de forma mais expressiva a partir de abril."
Os investidores bilionários: quem ganha bilhões com a escassez
Capital privado, hyperscalers e fundos de infraestrutura transformam crise em ouro. Enquanto consumidor sofre, quem lucra? Investigação de padrões de investimento revela um ecossistema específico.
Data centers recebem US$ 61 bilhões em investimentos em 2025, ultrapassando recorde anterior de 2024. Desde 2019, apenas EUA e Canadá acumulam US$ 160 bilhões em transações envolvendo empresas de data centers. Ásia-Pacífico atingiu quase US$ 40 bilhões, Europa US$ 24,2 bilhões.
Mas quem investe? Segundo analista da S&P Global:
"O grande interesse vem dos patrocinadores financeiros. Empresas de capital privado são compradores ávidos."
No Brasil, entrou em cena um carrossel de investidores:
Goldman Sachs—gigante americana que apostou bilhões em data centers de IA.
BTG Pactual—maior banco de investimentos brasileiro, posicionando-se na corrida por IA.
Patria Investimentos—fundo de capital privado que co-investe com ByteDance (proprietária do TikTok) em data center de R$ 200 bilhões em Fortaleza.
General Atlantic—controladora da Actis, investidora de infraestrutura com US$ 108 bilhões sob gestão.
Digital Bridge—gestora de recursos com US$ 96 bilhões de ativos sob gestão.
Sete empresas brasileiras de data center foram anunciadas (Scala, Elea, Omnia, Tecto, Aurea, 247 Data Centers e Terranova), todas com ligação a "grandes investidores, incluindo bilionárias gestoras estrangeiras."
O governo brasileiro, por sua vez, criou incentivo fiscal chamado Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), atraindo investidores bilionários com benefícios tributários enquanto classe trabalhadora enfrenta carga de 68,8%.
Enquanto isso, ações de fabricantes de chips explodem em valor:
Micron: Acumula valorização de aproximadamente 175% em 2025.CEO da Micron projeta que condições de escassez persistirão "além de 2026".
SK Hynix: Ações subiram quase quatro vezes em 2025.
Samsung: Ações mais que dobraram de valor em 2025.
A mensagem é clara: escassez = rentabilidade. E rentabilidade atrai capital.
Possível cartel? Um histórico perturbador
Investigações passadas sugerem coordenação, não coincidência. Aqui emerge pergunta crucial: essa redireção de memória para data centers é coincidência de três maiores fabricantes (Samsung 45% do mercado, SK Hynix 28%, Micron 23%), ou coordenação?
Histórico da indústria é preocupante. Em 2018, escritório de advocacia Hagens Berman entrou com ação coletiva contra Samsung, Micron e SK Hynix, acusando-as de cartel de preços entre 2016 e 2017.
De acordo com a ação, as três empresas "combinaram os preços de seus produtos com propósito de aumentar os valores." O aumento de 47% no preço de DRAM em 2017 foi o maior em 30 anos, segundo acusação, possível apenas porque as três juntas dominam 96% do mercado de DRAM.
A mesma investigação apontou que governo chinês investigou o caso por anos, e crime foi "interrompido abruptamente quando governo chinês passou a investigar de perto." Implicação: criminoso suspende atividade quando sob vigilância.
Isso não é especulação. Em 2006, o mesmo escritório conseguiu pagamento de US$ 300 milhões em ação anterior contra cartel de preços de DRAM. Samsung e SK Hynix também foram condenadas a pagar multa conjunta criminal de US$ 731 milhões.
A China reconheceu a tensão. Em 2018, regulador antitruste chinês (Wu Zhenguo) afirmou que investigação sobre Micron, Samsung e SK Hynix fez "progresso significativo," acumulando "grande quantidade de informações."
Agora, em 2025-2026, observamos exatamente o mesmo padrão: três mesmas empresas simultaneamente redirecionam capacidade de produção de consumidor para segmento mais lucrativo (data centers de IA). Cada uma justifica com "demanda crescente de IA."
Um cético poderia argumentar: coincidência. Três empresas independentes fizeram exatamente mesma decisão estratégica, simultaneamente, por mesma razão.
Ou: elas coordenaram, como fizeram em 2016-2017.
Não há prova "fumegante". Mas padrão é perturbador.
Preços nas alturas | Foto: Reprodução
Consequências para consumidor: menos memória, mesmo preço (ou pior)
Fabricantes usam escassez para degradar produtos. A Micron não apenas encerrou divisão de consumidor. Outras fabricantes estão fazendo algo mais sutil e potencialmente mais prejudicial: reduzindo configurações de memória enquanto mantêm (ou aumentam) preço.
De acordo com TrendForce, em 2026 esperamos:
Modelos com 12 GB de RAM: Redução de até 40%, sendo substituídos por versões de 6 ou 8 GB.
Modelos com 16 GB: Devem sofrer rápida redução após breve período como padrão.
Modelos com 4 GB: Devem apresentar crescimento significativo em linhas de entrada.
Paulo Vizaco, diretor da Kingston no Brasil (fabricante de componentes), reconheceu:
"Os consumidores podem passar a ver fabricantes entregando celulares com configurações mais simples, mas cobrando o mesmo valor que era praticado antes."
Em outras palavras: você paga mais, recebe menos. É degradação de produto. Um outro especialista do IFSP complementa:
"No Brasil, o consumidor pode sentir ainda mais no bolso por causa de fatores adicionais, como câmbio, impostos e custos logísticos, o que tende a tornar os reajustes mais agressivos."
A "Inovação" em IA: beneficia corporações, custeia pessoas comuns
Retórica de avanço tecnológico mascara transferência de recursos. A narrativa oficial é: "IA demanda muita memória, por isso é natural redirecionar produção para data centers."
Essa narrativa é tecnicamente verdadeira mas politicamente falsa.
Sim, IA exige infraestrutura volumosa. Mas decisão de qual infraestrutura priorizar é escolha política, não necessidade técnica. Samsung, Micron e SK Hynix poderiam aumentar capacidade de produção para atender tanto data centers quanto consumidor. Eletrônica não é jogo de soma-zero.
O que explica recusa em aumentar produção? Lucro. Memória HBM para data centers de IA oferece margens superiores. Memória para consumidor oferece margens modestas.
Empresas escolhem lucro máximo, não bem-estar social máximo. Essa é a natureza do capitalismo corporativo. Mas resultado é:
IA beneficia gigantes de tecnologia que constroem data centers. Consumidor médio paga o preço.
Um analista resumiu:
"A situação é inédita e afeta toda a cadeia de eletrônicos. Cerca de 90% dos aparelhos dependem de memória RAM."
Pior: Brasil é particularmente vulnerável. O país não produz chips de memória em escala competitiva. Importa 100% da memória que consome. Quando mercado global se contrai, Brasil sofre primeiro e mais intensamente.
Enquanto isso, Google, Amazon, Meta, Microsoft, proprietárias de data centers que criam escassez, continuam crescendo. Seus dados centros de IA são "máquinas de ganhar dinheiro," mesmo que isso encareca tecnologia para população brasileira.
MDIC abre consulta para definir lista de equipamentos de Data Centers elegíveis ao Redata | Foto: Reprodução Gov.br
Governo brasileiro: incentivos invertidos
Redata favorece investidores estrangeiros enquanto consumidor comum sofre. Numa reviravolta irónica, governo brasileiro, em vez de proteger consumidor, criou incentivo fiscal para atrair investidores em data centers de IA.
A Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) oferece benefícios tributários para empresas que construem data centers.
Resultado: Bloomberg Sachs, Patria Investimentos, General Atlantic e outras gigantes estrangeiras veem Brasil como mercado atrativo para IA. Investem bilhões. Lucram bilhões. Pagam alíquota reduzida.
Enquanto isso, consumidor brasileiro enfrenta sistema tributário que captura 68,8% do preço de um smartphone em carga indireta.
A desigualdade não é acidental. É resultado de políticas públicas que priorizam investimento estrangeiro sobre bem-estar doméstico.
Governo deveria estabelecer requisitos mínimos para proteção do consumidor (ex: mantém preços acessíveis em mercado doméstico, investe em capacidade de produção local). Em vez disso, oferece isenções e espera "mercado resolver."
Mercado não resolve a favor de quem ganha salário mínimo.
A questão que não será respondida
Quem se beneficia da incapacidade de consumidor comum acessar tecnologia?
Samsung, SK Hynix, Micron:
Lucram com escassez
Ações disparam em valor
CEOs e acionistas ficam mais ricos
Consumidor fica mais pobre
Investidores em data centers:
Goldman Sachs, Patria, General Atlantic, Digital Bridge
Financiam infraestrutura que cria escassez
Depois lucram com demanda por serviços em data centers
Enquanto isso, lucram com aumento de valor de propriedades (data centers como ativos físicos)
Google, Amazon, Meta, Microsoft:
Construem data centers com chips escassos
Treinam IA com acesso ilimitado a memória
Consumidor precisa pagar mais por memória cada vez mais escassa
Assimetria de recursos: gigantes com acesso ilimitado, cidadão comum com acesso restrito
Governo brasileiro:
Oferece isenções fiscais para atrair investidores bilionários
Coleta impostos de consumidor comum
Net result: transferência de riqueza para capital estrangeiro
Resposta à pergunta "quem se beneficia?" é simples: não é você, se você depende de renda de trabalho para comprar tecnologia.
O Silêncio da Inovação
Por que mídia celebra IA enquanto omite impacto em acessibilidade. É revelador que mídia tech celebra avanços em IA (GPU mais rápida, modelo maior, capacidade superior) com fervor quase religioso. Enquanto isso, custo de acesso a tecnologia básica sobe exponencialmente.
Ninguém diz: "IA avançou 40%, smartphone ficou 40% mais caro para trabalhador brasileiro."
A narrativa é selecionada. Inovação é celebrada em abstrato, sem mencionar distribuição desigual de benefício.
Um pesquisador poderia argumentar: "Bem, IA eventual mente beneficiará todos quando custos caírem."
Mas não há indicação que custos cairão. Micron diz escassez persistirá "além de 2026." Samsung alerta que restrições podem durar anos.
Enquanto isso, Samsung está retirando 12 GB de RAM de smartphones médios e substituindo por 8 GB, mantendo preço ou aumentando.
Não é caminho para queda de preço. É caminho para permanente inacessibilidade.
A Privatização da Memória
A memória se tornou recurso privatizado. Não no sentido literal (não há proprietário único), mas no sentido econômico: decisões sobre alocação são determinadas por lucro corporativo, não por bem-estar coletivo.
Micron fechou sua divisão de consumidor. Não porque não conseguisse produzir memória para consumidores. Porque lucrava significativamente menos com consumidores que com data centers de IA.
Samsung, SK Hynix fizeram decisão similar.
Investidores em data centers lucram bilhões.
CEO de Micron afirmou esperar escassez persistente "além de 2026."
Consumidor brasileiro enfrenta preços 20-30% mais altos, produtos com menos capacidade, sistema tributário que captura 68% de seu orçamento.
A pergunta final: "A inovação em IA beneficia corporações ou pessoas comuns?"
Por Raul Silva | Analista de Sistemas, Jornalista e ProfessorData: 11 de janeiro de 2026 | Tempo de Leitura: 6 min
Como a Tecnopolítica manipula a Política Pernambucana? Raul Silva analisa o uso de algoritmos e dados nas eleições de Arcoverde, revelando o novo "Curral Eleitoral Digital".
Exemplos práticos de Tecnopolítica são apps que permitem ao usuário enviar ou assinar projetos de lei e robôs que fiscalizam gastos públicos. | Foto: Reprodução
Era uma tarde de domingo na Praça da Bandeira. Antigamente, em ano eleitoral como este de 2026, esse cenário estaria tomado por carros de som, bandeiras e o aperto de mão suado dos candidatos. Hoje, a praça está silenciosa. O barulho mudou de lugar: ele agora vibra no bolso da calça, na notificação do WhatsApp, na timeline infinita do Instagram.
Não se engane: o "coronelismo" não morreu, ele apenas fez um upgrade.
Como jornalista que cobre os bastidores da Prefeitura de Arcoverde e, acima de tudo, como Bacharel em Sistemas de Informação que entende o que roda por trás da tela preta do seu celular, trago um alerta urgente. O voto de cabresto, que antes era trocado por um par de botinas ou um saco de cimento, foi digitalizado. O cabo eleitoral agora é um bot e o favor trocado é a validação do seu próprio ódio. Bem-vindos à era da Tecnopolítica no Sertão.
Do Coronel de Pano ao Coronel de Dados: a modernização do atraso
A Política Pernambucana sempre foi marcada por figuras carismáticas, os chamados "caciques". Mas em 2026, o carisma foi substituído pela eficiência fria da métrica. O novo coronel não precisa saber o nome da sua mãe ou ir ao batizado do seu filho; ele só precisa saber o seu padrão de navegação.
Enquanto a imprensa tradicional se limita a noticiar quem apoia quem, nós precisamos olhar para o invisível. Em cidades do interior como a nossa, a política virou uma guerra de narrativas segmentadas. O candidato não sobe mais no palanque para falar com a multidão; ele usa o Dark Post (publicação fantasma que só aparece para um público específico). Para o bairro São Cristóvão, ele promete segurança; para o Centro, promete incentivo fiscal. As promessas podem até ser contraditórias, mas como os públicos não se cruzam nas redes, a mentira não é descoberta.
Isso fragmenta a nossa sociedade. O Sertão, que sempre foi lugar de encontro e prosa na calçada, está sendo fatiado em bolhas digitais onde o vizinho não reconhece mais a realidade do outro.
A engenharia do Voto: um olhar de quem constrói sistemas
Aqui entro na minha seara técnica. Para muitos, o algoritmo é mágica. Para mim, como analista de sistemas, o algoritmo é uma sequência lógica de instruções finitas — e, mais importante, ele tem um "dono".
O que está acontecendo em Arcoverde é a aplicação bruta de Microtargetting (Microdirecionamento). Funciona assim: grandes bancos de dados cruzam informações públicas (seu CPF na farmácia, seu Like na foto do São João, sua geolocalização). Com isso, cria-se um perfil psicométrico.
Tecnicamente, o sistema não quer saber se você é de esquerda ou de direita. Ele quer saber qual gatilho emocional gera mais engajamento (leia-se: tempo de tela e compartilhamento).
Viés de Confirmação: O código é escrito para lhe mostrar apenas o que você concorda. Se você tem medo da violência, o algoritmo vai inundar seu feed com notícias de crimes (muitas vezes antigas ou falsas), preparando o terreno para o candidato "da ordem".
Câmaras de Eco: O sistema suprime o contraditório. Isso não é erro de sistema; é feature (funcionalidade). É assim que se radicaliza um eleitorado pacífico como o nosso.
Quando você acha que "escolheu" um candidato porque viu três vídeos dele falando "verdades", cuidado: pode ter sido apenas uma query (consulta) de banco de dados bem executada que selecionou você como alvo perfeito.
O Analfabetismo Digital é o novo Voto de Cabresto
Estou na sala de aula há quase quatorze anos. Vejo diariamente jovens com smartphones de última geração nas mãos, capazes de editar vídeos incríveis para o TikTok, mas incapazes de checar a fonte de uma notícia recebida no grupo da família.
O abismo da desigualdade social no Brasil agora tem uma nova camada: a desigualdade cognitiva digital. A Educação pública, apesar dos esforços heroicos de nós professores, ainda não conseguiu integrar o Letramento Midiático ao currículo de forma eficaz.
Ensinamos a fórmula de Bhaskara, mas não ensinamos como funciona a monetização do ódio nas Big Techs. O resultado? Um eleitorado vulnerável. Em Arcoverde, o novo analfabeto não é quem não sabe ler letras; é quem não sabe ler intenções por trás de um link. Enquanto não tratarmos a tecnologia como disciplina fundamental — tão importante quanto Português ou Matemática —, nossa democracia será apenas uma simulação rodando em um servidor estrangeiro.
Hackeando o Sistema
Arcoverde precisa de mais do que obras de pedra e cal; precisa de uma atualização de software moral. O Sertão não pode ser apenas consumidor de tecnologia; precisa ser crítico dela.
A tecnopolítica é uma ferramenta. Na mão do tirano, é controle. Na mão do cidadão consciente, pode ser libertação e transparência.
Como seu editor no O estopim, meu compromisso é este: usar o conhecimento técnico para iluminar o que tentam esconder no código-fonte da política local. Não seja um usuário passivo. Seja um cidadão com privilégios de administrador.