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Big Techs

Buscadores entregam respostas antes dos links, enquanto Cade e PL 2338/2023 colocam remuneração de conteúdo jornalístico no centro da disputa.


Por Raul Silva para O estopim |

11 de agosto de 2026



Tela de busca com resumo gerado por inteligência artificial acima de links para sites jornalísticos
Resumos gerados por IA reduzem a chance de clique em sites e colocam financiamento, direitos autorais e futuro do jornalismo no centro da disputa. | Imagem: Reprodução

A expansão de respostas geradas por inteligência artificial nos mecanismos de busca está mudando a forma como leitores encontram notícias e ampliando a pressão financeira sobre veículos jornalísticos. Estudos mostram que usuários clicam menos nos links quando recebem um resumo pronto na página de resultados. No Brasil, a discussão já chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, e ao Congresso, onde o PL 2338/2023 prevê regras para o uso remunerado de obras protegidas por sistemas comerciais de IA.


O impacto atinge um ponto central do modelo econômico do jornalismo digital. Durante anos, mecanismos de busca funcionaram como uma das principais portas de entrada para reportagens. O site publicava a informação, o buscador indicava o link e o leitor seguia até a página do veículo. Com os resumos gerados por IA, parte dessa jornada pode terminar no próprio Google.


Resumos de IA reduzem a chance de clique


Um levantamento do Pew Research Center ajuda a dimensionar a mudança. A instituição analisou a navegação de 900 adultos nos Estados Unidos durante março de 2025. Quando uma página de resultados do Google mostrava um resumo gerado por IA, os usuários clicavam em um resultado tradicional em apenas 8% das visitas. Sem o resumo, a taxa chegava a 15%.


Os próprios links apresentados dentro dos resumos tiveram desempenho ainda menor. Segundo o Pew, eles receberam cliques em apenas 1% das visitas às páginas que continham AI Overviews. Além disso, 26% das visitas com resumo de IA terminaram com o encerramento da sessão de navegação, contra 16% quando havia apenas os resultados tradicionais.


O levantamento não mede especificamente o comportamento dos brasileiros, mas documenta uma transformação importante no funcionamento da busca: a resposta deixa de ser apenas uma lista de caminhos para outras páginas e passa a disputar com essas páginas a atenção do usuário.


O Google lançou o recurso chamado AI Overviews, traduzido pela empresa como Visões Gerais criadas por IA, em maio de 2024. A expansão oficial para o Brasil ocorreu em 15 de agosto daquele ano, junto com outros cinco países e suporte a idiomas locais.


Desde então, a presença da inteligência artificial na Busca aumentou. Em junho de 2026, o Google informou que as Visões Gerais criadas por IA já tinham mais de 2,5 bilhões de usuários ativos mensais no mundo. A empresa também passou a acrescentar mais links diretos, prévias de sites e ferramentas para destacar fontes preferidas pelos usuários.


A transformação desloca parte do poder editorial da página que produziu o conteúdo para a plataforma que o localiza, resume e reorganiza antes de mostrá-lo ao público.


Queda de audiência ameaça receita dos veículos?


No Brasil, a Associação de Jornalismo Digital, Ajor, aponta que um em cada quatro dos 152 veículos acompanhados pela entidade perdeu mais de 20% da audiência em 2025, segundo levantamento citado em reportagem da Agência Brasil, assinada pelo jornalista Lucas Pordeus León.


A redução de tráfego não representa apenas uma queda de pageviews. Para veículos sustentados por publicidade digital, assinaturas, doações ou programas de membros, menos leitores dentro do próprio site significam menos oportunidades de converter audiência em receita e relacionamento direto.


A tendência também aparece em escala internacional. Dados da empresa de análise Chartbeat, reunidos pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, mostram que o tráfego orgânico enviado pelo Google a mais de 2,5 mil sites caiu 33% globalmente entre novembro de 2024 e novembro de 2025. Nos Estados Unidos, a retração chegou a 38%.


O próprio Reuters Institute ressalta que não é possível atribuir toda essa queda exclusivamente ao AI Overviews. Mudanças no algoritmo, nos hábitos de consumo e em outros produtos do Google também interferem nos números. Mesmo assim, dirigentes de empresas jornalísticas consultados pelo instituto esperam uma redução média de 43% no tráfego vindo de buscadores nos próximos três anos.


O Google rejeita a conclusão de que suas ferramentas de IA estejam provocando uma redução generalizada do tráfego da web. Em posicionamento publicado em agosto de 2025, a empresa afirmou que o volume total de cliques orgânicos enviados pela Busca permanecia relativamente estável na comparação anual e que a qualidade média desses acessos havia aumentado.


Segundo a companhia, os resumos de IA estimulam pesquisas mais longas e complexas e podem apresentar mais oportunidades para que diferentes páginas sejam descobertas. O Google reconhece, porém, que determinadas perguntas simples podem ser respondidas diretamente na página de resultados, sem que o usuário precise seguir para outro site.


A divergência expõe o centro do conflito. Para as plataformas, a IA melhora a experiência de busca. Para os veículos que produzem a informação original, a questão é quanto dessa experiência continua enviando público e valor econômico de volta à fonte.


Cade amplia investigação sobre uso de conteúdo jornalístico


No Brasil, o debate ultrapassou o mercado editorial. Em abril de 2026, o Tribunal do Cade aprovou por unanimidade o aprofundamento de uma investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google e recomendou a abertura de processo administrativo.

O inquérito começou em 2019, quando a preocupação estava concentrada na coleta automática de notícias e na exibição de títulos, trechos e imagens nos resultados de busca. Segundo o Cade, a situação mudou com a inteligência artificial generativa, capaz de sintetizar informações diretamente na interface do buscador.


A autoridade concorrencial passou a analisar possíveis efeitos sobre acesso, visibilidade e monetização dos publishers, além de uma eventual apropriação de valor por uma plataforma dominante. A instauração do processo não significa que o Cade já tenha concluído pela existência de uma infração. O procedimento busca reunir dados para aprofundar a análise.


Outra frente está na Câmara dos Deputados. O PL 2338/2023, que cria o marco regulatório brasileiro da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado e está atualmente aguardando parecer do relator na comissão especial da Câmara. O relator é o deputado Aguinaldo Ribeiro, do PP da Paraíba.


No texto enviado pelo Senado, conteúdos protegidos poderiam ser usados livremente em determinadas atividades de pesquisa, jornalismo, educação, museus, arquivos e bibliotecas, desde que obtidos legitimamente e sem finalidade comercial. Fora dessas hipóteses, titulares poderiam impedir a utilização. Quando obras protegidas fossem usadas no desenvolvimento de sistemas comerciais de IA, haveria direito a remuneração.


A definição dessa regra interessa diretamente a jornais, revistas, agências, jornalistas, fotógrafos, escritores e outros produtores de conteúdo. A discussão é sobre quem captura economicamente o valor gerado quando uma reportagem financiada por uma redação passa a servir de matéria-prima para uma resposta automatizada.


Jornalismo entra na economia das respostas


A disputa representa uma mudança estrutural. O mecanismo de busca tradicional organizava links. A nova geração de sistemas tenta responder diretamente à pergunta.


O Reuters Institute descreve esse cenário como parte do debate sobre o chamado “Google Zero”, expressão usada no setor para representar o risco de sites receberem cada vez menos visitas vindas do Google. Em 2026, 10% das pessoas pesquisadas em 48 mercados disseram usar chatbots de IA para consumir notícias, ante 7% no ano anterior. Entre menores de 35 anos, o índice chegou a 16%.


Para o jornalismo, a discussão passa a envolver mais do que adaptação tecnológica. Está em jogo a capacidade de financiar a produção original de informação que alimenta sistemas capazes de responder ao usuário sem necessariamente levá-lo à fonte.


O que acontece agora?


O PL 2338/2023 continua na comissão especial da Câmara e aguarda o parecer do relator antes de avançar no processo legislativo. A regulamentação dos direitos autorais ainda poderá sofrer mudanças durante a tramitação.


No Cade, o processo sobre o Google entrou em uma fase mais aprofundada de investigação após a decisão de abril de 2026. A autoridade pretende analisar como as novas ferramentas de IA alteraram a relação econômica entre a plataforma e os produtores de conteúdo jornalístico.


Enquanto essas duas frentes avançam, buscadores e sistemas generativos continuam ampliando a capacidade de entregar respostas completas. Para as redações, o desafio será preservar audiência direta, reconhecimento de autoria e receita em um ambiente em que a informação pode chegar ao leitor antes mesmo do clique.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, tecnologia e temas de interesse público, com foco nas causas e consequências das transformações sociais.

AGU prepara ação contra a plataforma após adolescente de 13 anos morrer durante transmissão; caso expõe falhas na proteção de menores e coloca o ECA Digital à prova.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 8 de agosto de 2026


A AGU pretende recorrer à Justiça para tentar bloquear o Discord no Brasil. O pedido ainda não foi protocolado nas fontes consultadas e qualquer suspensão depende de decisão judicial.
A AGU pretende recorrer à Justiça para tentar bloquear o Discord no Brasil. O pedido ainda não foi protocolado nas fontes consultadas e qualquer suspensão depende de decisão judicial. | Foto: Reprodução

O governo Lula decidiu levar à Justiça um pedido para retirar o Discord do ar no Brasil após a morte de uma adolescente de 13 anos em Naviraí, Mato Grosso do Sul. O caso envolve uma rede de violência virtual contra menores e amplia a pressão sobre a plataforma para explicar como grupos capazes de praticar coerção, humilhação e incentivo à violência conseguiram operar dentro de seu serviço.


O advogado-geral da União, Jorge Messias, anunciou que a Advocacia-Geral da União vai preparar uma ação civil pública contra o Discord. A iniciativa será baseada em informações reunidas pelo Ministério da Justiça e pretende pedir tanto a responsabilização da empresa quanto a suspensão de seu funcionamento no país.


A decisão final sobre um eventual bloqueio caberá ao Poder Judiciário.


O movimento ocorre depois de a Justiça rejeitar um pedido anterior apresentado durante a investigação policial para retirar a plataforma do ar. Diante da negativa, a AGU decidiu assumir a ofensiva judicial em âmbito federal.


A primeira-dama Janja da Silva também defendeu publicamente o bloqueio do Discord.


O episódio ocorre em um momento em que o Brasil passou a exigir das plataformas digitais responsabilidade mais direta pela proteção de crianças e adolescentes. Com o ECA Digital em vigor, empresas que oferecem serviços a menores precisam demonstrar que seus sistemas não apenas reagem depois de uma tragédia, mas são capazes de identificar e reduzir riscos antes que a violência alcance consequências irreversíveis.


Adolescente foi alvo de violência em ambiente virtual


A adolescente morreu em 22 de julho, em Naviraí, a cerca de 365 quilômetros de Campo Grande.


A investigação aponta que ela estava inserida em um ambiente virtual no qual era submetida a coerção por outros usuários. Antes da morte, teria sido pressionada pelos integrantes do grupo a praticar violência contra um animal.


O episódio foi acompanhado por integrantes da comunidade virtual e ocorreu durante uma transmissão realizada pela internet.


A adolescente tinha 13 anos.


A gravidade do caso está justamente no fato de que a violência não ocorreu em uma interação isolada entre duas pessoas. Ela se desenvolveu dentro de um ambiente digital organizado, com participação de diferentes usuários e uso das ferramentas oferecidas pela plataforma para comunicação em tempo real.


O caso deu origem à Operação Lívia, conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com apoio do Ministério da Justiça. A ação chegou a cinco estados e resultou na apreensão de cinco adolescentes, com idades entre 13 e 18 anos.


A investigação busca reconstruir a atuação do grupo e identificar responsabilidades individuais pelos crimes praticados no ambiente digital.


Discord está no centro da investigação


Criado originalmente com forte presença entre jogadores de videogame, o Discord se transformou em uma das maiores plataformas de comunicação comunitária da internet.


O serviço funciona por meio de servidores que podem reunir milhares de usuários e abrigar canais separados de texto, áudio e vídeo.


Essa arquitetura é justamente uma de suas principais diferenças em relação a redes como Instagram, TikTok ou X.


No Discord, boa parte das interações acontece dentro de comunidades relativamente fechadas, organizadas por administradores e moderadores escolhidos pelos próprios usuários. Isso permite criar grupos de estudo, comunidades de jogos, equipes de trabalho e espaços privados de conversa.


Mas a mesma estrutura também pode facilitar a formação de comunidades abusivas.


Grupos podem impor regras próprias, criar hierarquias internas, restringir canais a determinados membros e transferir conversas para espaços menos visíveis.


Quando esses ambientes envolvem crianças, adolescentes e usuários em situação de vulnerabilidade, a capacidade de moderação da plataforma deixa de ser apenas uma questão técnica. Torna-se uma questão de segurança.


O problema não é apenas quem praticou a violência


Os adolescentes identificados pela investigação podem responder individualmente pelos atos que cometeram. Isso não encerra a discussão sobre a responsabilidade do Discord.


Uma plataforma que fornece infraestrutura para comunicação em tempo real também precisa responder sobre quais mecanismos possui para detectar ameaças graves, abuso coordenado e risco imediato à integridade física de seus usuários. No caso de menores de idade, essa obrigação é ainda maior.


Entre as perguntas que passam a cercar o Discord estão a capacidade da empresa de identificar servidores abusivos, o tempo de resposta a denúncias, os mecanismos utilizados para impedir que usuários punidos retornem à plataforma e o funcionamento dos sistemas de proteção destinados especificamente a adolescentes.


Também será necessário esclarecer como a plataforma reage quando a ameaça não aparece em uma publicação aberta, mas se desenvolve ao longo de conversas, chamadas de voz e transmissões privadas. Esse é um dos pontos mais difíceis da moderação digital.


Não basta apagar conteúdo depois que ele foi denunciado. Sistemas de segurança precisam identificar padrões de comportamento capazes de indicar que um usuário está sendo submetido a perseguição, chantagem, coerção ou violência.


ECA Digital aumenta responsabilidade das plataformas


Desde março de 2026, plataformas digitais acessíveis a crianças e adolescentes passaram a operar sob regras mais rígidas no Brasil.


O ECA Digital determina que empresas adotem medidas para prevenir e reduzir riscos relacionados a violência, assédio, intimidação virtual, exploração e conteúdos que incentivem comportamentos capazes de provocar danos físicos ou psicológicos.


A legislação também alcança situações de indução ou instigação à automutilação e ao suicídio. Isso muda a relação entre empresas de tecnologia e usuários menores de idade.


A existência de termos de uso ou de um botão para denunciar conteúdo deixa de ser suficiente quando a plataforma conhece os riscos associados ao próprio serviço.


A empresa precisa demonstrar que suas ferramentas de segurança funcionam na prática.


O Discord afirma ter implementado no Brasil sistemas de verificação de idade, filtros de conteúdo sensível e configurações mais restritivas para adolescentes. O caso de Naviraí coloca essas medidas sob escrutínio.


Se uma adolescente de 13 anos conseguiu permanecer em uma comunidade na qual sofria violência e coerção, a questão deixa de ser apenas quais recursos a empresa afirma disponibilizar. Passa a ser se esses recursos foram capazes de protegê-la.


Bloqueio pode atingir toda a plataforma


O pedido anunciado pela AGU é uma das medidas mais duras disponíveis contra uma plataforma digital.


O ECA Digital permite que o Judiciário determine suspensão temporária ou até proibição das atividades de um serviço em determinadas situações. Um eventual bloqueio do Discord não significaria apagar a empresa da internet.


A medida impediria ou dificultaria o acesso ao serviço a partir de conexões brasileiras, de acordo com os termos definidos pela decisão judicial.


Esse tipo de ordem normalmente depende da atuação das empresas responsáveis pela infraestrutura de acesso à internet no país. O impacto seria amplo.


Discord não é utilizado apenas por comunidades de jogos. A plataforma também abriga grupos de estudantes, desenvolvedores de software, criadores de conteúdo, equipes de empresas, projetos de código aberto e comunidades de diferentes áreas.


A dimensão do impacto, porém, não elimina a responsabilidade da empresa por manter um ambiente seguro.


Quanto maior a plataforma, maior também é a necessidade de investir em moderação, segurança, atendimento e mecanismos capazes de responder rapidamente a situações de risco.


Moderação de conteúdo virou infraestrutura de segurança


Durante anos, empresas de tecnologia trataram moderação principalmente como um problema de conteúdo: uma publicação violava uma regra e precisava ser removida. Plataformas como o Discord mostram que o problema é mais complexo. O risco pode surgir de relações construídas durante semanas ou meses.


Usuários podem formar hierarquias, impor desafios, ameaçar outros membros, utilizar informações pessoais como instrumento de chantagem ou transformar a necessidade de pertencimento de um adolescente em ferramenta de controle.


Um sistema de proteção eficaz precisa observar comportamentos, reincidência, denúncias anteriores e conexões entre contas e comunidades.


Também precisa combinar ferramentas automatizadas com equipes humanas capazes de interpretar situações que algoritmos não conseguem compreender sozinhos. Em casos de ameaça à vida, velocidade é parte da segurança.


Uma denúncia que demora horas ou dias para receber atenção pode chegar tarde demais.


O risco das comunidades fechadas


O modelo de servidores privados torna o Discord particularmente relevante para o debate sobre segurança de crianças online. Redes sociais tradicionais são amplamente observadas porque seus conteúdos circulam em feeds públicos ou semipúblicos. No Discord, comunidades inteiras podem existir fora dessa visibilidade. Isso não transforma todo servidor privado em espaço perigoso.


Mas aumenta a responsabilidade da plataforma de possuir mecanismos internos capazes de detectar abuso sem depender exclusivamente de exposição pública ou de denúncias externas.


Quando criminosos utilizam um serviço digital como infraestrutura para organizar violência, a empresa precisa demonstrar que possui meios para interromper essa atividade.


É essa capacidade que estará no centro da discussão sobre a responsabilidade do Discord.


O caso não é isolado


As autoridades brasileiras já investigaram anteriormente grupos que utilizavam o Discord para crimes contra adolescentes.


Em dezembro de 2024, a Operação Banhammer, coordenada pelo Ministério da Justiça, cumpriu mandados relacionados a grupos investigados por práticas envolvendo automutilação, instigação ao suicídio, crimes de ódio e coerção de jovens. A repetição desse tipo de investigação aumenta a pressão sobre a plataforma.


Se diferentes comunidades utilizam a mesma infraestrutura para reproduzir práticas semelhantes, surge uma questão que ultrapassa a conduta de usuários específicos: quais mecanismos estruturais estão falhando? Essa pergunta deve fazer parte da análise sobre o Discord no Brasil.


Responsabilidade digital também é modelo de negócio


Moderação custa dinheiro. Equipes humanas, sistemas de detecção, investigação interna, suporte em português, ferramentas para adolescentes e cooperação com autoridades aumentam os gastos de operação de uma plataforma. Mas empresas digitais também lucram com escala.


Quanto mais usuários, servidores e comunidades uma plataforma consegue reunir, maior é sua relevância econômica e estratégica.


Não é razoável separar os benefícios comerciais desse crescimento dos custos necessários para manter o ambiente seguro.


Se uma empresa decide oferecer seus serviços para milhões de pessoas, inclusive crianças e adolescentes, proteção precisa fazer parte da infraestrutura do produto. Não pode ser tratada como acessório.


Como isso afeta o Brasil


O confronto entre a AGU e o Discord também é um teste para a capacidade do Estado brasileiro de regular plataformas globais.


Grande parte das maiores empresas de tecnologia utilizadas no país tem sede no exterior, mas seus produtos interferem diretamente na vida de brasileiros.


Isso inclui dados pessoais, relações de trabalho, consumo, educação, segurança, comunicação e proteção da infância.


O ECA Digital estabelece que empresas que atuam no mercado brasileiro precisam respeitar as regras brasileiras mesmo quando sua sede está fora do país. Esse princípio é central para a soberania digital.


Sem ele, empresas poderiam explorar economicamente o mercado brasileiro enquanto decisões sobre segurança fossem tomadas exclusivamente a partir das prioridades de Estados Unidos, Europa ou outros grandes centros tecnológicos. O caso do Discord coloca esse princípio em prática.


Bloquear o Discord não encerra o problema


A eventual retirada da plataforma do ar teria impacto imediato, mas não resolveria sozinha a violência praticada contra adolescentes na internet. Grupos podem migrar para outros serviços. Contas podem ser recriadas.


Novas comunidades podem surgir em plataformas menores e com sistemas de segurança ainda mais frágeis.


Por isso, o bloqueio precisa ser acompanhado de investigação criminal, identificação dos participantes, preservação de provas digitais e responsabilização dos envolvidos.


Também será necessário exigir das plataformas mecanismos de prevenção mais eficazes.


O centro da discussão não deve ser apenas qual aplicativo será bloqueado depois de uma tragédia.


A pergunta mais importante é por que os sistemas existentes não conseguiram interromper a violência antes.


O que acontece agora?


A AGU deverá receber do Ministério da Justiça as informações reunidas sobre o Discord e preparar a ação civil pública.


O processo poderá incluir pedidos de responsabilização da empresa e de suspensão da plataforma no Brasil.


Depois do protocolo, caberá ao Judiciário analisar as provas, as obrigações previstas no ECA Digital e a atuação do Discord diante dos riscos envolvendo crianças e adolescentes. A empresa também poderá apresentar sua defesa. Até que exista uma decisão judicial, o Discord continua funcionando no país. O caso, entretanto, já ultrapassou a investigação de um grupo específico.


Agora, a discussão envolve o próprio modelo de segurança de uma das maiores plataformas de comunicação comunitária da internet e a responsabilidade de empresas de tecnologia quando crianças entram em ambientes que elas próprias não conseguem manter seguros.


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Atlas Siqueira é editor de Tecnologia de O estopim Tech. Escreve sobre plataformas digitais, inteligência artificial, cibersegurança, poder econômico, soberania digital e os impactos da tecnologia sobre a sociedade.

bloquear Discord no Brasil

GPUs, memória, redes, nuvem e energia sustentam cada resposta de IA e concentram poder em poucas empresas e países.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026



DataBank - Georgia Tech Data Center, Atlanta. Photo by Halkin Mason.
Servidores em data center que fornecem processamento para modelos de inteligência artificial | Foto: DataBank - Georgia Tech Data Center, Atlanta. Photo by Halkin Mason.

A infraestrutura de inteligência artificial fica escondida atrás de uma interface simples. O usuário escreve uma pergunta, espera alguns segundos e recebe uma resposta. Antes disso, porém, o pedido percorre servidores, chips especializados, memória, redes, bancos de dados e sistemas de segurança.


Modelos menores podem funcionar em celulares e computadores. Os grandes serviços de IA generativa, no entanto, dependem principalmente de data centers capazes de operar milhares de processadores em conjunto.


A primeira etapa é o treinamento. Nela, o modelo processa grandes conjuntos de dados e ajusta seus parâmetros para aprender relações entre palavras, imagens, sons ou outras informações.


Esse trabalho é dividido entre GPUs, TPUs e outros aceleradores. As TPUs, por exemplo, são circuitos desenvolvidos pelo Google especificamente para cargas como treinamento, inferência e aprendizado por reforço.


Depois vem a inferência. É o momento em que o modelo já treinado recebe uma solicitação e calcula a resposta. Uma consulta individual costuma exigir menos processamento que o treinamento, mas milhões de usuários transformam a inferência em uma operação contínua.


Os processadores precisam acessar dados com rapidez. Por isso, servidores de IA usam memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, instalada perto dos aceleradores.


Também é necessário conectar vários chips. Tecnologias como NVLink e redes de alta velocidade permitem que as GPUs troquem informações e funcionem como um sistema maior. Quando a comunicação é lenta, os processadores ficam esperando dados e parte do desempenho é desperdiçada.


A infraestrutura ainda inclui armazenamento, processadores convencionais, fontes de energia, sistemas de refrigeração e programas que distribuem o trabalho entre as máquinas.


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Quando uma pessoa envia uma pergunta, o aplicativo geralmente encaminha o pedido para uma API. O backend identifica o usuário, aplica limites de uso, verifica regras de segurança e direciona a solicitação para um servidor disponível.


O modelo transforma o texto em unidades chamadas tokens, realiza os cálculos e gera a resposta gradualmente. Outros sistemas podem consultar documentos, executar buscas, guardar o histórico ou filtrar conteúdo antes que o resultado volte à tela.


Isso significa que a qualidade de um serviço não depende apenas do modelo. Latência, estabilidade, privacidade e preço também são definidos pela infraestrutura ao redor dele.


O crescimento da IA fortaleceu empresas que controlam chips, nuvem e redes. No trimestre encerrado em abril de 2026, a NVIDIA registrou US$ 75,2 bilhões em receita de data centers, avanço anual de 92%. O resultado ajuda a dimensionar quanto dinheiro está sendo transferido para a camada física da IA.


Google, Amazon e Microsoft também desenvolvem processadores próprios e oferecem capacidade computacional em suas nuvens. Essa verticalização reduz custos internos, mas aumenta a dependência de poucas plataformas para startups, universidades e empresas menores.


Data centers precisam de fornecimento elétrico contínuo e refrigeração para retirar o calor produzido pelos servidores.


Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025. A entidade estima que esse consumo poderá dobrar até 2030, mesmo com a melhora da eficiência dos equipamentos.


O risco é que ganhos de eficiência sejam superados pela expansão do uso. Modelos mais econômicos podem reduzir o custo de cada resposta, mas também estimular a criação de mais serviços, agentes e aplicações automatizadas.


O Brasil tem uma matriz elétrica com participação elevada de fontes renováveis, o que pode favorecer data centers de menor emissão. Há, porém, gargalos de conectividade de longa distância, mão de obra especializada e dependência de equipamentos importados, segundo análise do BNDES.


Construir soberania em IA não significa apenas instalar servidores. O país precisa formar profissionais, ampliar centros de pesquisa, proteger dados estratégicos e desenvolver capacidade para operar, auditar e adaptar modelos e infraestrutura.


Sem isso, empresas e órgãos públicos continuarão dependendo de chips, nuvens e decisões tomadas fora do país.


A infraestrutura define quanto um serviço custa, quanto demora para responder e onde os dados são processados.


Ela também determina o impacto de uma falha. Quando um provedor de nuvem, uma rede ou um fornecedor de chips enfrenta problemas, diversos aplicativos aparentemente independentes podem parar ao mesmo tempo.


A IA parece software. Por trás da tela, ela é também indústria, energia, logística e poder econômico.


O que acontece agora


Fabricantes e empresas de nuvem estão criando chips diferentes para treinamento e inferência. Em 2026, o Google anunciou sua oitava geração de TPUs, enquanto a NVIDIA ampliou sua aposta em sistemas conectados e refrigerados a líquido.


A disputa deixa de ser apenas por modelos maiores. O novo objetivo é produzir mais respostas, com menor custo energético e usando menos capacidade de memória.


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Atlas Siqueira escreve sobre tecnologia, política, infraestrutura digital e economia da inovação. Em O estopim Tech, analisa como decisões técnicas afetam direitos, trabalho e soberania.

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