Cinco minutos: Vorcaro registrou nome de juiz sigiloso durante troca de mensagens com Flávio Bolsonaro
Registros mostram que Flávio escreveu ao banqueiro às 15h46 de 16 de novembro; às 15h51min31s, Vorcaro anotou o nome de Ricardo Soares Leite e a 10ª Vara Federal Criminal; às 15h52, respondeu ao senador com uma imagem de visualização única. Não há elemento nos documentos analisados que demonstre que Flávio tenha fornecido ou recebido a informação sigilosa.
Por Raul Silva para O estopim |
12 de Setembro de 2026

Às 15h46 de 16 de novembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou uma mensagem a Daniel Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Exatos cinco minutos e 31 segundos depois, às 15h51min31s, o celular do então controlador do Banco Master registrou a criação de uma nota com o nome do juiz federal Ricardo Soares Leite e a identificação da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal.
Às 15h52, no minuto seguinte, Vorcaro respondeu a Flávio com uma imagem de visualização única. Às 15h53, o senador escreveu: “Amém!”. A sequência das mensagens entre os dois aparece em registros da Polícia Federal divulgados nos autos relacionados ao financiamento do filme Dark Horse.
Não há, porém, elemento nos documentos analisados que demonstre que Flávio Bolsonaro tenha sido a fonte da informação sobre o juiz, que tenha recebido essa informação de Vorcaro ou que as imagens trocadas naquele intervalo tratassem da investigação. Ao examinar a anotação das 15h51min31s, a própria Polícia Federal se refere à pessoa com quem Vorcaro trataria do assunto como “um interlocutor não identificado”.
A coincidência temporal surge do cruzamento de duas frentes documentais distintas: de um lado, os registros da conversa entre Flávio e Vorcaro; de outro, a extração forense do iPhone do banqueiro examinada na Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 1020625/2026, incluída na PET 15.978 do Supremo Tribunal Federal.
O registro das 15h51
Na página 103 do relatório, a PF descreve o momento em que a anotação foi produzida:
“A última nota de interesse, no tocante ao monitoramento de autoridades, foi criada em 16/11/2025, às 15h51min31s, véspera da prisão de DANIEL BUENO VORCARO.”
O documento acrescenta que, na anotação, Vorcaro perguntava se o interlocutor teria proximidade com Ricardo Soares Leite, magistrado da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal.
Na página seguinte, a própria extração forense reproduz a nota. O texto é curto:
“Voces sao proximos?Ricardo soares leite10 vara criminal federal”
Os metadados exibidos pela PF registram a criação em 16/11/2025, às 18h51min31s UTC, equivalente a 15h51min31s no horário de Brasília. A Figura 122 do relatório registra expressamente o horário convertido para o fuso -03:00.
A PF afirma, logo abaixo, que naquele momento Vorcaro “já tinha conhecimento” da Notícia de Fato instaurada no Ministério Público Federal que originou a Compliance Zero, além do nome do juiz e da Vara.

Duas imagens, uma mensagem e cinco minutos
A conversa entre Flávio e Vorcaro havia começado horas antes. Às 10h37 daquele domingo, o banqueiro escreveu que estava na igreja e que ligaria quando terminasse. O contato foi retomado à tarde.
Às 15h38, Flávio enviou uma imagem de visualização única. Às 15h43, mandou outra. Três minutos depois, às 15h46, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Às 15h51min31s, aparece a anotação sobre Ricardo Soares Leite e a 10ª Vara no aparelho de Vorcaro.
Às 15h52, Vorcaro enviou a Flávio uma imagem de visualização única. Um minuto depois, recebeu como resposta: “Amém!”. A divulgação mais recente do relatório da PF confirma que essas foram as últimas mensagens entre os dois antes da prisão do banqueiro, ocorrida no dia seguinte.
O conteúdo das três imagens, as duas enviadas por Flávio às 15h38 e 15h43 e a enviada por Vorcaro às 15h52, não aparece nos registros disponíveis consultados por O estopim. É justamente essa lacuna que impede estabelecer documentalmente uma relação entre a conversa com o senador e a anotação criada às 15h51min31s.
PF diz que nome do juiz ainda não era público
O ponto considerado relevante pelos investigadores está na página 106 da IPJ-A. A PF confronta o horário da anotação com a divulgação pública da existência do procedimento. Segundo o relatório, a informação de que a investigação tramitava na 10ª Vara só apareceria na imprensa na manhã seguinte.

A corporação registra:
“Como poderia DANIEL BUENO VORCARO, em 16/11/2025, às 15h51min31s, registrar em notas uma conversa com um interlocutor não identificado perguntando se ele teria proximidade com o juiz da 10ª Vara Federal Criminal [...] se a informação sobre a existência do procedimento naquela Vara somente seria divulgada pela imprensa na manhã do dia seguinte?”
Na continuação, a PF chama atenção para um segundo dado:
“Além disso, ele não apenas menciona a Vara responsável, mas também o nome do juiz, dado que não havia sido publicado em nenhum veículo de imprensa até então.”
A formulação é importante também para delimitar o que o documento efetivamente demonstra. A PF afirma que Vorcaro possuía a informação antes de sua divulgação pública, mas não identifica, nesse trecho, quem forneceu o nome de Ricardo Soares Leite ao banqueiro.
Versão apresentada pela defesa entrou em conflito com o horário
O relatório também confronta o registro das 15h51 com a versão posteriormente apresentada pela defesa de Vorcaro. Os advogados sustentaram que procuraram a 10ª Vara após uma reportagem publicada pelo jornalista Diego Escosteguy na manhã de 17 de novembro.
Na página 105, a PF reproduz ainda trecho do depoimento prestado por Vorcaro em 30 de dezembro. Questionado pela delegada Janaína Palazzo sobre como seu advogado havia protocolado uma petição “na Vara correta” no dia da prisão, o banqueiro mencionou notícias divulgadas pela imprensa e afirmou que sua defesa já fizera procedimentos semelhantes anteriormente.

A extração do telefone, entretanto, situa o conhecimento do nome do magistrado na tarde do dia anterior à reportagem usada pela defesa como justificativa. Nas páginas seguintes, a PF reconstrói contatos entre Vorcaro, seu advogado e o jornalista e sustenta que a notícia publicada no dia 17 não explica como o banqueiro já tinha, às 15h51min31s do dia 16, tanto a Vara quanto o nome do juiz.
Relação com Flávio já era examinada pela PF
O diálogo das 15h46 não foi um contato isolado. Em representação da Polícia Federal divulgada nesta semana, Flávio aparece classificado como “interlocutor direto” de Vorcaro nas tratativas sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A corporação cita cobranças por pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento da produção.
No próprio dia 16 de novembro, a mensagem pedindo que Vorcaro lhe desse “uma luz” encerrava uma sequência de cobranças e contatos relacionados ao filme. O relatório divulgado agora registra que Flávio tentara falar por telefone com o banqueiro e depois enviara a mensagem.
A proximidade dos horários acrescenta uma pergunta que os documentos, até agora, não respondem: sobre o que Flávio e Vorcaro conversavam exatamente entre 15h38 e 15h53 daquele domingo?
As três imagens de visualização única são o elemento ausente da sequência.
As perguntas a Flávio Bolsonaro
O ponto a ser submetido ao senador é objetivo:
Qual era o conteúdo das imagens de visualização única enviadas por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro às 15h38 e às 15h43 de 16 de novembro de 2025, e da imagem enviada pelo banqueiro ao senador às 15h52?
Sobre qual assunto Flávio pedia que Vorcaro lhe desse “uma luz” às 15h46?
Houve naquele intervalo qualquer conversa sobre investigação policial, prisão, Ricardo Soares Leite ou a 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal?
À defesa de Daniel Vorcaro, permanece outra questão documental:
Quem era o “interlocutor não identificado” a quem se destinava a pergunta registrada às 15h51min31s e de quem o banqueiro havia obtido o nome do juiz e da Vara antes da divulgação pública dessas informações?
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Raul Silva é jornalista político de O estopim. Atua na cobertura do poder, das instituições brasileiras e das relações entre política, sociedade e democracia, com foco em análise documental, interesse público e contextualização dos fatos.
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