Alexandre de Moraes pede fim total do sigilo do caso Master e acusa Mendonça de divulgação seletiva
Ministro diz que 180 documentos ficaram fora da abertura de sigilo e quer julgamento conjunto das petições 16.662 e 16.704 no STF.
Por Raul Silva para O estopim |
11 de setembro de 2026

O ministro Alexandre de Moraes pediu nesta sexta-feira, 11 de setembro, ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, o levantamento imediato de todo o sigilo do caso Banco Master, sem exceções. No mesmo documento, Moraes acusou André Mendonça de ter selecionado quais peças seriam tornadas públicas e afirmou que 180 documentos permaneceram sob sigilo mesmo depois da abertura determinada na noite anterior. Moraes também quer que o plenário julgue conjuntamente, na terça-feira, dia 15, as petições 16.662 e 16.704, que colocaram os dois ministros no centro da maior disputa interna recente do Supremo.
A reação ocorre horas depois de Mendonça atender a uma solicitação de Fachin e levantar o sigilo da Petição 15.556 e de outros 14 procedimentos relacionados às investigações sobre o Banco Master. O despacho de Mendonça, assinado em 10 de setembro, também informou que cópias integrais dos autos por ele relacionados seriam encaminhadas, em HD próprio, à Presidência do STF e aos gabinetes dos demais ministros.
Alexandre de Moraes diz que 180 documentos continuaram fechados
No ofício enviado a Fachin, Moraes sustenta que Mendonça cumpriu apenas parcialmente o pedido feito pela Presidência do Supremo.
Segundo o ministro, os 15 procedimentos tornados públicos não representam a totalidade dos processos contidos ou relacionados à Petição 15.556. Moraes acrescenta que, mesmo dentro dos procedimentos selecionados por Mendonça, 180 documentos permaneceram sob sigilo. Ele acusa o colega de ter tornado público apenas o material que considerou conveniente.
Moraes pediu, por isso, o “imediato levantamento de todo e qualquer sigilo, sem exceção”. O argumento apresentado é que a abertura integral impediria uma seleção de documentos feita por um dos ministros diretamente envolvidos na controvérsia e permitiria que o plenário examinasse a mesma base documental antes de decidir.
O ponto amplia o confronto entre os dois magistrados. Até agora, a disputa já envolvia a validade de relatórios da Polícia Federal, a forma como investigações alcançaram integrantes do Supremo e questionamentos sobre os limites de atuação do relator. A partir desta sexta-feira, passou a envolver também quem decide o que os próprios ministros e o público podem conhecer sobre o caso.
Fachin havia pedido todos os procedimentos ligados à Pet 15.556
O despacho de Edson Fachin na noite de quinta-feira foi mais amplo do que a lista posteriormente apresentada por Mendonça. O presidente do STF solicitou a remessa de “todos os procedimentos contidos ou relacionados” à Petição 15.556 e pediu o levantamento do sigilo dos autos e dos processos vinculados.
Fachin fez apenas uma ressalva: poderiam permanecer protegidas as diligências cujo sigilo fosse imprescindível para a execução da própria medida investigativa.
Mendonça respondeu com uma decisão de uma página. Além da Petição 15.556, foram abertos dois inquéritos, uma reclamação e 11 outras petições, entre elas a Pet 16.662. O despacho não apresenta, no próprio texto, uma fundamentação individual para a inclusão ou exclusão de cada frente investigativa.
A interpretação adotada pelo gabinete de Mendonça foi concentrar a abertura nos procedimentos considerados relacionados ao julgamento de Moraes marcado para terça-feira. Outras frentes permaneceram fora da divulgação. Entre elas está a investigação relacionada ao filme “Dark Horse”, que envolve o senador Flávio Bolsonaro e continuava sob sigilo nesta sexta-feira. Segundo o UOL, esse braço ainda estava em fase preparatória para eventuais diligências.
Por que Moraes quer as duas petições no mesmo julgamento
A sessão extraordinária de 15 de setembro foi convocada inicialmente para analisar a Petição 16.662.
O processo foi protocolado em 28 de agosto e distribuído a André Mendonça por prevenção, por ter origem na Petição 15.556. Em 1º de setembro, Mendonça levantou o sigilo da Pet 16.662. O procedimento reúne material apresentado pela Polícia Federal a partir de dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, incluindo mensagens e referências a Alexandre de Moraes.
O plenário também deverá enfrentar o pedido da Procuradoria-Geral da República para anular a inclusão de Moraes nessa linha de investigação e decidir se há base para uma apuração formal envolvendo o ministro.
A Petição 16.704 tem outra origem. Fachin abriu o procedimento em 3 de setembro e determinou que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestassem informações.
Entre os pontos colocados pela Presidência do STF estão o cumprimento da Lei Orgânica da Magistratura quando uma investigação alcança autoridades com foro no Supremo, o eventual uso de credenciais institucionais para acessar documentos particulares, a possível revelação de informações protegidas por sigilo e as circunstâncias de atos praticados durante a investigação.
Moraes argumenta agora que as petições 16.662 e 16.704 utilizam fatos e provas que se sobrepõem. Julgá-las separadamente, segundo ele, poderia produzir decisões contraditórias e “tumulto processual”. Por isso, quer ambas na mesma sessão.
Caso Master passa de crise financeira a crise institucional
O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. O BC apontou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira do conglomerado e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Desde então, a Operação Compliance Zero avançou sobre diferentes núcleos ligados a Daniel Vorcaro. Em julho deste ano, já na décima fase, a Polícia Federal informou que investigava, além de possíveis crimes financeiros, uma estrutura suspeita de atuar na intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito, obtenção indevida de informações sigilosas e interferência em investigações criminais.
O material acumulado pela investigação passou a alcançar empresários, políticos, servidores e integrantes do Judiciário. Essa expansão transformou a apuração do Master em uma disputa sobre o funcionamento das próprias instituições responsáveis por investigar, acusar e julgar.
A ofensiva de Moraes desta sexta-feira desloca novamente o centro da crise. A questão já não é apenas se o ministro deve ou não ser investigado a partir do material encontrado pela PF. O Supremo precisará enfrentar também a acusação de que o próprio processo de divulgação dos documentos foi conduzido de maneira seletiva.
O que acontece agora?
A sessão extraordinária do STF está marcada para terça-feira, 15 de setembro, às 10h. A Petição 16.662 já está no centro do julgamento. Moraes quer que Fachin inclua também a Petição 16.704 e determine a abertura de todo o acervo do caso Master.
Até a publicação desta matéria, Fachin ainda não havia anunciado decisão sobre o novo pedido de julgamento conjunto. André Mendonça também não havia apresentado resposta pública ao ofício em que Moraes o acusa de seletividade.
A decisão sobre o alcance do sigilo pode definir quais documentos estarão publicamente disponíveis antes da sessão e, sobretudo, qual conjunto de provas servirá de base comum para o plenário enfrentar uma crise que já ultrapassou o Banco Master e atingiu diretamente o Supremo.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim. Atua na cobertura de política, poder público, investigações e temas de interesse público, com foco em contexto, documentação e apuração.
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