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Defesa de Flávio Bolsonaro fez quatro pedidos para levar “Dark Horse” a André Mendonça; cronologia inclui encontro com Vorcaro e embate com a PF.


Por Raul Silva para O estopim |

14 de setembro de 2026


Ministro André Mendonça durante sessão do STF, em reportagem sobre pedidos da defesa de Flávio Bolsonaro no caso Dark Horse.
Quatro pedidos da defesa de Flávio Bolsonaro, um encontro reservado com Daniel Vorcaro e uma disputa que agora atravessa a crise do STF. | Foto: Nelson Jr./SCO/STF

Em julho de 2026, a defesa do senador Flávio Bolsonaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal ao menos quatro pedidos para retirar de Flávio Dino uma frente da investigação sobre o filme Dark Horse e concentrá-la com André Mendonça. Os advogados alegaram prevenção e risco de decisões conflitantes. Os requerimentos foram protocolados antes de se tornar público que Mendonça havia recebido Daniel Vorcaro reservadamente, em março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo.


Depois, já à frente de investigações ligadas ao Banco Master, o gabinete de Mendonça voltou a ouvir Vorcaro, dessa vez sem a presença da Polícia Federal.


A sequência passou a integrar o conflito institucional dentro do próprio Supremo. Em decisão na PET 16.669, Flávio Dino questionou não apenas a competência de atos do colega, mas a possibilidade de Mendonça decidir sobre relatórios policiais que também o mencionavam.


A controvérsia ganhou outro elemento nesta segunda-feira, 14 de setembro. A Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Transparência e cumpriu mandados contra Cezinha de Madureira, um dos articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça.


Quatro pedidos para levar “Dark Horse” a André Mendonça


A Folha de S.Paulo revelou que os advogados de Flávio Bolsonaro apresentaram quatro pedidos ao Supremo em julho para concentrar as investigações sobre o filme nas mãos de André Mendonça, ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro.


Em um dos documentos, a defesa sustentou que, “dos seis processos autuados” relacionados ao caso, apenas um não estava sob a relatoria de Mendonça. Também acusou a distribuição para Dino de “manipulação artificial de competência”.


Os requerimentos foram apresentados antes de se tornar público que Mendonça havia recebido Vorcaro reservadamente em São Paulo.


O encontro fora do Supremo


André Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, instituição privada fundada pelo ministro. O encontro não ocorreu no Supremo e não constou de agenda pública.


A reunião foi articulada pelo deputado Cezinha de Madureira e pelo advogado Ciro Rocha Soares, que atuava para Vorcaro.


Segundo Mendonça, a conversa durou entre 20 e 30 minutos e teve como assunto uma disputa sobre precatórios de interesse do Banco Master. O ministro afirmou que se limitou a ouvir o empresário e que, posteriormente, sua posição no processo foi contrária ao interesse defendido por Vorcaro.


O encontro aconteceu cerca de um ano antes de Mendonça assumir papel central nas investigações envolvendo o Master.


A conexão voltou formalmente aos autos em setembro. Na página 9 da decisão da PET 16.669, Flávio Dino registrou a reunião ao discutir a atuação de Mendonça.


“Mais grave se torna essa interferência [...] quando, recentemente, veio a lume a informação de que o Ministro André Mendonça teria recebido [...] o Sr. Daniel Vorcaro.”

Dino não afirmou que o encontro resultou em favorecimento. Colocou, porém, a reunião diretamente dentro da discussão sobre competência e atuação judicial e, na página seguinte, classificou a situação como “complexa”, exigindo da magistratura “moderação, equilíbrio e prudência”.


Vorcaro voltou a ser ouvido pelo gabinete de Mendonça


Em 27 de agosto de 2026, quando Mendonça já comandava investigações ligadas ao Master, Daniel Vorcaro foi ouvido por um juiz auxiliar de seu gabinete.


O depoimento contou com representante do Ministério Público, mas não teve integrantes da Polícia Federal.


O gabinete confirmou o procedimento e afirmou que a própria defesa de Vorcaro havia pedido uma audiência urgente porque o ex-banqueiro relatava “graves intimidações”.


A justificativa apresentada para a ausência da PF foi justamente o teor das acusações. Segundo a versão divulgada pelo gabinete, as intimidações envolviam policiais.


Reportagens posteriores informaram que Vorcaro mencionou Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, durante seus relatos. Fontes ouvidas pela CNN disseram que o ex-banqueiro afirmou que uma tentativa de delação teria encontrado obstáculos porque poderia envolver o chefe da PF.


Poucos dias depois, Mendonça tomou uma das decisões que aprofundaram a crise institucional no Supremo.


Mendonça afastou o diretor-geral da PF


Na PET 16.662, André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial.


A decisão também ordenou a suspensão da produção, elaboração ou compartilhamento, inclusive internamente, de relatórios de inteligência destinados à análise de determinados atos praticados por integrantes do Judiciário, da advocacia pública e da própria polícia.


A ordem aparece reproduzida na página 5 da decisão de Flávio Dino na PET 16.669. É nesse ponto que Dark Horse deixa de aparecer apenas como um caso paralelo.


A decisão atingia concretamente a investigação do filme


Andrei Rodrigues recorreu a Flávio Dino e sustentou que sua retirada do comando da PF prejudicava diretamente trabalhos em andamento na própria PET 16.669.


Na página 3 da decisão, Dino registra que a Polícia Federal havia acabado de obter acesso ao material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação sobre empresas relacionadas às emendas parlamentares e ao filme Dark Horse.


Segundo o documento, o afastamento do diretor-geral interferia na organização da equipe responsável pelas investigações, retardava o acesso ao material e comprometia a atuação célere da instituição.


A PF investigava emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, organizações presididas por Karina Ferreira da Gama.


A representação policial relacionava Karina à produção de Dark Horse e descrevia vínculos financeiros e empresariais que estavam sendo aprofundados pela investigação.


Na página 7, Dino reproduziu trechos da investigação policial que identificavam Karina como empresária ligada à produção do filme e registravam que o Instituto Conhecer Brasil recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares.


Assim, quando Mendonça afastou integrantes da direção da PF e atingiu a produção de relatórios de inteligência, uma das investigações alcançadas pela crise era justamente a frente de Dark Horse conduzida por Dino.


“Interessa, sobretudo, aos investigados”


Na página 4 da decisão, Dino analisou o efeito objetivo da interrupção das investigações.


“É evidente que, objetivamente, a interrupção dos trabalhos de direção de investigações policiais interessa, sobretudo, aos investigados.”

Dino separou efeito e intenção. Não atribuiu dolo, mas sustentou que a consequência objetiva da interrupção beneficiava quem estava sendo investigado.


Mais adiante, na página 15, afirmou que a suspensão determinada por Mendonça poderia atingir “quiçá centenas de investigações” e destacou a importância das funções exercidas por Andrei Rodrigues e Leandro Almada para a continuidade dos trabalhos de inteligência da PF.


Dino questiona se Mendonça poderia decidir sobre relatórios que o mencionavam


Nas páginas 8 e 9 da PET 16.669 está um dos pontos mais sensíveis da controvérsia.

Dino lembrou que a Presidência do STF havia aberto a PET 16.704 para examinar relatórios da Polícia Federal que mencionavam, entre outras autoridades, o próprio André Mendonça.

Em seguida, questionou:


“Uma parte pode ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que expressamente a mencionam?”

Dino também escreveu que direitos eventualmente invocados por Mendonça não poderiam fundamentar uma “decisão em causa própria” com efeito de paralisar investigações e trabalhos policiais.


É nesse mesmo bloco argumentativo que aparece a referência ao encontro particular entre Mendonça e Vorcaro.


A discussão, portanto, deixou de existir apenas no campo da interpretação jornalística. Um ministro do Supremo registrou formalmente nos autos a questão sobre a possibilidade de Mendonça decidir a respeito de material que também o mencionava.


O celular de Vorcaro abriu outra frente de conflito


No domingo, 13 de setembro, Mendonça se posicionou contra a abertura indiscriminada da íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro naquele momento.


Argumentou que a medida poderia tumultuar o julgamento, desviar o foco e prejudicar investigações em andamento.


Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes passaram a cobrar acesso integral ao material.


Zanin ressaltou que não existe hierarquia entre os ministros do STF. Gilmar Mendes criticou a disponibilização apenas de “recortes de diálogos”.


O aparelho de Vorcaro é uma das fontes dos registros que revelaram contatos do ex-banqueiro com diferentes autoridades, entre eles o encontro de 2025 envolvendo Mendonça.


Os quatro pedidos de Flávio reaparecem no centro da cronologia


Quando os advogados de Flávio Bolsonaro tentaram concentrar Dark Horse em Mendonça, o encontro reservado com Vorcaro ainda não era de conhecimento público.


Também não havia ocorrido a crise que terminaria com Mendonça afastando o diretor-geral da Polícia Federal e suspendendo relatórios de inteligência.


A defesa sustentava uma questão processual: prevenção e risco de decisões conflitantes. A cronologia, porém, coloca uma pergunta de interesse público: por que houve quatro tentativas para retirar de Dino justamente a frente das emendas parlamentares e colocá-la sob o ministro que já concentrava os demais procedimentos relativos ao filme?


Os quatro requerimentos, isoladamente, não respondem à pergunta. Agora, entretanto, eles fazem parte de uma sequência que reúne o encontro reservado entre Mendonça e Vorcaro, a oitiva extraordinária do ex-banqueiro sem a PF, a posterior ordem contra a cúpula policial e a constatação formal de Dino de que a medida atingia trabalhos ligados ao caso Dark Horse.



Cezinha de Madureira vira alvo da PF


Nesta segunda-feira, 14 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Transparência e cumpriu quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo.


Cezinha de Madureira, um dos articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça, está entre os alvos.


Segundo a PF, a investigação apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionados à suspeita de negociação de valores para influenciar resultados de processos.


A operação foi autorizada por Flávio Dino. A Polícia Federal ressaltou que, até agora, não há elementos indicando participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos investigados.

A operação não transforma o encontro de 2025 em crime.


Acrescenta, porém, um novo fato objetivo à cronologia: um dos responsáveis por aproximar Vorcaro de Mendonça passou a ser investigado pela PF por suspeitas relacionadas a tráfico de influência e processos judiciais.


O que acontece agora?


O Plenário do STF tem sessão extraordinária marcada para 15 de setembro para examinar a crise aberta em torno da PET 16.662 e das decisões conflitantes envolvendo a direção da Polícia Federal.


No caso Dark Horse, permanecem em discussão a competência sobre as diferentes frentes, o acesso ao material investigativo e a continuidade das apurações.


Há ainda duas perguntas centrais deixadas pela cronologia.


A primeira é institucional: depois do encontro privado com Vorcaro, da nova oitiva do ex-banqueiro, das decisões envolvendo a direção da PF e da existência de relatórios que também mencionam o ministro, quais são as condições objetivas para André Mendonça continuar conduzindo frentes relacionadas ao mesmo núcleo investigativo?


A segunda está diretamente ligada a Dark Horse: por que a defesa de Flávio Bolsonaro insistiu quatro vezes para que justamente essa investigação saísse das mãos de Flávio Dino e fosse concentrada em André Mendonça?


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos de interesse público para as plataformas do portal.

PGR mandou rastrear propostas apresentadas ou apoiadas pelo senador que poderiam beneficiar o Banco Master e Daniel Vorcaro. A Polícia Federal documenta Flávio Bolsonaro como interlocutor direto na negociação do financiamento de Dark Horse. Em outro relatório, investigadores descrevem Vorcaro monitorando autoridades, obtendo informações sigilosas e tentando influenciar agentes públicos. Agora, uma pergunta pode mudar definitivamente o tamanho do caso: houve contrapartida política aos milhões destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro?


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


R$ 134 milhões e Dark Horse: o que Vorcaro esperava de Flávio Bolsonaro?
R$ 134 milhões e Dark Horse: o que Vorcaro esperava de Flávio Bolsonaro? | Reprodução/Brasil 247

Há um ponto em que o caso Dark Horse deixa de ser apenas uma investigação sobre dinheiro e passa a atingir diretamente o exercício do poder político.


A existência da negociação financeira entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro já ultrapassou o terreno da revelação jornalística. Documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal, registram Flávio como interlocutor direto nas tratativas para um aporte previsto de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões pela cotação utilizada quando o caso veio a público.


A apuração aponta que pelo menos US$ 12,3 milhões foram efetivamente enviados. Mas o estopim político da investigação está em outra pergunta.


Não se trata mais apenas de saber quem pediu o dinheiro, quanto foi negociado ou por quais estruturas financeiras os recursos circularam. A própria PGR passou a procurar a outra ponta da relação: o que Daniel Vorcaro poderia receber da atividade parlamentar de Flávio Bolsonaro?


Em manifestação apresentada em julho, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu o levantamento das proposições legislativas apresentadas ou apoiadas por Flávio e pelo deputado Mário Frias que pudessem interessar ao Banco Master, a empresas vinculadas à instituição ou aos seus controladores, especialmente Vorcaro.


O documento afirma que era necessário aprofundar a apuração sobre eventual “prática de ato típico da função parlamentar” relacionada, numa lógica de causa e efeito, ao negócio cinematográfico.


Traduzido do vocabulário jurídico para a linguagem política, a investigação procura saber se existiu contrapartida.



Flávio Bolsonaro aparece como interlocutor direto


O relatório da Polícia Federal coloca Flávio Bolsonaro no centro das tratativas financeiras relacionadas ao filme. Segundo os investigadores:

“Tais elementos indicam que o senador Flávio Nantes Bolsonaro não aparece apenas como terceiro mencionado [...] mas como interlocutor direto de Daniel Vorcaro.”

A PF registra cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento das filmagens pelo senador.


A cronologia documentada começa em dezembro de 2024. Thiago Miranda organizou uma reunião entre Vorcaro e Flávio, em Brasília, para discutir o chamado “filme do presidente”. Mário Frias participaria do encontro.


Em janeiro de 2025, segundo os documentos, Flávio já pressionava, por intermédio de Miranda, para que o primeiro aporte fosse liberado. Posteriormente, a interlocução passou a ocorrer diretamente entre o senador e o banqueiro.


Em setembro, Flávio enviou um áudio cobrando pagamentos atrasados e mencionando o risco de inadimplência com integrantes norte-americanos da produção.


Em novembro, pouco antes da primeira prisão de Vorcaro, escreveu:


“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

Na sequência, pediu que o banqueiro lhe desse “uma luz”.


O Intercept Brasil revelou inicialmente que o compromisso financeiro poderia chegar a US$ 24 milhões. Documentos divulgados posteriormente pela investigação confirmaram o valor previsto no acordo e a existência de remessas milionárias destinadas ao fundo Havengate, nos Estados Unidos.


Flávio também reconheceu ter se encontrado com Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro, afirmando que a reunião teve como objetivo encerrar a participação dele no projeto cinematográfico.


O modo de atuação atribuído a Vorcaro pela PF


É neste ponto que outra peça da investigação envolvendo o Banco Master amplia o peso da pergunta feita pela PGR.


A Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 1020625/2026, produzida pela Polícia Federal a partir do conteúdo extraído do celular de Vorcaro, não trata especificamente da negociação de Dark Horse. O relatório, porém, descreve a forma como o banqueiro e pessoas de seu entorno teriam atuado em outras frentes.


Nas considerações finais, à página 122, a PF registra:


“As mensagens evidenciam que havia acesso recorrente e irregular a procedimentos sigilosos em andamento no MPF, na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Banco Central.”

O documento acrescenta que informações eram obtidas por meio de acessos funcionais de terceiros e consultas não autorizadas.


Nas páginas seguintes, a análise policial avança sobre outro terreno. A PF afirma ter identificado “tentativas de influenciar agentes públicos” e registra que Vorcaro monitorava autoridades, possuía informações internas atribuídas a servidores do Banco Central e, antes de uma operação policial, já sabia qual juiz e qual vara estavam responsáveis pelo procedimento, informação que ainda não era pública.


Na síntese dedicada ao banqueiro, a PF afirma que Vorcaro “monitorava autoridades”, “manipulava imprensa” e “tentava influenciar agentes públicos”.


Esse conjunto probatório não estabelece, por si só, que Flávio Bolsonaro tenha realizado atos desse tipo em benefício de Vorcaro. Ele explica, contudo, por que descobrir a existência ou não de uma contrapartida parlamentar se tornou uma diligência central.


Em outro braço da investigação, a própria Polícia Federal atribui a Vorcaro uma estratégia de obtenção de influência, informações e acesso a estruturas públicas.


Banco Central e BRB estavam entre os interesses do Master


Os interesses institucionais e regulatórios de Vorcaro também aparecem explicitamente nos documentos.


A página 97 da IPJ-A descreve mensagens relacionadas à tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília, o BRB.


Segundo a PF, Vorcaro ordenou a publicação de comentários em massa para produzir a percepção pública de que a operação havia sido bem-sucedida. Na página 99, surge nova ordem para produzir comentários favoráveis à negociação.


A partir da página 100, o relatório abre um capítulo intitulado “Monitoramento de autoridades, tentativa de influência sobre agentes públicos, obstrução à Justiça e plano de fuga”.


A Polícia Federal relata que Vorcaro mantinha registros sobre uma reunião sigilosa entre policiais federais e servidores do Banco Central envolvendo o Master.


BRB, Banco Central, decisões judiciais e autoridades responsáveis pelas investigações estavam, portanto, entre os temas acompanhados pelo banqueiro.


O ponto que a investigação precisa estabelecer é se algum pedido relacionado a esses interesses foi dirigido a Flávio Bolsonaro e se houve alguma ação funcional do senador ligada a essa eventual solicitação.


É exatamente esse espaço que a PGR decidiu investigar ao determinar o levantamento dos atos parlamentares.


Thiago Miranda liga dois circuitos


Há ainda uma personagem que atravessa dois núcleos importantes da história. Thiago Miranda foi o intermediário que aproximou Flávio Bolsonaro de Daniel Vorcaro e participou das cobranças e da operacionalização do financiamento de Dark Horse.



As mensagens registram Miranda organizando a primeira reunião e transmitindo cobranças feitas por Flávio.


Meses depois, seu nome apareceu em outra frente da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal passou a investigá-lo por participação no chamado “Projeto DV”, uma operação de comunicação que teria contratado influenciadores para defender o Banco Master, atacar o Banco Central e pressionar críticos da instituição.


Miranda admitiu à polícia a contratação de influenciadores, embora tenha negado que existisse orientação para atacar dirigentes do BC.


O ponto de conexão é objetivo: o homem que participou da ponte financeira entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro também apareceu na estrutura montada para defender os interesses do Master diante da crise envolvendo o Banco Central.


A relação entre esses dois circuitos é uma das peças que ajudam a explicar por que o caso deixou de ser apenas uma controvérsia sobre patrocínio cinematográfico.


Vorcaro também buscava interlocução no Supremo


Outra decisão juntada aos autos acrescenta uma dimensão institucional à rede de relações do banqueiro.


Na PET 16.669, página 9, o ministro Flávio Dino registrou a informação de que André Mendonça teria recebido Vorcaro para uma reunião nas dependências de uma empresa privada quando o banqueiro já figurava em investigação submetida ao ministro. Dino escreveu:


“o Ministro André Mendonça teria recebido [...] o Sr. Daniel Vorcaro, investigado em autos de sua própria competência.”

A decisão acrescenta que o encontro teria sido intermediado por pessoas também mencionadas em investigações judiciais.


O documento não relaciona aquela reunião diretamente a Flávio Bolsonaro. O episódio, porém, acrescenta mais um elemento ao retrato institucional de um banqueiro que mantinha interlocução em centros onde decisões relevantes para seus negócios poderiam ser tomadas.


Uma segunda investigação alcança o próprio filme


O problema de Dark Horse não se limita ao dinheiro atribuído a Vorcaro. Paralelamente, a PET 16.669 reúne investigação envolvendo emendas parlamentares, o Instituto Conhecer Brasil e empresas relacionadas à produção do filme.



Na página 7 de uma decisão de 150 páginas, o STF registra que Karina Gama é ligada à produção de Dark Horse, mantinha proximidade política com Mário Frias e que uma empresa de sua propriedade prestou serviços à campanha do parlamentar antes de o ICB receber recursos provenientes de emendas de sua autoria.


O inquérito paulista incorporado à PET contém ainda referência à reportagem intitulada “ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a filme sobre Jair Bolsonaro”, nas folhas 157.



"SÓ TE AGRADECER, MEU IRMÃO": Mario Frias agradeceu Vorcaro por apoio a filme sobre Jair Bolsonaro | Fonte: YouTube/The Intercept Brasil

O documento informa que a mensagem de voz foi enviada em 11 de dezembro de 2024, na mesma data da reunião marcada entre Vorcaro e Flávio.


Nas folhas 159, o mesmo caderno policial registra a reportagem sobre “Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro”.


O material referente à relação entre o banqueiro e o núcleo político da produção cinematográfica terminou, assim, incorporado formalmente aos autos de uma investigação hoje submetida ao Supremo.


A pergunta de R$ 134 milhões


Até aqui, a documentação pública avançou muito mais sobre o circuito financeiro do que sobre uma eventual contrapartida política.


  • Há reuniões.

  • Há mensagens.

  • Há cobranças.

  • Há um compromisso financeiro de até US$ 24 milhões.

  • Há milhões de dólares efetivamente remetidos aos Estados Unidos.

  • Há um intermediário comum.

  • Há manifestações pessoais de proximidade.

  • Há, em outro relatório da Polícia Federal, a descrição de Vorcaro como alguém que buscava informações internas, monitorava autoridades e tentava exercer influência sobre agentes públicos.


Agora falta esclarecer a outra ponta.


  • Daniel Vorcaro pediu alguma coisa a Flávio Bolsonaro?

  • Contato com o Banco Central?

  • Interlocução sobre o BRB?

  • Reunião com alguma autoridade?

  • Atuação no Senado?

  • Proposta legislativa?

  • Pressão política?

  • Acesso a ministro?

  • Intervenção diante de investigadores?

  • Manifestação pública capaz de favorecer o banco?


A PGR transformou essas perguntas em diligência investigativa quando pediu o levantamento das propostas legislativas de Flávio Bolsonaro e Mário Frias que poderiam interessar ao Master, às empresas vinculadas ao banco ou a Daniel Vorcaro.


É neste ponto que está o verdadeiro divisor de águas. Se os milhões destinados a Dark Horse forem documentalmente conectados a algum pedido de Vorcaro e a um ato funcional praticado por Flávio Bolsonaro em benefício do banqueiro ou do Banco Master, o caso deixará de estar restrito à origem e à circulação do dinheiro.


Passará a alcançar diretamente uma das fronteiras mais sensíveis do exercício de um mandato: a relação entre vantagem privada e poder público.


Flávio sustenta que os recursos correspondiam a investimento privado no filme, nega irregularidades e passou a defender a divulgação integral dos documentos. Depois da publicação dos áudios, também apoiou a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master.


Essas posições integram o contraditório. Não encerram a pergunta aberta pela própria investigação.


Porque, diante de R$ 134 milhões previstos para um filme ligado à família de um senador e candidato à Presidência, a questão de maior peso continua sem resposta definitiva: por que Daniel Vorcaro considerava tão importante financiar esse projeto e o que esperava obter da relação construída em torno dele?


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Raul Silva é jornalista políticode O estopim atua na cobertura do poder, das instituições e das disputas que conectam política, economia e sociedade, com foco na análise dos mecanismos de influência e das consequências concretas das decisões públicas.

Decisão da PET 15.556 e relatório da Polícia Federal apontam Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, na operacionalização dos pagamentos mensais da estrutura usada para monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação. Meses depois, mensagens sobre o financiamento de Dark Horse mostram Zettel acompanhando o fluxo internacional, acionando o dono da Entre e enviando a Vorcaro o comprovante de US$ 2 milhões remetidos ao Havengate. Os documentos colocam o mesmo operador no centro dos dois circuitos financeiros.


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


Dinheiro, pressão e Bolsonaro: operador de “A Turma” reaparece no financiamento de Dark Horse
Dinheiro, pressão e Bolsonaro: operador de “A Turma” reaparece no financiamento de Dark Horse | Foto: Reprodução/Agência Pública

Há um nome que atravessa duas frentes distintas da investigação sobre o universo financeiro ligado ao Banco Master e a Daniel Vorcaro: Fabiano Campos Zettel.


Os documentos da Polícia Federal e decisões judiciais disponíveis na investigação mostram Zettel, primeiro, na operacionalização dos recursos destinados à estrutura conhecida como “A Turma”, grupo que, segundo a PF, atuava com monitoramento, obtenção de informações sigilosas, pressão e intimidação contra pessoas consideradas adversárias.


Meses depois, Zettel reaparece em outro caminho do dinheiro. Desta vez, nas conversas e operações relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.


No primeiro circuito, aparece principalmente a Super Empreendimentos e Participações. No segundo, surge a Entre Investimentos e Participações, antes de os dólares alcançarem o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.


O ponto comum entre as duas cadeias é o operador.


Na decisão da PET 15.556, que decretou prisões preventivas na investigação, o ministro André Mendonça reproduziu a conclusão da Polícia Federal de que Zettel participava da “estrutura operacional responsável pela execução e viabilização financeira” das iniciativas do grupo.



O documento afirma que ele atuava na intermediação de pagamentos, na definição dos mecanismos de transferência e, especificamente, “na operacionalização de pagamentos destinados ao grupo informal conhecido como ‘A Turma’”.


O relatório de análise do celular de Vorcaro disponível no acervo da investigação é ainda mais explícito.


A IPJ-A nº 1020625/2026, da Polícia Federal, registra que Felipe Mourão recebia R$ 1 milhão por mês, permanecia com parte do dinheiro e distribuía o restante entre pessoas que trabalhavam para ele.



Na página 5, a PF reproduz uma conversa na qual Vorcaro encaminha os dados da empresa de Mourão ao contato salvo como “Ana Claudia Financeiro1”.


Página 5 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 5 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Ela pergunta:


“Vai ser 1mm como normalmente?”

Vorcaro responde:


“Sim”.

Logo depois, segundo o relatório, ela encaminha o comprovante da transferência de R$ 1 milhão.


Na página seguinte, a Polícia Federal identifica a origem daquele pagamento: Super Empreendimentos e Participações S.A., companhia que o documento relaciona a Fabiano Zettel.


Página 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

“O Fabiano não mandou este mês”


A decisão judicial da PET 15.556 confirma a mesma dinâmica e acrescenta uma mensagem particularmente reveladora.


Na página 11 do PDF, André Mendonça registra que havia “fortes indícios” de que Mourão recebia R$ 1 milhão mensalmente de Vorcaro por intermédio de Zettel.


Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Uma das mensagens transcritas no processo mostra Mourão cobrando o pagamento:


“Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando.”

Na mesma página, Mourão explica que o dinheiro era repartido.


A decisão também registra a pergunta de Ana Claudia sobre o “1 mm” e o posterior comprovante de transferência para uma conta da King, empresa de Mourão.


A atuação atribuída a Zettel nos documentos não aparece apenas como a de um pagador distante das atividades operacionais.


A IPJ-A contém conversas nas quais seu nome entra diretamente em episódios envolvendo pressão sobre pessoas consideradas problemáticas para Vorcaro.


Na página 47, em um contexto relacionado a um ex-funcionário, Vorcaro escreve a Mourão que seria ideal ele ir “com Fabiano e com polícia”.


Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

O arquivo reproduz também um vídeo publicado nos stories do Instagram por Leandro Garcia, no qual o ex-funcionário dizia que exporia uma situação relacionada ao último trabalho.


Na página 49, a análise apresenta uma conversa direta entre Vorcaro e Zettel sobre os mesmos alvos.


Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Zettel pergunta:


“Sicário tem os nomes e onde achar?”

Vorcaro responde:


“Tem tudo. Já levantou tudo.”

“Sicário” era a forma pela qual Felipe Mourão aparecia em parte das conversas analisadas.


A decisão da PET 15.556 consolida a avaliação dos investigadores.


Segundo o documento, Mourão atuava na obtenção de informações sigilosas, monitoramento e localização de pessoas, inclusive mediante acesso a sistemas restritos.


A Polícia Federal atribuiu a “A Turma” atividades de vigilância, coleta de informações, pressão e intimidação contra pessoas consideradas adversárias do grupo.


A estrutura financeira estava formalizada


Outro elemento torna a trilha financeira ainda mais relevante.


Ana Claudia Queiroz de Paiva não aparece apenas como a pessoa responsável por executar uma transferência.


A decisão registra que ela participava da gestão dos pagamentos de “A Turma” e integrava formalmente a estrutura da Super Empreendimentos e Participações.


Na página 33 da decisão, ao reproduzir a representação da Polícia Federal, o documento afirma que pagamentos investigados eram efetuados por Zettel e Ana Claudia, a mando de Vorcaro, principalmente por meio da Super.


Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Em seguida, esclarece que essa era também a estrutura utilizada para os pagamentos mensais destinados a “A Turma”, com os valores seguindo da Super para empresas de Felipe Mourão, entre elas a King Participações Imobiliárias.


A Super também não aparece como uma empresa financeiramente isolada do universo de Vorcaro.


Reportagens baseadas em registros societários e fiscais apontaram que Zettel foi diretor da companhia e que um fundo ligado ao patrimônio de Vorcaro passou a ser seu principal investidor.


A Folha de S.Paulo revelou ainda que Vorcaro declarou pagamentos de aproximadamente R$ 68 milhões à Super em 2023 e que Zettel recebeu R$ 485 milhões da companhia.

É nesse ponto que surge a segunda trilha financeira.


Zettel reaparece no fluxo de Dark Horse


No financiamento de Dark Horse, a empresa que aparece enviando os dólares não é a Super.


É a Entre Investimentos e Participações, de Antônio Carlos Freixo Júnior, identificado nas mensagens pelo apelido de “Mineiro”.


O procedimento relacionado ao filme tramita no Supremo Tribunal Federal na PET 16.292, protocolada em 22 de junho de 2026 e distribuída ao ministro André Mendonça.


A reconstrução feita pela Polícia Federal mostra que, diante de dificuldades para efetuar um pagamento relacionado ao filme, Vorcaro orientou, em fevereiro de 2025, que a operação fosse realizada “via Entre”.


Zettel então perguntou se poderia acionar “Minas”, referência a Freixo, e informou que o dinheiro seria direcionado a um fundo.


Em 11 de fevereiro de 2025, Vorcaro voltou a cobrar Zettel a respeito do câmbio para o filme.


Zettel respondeu que já havia encaminhado a demanda ao “Mineiro”.


Dois dias depois, em 13 de fevereiro, a Entre transferiu US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund.


No dia seguinte, 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante bancário e indicou que a remessa estava relacionada ao filme.


O comprovante divulgado na investigação é uma mensagem SWIFT.


Os dados publicados mostram a Entre como remetente, o processamento pelo Banco BS2 e o destino a uma conta vinculada ao JPMorgan Chase Bank, em benefício do Havengate. E a transferência de US$ 2 milhões não aparece isoladamente.


Segundo o relatório mais recente da Polícia Federal, foram identificadas sete remessas da Entre ao Havengate durante 2025, totalizando US$ 12,33 milhões.


O contrato localizado no celular de Vorcaro previa até US$ 24 milhões para a produção.


A Entre também aparece dentro do universo financeiro do Master


A Entre não estava fora do ecossistema financeiro relacionado ao Banco Master. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários, analisados pela Folha de S.Paulo, apontam que a companhia possuía cotas em sete fundos da rede do Banco Master, sendo a única cotista de quatro deles.


Esses veículos reuniam R$ 2,9 bilhões em ativos. Dois eram cotistas diretos do Hans II, apontado nas investigações como peça relevante da engrenagem financeira do Master.


Outra apuração identificou aproximadamente R$ 614 milhões em operações do Banco Master com empresas do grupo Entre.


Entre os valores mencionados estão títulos emitidos pela Entre Investimentos, aportes do Fundo Máxima e pagamentos envolvendo debêntures.


Esse conjunto estreita significativamente o universo financeiro sob investigação. Para determinar se os dois circuitos compartilhavam não apenas operadores e relações empresariais, mas também a mesma origem efetiva dos recursos, o ponto decisivo será o rastreamento das transferências anteriores à entrada do dinheiro na Super e na Entre.


Colaboração premiada acrescenta nova peça


A investigação ganhou recentemente outro elemento. Antônio Carlos Freixo Júnior firmou acordo de colaboração premiada homologado pelo Supremo Tribunal Federal e, segundo informações divulgadas sobre seu relato, confirmou ter operacionalizado remessas para o Havengate a pedido de Vorcaro.


A própria Polícia Federal afirma que ainda precisa esclarecer origem, trânsito, destino e beneficiários finais dos recursos.


É precisamente nesse percurso que poderá estar a resposta para a principal questão aberta pela sobreposição dos dois circuitos.


O mesmo operador atravessa as duas cadeias


A fotografia documental produzida até aqui é expressiva. Vorcaro aparece no comando das duas operações. Zettel aparece na operacionalização financeira das duas. Empresas utilizadas nos dois circuitos mantêm relações financeiras relevantes com o ecossistema Master.


Os veículos empresariais, entretanto, são diferentes. No circuito de “A Turma”, a documentação disponível permite reconstruir o caminho:


Vorcaro → Zettel e Ana Claudia → Super → King e Felipe Mourão → integrantes da estrutura.


No circuito de Dark Horse, a reconstrução disponível é:


Vorcaro → Zettel → Freixo e Entre → Havengate → estrutura financeira da produção nos Estados Unidos.


É Fabiano Zettel quem atravessa as duas cadeias.


A pergunta central, portanto, nasce diretamente da documentação: como o operador apontado pela Polícia Federal na viabilização financeira da estrutura de vigilância, obtenção de informações e intimidação ligada a Vorcaro passou também a acompanhar o fluxo de dinheiro destinado ao projeto cinematográfico negociado pela família Bolsonaro?


A segunda questão é financeira e pode ser ainda mais relevante: os dois circuitos apenas compartilhavam o operador ou compartilhavam também a origem efetiva dos recursos?


A resposta passa pelas transferências anteriores à Super e à Entre, particularmente entre o segundo semestre de 2024 e fevereiro de 2025.


O elemento capaz de fechar essa cadeia provavelmente não estará em uma nova conversa de WhatsApp. Estará nos extratos bancários.


O que diz Flávio Bolsonaro


Flávio Bolsonaro afirma que os recursos relacionados a Vorcaro eram privados e que todo o dinheiro recebido foi aplicado no filme.


Em maio, disse à CNN que o valor aportado chegou a pouco mais de US$ 12 milhões e negou irregularidade na operação.


A produtora responsável por Dark Horse também afirmou que prestações de contas foram apresentadas e declarou confiança de que as investigações confirmarão a regularidade da origem e do destino dos valores.


O conjunto documental hoje disponível estabelece um fato central para a investigação: o mesmo operador financeiro aparece nos dois circuitos.


O rastreamento bancário anterior às transferências feitas pela Super e pela Entre é o caminho capaz de estabelecer se essa ligação terminava no operador ou alcançava também a fonte original do dinheiro.


Documentos que devem acompanhar a matéria


A PET 15.556/DF, página 8, contém os itens 23 a 26, nos quais a decisão descreve Zettel como responsável pela intermediação e operacionalização de pagamentos e registra sua atuação no custeio de “A Turma”. É um dos documentos mais fortes para abrir a sequência probatória da reportagem.


Página 8 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 8 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 11 da PET 15.556, os itens 34 a 37 registram o pagamento mensal de R$ 1 milhão por intermédio de Zettel, a mensagem “O Fabiano não mandou este mês”, a divisão do dinheiro, a pergunta de Ana Claudia “Vai ser 1 mm como normalmente?” e o registro da transferência.


Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 21, os itens 74 a 76 tratam da participação de Ana Claudia na gestão das transferências destinadas a “A Turma”.


Página 21 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 21 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 33, a decisão reproduz a representação da Polícia Federal segundo a qual Zettel e Ana Claudia efetuavam pagamentos a mando de Vorcaro, principalmente por meio da Super, e registra que a mesma estrutura era usada nos pagamentos mensais de “A Turma”, com passagem dos recursos para empresas de Mourão.


Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

A IPJ-A nº 1020625/2026, páginas 4 a 6, extraída do celular de Vorcaro, registra na página 4 o pagamento mensal de R$ 1 milhão. A página 5 apresenta as conversas e o comprovante. A página 6 identifica a Super como empresa ligada a Zettel e contém o diagrama que liga Vorcaro, Mourão e “A Turma”.



Na página 47, Figura 55, está a conversa em que Vorcaro menciona a ida com “Fabiano e com polícia”. O material também reproduz os stories do Instagram de Leandro Garcia, descritos pela PF como publicação na qual ele afirmava que exporia uma situação relacionada ao último trabalho.


Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 49, Figura 57, aparece a conversa direta de Zettel com Vorcaro: “Sicário tem os nomes e onde achar?”. Vorcaro responde: “Tem tudo. Já levantou tudo.”


Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

A página 125 contém a tabela síntese da Polícia Federal que identifica Zettel, a Super e a King e registra que a Super realizava pagamentos a Felipe Mourão.


Página 125 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 125 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

No núcleo relacionado a Dark Horse, a referência processual é a PET 16.292/DF. A sequência documental central começa em 5 de fevereiro de 2025, com a orientação “via Entre”; passa por 11 de fevereiro, quando ocorre a cobrança relacionada ao câmbio; chega a 13 de fevereiro, com o SWIFT de US$ 2 milhões no fluxo Entre → Havengate; e alcança 14 de fevereiro, quando Zettel encaminha o comprovante a Vorcaro e relaciona a transferência ao filme.


A PET 16.704/DF, página 1, contém despacho de Edson Fachin determinando a remessa e o levantamento do sigilo dos procedimentos relacionados à PET 15.556, preservadas diligências que ainda exigissem reserva.


A trilha que pode fechar o circuito


O passo decisivo para a continuidade da apuração é confrontar o SWIFT de 13 de fevereiro de 2025 com os extratos da Entre, da Super, do Termópilas, do Astralo e dos fundos do ecossistema Master nos dias imediatamente anteriores à transferência.


A identificação do originador dos recursos que ingressaram na Entre, e não apenas do remetente final registrado no SWIFT, pode determinar se o caso envolve dois circuitos administrados pelo mesmo operador ou uma engrenagem financeira cuja origem também se encontrava conectada antes de o dinheiro mudar de veículo.


O que os documentos já colocam sob luz é o personagem que atravessa as duas estruturas.

Fabiano Campos Zettel estava no circuito de “A Turma”. Meses depois, estava também no caminho do dinheiro de Dark Horse.


Agora, a investigação bancária precisa mostrar até onde essa coincidência operacional alcança o dinheiro.


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Raul Silva é jornalista político e tua na cobertura de poder, instituições, eleições, economia política e conflitos entre Estado, sociedade e grupos de interesse, com foco na interpretação das estruturas que movem a política brasileira.

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