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Defesa de Flávio Bolsonaro fez quatro pedidos para levar “Dark Horse” a André Mendonça; cronologia inclui encontro com Vorcaro e embate com a PF.


Por Raul Silva para O estopim |

14 de setembro de 2026


Ministro André Mendonça durante sessão do STF, em reportagem sobre pedidos da defesa de Flávio Bolsonaro no caso Dark Horse.
Quatro pedidos da defesa de Flávio Bolsonaro, um encontro reservado com Daniel Vorcaro e uma disputa que agora atravessa a crise do STF. | Foto: Nelson Jr./SCO/STF

Em julho de 2026, a defesa do senador Flávio Bolsonaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal ao menos quatro pedidos para retirar de Flávio Dino uma frente da investigação sobre o filme Dark Horse e concentrá-la com André Mendonça. Os advogados alegaram prevenção e risco de decisões conflitantes. Os requerimentos foram protocolados antes de se tornar público que Mendonça havia recebido Daniel Vorcaro reservadamente, em março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo.


Depois, já à frente de investigações ligadas ao Banco Master, o gabinete de Mendonça voltou a ouvir Vorcaro, dessa vez sem a presença da Polícia Federal.


A sequência passou a integrar o conflito institucional dentro do próprio Supremo. Em decisão na PET 16.669, Flávio Dino questionou não apenas a competência de atos do colega, mas a possibilidade de Mendonça decidir sobre relatórios policiais que também o mencionavam.


A controvérsia ganhou outro elemento nesta segunda-feira, 14 de setembro. A Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Transparência e cumpriu mandados contra Cezinha de Madureira, um dos articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça.


Quatro pedidos para levar “Dark Horse” a André Mendonça


A Folha de S.Paulo revelou que os advogados de Flávio Bolsonaro apresentaram quatro pedidos ao Supremo em julho para concentrar as investigações sobre o filme nas mãos de André Mendonça, ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro.


Em um dos documentos, a defesa sustentou que, “dos seis processos autuados” relacionados ao caso, apenas um não estava sob a relatoria de Mendonça. Também acusou a distribuição para Dino de “manipulação artificial de competência”.


Os requerimentos foram apresentados antes de se tornar público que Mendonça havia recebido Vorcaro reservadamente em São Paulo.


O encontro fora do Supremo


André Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, instituição privada fundada pelo ministro. O encontro não ocorreu no Supremo e não constou de agenda pública.


A reunião foi articulada pelo deputado Cezinha de Madureira e pelo advogado Ciro Rocha Soares, que atuava para Vorcaro.


Segundo Mendonça, a conversa durou entre 20 e 30 minutos e teve como assunto uma disputa sobre precatórios de interesse do Banco Master. O ministro afirmou que se limitou a ouvir o empresário e que, posteriormente, sua posição no processo foi contrária ao interesse defendido por Vorcaro.


O encontro aconteceu cerca de um ano antes de Mendonça assumir papel central nas investigações envolvendo o Master.


A conexão voltou formalmente aos autos em setembro. Na página 9 da decisão da PET 16.669, Flávio Dino registrou a reunião ao discutir a atuação de Mendonça.


“Mais grave se torna essa interferência [...] quando, recentemente, veio a lume a informação de que o Ministro André Mendonça teria recebido [...] o Sr. Daniel Vorcaro.”

Dino não afirmou que o encontro resultou em favorecimento. Colocou, porém, a reunião diretamente dentro da discussão sobre competência e atuação judicial e, na página seguinte, classificou a situação como “complexa”, exigindo da magistratura “moderação, equilíbrio e prudência”.


Vorcaro voltou a ser ouvido pelo gabinete de Mendonça


Em 27 de agosto de 2026, quando Mendonça já comandava investigações ligadas ao Master, Daniel Vorcaro foi ouvido por um juiz auxiliar de seu gabinete.


O depoimento contou com representante do Ministério Público, mas não teve integrantes da Polícia Federal.


O gabinete confirmou o procedimento e afirmou que a própria defesa de Vorcaro havia pedido uma audiência urgente porque o ex-banqueiro relatava “graves intimidações”.


A justificativa apresentada para a ausência da PF foi justamente o teor das acusações. Segundo a versão divulgada pelo gabinete, as intimidações envolviam policiais.


Reportagens posteriores informaram que Vorcaro mencionou Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, durante seus relatos. Fontes ouvidas pela CNN disseram que o ex-banqueiro afirmou que uma tentativa de delação teria encontrado obstáculos porque poderia envolver o chefe da PF.


Poucos dias depois, Mendonça tomou uma das decisões que aprofundaram a crise institucional no Supremo.


Mendonça afastou o diretor-geral da PF


Na PET 16.662, André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial.


A decisão também ordenou a suspensão da produção, elaboração ou compartilhamento, inclusive internamente, de relatórios de inteligência destinados à análise de determinados atos praticados por integrantes do Judiciário, da advocacia pública e da própria polícia.


A ordem aparece reproduzida na página 5 da decisão de Flávio Dino na PET 16.669. É nesse ponto que Dark Horse deixa de aparecer apenas como um caso paralelo.


A decisão atingia concretamente a investigação do filme


Andrei Rodrigues recorreu a Flávio Dino e sustentou que sua retirada do comando da PF prejudicava diretamente trabalhos em andamento na própria PET 16.669.


Na página 3 da decisão, Dino registra que a Polícia Federal havia acabado de obter acesso ao material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação sobre empresas relacionadas às emendas parlamentares e ao filme Dark Horse.


Segundo o documento, o afastamento do diretor-geral interferia na organização da equipe responsável pelas investigações, retardava o acesso ao material e comprometia a atuação célere da instituição.


A PF investigava emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, organizações presididas por Karina Ferreira da Gama.


A representação policial relacionava Karina à produção de Dark Horse e descrevia vínculos financeiros e empresariais que estavam sendo aprofundados pela investigação.


Na página 7, Dino reproduziu trechos da investigação policial que identificavam Karina como empresária ligada à produção do filme e registravam que o Instituto Conhecer Brasil recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares.


Assim, quando Mendonça afastou integrantes da direção da PF e atingiu a produção de relatórios de inteligência, uma das investigações alcançadas pela crise era justamente a frente de Dark Horse conduzida por Dino.


“Interessa, sobretudo, aos investigados”


Na página 4 da decisão, Dino analisou o efeito objetivo da interrupção das investigações.


“É evidente que, objetivamente, a interrupção dos trabalhos de direção de investigações policiais interessa, sobretudo, aos investigados.”

Dino separou efeito e intenção. Não atribuiu dolo, mas sustentou que a consequência objetiva da interrupção beneficiava quem estava sendo investigado.


Mais adiante, na página 15, afirmou que a suspensão determinada por Mendonça poderia atingir “quiçá centenas de investigações” e destacou a importância das funções exercidas por Andrei Rodrigues e Leandro Almada para a continuidade dos trabalhos de inteligência da PF.


Dino questiona se Mendonça poderia decidir sobre relatórios que o mencionavam


Nas páginas 8 e 9 da PET 16.669 está um dos pontos mais sensíveis da controvérsia.

Dino lembrou que a Presidência do STF havia aberto a PET 16.704 para examinar relatórios da Polícia Federal que mencionavam, entre outras autoridades, o próprio André Mendonça.

Em seguida, questionou:


“Uma parte pode ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que expressamente a mencionam?”

Dino também escreveu que direitos eventualmente invocados por Mendonça não poderiam fundamentar uma “decisão em causa própria” com efeito de paralisar investigações e trabalhos policiais.


É nesse mesmo bloco argumentativo que aparece a referência ao encontro particular entre Mendonça e Vorcaro.


A discussão, portanto, deixou de existir apenas no campo da interpretação jornalística. Um ministro do Supremo registrou formalmente nos autos a questão sobre a possibilidade de Mendonça decidir a respeito de material que também o mencionava.


O celular de Vorcaro abriu outra frente de conflito


No domingo, 13 de setembro, Mendonça se posicionou contra a abertura indiscriminada da íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro naquele momento.


Argumentou que a medida poderia tumultuar o julgamento, desviar o foco e prejudicar investigações em andamento.


Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes passaram a cobrar acesso integral ao material.


Zanin ressaltou que não existe hierarquia entre os ministros do STF. Gilmar Mendes criticou a disponibilização apenas de “recortes de diálogos”.


O aparelho de Vorcaro é uma das fontes dos registros que revelaram contatos do ex-banqueiro com diferentes autoridades, entre eles o encontro de 2025 envolvendo Mendonça.


Os quatro pedidos de Flávio reaparecem no centro da cronologia


Quando os advogados de Flávio Bolsonaro tentaram concentrar Dark Horse em Mendonça, o encontro reservado com Vorcaro ainda não era de conhecimento público.


Também não havia ocorrido a crise que terminaria com Mendonça afastando o diretor-geral da Polícia Federal e suspendendo relatórios de inteligência.


A defesa sustentava uma questão processual: prevenção e risco de decisões conflitantes. A cronologia, porém, coloca uma pergunta de interesse público: por que houve quatro tentativas para retirar de Dino justamente a frente das emendas parlamentares e colocá-la sob o ministro que já concentrava os demais procedimentos relativos ao filme?


Os quatro requerimentos, isoladamente, não respondem à pergunta. Agora, entretanto, eles fazem parte de uma sequência que reúne o encontro reservado entre Mendonça e Vorcaro, a oitiva extraordinária do ex-banqueiro sem a PF, a posterior ordem contra a cúpula policial e a constatação formal de Dino de que a medida atingia trabalhos ligados ao caso Dark Horse.



Cezinha de Madureira vira alvo da PF


Nesta segunda-feira, 14 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Transparência e cumpriu quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo.


Cezinha de Madureira, um dos articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça, está entre os alvos.


Segundo a PF, a investigação apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionados à suspeita de negociação de valores para influenciar resultados de processos.


A operação foi autorizada por Flávio Dino. A Polícia Federal ressaltou que, até agora, não há elementos indicando participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos investigados.

A operação não transforma o encontro de 2025 em crime.


Acrescenta, porém, um novo fato objetivo à cronologia: um dos responsáveis por aproximar Vorcaro de Mendonça passou a ser investigado pela PF por suspeitas relacionadas a tráfico de influência e processos judiciais.


O que acontece agora?


O Plenário do STF tem sessão extraordinária marcada para 15 de setembro para examinar a crise aberta em torno da PET 16.662 e das decisões conflitantes envolvendo a direção da Polícia Federal.


No caso Dark Horse, permanecem em discussão a competência sobre as diferentes frentes, o acesso ao material investigativo e a continuidade das apurações.


Há ainda duas perguntas centrais deixadas pela cronologia.


A primeira é institucional: depois do encontro privado com Vorcaro, da nova oitiva do ex-banqueiro, das decisões envolvendo a direção da PF e da existência de relatórios que também mencionam o ministro, quais são as condições objetivas para André Mendonça continuar conduzindo frentes relacionadas ao mesmo núcleo investigativo?


A segunda está diretamente ligada a Dark Horse: por que a defesa de Flávio Bolsonaro insistiu quatro vezes para que justamente essa investigação saísse das mãos de Flávio Dino e fosse concentrada em André Mendonça?


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos de interesse público para as plataformas do portal.

Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem direcionaram emendas para projetos da Academia Nacional de Cultura, presidida por Karina Gama, empresária que controla a produtora da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos do STF, da Polícia Federal e da CGU reconstroem uma teia de relações políticas, empresariais e financeiras em torno das entidades ligadas à empresária.


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


Quatro nomes do PL, R$ 3,6 milhões e a produtora de Dark Horse: documentos expõem o mesmo núcleo
Quatro nomes do PL, R$ 3,6 milhões e a produtora de Dark Horse: documentos expõem o mesmo núcleo | Foto: Reprodução

A investigação sobre o ecossistema de entidades e empresas comandado por Karina Ferreira da Gama abriu uma frente que ultrapassa a discussão sobre a origem dos recursos empregados na produção de Dark Horse. Documentos do Supremo Tribunal Federal, relatórios da Controladoria-Geral da União e peças incorporadas ao inquérito policial mostram que quatro parlamentares do PL, Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, direcionaram emendas para projetos que tinham como beneficiária a Academia Nacional de Cultura, a ANC, presidida pela mesma empresária que controla a Go Up Entertainment, responsável pela cinebiografia de Jair Bolsonaro.


Os documentos também mostram que os quatro nomes aparecem em diferentes etapas da apuração e por caminhos administrativos distintos.


Na PET 16.669, que concentra a etapa mais recente da investigação sob relatoria do ministro Flávio Dino, Bia Kicis e Marcos Pollon aparecem nominalmente na descrição da chamada “plataforma indiciária”.


A decisão reproduz a informação de que o inquérito instaurado pela Polícia Federal tinha entre seus objetos as emendas nº 202444200010, de Pollon, e nº 202439190003, de Kicis, além de duas emendas apresentadas por Mário Frias.


Na página 5, o documento identifica também os valores e o projeto escolhido pelos parlamentares. Marcos Pollon destinou R$ 1 milhão e Bia Kicis, R$ 150 mil, por intermédio do Governo de São Paulo, para o projeto Heróis Nacionais.


O documento registra:


“não tendo havido, até a presente data, repasse de qualquer valor a essa entidade, em razão de óbices normativos e técnicos”

A entidade mencionada é a Academia Nacional de Cultura.


Na sequência, a Polícia Federal destaca outro elemento da operação das emendas. Pollon foi eleito por Mato Grosso do Sul e Kicis pelo Distrito Federal, enquanto as duas indicações foram direcionadas para São Paulo.


Segundo a representação reproduzida pelo STF, a situação “revela aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa”.


A ANC, o Instituto Conhecer Brasil e a Go Up aparecem na mesma investigação dark horse


A PET 16.669 detalha a estrutura empresarial e institucional analisada pelos investigadores.

Na página 17, a Academia Nacional de Cultura é descrita como organização presidida por Karina Gama e beneficiária das emendas apresentadas por Pollon e Kicis.


O documento registra que essas emendas “não tiveram execução financeira” e acrescenta uma informação central para compreender por que a Polícia Federal passou a examinar diferentes pessoas jurídicas em conjunto.


Segundo a decisão, a ANC:


“Compartilha integrantes, procuradores e administradores com o Instituto Conhecer Brasil, integrando a mesma estrutura de gestão e execução dos projetos financiados com recursos públicos.”

Logo depois, a documentação começa a descrever a Go Up Entertainment.


Na página seguinte, a empresa aparece vinculada diretamente a Karina Gama e é identificada de maneira explícita como “Produtora do filme Dark Horse”.


A representação policial também sustenta que a Go Up recebeu recursos de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, circunstância apontada pelos investigadores como indicativo de “possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares”.


A documentação policial estabelece, portanto, a ponte que passou a ser rastreada entre as entidades escolhidas para executar projetos financiados com recursos públicos e a empresa responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.


No caso específico das emendas de Pollon e Kicis, os autos registram que os valores não foram transferidos à ANC.


O dinheiro chegou ao Governo de São Paulo, mas a contratação da ANC não avançou


A sequência documental ajuda a compreender a diferença entre cifras e informações que apareceram em diferentes momentos da investigação.


Peças mais antigas incorporadas ao inquérito paulista reproduzem reportagem segundo a qual a ANC “já havia recebido R$ 2,6 milhões em emendas Pix” apresentadas por Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollon para a série Heróis Nacionais.


O trecho foi incorporado ao Inquérito Policial nº 2104062-06.2026.900842 e cita nominalmente os quatro parlamentares.


A documentação oficial produzida posteriormente detalhou o caminho administrativo desses recursos.


A PET 16.669 registra a inexistência de repasse das emendas de Pollon e Kicis à Academia Nacional de Cultura. A auditoria da CGU, divulgada em setembro, mostra que as verbas foram transferidas para o Governo de São Paulo, mas que a contratação da ANC não chegou a ser concluída.


O governo paulista informou a existência de “impedimentos técnico-jurídicos” e abandonou a execução dos projetos.


Assim, as emendas foram destinadas a projetos que tinham a ANC como entidade executora, os recursos chegaram ao Estado de São Paulo e a parceria não se concretizou.


Zambelli e Ramagem aparecem em outra camada da documentação


Carla Zambelli e Alexandre Ramagem aparecem em uma trajetória documental diferente daquela registrada para Kicis e Pollon na PET 16.669.


Os dois já surgiam em março na ADPF 854, quando Flávio Dino reproduziu uma representação apresentada pela deputada Tabata Amaral.


A peça mencionava aproximadamente R$ 2,6 milhões em emendas Pix destinadas à ANC por Ramagem, Zambelli, Kicis e Pollon.


O documento afirmava que a concentração das indicações na mesma organização evidenciava uma “convergência de interesses que demanda análise cautelosa”.


Naquele despacho, Dino determinou a intimação nominal de Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon, além da Câmara dos Deputados. Ramagem e Zambelli apareciam no histórico das emendas citado na documentação.


Meses depois, a posição dos dois ganhou uma dimensão documental mais ampla. Em relatório produzido em julho e encaminhado ao ministro Flávio Dino, a Controladoria-Geral da União identificou seis repasses de emendas de cinco deputados para entidades vinculadas a Karina Gama.


No recorte específico da Academia Nacional de Cultura, o órgão consolidou aproximadamente R$ 3,6 milhões provenientes de quatro parlamentares, destinados a dois projetos: Heróis Nacionais: Filhos do Brasil que não se rende e o espetáculo musical Amor Ainda É Tudo.


Segundo a auditoria, Carla Zambelli respondeu por R$ 2 milhões e Alexandre Ramagem por R$ 500 mil.


O restante correspondia às indicações de Marcos Pollon e Bia Kicis. Também nesses casos, os recursos foram encaminhados ao Governo de São Paulo e a parceria com a ANC não foi concluída.


A CGU classificou os planos de trabalho como insuficientemente elaborados, enquanto o governo estadual apontou obstáculos técnico-jurídicos para a execução.


Os números diferentes presentes nos documentos correspondem a recortes distintos. Os R$ 2,6 milhões divulgados inicialmente estavam associados ao conjunto de indicações para Heróis Nacionais. A auditoria posterior da CGU ampliou o universo analisado, reuniu dois projetos vinculados à ANC e chegou ao montante aproximado de R$ 3,6 milhões.


Quatro gabinetes e uma mesma entidade


É nesse ponto que a investigação passa da análise individual das emendas para uma questão política mais ampla.


Em um intervalo próximo, quatro parlamentares do mesmo campo político escolheram a mesma organização presidida por Karina Gama para projetos culturais que somavam milhões de reais.


Ao mesmo tempo, outra empresa controlada pela empresária produzia Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.


Dentro dos autos, a Academia Nacional de Cultura não aparece isoladamente. A Polícia Federal situa a ANC em uma estrutura de gestão compartilhada com o Instituto Conhecer Brasil, ICB.


A Go Up Entertainment também aparece vinculada a Karina Gama e é descrita na representação como empresa com possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares.


A própria PET registra que a investigação federal passou a aprofundar vínculos societários, doações eleitorais e relações entre fornecedores, empresas e personagens políticos.


A pergunta que emerge dos documentos é direta: como quatro gabinetes chegaram à mesma entidade?


Quem apresentou a Academia Nacional de Cultura aos parlamentares? Quem encaminhou o projeto Heróis Nacionais? Quem solicitou as emendas? Quais reuniões ocorreram antes das indicações? Houve uma apresentação comum do projeto aos gabinetes?


Essas perguntas passaram a ocupar o centro da apuração porque a convergência não envolve apenas parlamentares de um mesmo partido. Ela ocorre em torno de uma organização comandada por uma empresária que também controla a produtora responsável por uma obra cinematográfica sobre a principal liderança política desse mesmo campo.


A relação de Mário Frias com Karina Gama


A documentação também registra uma relação mais extensa entre Mário Frias e Karina Gama.


Karina participou da campanha de Frias. Empresa ligada à empresária prestou serviços eleitorais ao parlamentar e entidades sob seu comando receberam emendas apresentadas por ele.


Essa conexão aparece de maneira detalhada nos autos e integra a frente de apuração sobre vínculos societários, eleitorais, empresariais e políticos relacionados às entidades investigadas.


O avanço sobre comunicações, documentos eletrônicos, registros de reuniões e materiais apreendidos pela Polícia Federal pode determinar se as indicações feitas por diferentes gabinetes resultaram de decisões independentes ou de algum mecanismo comum de apresentação e captação de recursos. É essa resposta que pode definir a dimensão política do caso.


O que dizem os citados


Marcos Pollon afirma que sua emenda era destinada exclusivamente ao projeto Heróis Nacionais e que, diante da impossibilidade de execução, solicitou o cancelamento e o redirecionamento do valor para uma instituição oncológica.


Bia Kicis nega relação entre sua emenda e a produção de Dark Horse e afirma que o recurso tinha como destino o projeto cultural.


Reportagem do UOL também registra que Kicis, Pollon e Zambelli negaram ao STF irregularidades ou intenção de direcionar os recursos para o filme.


Karina Gama nega que dinheiro proveniente de emendas parlamentares tenha financiado Dark Horse.


Em entrevista divulgada neste domingo, 13 de setembro, afirmou que a produção cinematográfica não recebeu recursos públicos.


O que já está documentado é a convergência: quatro nomes do PL direcionaram emendas para projetos ligados à Academia Nacional de Cultura, presidida pela mesma empresária que controla a produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.


O próximo capítulo depende de uma pergunta que vai além dos valores individuais de cada emenda: quem construiu a ponte entre esses gabinetes e a ANC?


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim e especialista em Ciências Políticas. Atua na cobertura do poder, das instituições brasileiras, das relações entre política e sociedade e dos mecanismos de financiamento e articulação que atravessam o Estado.

Decisão da PET 15.556 e relatório da Polícia Federal apontam Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, na operacionalização dos pagamentos mensais da estrutura usada para monitoramento, obtenção de informações sigilosas, coação e intimidação. Meses depois, mensagens sobre o financiamento de Dark Horse mostram Zettel acompanhando o fluxo internacional, acionando o dono da Entre e enviando a Vorcaro o comprovante de US$ 2 milhões remetidos ao Havengate. Os documentos colocam o mesmo operador no centro dos dois circuitos financeiros.


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


Dinheiro, pressão e Bolsonaro: operador de “A Turma” reaparece no financiamento de Dark Horse
Dinheiro, pressão e Bolsonaro: operador de “A Turma” reaparece no financiamento de Dark Horse | Foto: Reprodução/Agência Pública

Há um nome que atravessa duas frentes distintas da investigação sobre o universo financeiro ligado ao Banco Master e a Daniel Vorcaro: Fabiano Campos Zettel.


Os documentos da Polícia Federal e decisões judiciais disponíveis na investigação mostram Zettel, primeiro, na operacionalização dos recursos destinados à estrutura conhecida como “A Turma”, grupo que, segundo a PF, atuava com monitoramento, obtenção de informações sigilosas, pressão e intimidação contra pessoas consideradas adversárias.


Meses depois, Zettel reaparece em outro caminho do dinheiro. Desta vez, nas conversas e operações relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.


No primeiro circuito, aparece principalmente a Super Empreendimentos e Participações. No segundo, surge a Entre Investimentos e Participações, antes de os dólares alcançarem o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.


O ponto comum entre as duas cadeias é o operador.


Na decisão da PET 15.556, que decretou prisões preventivas na investigação, o ministro André Mendonça reproduziu a conclusão da Polícia Federal de que Zettel participava da “estrutura operacional responsável pela execução e viabilização financeira” das iniciativas do grupo.



O documento afirma que ele atuava na intermediação de pagamentos, na definição dos mecanismos de transferência e, especificamente, “na operacionalização de pagamentos destinados ao grupo informal conhecido como ‘A Turma’”.


O relatório de análise do celular de Vorcaro disponível no acervo da investigação é ainda mais explícito.


A IPJ-A nº 1020625/2026, da Polícia Federal, registra que Felipe Mourão recebia R$ 1 milhão por mês, permanecia com parte do dinheiro e distribuía o restante entre pessoas que trabalhavam para ele.



Na página 5, a PF reproduz uma conversa na qual Vorcaro encaminha os dados da empresa de Mourão ao contato salvo como “Ana Claudia Financeiro1”.


Página 5 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 5 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Ela pergunta:


“Vai ser 1mm como normalmente?”

Vorcaro responde:


“Sim”.

Logo depois, segundo o relatório, ela encaminha o comprovante da transferência de R$ 1 milhão.


Na página seguinte, a Polícia Federal identifica a origem daquele pagamento: Super Empreendimentos e Participações S.A., companhia que o documento relaciona a Fabiano Zettel.


Página 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 6 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

“O Fabiano não mandou este mês”


A decisão judicial da PET 15.556 confirma a mesma dinâmica e acrescenta uma mensagem particularmente reveladora.


Na página 11 do PDF, André Mendonça registra que havia “fortes indícios” de que Mourão recebia R$ 1 milhão mensalmente de Vorcaro por intermédio de Zettel.


Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Uma das mensagens transcritas no processo mostra Mourão cobrando o pagamento:


“Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando.”

Na mesma página, Mourão explica que o dinheiro era repartido.


A decisão também registra a pergunta de Ana Claudia sobre o “1 mm” e o posterior comprovante de transferência para uma conta da King, empresa de Mourão.


A atuação atribuída a Zettel nos documentos não aparece apenas como a de um pagador distante das atividades operacionais.


A IPJ-A contém conversas nas quais seu nome entra diretamente em episódios envolvendo pressão sobre pessoas consideradas problemáticas para Vorcaro.


Na página 47, em um contexto relacionado a um ex-funcionário, Vorcaro escreve a Mourão que seria ideal ele ir “com Fabiano e com polícia”.


Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

O arquivo reproduz também um vídeo publicado nos stories do Instagram por Leandro Garcia, no qual o ex-funcionário dizia que exporia uma situação relacionada ao último trabalho.


Na página 49, a análise apresenta uma conversa direta entre Vorcaro e Zettel sobre os mesmos alvos.


Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Zettel pergunta:


“Sicário tem os nomes e onde achar?”

Vorcaro responde:


“Tem tudo. Já levantou tudo.”

“Sicário” era a forma pela qual Felipe Mourão aparecia em parte das conversas analisadas.


A decisão da PET 15.556 consolida a avaliação dos investigadores.


Segundo o documento, Mourão atuava na obtenção de informações sigilosas, monitoramento e localização de pessoas, inclusive mediante acesso a sistemas restritos.


A Polícia Federal atribuiu a “A Turma” atividades de vigilância, coleta de informações, pressão e intimidação contra pessoas consideradas adversárias do grupo.


A estrutura financeira estava formalizada


Outro elemento torna a trilha financeira ainda mais relevante.


Ana Claudia Queiroz de Paiva não aparece apenas como a pessoa responsável por executar uma transferência.


A decisão registra que ela participava da gestão dos pagamentos de “A Turma” e integrava formalmente a estrutura da Super Empreendimentos e Participações.


Na página 33 da decisão, ao reproduzir a representação da Polícia Federal, o documento afirma que pagamentos investigados eram efetuados por Zettel e Ana Claudia, a mando de Vorcaro, principalmente por meio da Super.


Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Em seguida, esclarece que essa era também a estrutura utilizada para os pagamentos mensais destinados a “A Turma”, com os valores seguindo da Super para empresas de Felipe Mourão, entre elas a King Participações Imobiliárias.


A Super também não aparece como uma empresa financeiramente isolada do universo de Vorcaro.


Reportagens baseadas em registros societários e fiscais apontaram que Zettel foi diretor da companhia e que um fundo ligado ao patrimônio de Vorcaro passou a ser seu principal investidor.


A Folha de S.Paulo revelou ainda que Vorcaro declarou pagamentos de aproximadamente R$ 68 milhões à Super em 2023 e que Zettel recebeu R$ 485 milhões da companhia.

É nesse ponto que surge a segunda trilha financeira.


Zettel reaparece no fluxo de Dark Horse


No financiamento de Dark Horse, a empresa que aparece enviando os dólares não é a Super.


É a Entre Investimentos e Participações, de Antônio Carlos Freixo Júnior, identificado nas mensagens pelo apelido de “Mineiro”.


O procedimento relacionado ao filme tramita no Supremo Tribunal Federal na PET 16.292, protocolada em 22 de junho de 2026 e distribuída ao ministro André Mendonça.


A reconstrução feita pela Polícia Federal mostra que, diante de dificuldades para efetuar um pagamento relacionado ao filme, Vorcaro orientou, em fevereiro de 2025, que a operação fosse realizada “via Entre”.


Zettel então perguntou se poderia acionar “Minas”, referência a Freixo, e informou que o dinheiro seria direcionado a um fundo.


Em 11 de fevereiro de 2025, Vorcaro voltou a cobrar Zettel a respeito do câmbio para o filme.


Zettel respondeu que já havia encaminhado a demanda ao “Mineiro”.


Dois dias depois, em 13 de fevereiro, a Entre transferiu US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund.


No dia seguinte, 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante bancário e indicou que a remessa estava relacionada ao filme.


O comprovante divulgado na investigação é uma mensagem SWIFT.


Os dados publicados mostram a Entre como remetente, o processamento pelo Banco BS2 e o destino a uma conta vinculada ao JPMorgan Chase Bank, em benefício do Havengate. E a transferência de US$ 2 milhões não aparece isoladamente.


Segundo o relatório mais recente da Polícia Federal, foram identificadas sete remessas da Entre ao Havengate durante 2025, totalizando US$ 12,33 milhões.


O contrato localizado no celular de Vorcaro previa até US$ 24 milhões para a produção.


A Entre também aparece dentro do universo financeiro do Master


A Entre não estava fora do ecossistema financeiro relacionado ao Banco Master. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários, analisados pela Folha de S.Paulo, apontam que a companhia possuía cotas em sete fundos da rede do Banco Master, sendo a única cotista de quatro deles.


Esses veículos reuniam R$ 2,9 bilhões em ativos. Dois eram cotistas diretos do Hans II, apontado nas investigações como peça relevante da engrenagem financeira do Master.


Outra apuração identificou aproximadamente R$ 614 milhões em operações do Banco Master com empresas do grupo Entre.


Entre os valores mencionados estão títulos emitidos pela Entre Investimentos, aportes do Fundo Máxima e pagamentos envolvendo debêntures.


Esse conjunto estreita significativamente o universo financeiro sob investigação. Para determinar se os dois circuitos compartilhavam não apenas operadores e relações empresariais, mas também a mesma origem efetiva dos recursos, o ponto decisivo será o rastreamento das transferências anteriores à entrada do dinheiro na Super e na Entre.


Colaboração premiada acrescenta nova peça


A investigação ganhou recentemente outro elemento. Antônio Carlos Freixo Júnior firmou acordo de colaboração premiada homologado pelo Supremo Tribunal Federal e, segundo informações divulgadas sobre seu relato, confirmou ter operacionalizado remessas para o Havengate a pedido de Vorcaro.


A própria Polícia Federal afirma que ainda precisa esclarecer origem, trânsito, destino e beneficiários finais dos recursos.


É precisamente nesse percurso que poderá estar a resposta para a principal questão aberta pela sobreposição dos dois circuitos.


O mesmo operador atravessa as duas cadeias


A fotografia documental produzida até aqui é expressiva. Vorcaro aparece no comando das duas operações. Zettel aparece na operacionalização financeira das duas. Empresas utilizadas nos dois circuitos mantêm relações financeiras relevantes com o ecossistema Master.


Os veículos empresariais, entretanto, são diferentes. No circuito de “A Turma”, a documentação disponível permite reconstruir o caminho:


Vorcaro → Zettel e Ana Claudia → Super → King e Felipe Mourão → integrantes da estrutura.


No circuito de Dark Horse, a reconstrução disponível é:


Vorcaro → Zettel → Freixo e Entre → Havengate → estrutura financeira da produção nos Estados Unidos.


É Fabiano Zettel quem atravessa as duas cadeias.


A pergunta central, portanto, nasce diretamente da documentação: como o operador apontado pela Polícia Federal na viabilização financeira da estrutura de vigilância, obtenção de informações e intimidação ligada a Vorcaro passou também a acompanhar o fluxo de dinheiro destinado ao projeto cinematográfico negociado pela família Bolsonaro?


A segunda questão é financeira e pode ser ainda mais relevante: os dois circuitos apenas compartilhavam o operador ou compartilhavam também a origem efetiva dos recursos?


A resposta passa pelas transferências anteriores à Super e à Entre, particularmente entre o segundo semestre de 2024 e fevereiro de 2025.


O elemento capaz de fechar essa cadeia provavelmente não estará em uma nova conversa de WhatsApp. Estará nos extratos bancários.


O que diz Flávio Bolsonaro


Flávio Bolsonaro afirma que os recursos relacionados a Vorcaro eram privados e que todo o dinheiro recebido foi aplicado no filme.


Em maio, disse à CNN que o valor aportado chegou a pouco mais de US$ 12 milhões e negou irregularidade na operação.


A produtora responsável por Dark Horse também afirmou que prestações de contas foram apresentadas e declarou confiança de que as investigações confirmarão a regularidade da origem e do destino dos valores.


O conjunto documental hoje disponível estabelece um fato central para a investigação: o mesmo operador financeiro aparece nos dois circuitos.


O rastreamento bancário anterior às transferências feitas pela Super e pela Entre é o caminho capaz de estabelecer se essa ligação terminava no operador ou alcançava também a fonte original do dinheiro.


Documentos que devem acompanhar a matéria


A PET 15.556/DF, página 8, contém os itens 23 a 26, nos quais a decisão descreve Zettel como responsável pela intermediação e operacionalização de pagamentos e registra sua atuação no custeio de “A Turma”. É um dos documentos mais fortes para abrir a sequência probatória da reportagem.


Página 8 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 8 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 11 da PET 15.556, os itens 34 a 37 registram o pagamento mensal de R$ 1 milhão por intermédio de Zettel, a mensagem “O Fabiano não mandou este mês”, a divisão do dinheiro, a pergunta de Ana Claudia “Vai ser 1 mm como normalmente?” e o registro da transferência.


Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 11 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 21, os itens 74 a 76 tratam da participação de Ana Claudia na gestão das transferências destinadas a “A Turma”.


Página 21 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 21 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 33, a decisão reproduz a representação da Polícia Federal segundo a qual Zettel e Ana Claudia efetuavam pagamentos a mando de Vorcaro, principalmente por meio da Super, e registra que a mesma estrutura era usada nos pagamentos mensais de “A Turma”, com passagem dos recursos para empresas de Mourão.


Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 33 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

A IPJ-A nº 1020625/2026, páginas 4 a 6, extraída do celular de Vorcaro, registra na página 4 o pagamento mensal de R$ 1 milhão. A página 5 apresenta as conversas e o comprovante. A página 6 identifica a Super como empresa ligada a Zettel e contém o diagrama que liga Vorcaro, Mourão e “A Turma”.



Na página 47, Figura 55, está a conversa em que Vorcaro menciona a ida com “Fabiano e com polícia”. O material também reproduz os stories do Instagram de Leandro Garcia, descritos pela PF como publicação na qual ele afirmava que exporia uma situação relacionada ao último trabalho.


Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 47 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Na página 49, Figura 57, aparece a conversa direta de Zettel com Vorcaro: “Sicário tem os nomes e onde achar?”. Vorcaro responde: “Tem tudo. Já levantou tudo.”


Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 49 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

A página 125 contém a tabela síntese da Polícia Federal que identifica Zettel, a Super e a King e registra que a Super realizava pagamentos a Felipe Mourão.


Página 125 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 125 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

No núcleo relacionado a Dark Horse, a referência processual é a PET 16.292/DF. A sequência documental central começa em 5 de fevereiro de 2025, com a orientação “via Entre”; passa por 11 de fevereiro, quando ocorre a cobrança relacionada ao câmbio; chega a 13 de fevereiro, com o SWIFT de US$ 2 milhões no fluxo Entre → Havengate; e alcança 14 de fevereiro, quando Zettel encaminha o comprovante a Vorcaro e relaciona a transferência ao filme.


A PET 16.704/DF, página 1, contém despacho de Edson Fachin determinando a remessa e o levantamento do sigilo dos procedimentos relacionados à PET 15.556, preservadas diligências que ainda exigissem reserva.


A trilha que pode fechar o circuito


O passo decisivo para a continuidade da apuração é confrontar o SWIFT de 13 de fevereiro de 2025 com os extratos da Entre, da Super, do Termópilas, do Astralo e dos fundos do ecossistema Master nos dias imediatamente anteriores à transferência.


A identificação do originador dos recursos que ingressaram na Entre, e não apenas do remetente final registrado no SWIFT, pode determinar se o caso envolve dois circuitos administrados pelo mesmo operador ou uma engrenagem financeira cuja origem também se encontrava conectada antes de o dinheiro mudar de veículo.


O que os documentos já colocam sob luz é o personagem que atravessa as duas estruturas.

Fabiano Campos Zettel estava no circuito de “A Turma”. Meses depois, estava também no caminho do dinheiro de Dark Horse.


Agora, a investigação bancária precisa mostrar até onde essa coincidência operacional alcança o dinheiro.


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Raul Silva é jornalista político e tua na cobertura de poder, instituições, eleições, economia política e conflitos entre Estado, sociedade e grupos de interesse, com foco na interpretação das estruturas que movem a política brasileira.

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