Quem vigiava quem investigava o Master? A rede que a PF atribui a Daniel Vorcaro
Depois dos executores, as mensagens levam à pergunta central: quem escolhia os alvos, recebia informações e decidia a resposta?
Por Raul Silva para O estopim |
24 de setembro de 2026
A Rede, #02

“Quero tudo. Atenção total.”
A resposta atribuída a Daniel Vorcaro surge em uma conversa sobre consultas a procedimentos que poderiam envolver o Banco Master e sua negociação com o BRB. Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, promete mandar “puxar geral”. Na sequência dos registros analisados pela Polícia Federal, circula uma notícia de fato reservada sobre a aquisição pretendida do banco privado pelo banco público do Distrito Federal. Os documentos situam essa troca em julho de 2025. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 29–33 e 99.)
É uma cena pequena para uma pergunta enorme. O que significa, para um banqueiro sob escrutínio, querer saber tudo? Conhecer os processos é uma parte. Saber quem investiga, quem critica, o que aparece na imprensa, o que desaparece das buscas e a quem recorrer quando a pressão aumenta é outra. Lidas em conjunto, as mensagens mostram a lógica do sistema de proteção que a PF atribui ao entorno de Vorcaro.
A primeira reportagem de A Rede reconstruiu a engrenagem: pagamentos, operadores, vigilância e pressão presencial. Agora o foco sobe um degrau. Nas considerações finais de sua análise do celular, a PF descreve Vorcaro como quem definia estratégias, prioridades e alvos. Mourão aparece como o homem que recebia pedidos, coordenava pessoas e devolvia notícias de execução. É a atribuição policial do centro de comando, sustentada por uma sequência de conversas que permite observar quando a ordem parte do próprio banqueiro. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 4 e 122–125.)

O banco procurava enxergar quem o examinava
Em dezembro de 2023, comentários de Vladimir Timmerman chegam ao telefone de Vorcaro. A conversa passa da crítica aos dados pessoais e a consultas sobre procedimentos. Mourão informa que o homem estava sendo acompanhado “24 horas”. Esse episódio já revelou, na primeira matéria, o alcance da vigilância relatada. O detalhe decisivo para esta etapa é o caminho da informação: o alvo é apresentado pelo demandante; a busca volta a ele em forma de resposta. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 7–26.)
O mesmo caminho aparece quando registros do Ministério Público Federal chegam à conversa. Parte dos documentos foi gerada sob a credencial identificada como Alina Boueres. Em outro conjunto, figura o nome de Daniel Souza Iost. Os nomes identificam usuários relacionados aos registros; o material examinado não esclarece, por si, quem operou cada acesso ou como obteve as credenciais. Para o desenho do sistema, o fato relevante é que números e documentos de interesse do banqueiro atravessavam essa fronteira e eram levados a Mourão e Vorcaro. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 15–33; Representação da PF, pp. 178–209.)
Em julho de 2025, a atenção se fecha sobre Master e BRB. A mensagem “Quero tudo” é seguida pela promessa de uma varredura e pela circulação de uma notícia de fato reservada. Não se trata de mera curiosidade sobre a cobertura de um negócio. A proposta de aquisição colocava uma instituição privada, depois liquidada pelo Banco Central, diante de um banco cujo acionista majoritário é o governo do Distrito Federal. Um problema de liquidez e fiscalização podia ganhar também dimensão de patrimônio público e disputa política. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 29–33 e 99.)
Esse é o primeiro poder que as mensagens ajudam a enxergar: ganhar tempo. Saber antes qual procedimento existe, qual autoridade o conduz ou qual assunto avançou permite preparar a próxima medida. Quem forneceu cada dado e com qual autorização continua sendo uma questão própria de investigação. A utilidade da informação para quem a recebia aparece no pedido de atenção total.
Do telefone às equipes
A separação entre “A Turma” e “Os Meninos” pode sugerir compartimentos distintos: de um lado pessoas encarregadas de obter informações e atuar em campo; de outro, especialistas em ferramentas e ambiente digital. Uma sequência de e-mails encontrada em outro relatório mostra esses compartimentos se tocando.
Em 31 de julho de 2025, seis vídeos de um evento social ligado à família de Vorcaro, neles é possível percorrer a cadeia identificada pela PF: Vorcaro, Mourão, David Henrique Alves e Marilson Roseno. Dois dias depois, Marilson pede ajuda para baixar os arquivos e fala na necessidade de produzir um relatório para uma “demanda de SP”. A documentação registra o trânsito da tarefa entre o banqueiro, seu intermediário, um nome associado ao núcleo técnico e o policial federal aposentado associado ao núcleo operacional. (IPJ 1752768/2026, pp. 103–104.)
O depoimento de Victor Lima Sedlmaier, reunido pela PF, acrescenta que David trabalhava em ferramentas para mapear reputação. Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos também aparece nas diligências sobre o núcleo técnico. (Representação da PF, pp. 210–229; IPJ 057/2026, pp. 10–12.)
Essa passagem é reveladora porque reduz a distância entre uma ordem vaga e o trabalho concreto. Um incômodo chega ao banqueiro. O material circula. Pessoas com funções diferentes são acionadas. Alguém promete transformar arquivos em informação utilizável. É assim que um sistema deixa de ser apenas uma lista de contatos.

A superfície onde o público forma opinião
Há outra frente em que a vantagem pretendida não é conhecer o conteúdo de uma investigação. É influenciar o que outras pessoas encontrarão sobre o banco.
Mourão fala em separar links negativos do Google e produzir conteúdo positivo que apareça no topo das buscas. Vorcaro pede comentários favoráveis sob uma notícia sobre a operação Master–BRB publicada pelo Metrópoles em maio de 2025. Os relatórios mostram ainda solicitações relacionadas a avaliações de aplicativo e a perfis de redes sociais. Em alguns episódios Mourão anuncia resultados, como o banimento de um perfil que publicou sobre um evento em Londres. Em outros, a própria documentação encontra uma postagem cuja retirada havia sido solicitada ainda acessível. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 67–70 e 78–99.)
O alcance político desse método está na repetição. Uma pessoa que pesquisa a segurança de um banco, uma operação com uma instituição pública ou o histórico de seu controlador toma decisões a partir da informação que consegue encontrar. Se críticas são empurradas para baixo e elogios são fabricados, a reputação deixa de ser apenas consequência de atos públicos e passa a ser tratada como produto de uma operação.
As conversas sobre o Diário do Centro do Mundo mostram a intenção de modo particularmente direto. Irritado com uma publicação, Vorcaro diz que acreditava haver uma parceria e afirma ter “comprado os caras”. Semanas depois, pede a Mourão que veja um valor mensal para impedir menções a seu nome e ao Master. Quando Mourão pergunta como responder sobre a proposta, Vorcaro sugere: “50K mês?” Essas são palavras e uma proposta registradas no telefone de Vorcaro. Os documentos aqui analisados não exibem a aceitação ou o pagamento pelo veículo. A frase revela o que o banqueiro queria obter da relação, sem conferir a ele autoridade para definir a conduta da redação. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 79–87.)
Outra sequência examinada pela PF envolve o jornalista Diego Escosteguy. Mensagens mostram um pedido de “segundo pagamento” e, posteriormente, dados bancários. Em 17 de novembro de 2025, uma reportagem publicada é enviada a Vorcaro, que repassa o link ao advogado Walfrido Warde segundos depois. O relatório policial interpreta a cronologia como parte de uma reação à investigação. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 106–114.)
O que une buscas, comentários e interlocução com a imprensa não é um único método de censura. É a tentativa, atribuída pela investigação ao núcleo de comando, de diminuir o espaço ocupado por notícias desfavoráveis e ampliar o espaço da versão conveniente ao banco.
Críticos como alvos de informação
A PF registra uma mensagem em que Vorcaro pede a Mourão para “hackear esse Lauro”, em referência ao jornalista Lauro Jardim. Mourão responde que consultaria “Os Meninos” e menciona a possibilidade de um link enviado por e-mail. O diálogo documenta a discussão de um método; os anexos examinados não documentam uma invasão consumada da conta do jornalista. (Representação da PF, pp. 219–221.)
No caso de Luiz Guilherme Atalla Camasmie, identificado no relatório como autor de críticas a Vorcaro, Mourão afirma que “os meninos estão dentro do iCloud do cara”. Vorcaro responde “Boa”. A mensagem demonstra que o suposto acesso foi comunicado ao banqueiro e recebeu sua aprovação. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 70–75.)
Essas duas cenas são diferentes. Uma contém uma instrução e uma ideia de execução; a outra, uma afirmação de êxito feita pelo intermediário. Juntas mostram como o telefone do controlador podia reunir críticas, identidades, pedidos de investigação sobre pessoas e notícias sobre o que a equipe dizia ter conseguido.
Daniel Vorcaro na porta das instituições
Quando a situação do Master se agrava, a atenção registrada no telefone também se volta para autoridades. Após uma reunião entre representantes da PF e do Banco Central em outubro de 2025, Vorcaro anota nomes de participantes e procuradores. Dias depois, uma nota recuperada de seu aparelho afirma que pessoas próximas no BC teriam transmitido informações confidenciais e menciona a possibilidade de levar preocupações a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. A anotação é evidência do que Vorcaro escreveu e da aproximação que procurava apresentar. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 100–103.)
Outra nota, feita na véspera da operação, pergunta pela proximidade de um interlocutor com o juiz Ricardo Soares Leite. O juiz surge ali como objeto de uma consulta de Vorcaro, não como participante de uma articulação demonstrada. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 103–104.)
Um relatório posterior examina a relação de Vorcaro com um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A análise policial relaciona capturas de notas feitas no telefone a mensagens enviadas logo depois a esse contato. Em paralelo, há contratos de serviços jurídicos do Master com a Barci de Moraes Sociedade de Advogados e um comprovante de transferência de R$ 3.422.268,14 ao escritório. O contrato registra uma relação profissional; as notas e mensagens mostram a tentativa do banqueiro de acionar canais de influência. Transformar isso em atuação irregular do ministro exige estabelecer destinatário, conteúdo recebido, resposta e ato praticado. (IPJ-A 3298613/2026, pp. 6–16, 28–30 e 149–150.)
Em setembro de 2026, o caso alcançou uma disputa aberta no Supremo sobre o próprio tratamento do relatório referente a Moraes. Em 15 de setembro, um pedido de vista interrompeu a discussão preliminar no plenário antes do exame do mérito. A crise institucional tornou visível, para todo o país, uma questão que o celular já colocava: o que acontece quando o poder de um investigado de procurar autoridades se encontra com a obrigação de investigar também essas relações?
O dinheiro pagava quais funções?
Há um comprovante de R$ 1 milhão transferido da Super Empreendimentos para a King Participações, de Mourão. As conversas tratam essa cifra como pagamento habitual e colocam Fabiano Campos Zettel na intermediação financeira. O comprovante fixa uma operação real dentro do circuito; as mensagens dão o contexto da recorrência alegada. A primeira reportagem examinou a divisão que Mourão dizia fazer desse valor. Nesta etapa, a pergunta muda: quais tarefas as diferentes pessoas apresentavam como prestação pela estrutura financiada? (IPJ-A 1070759/2026, pp. 180–198.)
Há valores de naturezas distintas nos documentos: o milhão enviado à King, os R$ 50 mil mensais sugeridos na conversa sobre imprensa, notas emitidas pela empresa ligada a Marilson, e pagamentos por serviços advocatícios. Somá-los como se fossem uma única conta clandestina apagaria a diferença entre comprovante, proposta, documento fiscal e contrato profissional. Segui-los separadamente permite enxergar como informação, reputação, relações institucionais e resposta a críticos podiam ser administradas ao mesmo tempo.
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O que acontece agora?
A investigação da PF sobre a estrutura atribuída ao entorno de Vorcaro continua. No Supremo, a discussão sobre o relatório que menciona Alexandre de Moraes foi interrompida antes do julgamento do mérito da petição.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos de interesse público para as plataformas do portal.
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