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Em poucos anos, depósitos saltaram de bilhões para quase R$ 60 bilhões. CDBs chegavam a 140% do CDI. Do outro lado do balanço cresciam fundos, créditos e ativos difíceis de transformar rapidamente em dinheiro.


Por Dante Silva para O estopim |

25 de setembro de 2026

A Rede, #03


O Master multiplicou depósitos por sete em três anos. CDBs chegaram a 140% do CDI. O estopim reconstrói a economia da máquina que sustentou a expansão do banco.
O Master multiplicou depósitos por sete em três anos. CDBs chegaram a 140% do CDI. O estopim reconstrói a economia da máquina que sustentou a expansão do banco. | Foto: Victor Moriyama/Bloomberg

Antes de existir o Banco Master que movimentava dezenas de bilhões de reais, comprava instituições, atraía investidores por plataformas digitais e negociava uma venda bilionária ao BRB, existia o Banco Máxima. E o Máxima estava longe de ser uma potência financeira.


A transformação entre uma instituição que atravessara dificuldades na década anterior e o banco que chegaria a quase R$ 60 bilhões em depósitos é talvez uma das partes mais importantes de toda a história.


Porque, antes das articulações políticas, das relações de poder, da rede de vigilância revelada nas duas primeiras reportagens desta série e das investigações que cercariam Daniel Vorcaro, havia uma pergunta mais elementar: de onde vinha o dinheiro?


A resposta está, em grande medida, nos CDBs. Mas explicar apenas que o Master vendia CDB é contar metade da história.


O verdadeiro mecanismo aparece quando se colocam lado a lado o volume captado, o preço pago por esse dinheiro, a velocidade da expansão, o perfil dos ativos comprados com os recursos e a proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos.


O que emerge é uma máquina financeira que dependia de continuar captando. E que, para continuar captando, precisava pagar. Às vezes, pagar muito.


Antes do Banco Master, o Máxima


A primeira peça importante da transformação aparece em 2019.


Em 13 de fevereiro daquele ano, a Diretoria Colegiada do Banco Central rejeitou um pedido de transferência do controle do Banco Máxima. O motivo registrado no extrato oficial é relevante até hoje.


Aprova a alteração na estrutura de controle acionário do Banco Máxima S.A. e de sua controlada, Máxima S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários.
Aprova a alteração na estrutura de controle acionário do Banco Máxima S.A. e de sua controlada, Máxima S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários. | Fonte: Voto 218/2019–BCB, de 14 de outubro de 2019

Segundo o BC, havia “insuficiente demonstração quanto à origem dos recursos utilizados na operação” e também quanto à capacidade econômica e financeira dos pretendentes.


O grupo naquele pedido incluía Daniel Bueno Vorcaro e outros investidores. Oito meses depois, a situação mudou.


Em 14 de outubro de 2019, o Banco Central aprovou outra configuração de controle. O Máxima passaria a ser controlado por Daniel Vorcaro, Armando Miguel Gallo Neto e Felipe Wallace Simonsen, os dois últimos por intermédio da 133 Investimentos e Participações.


A transferência consta também do histórico de autorizações do BC. Não era ainda o Banco Master. Mas a engrenagem que produziria o Master estava oficialmente em movimento.


2020: a primeira aceleração


Os números começam a mudar rapidamente. Dados do sistema IF.data compilados a partir do Banco Central mostram patrimônio líquido de cerca de R$ 219,6 milhões em dezembro de 2019.


Um ano depois, eram aproximadamente R$ 421,7 milhões. O banco praticamente dobrou sua base patrimonial em doze meses.


Ao mesmo tempo, o ativo crescia. Em dezembro de 2020, o total estava na casa de R$ 6,2 bilhões. Seria apenas o começo.


2021: Máxima vira Master


Em 2021 ocorre a mudança simbólica mais visível. Banco Máxima passa a se chamar Banco Master. A troca de nome não foi apenas estética. Ela acompanhou uma transformação de escala.


No fim daquele ano, o banco já tinha aproximadamente R$ 10,3 bilhões em ativos. Os depósitos totais chegavam a cerca de R$ 8,5 bilhões. Quase tudo era depósito a prazo. Isso importa porque revela de onde vinha o combustível.


Grandes bancos recebem salários, movimentam contas correntes, processam pagamentos, administram empresas e concentram enormes volumes de dinheiro que ficam temporariamente parados em contas à vista.


Esse dinheiro possui custo relativamente pequeno. O Master não tinha essa vantagem na mesma proporção. Sua expansão dependeria fundamentalmente de outro mecanismo: convencer investidores a emprestar dinheiro ao banco. O CDB era a ponte.


A fórmula dos CDBs


Um CDB é, na essência, uma dívida do banco. O investidor entrega dinheiro para a instituição. Em troca, recebe a promessa de devolução daquele valor acrescido de juros. Quanto maior a percepção de risco, normalmente maior precisa ser a remuneração oferecida.


É aqui que a história do Master começa a se diferenciar da dos maiores bancos brasileiros. Os depósitos a prazo representavam cerca de: 98,4% dos depósitos do Master em 2021;98,9% em 2022;97,9% em 2023;98,1% em 2024;98,1% em março de 2025.


No Sistema Financeiro Nacional como um todo, segundo estudo do DIEESE baseado em dados do Banco Central, essa participação ficava entre aproximadamente 56% e 68%. Nos maiores bancos privados, entre 66% e 74%.


O Master estava construído sobre uma arquitetura diferente. Para crescer, precisava captar. Para captar, precisava oferecer um produto competitivo. E, para tornar o produto competitivo, pagava mais.


De R$ 8 bilhões para quase R$ 60 bilhões


Os números mostram a dimensão da máquina:


A máquina cresce
A máquina cresce | Imagem: Agência O estopim+
  • Em dezembro de 2021, havia aproximadamente R$ 8,3 bilhões em depósitos a prazo.

  • Em dezembro de 2022: R$ 17,4 bilhões.

  • Em dezembro de 2023: R$ 29,8 bilhões.

  • Em dezembro de 2024: R$ 58,6 bilhões.


Em apenas três anos, o estoque de depósitos a prazo multiplicou-se aproximadamente por sete.


O ativo acompanhou o movimento. Era de cerca de: R$ 10,3 bilhões em 2021; R$ 20,5 bilhões em 2022; R$ 36,1 bilhões em 2023; aproximadamente R$ 63 bilhões em 2024.


Em três anos, o banco aumentou seu ativo em mais de seis vezes. Era um crescimento típico de fintech, mas com o balanço de um banco. No entanto, um banco não cresce apenas ao adicionar usuários a um aplicativo. Cada real captado gera uma obrigação futura. E cada obrigação futura precisa ser honrada.



Até 140% do CDI


De onde vinha o dinheiro
De onde vinha o dinheiro | Imagem: Agência O estopim+

A demonstração financeira do Banco Master de 2024 indica que seus CDBs eram emitidos com remuneração variando de 100% a 140% do CDI. Esse pagamento extraordinário não era apenas uma promoção ocasional em uma plataforma; era parte integrante do modelo de captação.


Em abril de 2025, o mercado secundário disponibilizava papéis do Master em condições ainda mais extremas. Existiam CDBs atingindo 160% do CDI, devido ao desconto exigido por investidores que buscavam vender os títulos antes do vencimento.


Alguns dias depois, ainda se encontravam papéis equivalentes a cerca de 140% do CDI, 20,5% ao ano e IPCA mais 17%. O custo do dinheiro estava se tornando muito elevado.



Por que o Master precisava pagar tanto


Aqui está uma chave econômica para compreender todo o caso. Quando um banco depende fortemente de CDBs, existe uma necessidade permanente de casar duas pontas. De um lado estão os investidores. Eles têm data para receber. Do outro estão os ativos comprados ou financiamentos concedidos pelo banco. Esses ativos também precisam devolver dinheiro.


O problema surge quando uma ponta vence mais rapidamente que a outra. Se bilhões em CDBs vencem e os ativos que deveriam financiá-los não podem ser transformados rapidamente em dinheiro, o banco precisa de outra fonte de caixa.



Uma solução é vender os ativos. Outra é tomar dinheiro emprestado. Outra é captar novos investidores. Em outras palavras: rolar o passivo. Quanto maior a dependência de novas captações, maior a importância de continuar vendendo CDBs.


E quanto maior a necessidade de captar, maior a pressão para pagar taxas que convençam investidores a continuar entrando. O crescimento, portanto, alimentava uma nova necessidade de crescimento.


O outro lado do balanço


O descasamento
O descasamento | Imagem: Agência O estopim+

Seria muito diferente se quase todo o dinheiro captado estivesse aplicado em ativos extremamente líquidos. Não estava. O estudo do DIEESE, elaborado com dados do Banco Central, estima que, em março de 2025, apenas cerca de 0,2% dos ativos do Master estava na categoria de alta liquidez.


No outro extremo, aproximadamente 47,6% estava classificado como ativo de baixa liquidez.

No Sistema Financeiro Nacional, a média calculada pelo estudo era de aproximadamente 27,2%.


A análise contábil auxilia na compreensão do desequilíbrio. O Master possuía dezenas de bilhões de reais em obrigações com prazos determinados. No entanto, uma parte significativa dos ativos não podia ser prontamente convertida em dinheiro.



É nesse ponto que a história deixa de ser apenas sobre crescimento. E se transforma em uma história sobre liquidez.


Fundos, direitos creditórios e precatórios


No fim de 2024, aproximadamente R$ 19,56 bilhões estavam alocados em fundos de investimento, segundo a análise do DIEESE. Isso correspondia a cerca de 31% do total dos ativos analisados.


Outros aproximadamente R$ 8,7 bilhões estavam associados a direitos creditórios e precatórios. São ativos que podem ter valor econômico. Mas valor econômico e dinheiro disponível amanhã de manhã não são a mesma coisa.


Um precatório pode ter valor de milhões, mas ainda assim estar sujeito a tempo, decisões judiciais, fila de pagamento e à necessidade de um comprador disposto a assumir o risco. Uma participação em um fundo pode valer bilhões no balanço, mas não ter um mercado que consiga absorvê-la imediatamente.


Quanto mais a estrutura de financiamento exige dinheiro em datas determinadas, mais essa diferença passa a importar.


A pergunta que o balanço começou a fazer


No papel, o Master parecia extraordinariamente bem-sucedido. O patrimônio líquido chegou a aproximadamente R$ 4,7 bilhões em 2024. O lucro líquido ficou perto de R$ 1 bilhão. O ativo alcançou cerca de R$ 63 bilhões.


Os números produziam a imagem de um banco que havia deixado de ser pequeno e se transformado numa instituição de relevância nacional. Mas balanço bancário não é apenas uma disputa por tamanho.


A questão decisiva é a qualidade dos ativos, a capacidade de transformá-los em caixa e a correspondência entre quando o dinheiro entra e quando precisa sair. Esse seria precisamente um dos pontos que mais tarde chamariam a atenção dos supervisores.



Peças posteriores da supervisão do Banco Central, incorporadas aos autos das investigações, descrevem problemas no gerenciamento de risco de crédito e de liquidez em operações estruturadas realizadas pelo Master.



Segundo comunicação produzida pela supervisão e reproduzida na documentação policial, o BC analisou operações do banco entre 2024 e 2025 e apontou dependência de informações fornecidas por terceiros e ausência de acompanhamento suficiente sobre determinados fundos utilizados nas estruturas.



Em junho de 2025, segundo essa documentação, algumas operações analisadas ainda não haviam produzido amortizações efetivas de caixa. A receita existia contabilmente.



De acordo com a avaliação dos supervisores apresentada nos autos, o dinheiro não necessariamente havia sido recebido. Essa diferença seria essencial. O lucro contábil não paga CDB, mas o caixa sim.




Os CDBs precisavam continuar entrando


A economia do modelo começa então a ficar mais clara.



Imagine uma instituição com dezenas de bilhões de reais captados predominantemente em depósitos a prazo. Esses depósitos vencem. Os juros precisam ser pagos. Parte relevante dos ativos está em créditos, fundos, direitos judiciais e estruturas de realização mais lenta.



A instituição precisa garantir que haverá dinheiro disponível na data do vencimento. Se os ativos não produzem caixa suficiente naquele momento, captar novamente passa a ser essencial.


Isso ajuda a entender por que taxas significativamente superiores às dos grandes bancos não eram apenas um detalhe secundário. Elas eram parte essencial do mecanismo que assegurava a entrada de recursos.


O FGC mudava a percepção de risco


Existe ainda outra peça fundamental. O Fundo Garantidor de Créditos. Para investidores dentro dos limites regulamentares, CDBs elegíveis contam com garantia do FGC.


O limite ordinário é de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição ou conglomerado, sujeito às demais regras do fundo. Isso criava uma combinação comercial muito poderosa: rentabilidade muito superior à de grandes bancos e percepção de proteção contra eventual quebra.


Em vez de perguntar apenas: “por que um banco está pagando tão mais?” o investidor podia raciocinar: “mesmo que dê errado, existe FGC”.


Economicamente, isso reduz parte da disciplina que o risco normalmente imporia ao preço. O investidor não precisava necessariamente confiar integralmente no Master. Precisava confiar que sua aplicação estava dentro da cobertura do Fundo.


Esse mecanismo produz uma consequência mais ampla. O banco recebe o dinheiro. O investidor recebe a remuneração. A plataforma recebe sua receita pela distribuição. Mas, no cenário extremo de quebra, parte do risco pode terminar no sistema coletivo de garantia.


O caso Master tornou essa estrutura concreta. Após a liquidação, o FGC estimou R$ 40,6 bilhões em garantias apenas para Banco Master, Master de Investimentos e Letsbank. Com as liquidações posteriores de outras instituições do conglomerado, a estimativa total chegou a R$ 51,7 bilhões. Incluindo as garantias para operações de assistência anteriores, o impacto estimado alcançou cerca de R$ 57,4 bilhões nas reservas do Fundo.


Não se tratou apenas da falência de um banco. Foi um acontecimento que afetou o maior mecanismo coletivo de proteção do sistema financeiro brasileiro.


As plataformas também eram parte da engrenagem


O Master não precisava construir milhares de agências para chegar ao poupador brasileiro.

O sistema financeiro digital havia resolvido esse problema.


Corretoras e plataformas conseguiam colocar um CDB emitido por um banco relativamente pequeno na tela de milhões de investidores. A combinação era perfeita para expansão rápida: distribuição nacional, taxa elevada e proteção do FGC.


Reportagem do UOL publicada após a liquidação informou, com base em fontes do mercado, que o Master teria pago comissões relevantes às plataformas e assessores responsáveis pela distribuição dos papéis. As estimativas das fontes variavam sobre o percentual cobrado.


Independentemente da disputa sobre a comissão exata, o ponto econômico permanece. O Master não precisava conquistar individualmente cada depositante. Precisava conquistar canais capazes de entregar depositantes em escala.


2024: o tamanho da dependência


No balanço individual do banco, os depósitos passaram de R$ 30,5 bilhões em 2023 para R$ 49,9 bilhões em 2024. Dentro deles, os depósitos interfinanceiros cresceram de cerca de R$ 3,1 bilhões para R$ 18,3 bilhões. Os depósitos a prazo permaneceram acima de R$ 30 bilhões na demonstração individual.


Outras séries do conglomerado utilizadas pelo DIEESE mostram quase R$ 60 bilhões em depósitos totais. São universos contábeis distintos, e por isso não devem ser somados. Mas apontam para a mesma direção: a máquina havia se tornado gigantesca.


Porém, foi quando o BRB reformulou em agosto de 2025 a operação de aquisição do Master, divulgou uma informação especialmente reveladora.


Do perímetro da transação foram retirados aproximadamente R$ 33 bilhões em CDBs distribuídos por plataformas de investimento. Segundo o próprio fato relevante do BRB, esses títulos possuíam custo de captação próximo a 120% do CDI.


Isso fornece uma medida concreta da escala. Não estamos falando de algumas emissões promocionais. Estamos falando de dezenas de bilhões de reais em passivos de alto custo.


O número contribui para responder à pergunta central desta reportagem: de onde vinha o dinheiro? Ele vinha de milhares de investidores, distribuídos por diversas plataformas, que compravam títulos de um banco que precisava oferecer remuneração muito superior à de instituições maiores.


Março de 2025: surge o BRB


Em março de 2025, o Banco de Brasília anunciou a aquisição de 58,04% do capital total do Master, envolvendo 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais. O próprio BRB apresentou a operação como parte de sua estratégia de expansão nacional.


Mas os números divulgados meses depois mostram como o desenho precisou ser profundamente modificado. A estimativa inicial de ativos e passivos que seriam retirados da operação era de aproximadamente R$ 19,8 bilhões. Depois da avaliação de riscoa, o montante passou para R$ 51,2 bilhões.


Foram retirados, entre outros itens, precatórios, créditos concentrados ou sem garantias reais, fundos, ações, certificados imobiliários, outros créditos e os já mencionados R$ 33 bilhões em CDBs.


O banco que havia crescido vertiginosamente precisava ser desmontado contabilmente para caber na transação.


Maio de 2025: o FGC já estava sustentando liquidez


Quando a máquina para
Quando a máquina para | Imagem: Agência O estopim+

Há um acontecimento decisivo que ocorreu meses antes da liquidação. Em maio de 2025, o Fundo Garantidor de Créditos celebrou uma operação de suporte financeiro ao Conglomerado Master.


O objetivo declarado pelo próprio FGC era permitir o pagamento de credores detentores de instrumentos elegíveis à garantia enquanto a possível operação com o BRB era analisada pelo Banco Central.


O suporte foi estruturado por meio de letras financeiras emitidas em favor do FGC. No fim de 2025, o saldo dessas emissões era de R$ 5,7 bilhões.



Mas uma cláusula chama ainda mais atenção. Como condição da operação, novas emissões de produtos cobertos pelo FGC passaram a ter remuneração limitada a 100% do CDI. O próprio FGC registra que isso provocou o fim do crescimento acelerado do passivo garantido do conglomerado.






A frase quase revela a essência do modelo. Quando o limite foi imposto à taxa, a máquina desacelerou.


O preço do dinheiro era parte da máquina


Esse talvez seja o ponto econômico mais importante de toda a história. O Master não pagava taxas elevadas simplesmente porque queria ser generoso com investidores. A remuneração funcionava como preço da matéria-prima fundamental do negócio: dinheiro.


Se um grande banco conseguia captar a 100% do CDI, o Master precisava oferecer taxas superiores para atrair investidores para seus títulos, como 120%, 130% ou 140%. No mercado secundário, em períodos de estresse, os rendimentos implícitos foram ainda mais altos.


A rentabilidade despertava interesse. O FGC diminuía o receio. As plataformas proporcionavam escala. O resultado era a captação de recursos. E essa captação financiava a expansão.


Esse tipo de estrutura tem uma fragilidade inerente. À medida que mais dinheiro entra, o passivo aumenta. Com o aumento do passivo, os vencimentos futuros se tornam maiores. Quanto maiores forem os vencimentos, maior será a necessidade de caixa.


Se os ativos não geram caixa na mesma velocidade, a instituição precisa buscar novos recursos. E, se a confiança começa a diminuir, essa captação se torna mais complicada. Quando captar se torna mais difícil, o banco é obrigado a elevar ainda mais o prêmio.


É um círculo que funciona enquanto investidores continuam entrando. Quando a porta começa a fechar, a matemática muda completamente.


Abril de 2025: o mercado já cobrava um preço


Em abril de 2025, investidores começaram a tentar vender CDBs do Master no mercado secundário. Para encontrar compradores, aceitavam descontos. Como consequência, os rendimentos implícitos chegavam a 140% e até 160% do CDI em determinados papéis.


O mercado secundário estava dizendo algo. Não necessariamente que o banco quebraria. Mas que investidores exigiam prêmio muito maior para permanecer expostos à instituição. O preço do risco estava aumentando.


Esse momento conecta esta reportagem às duas primeiras matérias de A Rede.


Nas reportagens anteriores, O estopim mostrou documentos da Polícia Federal que atribuem a Daniel Vorcaro e a pessoas de seu entorno uma estrutura dedicada a obter informação, acompanhar investigações, monitorar críticos e operar respostas em torno do banco.


A primeira reportagem revelou o circuito de pagamentos que a PF relaciona à chamada “Turma”. A segunda avançou sobre a estrutura de informação e vigilância atribuída pelos investigadores ao grupo.


Agora aparece a outra metade.


Enquanto uma rede de poder e informação se movimentava ao redor do Master, existia um banco que precisava administrar dezenas de bilhões de reais captados do público. A política, a reputação e a informação não estavam flutuando no vazio. Havia uma estrutura econômica gigantesca a proteger.


O dinheiro precisava continuar circulando


Peças da Polícia Federal analisadas por O estopim vão além dos balanços públicos.


Uma das linhas investigativas sustenta que recursos captados pelo banco teriam sido direcionados a fundos, debêntures e outros ativos de baixa liquidez ou cuja precificação passou a ser questionada.


Em outro conjunto documental, a supervisão do Banco Central descreveu operações estruturadas de crédito em que fundos apresentados como mecanismos de liquidez continham ativos que posteriormente foram considerados inadequados para cumprir essa função.


A PF também registrou fluxos nos quais recursos saíam do Master e retornavam por aplicações em CDBs do próprio conglomerado.


Essas são linhas investigativas específicas e não se confundem com toda a captação legítima do banco. Mas ajudam a explicar porque a qualidade do ativo se tornou tão importante quanto o tamanho do passivo.


O problema não era simplesmente quanto dinheiro o Master conseguia levantar. Era o que acontecia com ele depois.


O limite chegou


A documentação da supervisão do BC incluída nos autos indica que certas operações analisadas não tinham realizado amortizações efetivas até junho de 2025.


Isso implica que receitas poderiam ser registradas contabilmente mesmo sem a entrada do dinheiro correspondente. Para um banco que depende de liquidez, essa diferença é significativa. No balanço, uma operação pode gerar receita, enquanto no caixa, um CDB vence em reais.


Em setembro de 2025, a operação com o BRB não avançou. Em novembro, outra tentativa de solução foi anunciada. Horas depois, a crise deixou de ser um problema de mercado e virou formalmente um regime de resolução.


Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado.


A justificativa oficial foi inequívoca: grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas que regem as instituições do Sistema Financeiro Nacional.



O banco que havia multiplicado ativos, patrimônio e depósitos em poucos anos terminou liquidado justamente pelo elemento que sustentara sua expansão: dinheiro disponível.


O maior teste da história do FGC


A dimensão do passivo apareceu imediatamente. Em janeiro de 2026, o FGC informou que aproximadamente 800 mil credores eram elegíveis ao pagamento de cerca de R$ 40,6 bilhões em garantias referentes ao Master, Master de Investimentos e Letsbank.


Até 6 de abril, cerca de R$ 39,3 bilhões já haviam sido pagos a aproximadamente 669 mil credores.


O FGC encerrou 2025 com patrimônio líquido de aproximadamente R$ 123,2 bilhões, depois de registrar déficit de R$ 17,1 bilhões no exercício associado às provisões de garantias.


Consideradas liquidações posteriores e a assistência financeira anterior ao conglomerado, o impacto estimado chegou a aproximadamente R$ 57,4 bilhões. A máquina privada de captação terminou produzindo uma conta sistêmica.


A história que os números contam


O caso Master pode ser narrado como uma história criminal, política, de relações empresariais ou regulatória. No entanto, acima de tudo, é uma história financeira.


Um banco de porte relativamente pequeno começou a captar dezenas de bilhões de reais. Para competir com grandes instituições, oferecia taxas mais altas. Utilizava plataformas para alcançar investidores. Para diminuir a percepção de risco, seus títulos estavam protegidos pelo FGC, respeitando os limites regulamentares.


Com os recursos, aumentava ativos, créditos, fundos e participações. À medida que crescia, a necessidade de gerenciar vencimentos também aumentava. Quanto maior era o volume de passivos, mais crucial se tornava manter a captação ativa. Até que ela parou de operar da mesma forma.


O crescimento do banco ocorreu em paralelo a uma mudança estrutural no mercado brasileiro. Milhões de pessoas abandonaram a poupança e se voltaram para plataformas de investimento. Produtos que antes eram exclusivos das mesas de tesouraria começaram a ser acessíveis pelo celular. A promessa era democratizar o mercado financeiro. E isso foi alcançado.


No entanto, a mesma infraestrutura que tornou o investimento acessível a todos também possibilitou a distribuição, em escala nacional, dos passivos de pequenas instituições. Um banco já não precisava ter agências em cada cidade para captar bilhões; bastava estar visível na tela.


Essa alteração impactou significativamente a capacidade de captação dos bancos de médio porte. O Master entendeu essa mudança e levou essa lógica ao extremo.


A taxa que aparecia na tela escondia um sistema inteiro


Para o investidor atento às oportunidades, a decisão estava se tornando evidente. Ao analisar as opções disponíveis em um aplicativo de investimentos, ele se deparava com uma apresentação clara e direta dos rendimentos oferecidos pelos bancos.


  • Banco A: 100% do CDI - uma opção segura, mas sem grandes atrativos.

  • Banco B: 105% do CDI - um leve aumento em relação ao Banco A, proporcionando um retorno um pouco mais interessante.

  • Master:

    • 120% do CDI - uma alternativa que já promete um retorno significativo.

    • 130% do CDI - uma opção ainda mais vantajosa, atraindo a atenção do investidor.

    • 140% do CDI - a proposta mais agressiva, oferecendo um retorno que poderia fazer a diferença nos resultados finais.


A diferença nas taxas de rendimento era notável e poderia ser resumida em uma única linha: enquanto os bancos tradicionais ofereciam retornos que se limitavam ao CDI ou um pouco acima dele, o Master se destacava com propostas que poderiam aumentar consideravelmente o retorno do investimento. Essa clara distinção ajudou o investidor a tomar uma decisão mais informada e estratégica.


Por trás dela existia um sistema bastante intricado, que incluía elementos como capital regulatório, ativos judiciais e créditos estruturados. Além disso, havia a gestão de fundos, plataformas financeiras, comissões, liquidez e vencimentos, todos sob a supervisão bancária. A constante necessidade de converter ativos futuros em dinheiro presente também fazia parte desse contexto. Era esse sistema que o investidor comprava sem enxergá-lo.


A pergunta muda


No começo desta reportagem, a questão era: de onde vinha o dinheiro?


Agora a resposta está mais clara. Vinha de investidores. Vinha de CDBs. Vinha de plataformas. Vinha de uma estratégia que pagava taxas capazes de deslocar dinheiro de outras instituições para o Master. Vinha de um sistema em que o FGC reduzia a percepção individual de risco.


E, durante anos, entrou em volume suficiente para financiar uma expansão extraordinária. A pergunta seguinte é mais difícil: para onde esse dinheiro foi?


É aí que a história deixa definitivamente o balanço e entra nos fundos, empresas, relações familiares, estruturas societárias e circuitos de poder que cercavam o Master. E é daí que parte a próxima reportagem de A Rede.


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Raul Silva é o jornalista investigativo de O estopim dedicado à análise documental, cruzamento de bases públicas e reconstrução de redes de poder, dinheiro e influência.

Depois dos executores, as mensagens levam à pergunta central: quem escolhia os alvos, recebia informações e decidia a resposta?


Por Raul Silva para O estopim |

24 de setembro de 2026

A Rede, #02


A PF atribui a Daniel Vorcaro o comando de uma estrutura que acompanhava investigações, notícias e críticos enquanto o Master negociava com o BRB.
A PF atribui a Daniel Vorcaro o comando de uma estrutura que acompanhava investigações, notícias e críticos enquanto o Master negociava com o BRB. | Foto: Banco Master/Divulgação

“Quero tudo. Atenção total.”

A resposta atribuída a Daniel Vorcaro surge em uma conversa sobre consultas a procedimentos que poderiam envolver o Banco Master e sua negociação com o BRB. Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, promete mandar “puxar geral”. Na sequência dos registros analisados pela Polícia Federal, circula uma notícia de fato reservada sobre a aquisição pretendida do banco privado pelo banco público do Distrito Federal. Os documentos situam essa troca em julho de 2025. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 29–33 e 99.)



É uma cena pequena para uma pergunta enorme. O que significa, para um banqueiro sob escrutínio, querer saber tudo? Conhecer os processos é uma parte. Saber quem investiga, quem critica, o que aparece na imprensa, o que desaparece das buscas e a quem recorrer quando a pressão aumenta é outra. Lidas em conjunto, as mensagens mostram a lógica do sistema de proteção que a PF atribui ao entorno de Vorcaro.


A primeira reportagem de A Rede reconstruiu a engrenagem: pagamentos, operadores, vigilância e pressão presencial. Agora o foco sobe um degrau. Nas considerações finais de sua análise do celular, a PF descreve Vorcaro como quem definia estratégias, prioridades e alvos. Mourão aparece como o homem que recebia pedidos, coordenava pessoas e devolvia notícias de execução. É a atribuição policial do centro de comando, sustentada por uma sequência de conversas que permite observar quando a ordem parte do próprio banqueiro. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 4 e 122–125.)


Infográfico de O estopim ilustrando como de ordens e cadeia de comando do esquema de proteção do Banco Master
Infográfico de O estopim ilustrando como de ordens e cadeia de comando do esquema de proteção do Banco Master | Imagem: Agência O estopim+

O banco procurava enxergar quem o examinava


Em dezembro de 2023, comentários de Vladimir Timmerman chegam ao telefone de Vorcaro. A conversa passa da crítica aos dados pessoais e a consultas sobre procedimentos. Mourão informa que o homem estava sendo acompanhado “24 horas”. Esse episódio já revelou, na primeira matéria, o alcance da vigilância relatada. O detalhe decisivo para esta etapa é o caminho da informação: o alvo é apresentado pelo demandante; a busca volta a ele em forma de resposta. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 7–26.)


O mesmo caminho aparece quando registros do Ministério Público Federal chegam à conversa. Parte dos documentos foi gerada sob a credencial identificada como Alina Boueres. Em outro conjunto, figura o nome de Daniel Souza Iost. Os nomes identificam usuários relacionados aos registros; o material examinado não esclarece, por si, quem operou cada acesso ou como obteve as credenciais. Para o desenho do sistema, o fato relevante é que números e documentos de interesse do banqueiro atravessavam essa fronteira e eram levados a Mourão e Vorcaro. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 15–33; Representação da PF, pp. 178–209.)



Em julho de 2025, a atenção se fecha sobre Master e BRB. A mensagem “Quero tudo” é seguida pela promessa de uma varredura e pela circulação de uma notícia de fato reservada. Não se trata de mera curiosidade sobre a cobertura de um negócio. A proposta de aquisição colocava uma instituição privada, depois liquidada pelo Banco Central, diante de um banco cujo acionista majoritário é o governo do Distrito Federal. Um problema de liquidez e fiscalização podia ganhar também dimensão de patrimônio público e disputa política. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 29–33 e 99.)


Esse é o primeiro poder que as mensagens ajudam a enxergar: ganhar tempo. Saber antes qual procedimento existe, qual autoridade o conduz ou qual assunto avançou permite preparar a próxima medida. Quem forneceu cada dado e com qual autorização continua sendo uma questão própria de investigação. A utilidade da informação para quem a recebia aparece no pedido de atenção total.


Do telefone às equipes


A separação entre “A Turma” e “Os Meninos” pode sugerir compartimentos distintos: de um lado pessoas encarregadas de obter informações e atuar em campo; de outro, especialistas em ferramentas e ambiente digital. Uma sequência de e-mails encontrada em outro relatório mostra esses compartimentos se tocando.


Em 31 de julho de 2025, seis vídeos de um evento social ligado à família de Vorcaro, neles é possível percorrer a cadeia identificada pela PF: Vorcaro, Mourão, David Henrique Alves e Marilson Roseno. Dois dias depois, Marilson pede ajuda para baixar os arquivos e fala na necessidade de produzir um relatório para uma “demanda de SP”. A documentação registra o trânsito da tarefa entre o banqueiro, seu intermediário, um nome associado ao núcleo técnico e o policial federal aposentado associado ao núcleo operacional. (IPJ 1752768/2026, pp. 103–104.)









O depoimento de Victor Lima Sedlmaier, reunido pela PF, acrescenta que David trabalhava em ferramentas para mapear reputação. Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos também aparece nas diligências sobre o núcleo técnico. (Representação da PF, pp. 210–229; IPJ 057/2026, pp. 10–12.)



Essa passagem é reveladora porque reduz a distância entre uma ordem vaga e o trabalho concreto. Um incômodo chega ao banqueiro. O material circula. Pessoas com funções diferentes são acionadas. Alguém promete transformar arquivos em informação utilizável. É assim que um sistema deixa de ser apenas uma lista de contatos.


Infográfico de O estopim ilustrando como era o esquema de proteção do Banco Master desenvolvido por Daniel Vorcaro
Infográfico de O estopim ilustrando como era o esquema de proteção do Banco Master desenvolvido por Daniel Vorcaro | Imagem: Agência O estopim+

A superfície onde o público forma opinião


Há outra frente em que a vantagem pretendida não é conhecer o conteúdo de uma investigação. É influenciar o que outras pessoas encontrarão sobre o banco.


Mourão fala em separar links negativos do Google e produzir conteúdo positivo que apareça no topo das buscas. Vorcaro pede comentários favoráveis sob uma notícia sobre a operação Master–BRB publicada pelo Metrópoles em maio de 2025. Os relatórios mostram ainda solicitações relacionadas a avaliações de aplicativo e a perfis de redes sociais. Em alguns episódios Mourão anuncia resultados, como o banimento de um perfil que publicou sobre um evento em Londres. Em outros, a própria documentação encontra uma postagem cuja retirada havia sido solicitada ainda acessível. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 67–70 e 78–99.)


O alcance político desse método está na repetição. Uma pessoa que pesquisa a segurança de um banco, uma operação com uma instituição pública ou o histórico de seu controlador toma decisões a partir da informação que consegue encontrar. Se críticas são empurradas para baixo e elogios são fabricados, a reputação deixa de ser apenas consequência de atos públicos e passa a ser tratada como produto de uma operação.


As conversas sobre o Diário do Centro do Mundo mostram a intenção de modo particularmente direto. Irritado com uma publicação, Vorcaro diz que acreditava haver uma parceria e afirma ter “comprado os caras”. Semanas depois, pede a Mourão que veja um valor mensal para impedir menções a seu nome e ao Master. Quando Mourão pergunta como responder sobre a proposta, Vorcaro sugere: “50K mês?” Essas são palavras e uma proposta registradas no telefone de Vorcaro. Os documentos aqui analisados não exibem a aceitação ou o pagamento pelo veículo. A frase revela o que o banqueiro queria obter da relação, sem conferir a ele autoridade para definir a conduta da redação. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 79–87.)


Outra sequência examinada pela PF envolve o jornalista Diego Escosteguy. Mensagens mostram um pedido de “segundo pagamento” e, posteriormente, dados bancários. Em 17 de novembro de 2025, uma reportagem publicada é enviada a Vorcaro, que repassa o link ao advogado Walfrido Warde segundos depois. O relatório policial interpreta a cronologia como parte de uma reação à investigação. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 106–114.)


O que une buscas, comentários e interlocução com a imprensa não é um único método de censura. É a tentativa, atribuída pela investigação ao núcleo de comando, de diminuir o espaço ocupado por notícias desfavoráveis e ampliar o espaço da versão conveniente ao banco.


Críticos como alvos de informação


A PF registra uma mensagem em que Vorcaro pede a Mourão para “hackear esse Lauro”, em referência ao jornalista Lauro Jardim. Mourão responde que consultaria “Os Meninos” e menciona a possibilidade de um link enviado por e-mail. O diálogo documenta a discussão de um método; os anexos examinados não documentam uma invasão consumada da conta do jornalista. (Representação da PF, pp. 219–221.)


No caso de Luiz Guilherme Atalla Camasmie, identificado no relatório como autor de críticas a Vorcaro, Mourão afirma que “os meninos estão dentro do iCloud do cara”. Vorcaro responde “Boa”. A mensagem demonstra que o suposto acesso foi comunicado ao banqueiro e recebeu sua aprovação. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 70–75.)


Essas duas cenas são diferentes. Uma contém uma instrução e uma ideia de execução; a outra, uma afirmação de êxito feita pelo intermediário. Juntas mostram como o telefone do controlador podia reunir críticas, identidades, pedidos de investigação sobre pessoas e notícias sobre o que a equipe dizia ter conseguido.


Daniel Vorcaro na porta das instituições


Quando a situação do Master se agrava, a atenção registrada no telefone também se volta para autoridades. Após uma reunião entre representantes da PF e do Banco Central em outubro de 2025, Vorcaro anota nomes de participantes e procuradores. Dias depois, uma nota recuperada de seu aparelho afirma que pessoas próximas no BC teriam transmitido informações confidenciais e menciona a possibilidade de levar preocupações a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. A anotação é evidência do que Vorcaro escreveu e da aproximação que procurava apresentar. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 100–103.)


Outra nota, feita na véspera da operação, pergunta pela proximidade de um interlocutor com o juiz Ricardo Soares Leite. O juiz surge ali como objeto de uma consulta de Vorcaro, não como participante de uma articulação demonstrada. (IPJ-A 1020625/2026, pp. 103–104.)


Um relatório posterior examina a relação de Vorcaro com um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A análise policial relaciona capturas de notas feitas no telefone a mensagens enviadas logo depois a esse contato. Em paralelo, há contratos de serviços jurídicos do Master com a Barci de Moraes Sociedade de Advogados e um comprovante de transferência de R$ 3.422.268,14 ao escritório. O contrato registra uma relação profissional; as notas e mensagens mostram a tentativa do banqueiro de acionar canais de influência. Transformar isso em atuação irregular do ministro exige estabelecer destinatário, conteúdo recebido, resposta e ato praticado. (IPJ-A 3298613/2026, pp. 6–16, 28–30 e 149–150.)



Em setembro de 2026, o caso alcançou uma disputa aberta no Supremo sobre o próprio tratamento do relatório referente a Moraes. Em 15 de setembro, um pedido de vista interrompeu a discussão preliminar no plenário antes do exame do mérito. A crise institucional tornou visível, para todo o país, uma questão que o celular já colocava: o que acontece quando o poder de um investigado de procurar autoridades se encontra com a obrigação de investigar também essas relações?


O dinheiro pagava quais funções?


Há um comprovante de R$ 1 milhão transferido da Super Empreendimentos para a King Participações, de Mourão. As conversas tratam essa cifra como pagamento habitual e colocam Fabiano Campos Zettel na intermediação financeira. O comprovante fixa uma operação real dentro do circuito; as mensagens dão o contexto da recorrência alegada. A primeira reportagem examinou a divisão que Mourão dizia fazer desse valor. Nesta etapa, a pergunta muda: quais tarefas as diferentes pessoas apresentavam como prestação pela estrutura financiada? (IPJ-A 1070759/2026, pp. 180–198.)



Há valores de naturezas distintas nos documentos: o milhão enviado à King, os R$ 50 mil mensais sugeridos na conversa sobre imprensa, notas emitidas pela empresa ligada a Marilson, e pagamentos por serviços advocatícios. Somá-los como se fossem uma única conta clandestina apagaria a diferença entre comprovante, proposta, documento fiscal e contrato profissional. Segui-los separadamente permite enxergar como informação, reputação, relações institucionais e resposta a críticos podiam ser administradas ao mesmo tempo.


Leia também:


O que acontece agora?


A investigação da PF sobre a estrutura atribuída ao entorno de Vorcaro continua. No Supremo, a discussão sobre o relatório que menciona Alexandre de Moraes foi interrompida antes do julgamento do mérito da petição.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos de interesse público para as plataformas do portal.

PGR mandou rastrear propostas apresentadas ou apoiadas pelo senador que poderiam beneficiar o Banco Master e Daniel Vorcaro. A Polícia Federal documenta Flávio Bolsonaro como interlocutor direto na negociação do financiamento de Dark Horse. Em outro relatório, investigadores descrevem Vorcaro monitorando autoridades, obtendo informações sigilosas e tentando influenciar agentes públicos. Agora, uma pergunta pode mudar definitivamente o tamanho do caso: houve contrapartida política aos milhões destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro?


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


R$ 134 milhões e Dark Horse: o que Vorcaro esperava de Flávio Bolsonaro?
R$ 134 milhões e Dark Horse: o que Vorcaro esperava de Flávio Bolsonaro? | Reprodução/Brasil 247

Há um ponto em que o caso Dark Horse deixa de ser apenas uma investigação sobre dinheiro e passa a atingir diretamente o exercício do poder político.


A existência da negociação financeira entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro já ultrapassou o terreno da revelação jornalística. Documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal, registram Flávio como interlocutor direto nas tratativas para um aporte previsto de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões pela cotação utilizada quando o caso veio a público.


A apuração aponta que pelo menos US$ 12,3 milhões foram efetivamente enviados. Mas o estopim político da investigação está em outra pergunta.


Não se trata mais apenas de saber quem pediu o dinheiro, quanto foi negociado ou por quais estruturas financeiras os recursos circularam. A própria PGR passou a procurar a outra ponta da relação: o que Daniel Vorcaro poderia receber da atividade parlamentar de Flávio Bolsonaro?


Em manifestação apresentada em julho, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu o levantamento das proposições legislativas apresentadas ou apoiadas por Flávio e pelo deputado Mário Frias que pudessem interessar ao Banco Master, a empresas vinculadas à instituição ou aos seus controladores, especialmente Vorcaro.


O documento afirma que era necessário aprofundar a apuração sobre eventual “prática de ato típico da função parlamentar” relacionada, numa lógica de causa e efeito, ao negócio cinematográfico.


Traduzido do vocabulário jurídico para a linguagem política, a investigação procura saber se existiu contrapartida.



Flávio Bolsonaro aparece como interlocutor direto


O relatório da Polícia Federal coloca Flávio Bolsonaro no centro das tratativas financeiras relacionadas ao filme. Segundo os investigadores:

“Tais elementos indicam que o senador Flávio Nantes Bolsonaro não aparece apenas como terceiro mencionado [...] mas como interlocutor direto de Daniel Vorcaro.”

A PF registra cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento das filmagens pelo senador.


A cronologia documentada começa em dezembro de 2024. Thiago Miranda organizou uma reunião entre Vorcaro e Flávio, em Brasília, para discutir o chamado “filme do presidente”. Mário Frias participaria do encontro.


Em janeiro de 2025, segundo os documentos, Flávio já pressionava, por intermédio de Miranda, para que o primeiro aporte fosse liberado. Posteriormente, a interlocução passou a ocorrer diretamente entre o senador e o banqueiro.


Em setembro, Flávio enviou um áudio cobrando pagamentos atrasados e mencionando o risco de inadimplência com integrantes norte-americanos da produção.


Em novembro, pouco antes da primeira prisão de Vorcaro, escreveu:


“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

Na sequência, pediu que o banqueiro lhe desse “uma luz”.


O Intercept Brasil revelou inicialmente que o compromisso financeiro poderia chegar a US$ 24 milhões. Documentos divulgados posteriormente pela investigação confirmaram o valor previsto no acordo e a existência de remessas milionárias destinadas ao fundo Havengate, nos Estados Unidos.


Flávio também reconheceu ter se encontrado com Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro, afirmando que a reunião teve como objetivo encerrar a participação dele no projeto cinematográfico.


O modo de atuação atribuído a Vorcaro pela PF


É neste ponto que outra peça da investigação envolvendo o Banco Master amplia o peso da pergunta feita pela PGR.


A Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 1020625/2026, produzida pela Polícia Federal a partir do conteúdo extraído do celular de Vorcaro, não trata especificamente da negociação de Dark Horse. O relatório, porém, descreve a forma como o banqueiro e pessoas de seu entorno teriam atuado em outras frentes.


Nas considerações finais, à página 122, a PF registra:


“As mensagens evidenciam que havia acesso recorrente e irregular a procedimentos sigilosos em andamento no MPF, na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Banco Central.”

O documento acrescenta que informações eram obtidas por meio de acessos funcionais de terceiros e consultas não autorizadas.


Nas páginas seguintes, a análise policial avança sobre outro terreno. A PF afirma ter identificado “tentativas de influenciar agentes públicos” e registra que Vorcaro monitorava autoridades, possuía informações internas atribuídas a servidores do Banco Central e, antes de uma operação policial, já sabia qual juiz e qual vara estavam responsáveis pelo procedimento, informação que ainda não era pública.


Na síntese dedicada ao banqueiro, a PF afirma que Vorcaro “monitorava autoridades”, “manipulava imprensa” e “tentava influenciar agentes públicos”.


Esse conjunto probatório não estabelece, por si só, que Flávio Bolsonaro tenha realizado atos desse tipo em benefício de Vorcaro. Ele explica, contudo, por que descobrir a existência ou não de uma contrapartida parlamentar se tornou uma diligência central.


Em outro braço da investigação, a própria Polícia Federal atribui a Vorcaro uma estratégia de obtenção de influência, informações e acesso a estruturas públicas.


Banco Central e BRB estavam entre os interesses do Master


Os interesses institucionais e regulatórios de Vorcaro também aparecem explicitamente nos documentos.


A página 97 da IPJ-A descreve mensagens relacionadas à tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília, o BRB.


Segundo a PF, Vorcaro ordenou a publicação de comentários em massa para produzir a percepção pública de que a operação havia sido bem-sucedida. Na página 99, surge nova ordem para produzir comentários favoráveis à negociação.


A partir da página 100, o relatório abre um capítulo intitulado “Monitoramento de autoridades, tentativa de influência sobre agentes públicos, obstrução à Justiça e plano de fuga”.


A Polícia Federal relata que Vorcaro mantinha registros sobre uma reunião sigilosa entre policiais federais e servidores do Banco Central envolvendo o Master.


BRB, Banco Central, decisões judiciais e autoridades responsáveis pelas investigações estavam, portanto, entre os temas acompanhados pelo banqueiro.


O ponto que a investigação precisa estabelecer é se algum pedido relacionado a esses interesses foi dirigido a Flávio Bolsonaro e se houve alguma ação funcional do senador ligada a essa eventual solicitação.


É exatamente esse espaço que a PGR decidiu investigar ao determinar o levantamento dos atos parlamentares.


Thiago Miranda liga dois circuitos


Há ainda uma personagem que atravessa dois núcleos importantes da história. Thiago Miranda foi o intermediário que aproximou Flávio Bolsonaro de Daniel Vorcaro e participou das cobranças e da operacionalização do financiamento de Dark Horse.



As mensagens registram Miranda organizando a primeira reunião e transmitindo cobranças feitas por Flávio.


Meses depois, seu nome apareceu em outra frente da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal passou a investigá-lo por participação no chamado “Projeto DV”, uma operação de comunicação que teria contratado influenciadores para defender o Banco Master, atacar o Banco Central e pressionar críticos da instituição.


Miranda admitiu à polícia a contratação de influenciadores, embora tenha negado que existisse orientação para atacar dirigentes do BC.


O ponto de conexão é objetivo: o homem que participou da ponte financeira entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro também apareceu na estrutura montada para defender os interesses do Master diante da crise envolvendo o Banco Central.


A relação entre esses dois circuitos é uma das peças que ajudam a explicar por que o caso deixou de ser apenas uma controvérsia sobre patrocínio cinematográfico.


Vorcaro também buscava interlocução no Supremo


Outra decisão juntada aos autos acrescenta uma dimensão institucional à rede de relações do banqueiro.


Na PET 16.669, página 9, o ministro Flávio Dino registrou a informação de que André Mendonça teria recebido Vorcaro para uma reunião nas dependências de uma empresa privada quando o banqueiro já figurava em investigação submetida ao ministro. Dino escreveu:


“o Ministro André Mendonça teria recebido [...] o Sr. Daniel Vorcaro, investigado em autos de sua própria competência.”

A decisão acrescenta que o encontro teria sido intermediado por pessoas também mencionadas em investigações judiciais.


O documento não relaciona aquela reunião diretamente a Flávio Bolsonaro. O episódio, porém, acrescenta mais um elemento ao retrato institucional de um banqueiro que mantinha interlocução em centros onde decisões relevantes para seus negócios poderiam ser tomadas.


Uma segunda investigação alcança o próprio filme


O problema de Dark Horse não se limita ao dinheiro atribuído a Vorcaro. Paralelamente, a PET 16.669 reúne investigação envolvendo emendas parlamentares, o Instituto Conhecer Brasil e empresas relacionadas à produção do filme.



Na página 7 de uma decisão de 150 páginas, o STF registra que Karina Gama é ligada à produção de Dark Horse, mantinha proximidade política com Mário Frias e que uma empresa de sua propriedade prestou serviços à campanha do parlamentar antes de o ICB receber recursos provenientes de emendas de sua autoria.


O inquérito paulista incorporado à PET contém ainda referência à reportagem intitulada “ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a filme sobre Jair Bolsonaro”, nas folhas 157.



"SÓ TE AGRADECER, MEU IRMÃO": Mario Frias agradeceu Vorcaro por apoio a filme sobre Jair Bolsonaro | Fonte: YouTube/The Intercept Brasil

O documento informa que a mensagem de voz foi enviada em 11 de dezembro de 2024, na mesma data da reunião marcada entre Vorcaro e Flávio.


Nas folhas 159, o mesmo caderno policial registra a reportagem sobre “Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro”.


O material referente à relação entre o banqueiro e o núcleo político da produção cinematográfica terminou, assim, incorporado formalmente aos autos de uma investigação hoje submetida ao Supremo.


A pergunta de R$ 134 milhões


Até aqui, a documentação pública avançou muito mais sobre o circuito financeiro do que sobre uma eventual contrapartida política.


  • Há reuniões.

  • Há mensagens.

  • Há cobranças.

  • Há um compromisso financeiro de até US$ 24 milhões.

  • Há milhões de dólares efetivamente remetidos aos Estados Unidos.

  • Há um intermediário comum.

  • Há manifestações pessoais de proximidade.

  • Há, em outro relatório da Polícia Federal, a descrição de Vorcaro como alguém que buscava informações internas, monitorava autoridades e tentava exercer influência sobre agentes públicos.


Agora falta esclarecer a outra ponta.


  • Daniel Vorcaro pediu alguma coisa a Flávio Bolsonaro?

  • Contato com o Banco Central?

  • Interlocução sobre o BRB?

  • Reunião com alguma autoridade?

  • Atuação no Senado?

  • Proposta legislativa?

  • Pressão política?

  • Acesso a ministro?

  • Intervenção diante de investigadores?

  • Manifestação pública capaz de favorecer o banco?


A PGR transformou essas perguntas em diligência investigativa quando pediu o levantamento das propostas legislativas de Flávio Bolsonaro e Mário Frias que poderiam interessar ao Master, às empresas vinculadas ao banco ou a Daniel Vorcaro.


É neste ponto que está o verdadeiro divisor de águas. Se os milhões destinados a Dark Horse forem documentalmente conectados a algum pedido de Vorcaro e a um ato funcional praticado por Flávio Bolsonaro em benefício do banqueiro ou do Banco Master, o caso deixará de estar restrito à origem e à circulação do dinheiro.


Passará a alcançar diretamente uma das fronteiras mais sensíveis do exercício de um mandato: a relação entre vantagem privada e poder público.


Flávio sustenta que os recursos correspondiam a investimento privado no filme, nega irregularidades e passou a defender a divulgação integral dos documentos. Depois da publicação dos áudios, também apoiou a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master.


Essas posições integram o contraditório. Não encerram a pergunta aberta pela própria investigação.


Porque, diante de R$ 134 milhões previstos para um filme ligado à família de um senador e candidato à Presidência, a questão de maior peso continua sem resposta definitiva: por que Daniel Vorcaro considerava tão importante financiar esse projeto e o que esperava obter da relação construída em torno dele?


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Raul Silva é jornalista políticode O estopim atua na cobertura do poder, das instituições e das disputas que conectam política, economia e sociedade, com foco na análise dos mecanismos de influência e das consequências concretas das decisões públicas.

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