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Relatório da Polícia Federal mostra que Daniel Vorcaro registrou o nome do juiz Ricardo Soares Leite e a 10ª Vara Federal Criminal às 15h51min31s de 16 de novembro de 2025, mais de 19 horas antes da reportagem citada por sua defesa como explicação para a procura pelo juízo. A PF reconstruiu os contatos do banqueiro com o jornalista responsável pela publicação e afirmou que a notícia usada depois para justificar a petição “teve origem no próprio investigado”.


Por Raul Silva para O estopim |

12 de setembro de 2026


PF desmonta versão de Vorcaro: celular mostra juiz e 10ª Vara antes de reportagem
PF desmonta versão de Vorcaro: celular mostra juiz e 10ª Vara antes de reportagem | Foto: Banco Master/Reprodução

A versão apresentada pela defesa de Daniel Vorcaro para explicar como chegou à 10ª Vara Federal de Brasília antes da prisão do banqueiro colide com a cronologia recuperada pela própria Polícia Federal no celular do investigado.


Uma Informação de Polícia Judiciária da PF registra que, às 15h51min31s de 16 de novembro de 2025, Vorcaro já havia escrito em uma nota o nome do juiz federal Ricardo Soares Leite e a referência à 10ª Vara Criminal Federal.


A reportagem posteriormente apontada pela defesa como origem dessa informação somente seria publicada às 11h08 do dia seguinte, mais de 19 horas depois.


A sequência consta na PET 15.978, documento 00004, a Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 1020625/2026, produzida pelo NADIP/DFIN/CGRC/DICOR da Polícia Federal.


Nas páginas 103 e 104, os investigadores apresentam a nota localizada no aparelho e seus metadados forenses.


O conteúdo extraído é:

“Voces sao proximos?Ricardo soares leite10 vara criminal federal”


Nos metadados, a criação da nota aparece em 16 de novembro de 2025, às 18h51min31s UTC, horário equivalente a 15h51min31s em Brasília. A legenda elaborada pela própria Polícia Federal confirma a conversão para o fuso horário de menos três horas.


Na página 104, os investigadores concluem que Vorcaro, naquele momento, “já tinha conhecimento” tanto da investigação que deu origem à Operação Compliance Zero quanto “do nome do juiz responsável e da vara onde tramitava” o procedimento.


Defesa disse que chegou à Vara depois de reportagem


É nesse ponto que a cronologia reconstruída pela Polícia Federal entra diretamente em conflito com a explicação apresentada pela defesa.


No relatório, a PF reproduz manifestação dos advogados segundo a qual a petição havia sido encaminhada à 10ª Vara depois da divulgação de informações pela imprensa.


A defesa sustentou que escolheu aquele juízo:

“precisamente porque a defesa desconhecia o número do inquérito e qual dos juízes era responsável por ele”.

Os investigadores apontam uma incompatibilidade temporal objetiva. O celular de Vorcaro já continha o número da Vara e o nome de Ricardo Soares Leite na tarde anterior à publicação da reportagem.


A página 105 do relatório acrescenta outro elemento.


PRINTS DE DOCUMENTOS STF - CASO MASTER
Página 105 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Em depoimento à Polícia Federal no dia 30 de dezembro, a delegada Janaína Palazzo perguntou a Vorcaro como seu advogado havia conseguido protocolar uma petição justamente na Vara correta no dia de sua prisão.


De acordo com a transcrição inserida no relatório, Vorcaro respondeu que o procedimento já havia sido adotado em outros casos depois da publicação de notícias e afirmou:


“A gente já sabia, na verdade.”

A mesma página informa que a defesa sustentou formalmente ter procurado a 10ª Vara depois de uma reportagem publicada pelo site O Bastidor, assinada pelo jornalista Diego Escosteguy.


A matéria, intitulada BRB-Master sem fim, foi publicada em 17 de novembro de 2025, às 11h08. A página original registra data e horário e informa que o inquérito estava na 10ª Vara Federal de Brasília.



PF confronta horário da notícia com os dados do celular


Na página 106, a Polícia Federal apresenta diretamente a inconsistência encontrada.


O relatório questiona como Vorcaro poderia ter registrado, às 15h51min31s do dia 16, uma conversa com “um interlocutor não identificado” sobre o juiz da 10ª Vara se, de acordo com a versão apresentada pela defesa, essa informação somente teria se tornado pública na manhã seguinte.


A PF registra:

“a informação sobre a existência do procedimento naquela Vara somente seria divulgada pela imprensa na manhã do dia seguinte”.

Página 103 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 106 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

O documento acrescenta que Vorcaro não possuía apenas a identificação da Vara. O banqueiro tinha também o nome do magistrado, informação que, segundo os investigadores, ainda não havia sido publicada.


A distinção é decisiva para a cronologia reconstruída pela Polícia Federal.


A Folha de S.Paulo já havia noticiado anteriormente a existência de investigação sobre o Banco Master, circunstância reconhecida no próprio relatório. O dado confrontado pela PF com a reportagem publicada no dia 17 é mais específico: a tramitação do procedimento na 10ª Vara e a identificação do juiz Ricardo Soares Leite.


O que aconteceu entre a anotação e a reportagem


A Polícia Federal não se limitou a comparar os horários da nota e da publicação.


Os investigadores reconstruíram também as comunicações realizadas por Vorcaro durante as horas que separaram a criação da anotação no celular e a publicação da reportagem.


Segundo a página 111, depois de registrar o nome do juiz e da Vara às 15h51min31s, Vorcaro procurou Diego Escosteguy ainda na noite de 16 de novembro.


Página 106 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 111 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

O jornalista tentou ligar para Vorcaro, não foi atendido e, mais tarde, o banqueiro retornou a chamada. A ligação teve duração de 4 minutos e 8 segundos.


A figura reproduzida pela Polícia Federal mostra que a conversa começou às 22h21.

Escosteguy pergunta se havia “News” e se poderia ajudar em alguma coisa. Vorcaro responde: “Pode falar”. Depois de uma nova troca de mensagens, os dois conseguem conversar por telefone.


Na manhã seguinte, o contato foi retomado.


A página 112 registra nova ligação entre os dois, desta vez com duração de 8 minutos e 9 segundos, acompanhada no relatório pela expressão “para alinharmos”.


Página 112 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 112 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

Pouco depois, Vorcaro enviou uma imagem cujo conteúdo não pôde ser recuperado. A avaliação registrada pela Polícia Federal é direta:


“a partir desse momento, observa-se o início da construção da reportagem.”

A figura 129 reproduzida no documento mostra ainda, antes da publicação, o texto que tratava do inquérito na 10ª Vara sendo enviado na conversa.


Reportagem chega a Vorcaro e vai para advogado 13 segundos depois


A matéria foi publicada às 11h08.


Segundo a perícia, às 11h11min48s, Diego Escosteguy enviou para Vorcaro a reportagem que acabara de ser publicada.


Apenas 13 segundos depois, às 11h12min01s, o banqueiro encaminhou o conteúdo ao advogado Walfrido Warde.


Às 11h24, depois de sucessivas ligações, Warde enviou a Vorcaro a minuta de uma petição já endereçada ao juiz federal da 10ª Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal.


A página 110 reproduz tanto a conversa quanto a primeira página da peça.


Página 110 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução
Página 110 dos Documentos liberados pelo STF sobre o Caso Master | Foto: Reprodução

É nesse momento da reconstrução que a Polícia Federal registra sua conclusão mais contundente sobre a sequência:


“Na realidade, a notícia utilizada como justificativa teve origem no próprio investigado”.

O relatório afirma que essa avaliação decorre da análise das conversas mantidas entre Vorcaro e Escosteguy.


Na reconstrução apresentada pelos investigadores, a reportagem foi posteriormente utilizada para justificar a apresentação da petição à Vara que Vorcaro já havia identificado no dia anterior.


A conclusão está formalmente registrada na Informação de Polícia Judiciária de Análise.


A PF recompõe uma cadeia digital formada por nota no celular, contatos com o jornalista, publicação da matéria, encaminhamento ao advogado e apresentação da petição, utilizando os vestígios recuperados do aparelho.


Conversa com Flávio Bolsonaro ocorreu na mesma janela de tempo


Outra troca de mensagens ocorreu justamente no intervalo em que a nota sobre Ricardo Soares Leite foi criada.


A conversa envolveu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).


Registros da Polícia Federal divulgados naquela semana mostram que, em 16 de novembro, Flávio enviou a Vorcaro conteúdos de visualização única às 15h38 e 15h43.


Às 15h46, escreveu:


“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”

Cinco minutos e 31 segundos depois da mensagem, às 15h51min31s, aparece no aparelho de Vorcaro a nota contendo “Ricardo soares leite” e “10 vara criminal federal”. Às 15h52, Vorcaro enviou a Flávio uma imagem de visualização única.


Às 15h53, o senador respondeu:


“Amém!”

Os registros dessa sequência foram reproduzidos pela CNN a partir do material da Polícia Federal.


No relatório que examina a nota criada às 15h51min31s, a Polícia Federal descreve o destinatário da pergunta registrada por Vorcaro como “um interlocutor não identificado”. O documento não identifica Flávio Bolsonaro como a pessoa com quem o banqueiro tratava do juiz e não atribui às imagens de visualização única trocadas entre os dois o conteúdo relacionado à 10ª Vara.


O conteúdo dessas imagens não aparece nos registros disponíveis analisados.


Mais de 19 horas separam a informação no celular da notícia


A cronologia documental estabelece quatro marcos.


Vorcaro registra o nome do juiz e da Vara às 15h51min31s de 16 de novembro. Naquela noite, procura Diego Escosteguy. Na manhã seguinte, volta a conversar com o jornalista. A reportagem citada pela defesa como origem da informação somente é publicada às 11h08 de 17 de novembro.


Quando a matéria chega a Vorcaro já publicada, às 11h11min48s, são necessários apenas 13 segundos para que ela seja encaminhada ao advogado.


Pouco depois, Vorcaro recebe a minuta dirigida à mesma 10ª Vara Federal que já aparecia registrada em seu celular desde a tarde anterior.


É essa cadeia de metadados, mensagens, ligações e documentos que levou a Polícia Federal a rejeitar, em seu relatório, a publicação do dia 17 como explicação para o conhecimento prévio de Vorcaro sobre a Vara e o juiz.


A questão central revelada pela perícia não está apenas no conteúdo de uma reportagem. Está no relógio.


E, nesse caso, os metadados registraram a informação antes que a notícia apontada pela defesa como sua origem fosse publicada.


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Raul Silva é jornalista político de O estopim e analista de ciências políticas, instituições, relações de poder e dinâmica sociopolítica brasileira. Sua cobertura acompanha os movimentos do Executivo, Legislativo e Judiciário, com atenção especial às disputas institucionais e aos seus efeitos sobre a sociedade.

Senador diz que decisão saiu em comum acordo com Lula; PF apura suspeitas ligadas ao Banco Master e a Augusto Ferreira Lima.


Por Raul Silva para O estopim | 24 de junho de 2026



Senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, deixa liderança do governo no Senado após operação da Polícia Federal
Líder do governo no Senado Federal, senador Jaques Wagner (PT-BA) | Foto: Carlos Moura/Agência Senado

O senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, deixou nesta quarta-feira (24) a liderança do governo no Senado após se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada, em Brasília. A saída ocorre seis dias depois de Wagner ser alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura suspeitas de corrupção envolvendo agente público com prerrogativa de foro e irregularidades no Sistema Financeiro Nacional.


Wagner anunciou a saída em publicação nas redes sociais. Segundo o senador, a decisão foi tomada “em comum acordo” com Lula. Ele afirmou que, neste momento, sua prioridade é provar inocência e se dedicar às campanhas de reeleição de Lula, do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e à própria disputa ao Senado.


A reunião entre Lula e Wagner ocorreu no Palácio da Alvorada. Segundo o Poder360, o encontro durou cerca de duas horas e selou a saída do parlamentar do posto de líder do governo no Senado.


A Folha de S.Paulo informou que Wagner resistia a deixar a função, mas que a saída foi consumada após a conversa com Lula. O jornal também registrou que o governo avaliava o desgaste político de manter no posto um aliado sob investigação.


A Polícia Federal informou que a 9ª fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada em 18 de junho para apurar a eventual participação de agente público em esquema de irregularidades envolvendo instituições do Sistema Financeiro Nacional. Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.


Segundo a PF, os fatos investigados podem caracterizar, em tese, os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. A nota oficial da corporação não cita nomes no texto divulgado, mas veículos como Agência Brasil, Poder360, Reuters e Folha identificaram Wagner e o empresário Augusto Ferreira Lima como alvos da fase da operação.


Leia também


Augusto Ferreira Lima é apontado nas apurações jornalísticas como ex-sócio de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A investigação busca esclarecer se houve relação ilícita entre executivos ligados ao banco e agentes políticos.


Jaques Wagner nega irregularidades. Em entrevista citada pela Agência Brasil, o senador afirmou estar “absolutamente tranquilo” em relação à investigação. Ele também declarou que sua relação com Daniel Vorcaro seria “praticamente zero” e que nunca recebeu dinheiro do Banco Master.


Até a última atualização desta matéria, não havia denúncia formal contra Wagner no caso, segundo a Reuters. Isso significa que a investigação está em andamento e que vale a presunção de inocência.


A liderança do governo no Senado é uma função estratégica. O líder articula votações, negocia com bancadas, defende projetos do Executivo e mede o apoio político do Planalto dentro da Casa.


A saída de Wagner, aliado histórico de Lula e ex-governador da Bahia, amplia o desafio de articulação do governo em ano eleitoral. O governo terá de escolher um substituto capaz de reorganizar a base no Senado, reduzir o desgaste político da investigação e manter a agenda legislativa em andamento.


O caso também amplia a pressão sobre o Planalto porque a Operação Compliance Zero já alcança personagens de diferentes campos políticos. A Reuters informou que a investigação do Banco Master também atingiu outros nomes relevantes, incluindo o senador Flávio Bolsonaro, que nega irregularidades.


O que acontece agora


O primeiro passo é a escolha de um novo líder do governo no Senado. Até a conclusão desta matéria, não havia confirmação oficial do substituto.


A investigação da PF segue sob supervisão do Supremo Tribunal Federal. Os materiais recolhidos nos mandados de busca e apreensão devem ser analisados pelos investigadores, e a defesa de Wagner poderá contestar medidas e apresentar documentos.


Politicamente, Lula tenta evitar que o caso contamine a articulação do governo e a campanha eleitoral de 2026. Wagner, por sua vez, passa a concentrar esforços na defesa e na manutenção de sua trajetória política na Bahia.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder público, cultura e direitos, com foco em contexto, checagem e interesse público.

Por Mateus Ayres para O estopim | 18 de junho de 2026



Auxiliares de Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que Jaques Wagner errou ao tentar usar o presidente como escudo político depois de ser alvo da Polícia Federal na nova fase da Operação Compliance Zero, ligada ao caso Banco Master. A leitura no Planalto é que o senador precisa responder individualmente às suspeitas e evitar que a crise seja empurrada para dentro do governo.


Retratos lado a lado de um homem idoso de cabelo branco e um homem barbado, ambos de terno, em fundo neutro, com expressão séria.
Jaques Wagner e Daniel Vorcaro em meio à crise política após operação da PF no caso Banco Master | Foto: Cristiano Mariz/O Globo e Ana Paula Paiva/Valor

A avaliação ganhou força depois que Wagner afirmou, em entrevista, que Lula telefonou para prestar solidariedade e teria dito que a ação representava uma tentativa de desestabilizá-lo. A fala foi vista por auxiliares do presidente como um movimento ruim, porque desloca o foco da defesa do senador para a figura de Lula em um momento em que o governo tenta sustentar a autonomia da PF e manter distância institucional do caso.


O incômodo não está apenas na citação ao telefonema. Interlocutores do governo avaliam que Wagner, ao trazer Lula para o centro de sua reação pública, transformou uma investigação individual em problema político para o presidente. A orientação mais segura, segundo essa leitura, seria o senador se explicar em nome próprio, sem convocar a autoridade presidencial como aval de inocência.


Nos bastidores, aliados de Lula no Congresso e no Palácio do Planalto já defendem que Wagner deixe a liderança do governo no Senado. A permanência no cargo é vista como fator de desgaste, porque mantém um alvo de busca e apreensão na função responsável por falar oficialmente pelo governo dentro da Casa.


A situação de Wagner é considerada sensível porque a liderança do governo no Senado não é um posto comum. O líder articula votações, negocia com bancadas e representa a posição do Planalto em temas estratégicos. Quando o ocupante desse cargo passa a ser investigado em um caso de grande repercussão, a crise deixa de ser apenas pessoal e passa a atingir a capacidade de articulação do governo.


Um integrante do governo ouvido em Brasília classificou como “praticamente insustentável” a permanência de Wagner na liderança após a operação. A expectativa em parte da base é que o próprio senador peça para deixar o posto, evitando que Lula tenha de demiti-lo publicamente.


O Planalto tenta manter uma linha de defesa institucional: a Polícia Federal investiga sem interferência, inclusive quando os alvos pertencem ao campo político do governo. Essa posição perde força se a reação de Wagner for interpretada como tentativa de se proteger sob a autoridade de Lula.


A operação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. Na decisão, o ministro André Mendonça registra que a PF aponta possível relação ilícita entre gestores ligados ao Banco Master, especialmente Augusto Ferreira Lima e Daniel Vorcaro, e o senador Jaques Wagner. A Polícia Federal sustenta que haveria indícios de vantagens econômicas indevidas ao parlamentar, direta ou indiretamente, por meio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo investigado.


O documento judicial descreve três eixos principais no caso envolvendo Wagner: possível entrega de vantagens econômicas, pagamentos e repasses a empresas ligadas ao núcleo familiar do senador e indícios de atuação parlamentar em temas de interesse do Banco Master. Entre esses temas aparecem crédito consignado, limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos e a operação de possível aquisição do Master pelo BRB.


A decisão também registra que a PF reuniu mensagens eletrônicas, áudios, chamadas de voz, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários, metadados, planilhas e comunicações extraídas de celulares apreendidos em fases anteriores da Compliance Zero.


Wagner nega irregularidades. Em nota, afirmou que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. Também disse que jamais recebeu dinheiro ou vantagem indevida do Banco Master e que valores em espécie apreendidos seriam fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões oficiais.


A preocupação do Planalto é que a tentativa de Wagner de exibir confiança pessoal de Lula vire munição para a oposição. A crise que, juridicamente, está concentrada no senador e em seu entorno pode ser apresentada politicamente como um problema do governo se o presidente aparecer como fiador público de sua defesa.


É por isso que auxiliares rejeitam a estratégia do escudo. Lula pode preservar a relação pessoal com Wagner, mas o cargo exige outra régua. O líder do governo não representa apenas a própria trajetória. Representa a palavra oficial do Planalto no Senado.


A saída menos custosa para o governo seria uma licença ou renúncia temporária de Wagner à liderança, sem antecipação de culpa e sem rompimento político. O movimento permitiria ao senador cuidar de sua defesa, manteria o devido processo legal e reduziria a associação direta entre o caso Master e o Planalto.


A permanência, por outro lado, tende a ampliar o custo. Cada nova diligência, documento ou vazamento passaria a atingir não apenas Wagner, mas também a imagem do governo que ele representa no Senado.


O cálculo no Planalto é simples: a defesa de Wagner deve ser feita por Wagner. Lula não pode ser transformado em escudo de uma crise que ainda não é dele.


O estopim — O começo da notícia!

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Mateus Ayres é jornalista investigativo e analista político de O estopim. Especialista em política nacional e internacional, disseca os bastidores do poder em Brasília e no mundo com olhar crítico, foco na justiça social e inegociável rigor ético e documental.

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