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OPINIÃO: A verdade é que a Globo cancelou o debate porque sua farsa perdeu o roteiro

1 de out.
3 min de leitura

Por Raul Silva

01 de outubro de 2026

Opinião


Tela azul em degradê com a palavra ELEIÇÕES em branco e um ícone circular no O, estilo moderno.
Cancelamento do debate presidencial da Globo: uma oportunidade perdida para o confronto de ideias antes das eleições cruciais do dia 4 de outubro. Explicações são necessárias para um evento tão significativo. | Foto: Reprodução/TV Globo

A Globo não cancelou apenas um debate. Cancelou uma encenação que deixou de funcionar como pretendia. Quando as decisões judiciais retiraram as condições para transformar o encontro em um espetáculo conveniente a Flávio Bolsonaro, a emissora apagou as luzes e correu para se apresentar como vítima. O nome escolhido para essa fuga foi insegurança jurídica. O nome que o público deveria dar a ela é conveniência política.


A explicação oficial tenta deslocar a discussão para a liberdade de imprensa. É uma embalagem respeitável para um conteúdo bastante menos nobre. A Globo queria mandar no palco, escolher quem poderia provocar desconforto e estabelecer como um candidato ausente seria exposto. Quando encontrou limites, passou a tratar esses limites como uma agressão à democracia. A democracia, pelo visto, só estava confortável enquanto obedecia ao regulamento da casa.


A exclusão de Renan Santos revela o mecanismo. Sua presença poderia produzir um confronto que a emissora não queria oferecer: um adversário do mesmo campo político colocando Flávio Bolsonaro diante de perguntas incômodas. Sem Renan, o candidato do PL teria um ambiente mais favorável. Com Renan, o roteiro corria o risco de sair do controle. Foi para preservar essa vantagem que a Globo tentou mantê-lo fora.


Não é necessário gostar de Renan Santos para perceber o que aconteceu. A questão é reconhecer que a emissora escolheu quais conflitos poderiam aparecer e quais deveriam ficar do lado de fora. O pluralismo virou uma porta giratória: entra quem não atrapalha o resultado desejado; quem ameaça o conforto do favorito fica esperando autorização.


O púlpito vazio de Lula completaria a operação. Aquilo não seria apenas uma informação visual sobre a ausência do presidente. Seria um instrumento de campanha, um alvo permanentemente iluminado, disponível para ataques sem resposta imediata. Enquanto um candidato falaria diante das câmeras, o outro seria reduzido a uma ausência cuidadosamente enquadrada. O debate de propostas daria lugar a um julgamento com a cadeira da defesa vazia.


A Globo sabia perfeitamente o valor político dessa imagem. Uma câmera também argumenta. Um enquadramento também acusa. A repetição de um lugar vazio pode produzir mais desgaste do que uma pergunta difícil. A emissora preparou esse recurso para oferecer a Flávio a oportunidade de atacar Lula sem enfrentar sua resposta no mesmo palco.


Quando a Justiça restringiu essa dinâmica e determinou a inclusão de Renan, a suposta celebração democrática perdeu sua utilidade. Eis a verdade que a nota oficial tenta esconder: o problema não era a impossibilidade de debater. Era a impossibilidade de realizar o debate politicamente desejado pela Globo.


As perguntas que emissora precisa realmente responder ao público que tanto diz defender e com quem tanto se diz preocupada são: ela escolheu o lado da extrema-direita? Escolheu o entreguismo que apresenta a submissão aos Estados Unidos como modernidade e a defesa da soberania brasileira como um incômodo? Sua ideia de país é um Brasil domesticado, sempre disposto a pedir licença para defender os próprios interesses? O discurso da independência editorial serve para esconder uma dependência ideológica que esse episódio deixou escancarada?


A poucos dias da eleição, a imparcialidade foi tratada como um acessório que poderia ser retirado quando atrapalhasse. Depois, a emissora ainda quis ocupar o lugar de guardiã da liberdade. É uma pretensão extraordinária: organizar um ambiente favorável a um candidato, resistir à presença de um adversário incômodo e, diante da intervenção judicial, cobrar solidariedade em nome da democracia.


A liberdade de imprensa virou o escudo de uma empresa que confunde sua vontade com o interesse público. Quando pode impor as condições, chama isso de autonomia. Quando precisa rever as condições, chama isso de interferência. Quando o espetáculo perde a direção desejada, cancela e entrega a conta aos tribunais.


O debate saiu do ar, mas a escolha política da Globo ficou exposta. A emissora queria um palco obediente, um adversário ausente e um confronto sob controle. Quando deixou de ter os três, desistiu do público. Seu compromisso com a democracia terminou exatamente onde começou o risco de perder o controle da narrativa.

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