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OPINIÃO | O "erro" que só erra para a esquerda: a Meta, a desculpa técnica e a censura com CNPJ

9 de out.
7 min de leitura

A empresa diz que foi uma "falha". Mas a falha tem direção, beneficiário e histórico: apagar Lula, esconder os negócios de Flávio Bolsonaro e servir aos interesses de Washington.


OPINIÃO de Raul Silva para O estopim |

9 de outubro de 2026

Colunas


Identidade visual da Meta e do Instagram em composição editorial sobre o debate de censura algorítmica nas eleições brasileiras
Artigo de opinião questiona a explicação da Meta sobre falhas nas métricas do Instagram e aborda denúncias de censura algorítmica, interferência eleitoral e soberania digital. | Foto: Reprodução

A Meta e a desculpa de sempre


Há um padrão na história recente das plataformas: quando a censura atinge a esquerda, a explicação oficial é sempre a mesma: "erro técnico", "falha no algoritmo", "inconsistência". Quando a vítima é a direita, aí sim o vocabulário muda: é "censura", "perseguição", com direito a audiência no Congresso, indenização milionária e declarações públicas de CEO.


A mais recente edição desse teatro acontece em pleno segundo turno da eleição presidencial de 2026. Pressionada pela campanha de Lula, a Meta finalmente admitiu que havia uma "falha" nas métricas do Instagram, uma falha que, por pura "coincidência", vinha derrubando o alcance dos vídeos do presidente e turbinando a campanha de Flávio Bolsonaro, como registraram a Revista Fórum e o Diário do Centro do Mundo.


A desculpa é esfarrapada não porque um erro técnico seja impossível, mas porque é seletiva. Erros técnicos são neutros por natureza: ora atingem um lado, ora outro. O "erro" da Meta, não. Ele tem direção política e beneficiário fixo. E não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez.


Um "erro" com números e endereço


Vamos aos fatos. Um relatório da inteligência da Secretaria Nacional de Comunicação do PT, obtido pelo Correio Braziliense, mostrou que a página de Flávio Bolsonaro tem, em média, 2,96 vezes mais engajamento do que a de Lula, apesar de ter 17,2% menos seguidores. A taxa de engajamento normalizada pelo estoque de seguidores: 10,23% contra 2,86%. Procurada pela reportagem, a Meta reconheceu que há "falha no algoritmo responsável por registrar a quantidade de visualizações nos vídeos".


Reparem na engenharia do argumento. A falha é admitida apenas depois que a campanha cobrou explicações e apenas na métrica que ficou impossível de esconder. Sobre o resto, silêncio absoluto: o bloqueio da conta de anúncios da campanha oficial, contra o qual o PT teve de protocolar recurso formal junto à própria Meta; as redes de páginas criadas no Instagram para collabs em massa em favor de Flávio; a monetização de desinformação anti-Lula como "negócio extremamente atrativo e lucrativo", tudo isso foi denunciado numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) aceita pela Justiça Eleitoral, hoje em andamento.


Enquanto isso, o Datafolha aponta empate técnico no segundo turno: Flávio com 49%, Lula com 45%. Ou seja: a "falha técnica" atua exatamente onde a eleição se decide, exatamente quando se decide, e exatamente contra um dos lados.


Derrubadas, bloqueios e suspensões sem motivo


O "erro" não se limita às métricas. Em setembro, o comediante Fábio Porchat publicou, em parceria com a página Revelando, uma série de vídeos detalhando "tintim por tintim" as relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, do Banco Master, o banqueiro que virou personagem central desta eleição e alvo de investigações. A Meta derrubou o vídeo e bloqueou a conta de Porchat. Só devolveu depois da repercussão. O deputado Orlando Silva (PCdoB), que levou o caso ao MPF, foi direto ao ponto: a Meta tentou "interferir nas eleições brasileiras", num episódio que mostra como a extrema-direita está associada às big techs.


Não foi caso isolado. Em dezembro de 2025, deputadas do PSOL já haviam acionado o MPF contra a Meta por redução de alcance e suposto bloqueio de contas de esquerda, como registraram o Congresso em Foco e O Globo. Entidades e parlamentares pediram investigação sobre censura a perfis progressistas. Contas foram suspensas sem motivação clara, sem explicação, sem direito de defesa, exatamente o que as mesmas plataformas classificam como "censura inaceitável" quando o alvo é outro.


Some-se a isso a decisão do TSE que mandou a Meta remover, em 24 horas, posts que ligavam Flávio Bolsonaro ao crime organizado, sob o argumento de "propaganda política negativa antecipada". Que a Justiça Eleitoral ordene remoções é uma coisa; que Flávio e seus aliados operem o Judiciário como braço auxiliar da moderação, enquanto a Meta faz silenciosamente a parte dela, é outra. O resultado prático é idêntico: as denúncias com provas documentais sobre os negócios de Flávio desaparecem do debate público na reta final da campanha, e o eleitor vota no escuro.


A ironia suprema: a "censura coletiva" de Flávio


O cinismo atinge o ápice quando se sabe que, no mesmo dia em que a Meta admitia sua "falha", Flávio Bolsonaro entrava com uma ação pedindo ao TSE a suspensão de 32 perfis de apoiadores de Lula até depois do segundo turno, a remoção de 221 publicações e o bloqueio de postagens em conjunto, com Lula e Alckmin entre os alvos.


O homem que posa de mártir da liberdade de expressão quer, literalmente, censurar 32 contas adversárias de uma só vez. Eis o modelo de negócio: para Flávio, liberdade de expressão é o direito de seus aliados mentirem sem consequência; para os outros, é o dever de calar. E a Meta, com seus "erros técnicos", entrega de graça o que o candidato tenta comprar na Justiça.


A guinada: quando o algoritmo virou militante


Nada disso acontece no vácuo. Desde janeiro de 2025, a Meta escancarou seu alinhamento político. Zuckerberg anunciou o fim da checagem de fatos, substituída por "notas da comunidade"; desmontou as políticas de diversidade; e nomeou Joel Kaplan, notório aliado de Trump, para chefiar as relações globais da empresa. Um executivo da própria Meta admitiu que o fim da checagem foi "decisão de Zuckerberg" e exaltou Musk. Em seguida, a empresa pagou US$ 25 milhões a Trump para encerrar o processo do banimento da conta dele: um acordo que o mundo inteiro leu como pedágio.


Jair Bolsonaro resumiu o clima com a franqueza que o caracteriza: "Que alegria ver o Zuck vir pro nosso lado". Não há sutileza possível: as plataformas escolheram lado. E a América Latina virou cobaia, a Meta já testa a substituição da checagem de fatos na região, sem consultar as leis locais nem os acordos assinados com as autoridades eleitorais.


Interferência eleitoral com CNPJ


Aqui chegamos ao ponto central: uma empresa estrangeira está moldando, por decisões internas tomadas em Menlo Park e calibradas em Washington, o fluxo de informação de uma eleição brasileira. Quando um algoritmo derruba o alcance de um candidato à Presidência e amplifica o adversário, isso não é moderação de conteúdo — é intervenção no processo eleitoral. É exatamente o que escreveram Paulo Rená Santarém, Jonas Valente e Júlia Caldeira na Folha de S.Paulo: a censura das plataformas é uma forma de interferência estrangeira nas eleições.


O histórico reforça a suspeita. As big techs vêm sendo investigadas pelo Cade por abuso de posição dominante e opacidade algorítmica; descumprem sistematicamente os termos dos acordos com o TSE; e fizeram lobby agressivo, em aliança explícita com o bolsonarismo, como lembra Orlando Silva, relator do PL das Fake News que sofreu pressão coordenada de Google, Meta e Twitter, para manter o Brasil sem regulação. Quem nada deve não teme transparência. Quem teme, tem o que esconder.


O dedo de Washington na balança latino-americana


E há o quadro maior, que o usuário médio do Instagram nunca vê: a crescente evidência de que a moderação das big techs opera em sintonia com os interesses do governo dos Estados Unidos na América Latina.


Em agosto de 2025, o ex-funcionário do Departamento de Estado Mike Benz detalhou na Câmara dos Deputados uma rede de 11 agências norte-americanas, USAID, CIA, Pentágono e Casa Branca à frente, que despejou mais de US$ 90 milhões em operações no Brasil durante o governo Bolsonaro, financiando ONGs, agências de checagem e think tanks como o Atlantic Council (dirigido por sete ex-diretores da CIA) para "instrumentalizá-las no controle da informação". Nas palavras dele: "não há dúvidas de que esse aparato inclinou a balança para um dos lados".


Que Benz fale a partir do campo trumpista não anula o essencial: o próprio aparato estatal norte-americano trata o ambiente informacional brasileiro como teatro de operações, com dinheiro, documentos e doutrinação, como demonstra o documentário de Bob Fernandes, "Documentos, dinheiro e doutrinação: a influência recente dos EUA na política brasileira". E a história da região é farta: na Bolívia de 2019, fundos ligados à NED financiaram organizações opositoras que deram a base civil para o golpe contra Evo Morales.


O padrão é antigo e tem dois braços. O braço aberto: o financiamento estatal norte-americano a candidatos, partidos e ONGs da direita e da extrema-direita alinhados a Washington, de Bolsonaro a Milei, passando pelos comitês civis bolivianos. E o braço algorítmico: as plataformas que "moderam" conforme a conveniência geopolítica de sua matriz. A Meta de 2026 é a fusão dos dois braços: paga indenização a Trump num ciclo e, no mesmo ciclo, "erra" sempre a favor dos trumpistas locais.


Soberania digital não é slogan


Diante disso, a pergunta não é mais se a desculpa do "erro" é verdadeira. É por que aceitamos tratá-la como hipótese razoável. Nenhuma empresa privada estrangeira tem o direito de decidir, por algoritmo opaco, quem fala e quem some do debate eleitoral de um país soberano.


As respostas existem e são conhecidas: transparência algorítmica obrigatória, auditoria independente das decisões de moderação, cumprimento forçado dos acordos com a Justiça Eleitoral, regulação das plataformas pelo Cade e responsabilização das big techs por interferência eleitoral, como já pedem o MPF, o PSOL, o PCdoB e o PT. O PL das Fake News, que a aliança big tech–bolsonarismo enterrou a golpes de lobby, precisa voltar à pauta no dia seguinte à eleição. E as investigações em curso, na Justiça Eleitoral, no MPF e no Cade precisam chegar ao fim, com nomes, algoritmos e contratos expostos.


O erro tem dono


A Meta quer que acreditemos que uma das empresas mais sofisticadas do planeta, que mede cada respiração de bilhões de usuários, prevê comportamento e fatura bilhões com microsegmentação não percebeu, durante semanas, que seu algoritmo estava asfixiando o principal candidato da esquerda e turbinando seu adversário. Quer que acreditemos que o "erro" coincidiu com o segundo turno, com o pagamento de US$ 25 milhões a Trump, com o fim da checagem de fatos, com a derrubada do vídeo de Porchat e com as suspensões de perfis progressistas sem justificativa.


Acreditar nisso não é ingenuidade; é cumplicidade. Erros repetidos, unidirecionais e eleitoralmente decisivos têm outro nome: método. O que a Meta chama de "falha técnica" é, na prática, a terceirização da censura política para um algoritmo de empresa norte-americana alinhada à Casa Branca. E o Brasil precisa decidir, com urgência, se é uma democracia que controla suas plataformas , ou uma praça pública alugada a Menlo Park, com contrato renovado a cada ciclo eleitoral e fatura cobrada em votos.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de conteúdos sobre política, sociedade e assuntos de interesse público.

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