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EDITORIAL | Incêndio na UFPE, a política do medo e o silêncio de quem deveria agir

8 de out.
15 min de leitura

Editorial de O estopim  | 8 de outubro de 2026


Enquanto a Universidade Federal de Pernambuco ardia em chamas, outra combustão, de natureza política e moral, avançava sobre o país. A extrema-direita não apenas assistiu: atiçou o ambiente de hostilidade, ameaçou quem resiste e voltou suas forças contra aqueles que ousaram denunciar. O que está em jogo ultrapassa uma universidade, uma eleição ou um partido. É o próprio direito de existir, pensar e discordar sem medo.


Prédio em chamas à noite, com janelas laranja, fumaça ao céu e luzes de emergência vermelhas ao lado.
Edifício da UFPE em chamas durante a noite de 7 de outubro de 2026, a polícia ainda apura as causas do incêndio, ninguém ficou ferido | Foto: Ricardo Fernandes/Folha de Pernambuco

Na noite de 7 de outubro, um incêndio de grandes proporções consumiu o segundo andar de um prédio no Campus Recife da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O fogo destruiu laboratórios, equipamentos, amostras e insumos científicos que representavam aproximadamente 20 anos de trabalho. Segundo estimativa do reitor Alfredo Gomes, os prejuízos chegam a R$ 100 milhões.


Porém, existem perdas que não podem ser contabilizadas. O que desapareceu entre as chamas não foi apenas patrimônio público. Foram anos de dedicação de pesquisadores, professores e estudantes. Foram experimentos que exigiram tempo, investimentos e conhecimento acumulado. Foram possibilidades de descobertas científicas nas áreas de farmácia, informática e genética. Pesquisas que poderiam beneficiar a sociedade brasileira e contribuir para a formação de novas gerações.


Tudo isso foi atingido em poucas horas. Ninguém ficou ferido. Desta vez.


A Polícia Federal instaurou inquérito e enviou peritos ao local para investigar as causas do incêndio. O que torna a situação ainda mais inquietante é que não se trata de um episódio isolado. Foi o terceiro incêndio registrado na universidade em apenas dez dias.


O primeiro ocorreu em 30 de setembro, em um laboratório do Departamento de Física. O segundo, em 4 de outubro, atingiu o laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências. O terceiro deixou um rastro de destruição que compromete anos de produção científica.


Três incêndios em tão pouco tempo. Três episódios dentro da mesma instituição. Três acontecimentos que exigem muito mais do que notas oficiais e manifestações protocolares de preocupação.


É preciso investigar, compreender o que aconteceu e identificar responsabilidades. A sociedade tem o direito de conhecer as causas e as circunstâncias de cada ocorrência. Uma universidade pública não pode conviver com a repetição de tragédias sem respostas claras.

Entretanto, há um elemento que torna esse cenário ainda mais perturbador.


Horas antes do incêndio, estudantes da UFPE receberam mensagens com ameaças explícitas contra departamentos da instituição. Entre elas, referências à possibilidade de "explodir o departamento" e menções diretas à candidatura de Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL).


O relato foi tornado público pelo deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE), que pediu uma investigação sobre a possível origem criminosa do incêndio e as circunstâncias que cercaram as ameaças.


A questão não está apenas no conteúdo das mensagens, mas no ambiente político que permite que ameaças dessa natureza circulem como se fossem uma extensão normal da disputa eleitoral.


Quando estudantes passam a ser ameaçados por suas posições políticas, quando departamentos universitários aparecem como possíveis alvos de violência e quando a militância passa a conviver com o medo de represálias, alguma coisa muito profunda está se deteriorando na vida democrática.


A universidade, que deveria representar um espaço de liberdade intelectual, pensamento crítico e pluralidade, passa a experimentar a intimidação como parte de sua rotina.


E isso não pode ser naturalizado. A resposta de setores da extrema-direita às denúncias também merece atenção. Em vez de uma condenação inequívoca das ameaças, o que se viu foi uma nova ofensiva contra quem decidiu torná-las públicas.


O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou suas redes sociais em uma manifestação interpretada como aquilo que estudiosos da comunicação política chamam de apito de cachorro, ou dog whistle.


A expressão descreve uma técnica de comunicação que emprega sinais, referências e mensagens capazes de mobilizar determinados grupos sem formular explicitamente o que se pretende estimular. Para o público geral, a mensagem pode parecer apenas mais uma provocação política. Para uma audiência já radicalizada, porém, pode funcionar como um sinal de convocação.


É justamente nessa ambiguidade que reside sua força. A manifestação de Nikolas foi apontada como um chamado velado contra estudantes envolvidos em atos favoráveis ao presidente Lula. O parlamentar nega envolvimento.


Mas uma negativa, por si só, não elimina a necessidade de examinar o contexto, a linguagem e os efeitos de manifestações públicas dirigidas a milhões de seguidores.


Quem ocupa um cargo eletivo e constrói sua influência nas redes sociais precisa compreender que suas palavras não circulam em um ambiente neutro. Elas encontram públicos, alimentam emoções e podem aprofundar hostilidades já existentes.


A responsabilidade política não começa apenas quando alguém pronuncia uma ameaça explícita. Ela também precisa ser discutida quando a comunicação pública contribui para transformar adversários em alvos permanentes de hostilidade.


Outro episódio acrescenta gravidade ao cenário. O deputado federal eleito Thiago Medina (PL-PE), aliado de Flávio Bolsonaro, aparece em registros de grupos de WhatsApp nos quais teriam sido identificadas mensagens de ameaça contra a UFPE. Medina seria um dos administradores do grupo denominado "UFPE ANTI-LULA", espaço em que teriam sido discutidos ataques à universidade.


Um dia antes do incêndio, o parlamentar havia anunciado publicamente a criação de grupos anti-Lula em universidades.


A sequência é perturbadora. Não apenas pelo intervalo entre os acontecimentos, mas pelo que revela sobre a forma como espaços universitários vêm sendo incorporados a estratégias de confrontação política.


Medina nega qualquer envolvimento. A negativa deve ser registrada. Mas não pode encerrar o debate sobre as mensagens, os grupos mencionados e a necessidade de esclarecimento de suas atividades.


É exatamente para isso que existem investigações. Para impedir que suspeitas sejam utilizadas como sentenças antecipadas, mas também para evitar que denúncias graves desapareçam sob o peso da influência política de seus envolvidos.


O problema ultrapassa a atuação de um ou outro parlamentar. Há uma engrenagem de intimidação que se alimenta da exposição permanente de adversários, da desqualificação de movimentos sociais e da tentativa de fazer com que pessoas comuns pensem duas vezes antes de expressar suas opiniões.


Essa pressão nem sempre se manifesta como violência física. Muitas vezes, começa com uma postagem, um ataque coordenado, uma enxurrada de insultos ou a divulgação de informações pessoais.


O resultado pode ser igualmente devastador. É o estudante que teme participar de uma manifestação. O professor que passa a medir as palavras em sala de aula. O pesquisador que evita se posicionar. O cidadão que prefere permanecer calado para não se transformar no próximo alvo.


A intimidação produz um efeito silencioso: faz com que a própria vítima passe a limitar sua liberdade antes mesmo de receber uma nova ameaça.


É assim que o medo deixa de ser uma consequência da violência e passa a funcionar como instrumento de poder. E, quando isso acontece, a democracia começa a perder espaço muito antes de qualquer ruptura formal das instituições.


Enquanto o fogo atingia a UFPE, outra forma de silenciamento continuava avançando nas plataformas digitais.


Perfis progressistas derrubados. Publicações contrárias a Flávio Bolsonaro removidas. Conteúdos políticos que desaparecem sem explicações satisfatórias. Usuários que não conseguem compreender por que foram punidos nem encontram mecanismos efetivos para contestar as decisões.


Uma censura que não precisa de soldados, viaturas ou documentos carimbados para produzir consequências concretas.


Basta que um sistema deixe de entregar uma publicação. Que uma conta desapareça das buscas. Que um perfil seja suspenso. Que anos de trabalho de comunicação sejam comprometidos por uma decisão cuja justificativa permanece inacessível.


É uma forma de poder particularmente perigosa porque atua sobre aquilo que se tornou essencial à vida pública contemporânea: a capacidade de ser visto, ouvido e encontrado.


As grandes plataformas não são apenas empresas que hospedam fotografias, vídeos e mensagens. Elas controlam parte significativa da infraestrutura pela qual milhões de brasileiros recebem notícias, acompanham candidatos, organizam manifestações e participam do debate político.


Quando essas empresas restringem a circulação de determinados conteúdos sem transparência, interferem diretamente nas condições em que a sociedade forma suas opiniões. E quem controla a visibilidade também exerce poder sobre o silêncio.


O caso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acrescenta outra dimensão a essa discussão. O parlamentar acionou judicialmente a rede social X para exigir o fornecimento de dados pessoais de cinco perfis responsáveis por críticas contra ele. Entre as informações solicitadas estão CPF, endereço de e-mail e número de telefone.


O que está em discussão não é apenas o direito de uma figura pública recorrer à Justiça. É a possibilidade de transformar instrumentos judiciais em mecanismos de identificação e intimidação de opositores.


Há uma diferença profunda entre buscar reparação por uma ofensa efetivamente ilícita e utilizar o peso de uma posição política para tentar expor cidadãos que exercem o direito de criticar representantes públicos.


A crítica é parte da vida democrática. Quem pretende ocupar o poder precisa estar preparado para recebê-la, inclusive quando ela é dura, incômoda ou desagradável. Transformar cada manifestação contrária em uma ameaça à própria honra é um caminho perigoso para qualquer sociedade que se pretende livre.


A plataforma X, controlada por Elon Musk, também tem sido alvo de acusações de restringir críticas e denúncias relacionadas a Flávio Bolsonaro. Até mesmo o Grok, sistema de inteligência artificial da empresa, teria exposto supostas estratégias bolsonaristas de censura, episódio que provocou indignação entre setores progressistas.


A contradição salta aos olhos. Grupos políticos que fazem da liberdade de expressão uma de suas principais bandeiras parecem demonstrar tolerância bastante seletiva quando a liberdade em questão pertence a seus adversários. A liberdade que vale apenas para quem concorda não é liberdade. É privilégio. E uma democracia não pode aceitar que o direito de expressão seja tratado como propriedade de um grupo político.


Na Meta, responsável pelo Instagram e pelo Facebook, o cenário também desperta preocupação. Em dezembro de 2025, perfis de parlamentares, figuras públicas de esquerda e veículos jornalísticos deixaram de aparecer na ferramenta de busca do Instagram.


O influenciador Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, que reúne mais de um milhão de seguidores, teve a conta desativada. O humorista Tiago Santinelli, o deputado Renato Freitas e até o perfil do presidente Lula sofreram restrições ou bloqueios.


Deputadas do PSOL acionaram o Ministério Público Federal contra a Meta, denunciando a ocultação de perfis da esquerda e apontando para a possibilidade de censura algorítmica. A resposta da empresa não ofereceu, segundo as denúncias, a transparência necessária para que os usuários compreendessem as decisões.


E aqui está um dos aspectos mais preocupantes dessa realidade. Em uma sociedade democrática, nenhuma empresa deveria possuir tamanho poder de interferência sobre o debate público sem estar submetida a exigências claras de responsabilidade.


Não é aceitável que uma plataforma possa reduzir drasticamente a visibilidade de um jornalista, de um parlamentar ou de um cidadão sem apresentar fundamentos específicos e sem assegurar uma contestação efetiva.


Muito menos em período eleitoral, quando a circulação de informações pode influenciar diretamente o conhecimento que os eleitores têm sobre os candidatos.


Não se trata de defender a liberdade para espalhar ameaças ou desinformação. Trata-se de impedir que o combate a abusos seja utilizado como justificativa genérica para decisões arbitrárias.


A sociedade precisa saber quem decide o que permanece visível, quais regras são aplicadas, como funcionam os recursos e quais interesses podem influenciar essas escolhas.


Sem transparência, a moderação deixa de ser compreendida como uma medida de proteção e passa a ser percebida como um exercício de poder sem controle público. O problema se torna ainda maior quando essa concentração de poder tecnológico encontra interesses políticos que ultrapassam as fronteiras brasileiras.


O governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, destinou US$ 1 milhão do Fundo de Direitos Humanos e Democracia para financiar organizações da sociedade civil brasileira que contestam a atuação do Supremo Tribunal Federal e sustentam acusações de censura no país.


O programa recebeu o nome de "Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil". O nome, por si só, já revela a disputa em torno da narrativa política que se pretende construir.


Sob a linguagem da proteção de direitos e liberdades, iniciativas dessa natureza podem servir para fortalecer agendas alinhadas a determinados interesses internacionais e ampliar pressões sobre instituições brasileiras. A Advocacia-Geral da União pediu investigação sobre o financiamento internacional à extrema-direita no Brasil.


O debate, portanto, não pode ser reduzido a uma suspeita abstrata de interferência estrangeira. Envolve recursos, organizações, iniciativas políticas e a necessidade de compreender como essas estruturas atuam dentro do país.


É preciso perguntar quem recebe esses recursos, quais projetos são financiados, quais objetivos são perseguidos e de que maneira essas iniciativas podem repercutir na disputa política nacional.


A soberania de um país não se resume às suas fronteiras territoriais. Ela também depende da capacidade de suas instituições funcionarem sem constrangimentos externos e de seus cidadãos decidirem livremente o próprio futuro.


Quando atores estrangeiros passam a financiar iniciativas diretamente relacionadas à contestação de instituições brasileiras, a transparência deve ser uma exigência incontornável.


O Brasil não pode aceitar que decisões sobre sua democracia sejam condicionadas por interesses de governos estrangeiros ou por corporações tecnológicas que não respondem diretamente à população brasileira. Nenhum país que pretende ser soberano deveria entregar a terceiros o controle das condições em que seu povo debate e escolhe seus governantes.


E, diante de tudo isso, onde está o Tribunal Superior Eleitoral? A pergunta precisa ser feita sem rodeios. O TSE é uma das instituições responsáveis por proteger a integridade das eleições, combater práticas ilícitas e garantir que a disputa política aconteça dentro das regras democráticas. Mas a percepção de lentidão diante de denúncias tão graves tem se tornado mais um fator de inquietação.


Enquanto perfis desaparecem das plataformas, enquanto cidadãos denunciam restrições injustificadas e enquanto ameaças políticas circulam, a resposta institucional frequentemente parece caminhar em uma velocidade incompatível com a urgência dos acontecimentos.


O problema é que o tempo da Justiça Eleitoral não pode estar completamente desconectado do tempo da sociedade.


Uma publicação removida durante uma campanha pode perder sua relevância antes que um recurso seja analisado. Uma conta suspensa por alguns dias pode ficar impedida de participar de momentos decisivos do debate público. Uma ameaça não enfrentada pode produzir medo suficiente para afastar alguém da atividade política. Em períodos eleitorais, o dano muitas vezes acontece antes da decisão.


O próprio tribunal já reconheceu a importância da rapidez em sua atuação. Um de seus representantes sintetizou essa necessidade em uma frase que deveria orientar permanentemente a Justiça Eleitoral: "Na Justiça eleitoral, se tardou, já falhou."


A frase é precisa porque expõe uma característica fundamental do processo democrático. Há direitos que, quando protegidos tarde demais, já foram comprometidos. O TSE aprovou resoluções destinadas a acelerar a retirada de conteúdos falsos e enfrentar a desinformação. Entretanto, a existência de normas não resolve, por si só, as dificuldades de sua aplicação.


É preciso que essas medidas também garantam proteção contra remoções injustificadas, critérios transparentes e possibilidade real de defesa. A Justiça Eleitoral não pode permitir que o combate à desinformação seja confundido com a autorização para silenciar manifestações políticas legítimas. E não pode se limitar a observar, de maneira distante, um cenário de crescente intimidação social.


Não basta afirmar que a democracia está protegida. É necessário demonstrar, por meio de decisões concretas, que seus mecanismos continuam funcionando para todos. A lentidão, nessas circunstâncias, deixa de ser apenas uma deficiência administrativa. Passa a ter consequências políticas. Quando uma instituição demora a agir diante de ameaças e arbitrariedades, oferece espaço para que os abusos continuem produzindo efeitos.


E quando a demora se repete em momentos decisivos, o silêncio institucional passa a ser interpretado como tolerância.


Em uma democracia ameaçada, a lentidão pode se transformar em cumplicidade pelos seus efeitos. Não porque toda demora represente uma escolha deliberada de favorecer alguém, mas porque a ausência de respostas oportunas permite que o medo e a intimidação continuem avançando.


O Brasil precisa de instituições capazes de compreender a dimensão dessa responsabilidade. O que está acontecendo não pode ser analisado como uma coleção de episódios desconectados.


Há um padrão político que merece ser observado em sua totalidade. De um lado, a escalada da hostilidade contra estudantes, professores, movimentos sociais e representantes da oposição. De outro, a atuação de plataformas digitais cujo poder de moderação interfere diretamente na circulação de informações. Somam-se a isso iniciativas de pressão internacional, disputas sobre a legitimidade das instituições e a dificuldade do Estado em responder com a rapidez necessária.


Cada uma dessas situações possui circunstâncias próprias e exige apuração específica. Mas, consideradas em conjunto, revelam um ambiente em que a intimidação deixa de ser excepcional e passa a fazer parte do cotidiano político.


O incêndio na UFPE torna essa realidade ainda mais dolorosa. A imagem de laboratórios destruídos pelo fogo representa algo maior do que a perda de equipamentos. Ela nos obriga a olhar para a fragilidade de espaços que deveriam estar protegidos da violência, do abandono e da hostilidade política.


Uma universidade pública não é um inimigo a ser combatido. Não é propriedade de um governo, de um partido ou de uma corrente ideológica. É patrimônio da sociedade. Da mesma forma, a liberdade de expressão não pertence às big techs. As instituições democráticas não pertencem aos políticos que temporariamente ocupam cargos públicos. E o Brasil não pertence a governos estrangeiros interessados em influenciar seus rumos.


O país pertence à sua população, inclusive àqueles que discordam de quem está no poder. Esse princípio deveria ser elementar. Entretanto, precisa ser reafirmado justamente porque há forças políticas empenhadas em reduzir a democracia à vitória de seu próprio grupo.


A extrema-direita brasileira, com figuras influentes no PL, com suas conexões internacionais e com estratégias de mobilização baseadas no confronto permanente, participa de um ambiente em que a pressão psicológica se converte em instrumento de disputa.


O adversário deixa de ser alguém com quem se debate e passa a ser alguém que precisa ser derrotado também no campo da reputação, da visibilidade e da liberdade de manifestação.


É uma lógica de desgaste contínuo. Ataca-se uma pessoa. Questiona-se sua legitimidade. Mobilizam-se seguidores contra ela. Multiplicam-se insinuações. Depois, quando surgem denúncias de intimidação, o debate é deslocado para outra polêmica. Criam-se novas cortinas de fumaça. O escândalo seguinte substitui o anterior. A sociedade é arrastada de uma indignação para outra, enquanto questões fundamentais permanecem sem resposta.


O que aconteceu com as pesquisas destruídas? Quem enviou as ameaças? Como funcionavam os grupos mencionados? Por que determinadas publicações desapareceram? Quem responde pelas decisões das plataformas? Quais interesses financiam estruturas de influência política? E por que as instituições demoram tanto a esclarecer aquilo que a sociedade precisa saber? Essas são as perguntas que importam. São elas que deveriam ocupar o centro do debate público.


O medo, afinal, não é apenas uma emoção individual. Quando utilizado sistematicamente no ambiente político, transforma-se em mecanismo de controle social. Uma sociedade amedrontada participa menos, questiona menos e se expõe menos.


Quando estudantes têm receio de organizar atos políticos, quando jornalistas enfrentam campanhas de intimidação, quando pesquisadores são tratados como inimigos ideológicos e quando cidadãos passam a desconfiar de que suas opiniões podem resultar em perseguição, a democracia continua existindo formalmente, mas perde parte de sua substância.


E talvez seja essa uma das formas mais perigosas de deterioração democrática. Não há necessariamente um único acontecimento que anuncie o rompimento definitivo. O que existe é uma sucessão de episódios que, pouco a pouco, tornam o inaceitável aparentemente normal.


Primeiro, tolera-se a ameaça como provocação. Depois, aceita-se a perseguição como disputa política. Em seguida, naturaliza-se a retirada arbitrária de conteúdos como uma simples decisão técnica. Por fim, acostuma-se ao silêncio das instituições como se ele fosse inevitável. Quando a sociedade percebe, já aprendeu a conviver com aquilo que deveria ter rejeitado desde o início.


É por isso que O estopim não considera possível tratar o atual cenário com indiferença. Não se pode normalizar o discurso de ódio. Não se pode relativizar ameaças políticas. Não se pode aceitar que plataformas privadas decidam, sem transparência, quais vozes merecem circular. Não se pode assistir passivamente a pressões estrangeiras sobre o debate nacional. E não se pode transformar a demora das instituições em uma espécie de resposta oficial.


O momento exige responsabilidade, coragem e compromisso com os direitos democráticos.

Investigar o incêndio na UFPE é indispensável. Esclarecer as ameaças também. Exigir respostas das plataformas digitais e das instituições eleitorais é uma obrigação pública.


Mas há algo ainda mais profundo a ser enfrentado: a tentativa de transformar o medo em uma condição permanente da participação política. A democracia não foi construída para garantir conforto aos poderosos. Foi construída para limitar o poder e assegurar direitos a quem precisa enfrentá-lo. Seu valor está justamente na proteção da divergência, da crítica, da oposição e das minorias políticas. Sem isso, as eleições se tornam apenas uma disputa formal entre forças desiguais, enquanto parte da sociedade aprende que falar pode custar caro demais.


A história brasileira já demonstrou os perigos de permitir que o autoritarismo avance sob o disfarce da ordem, da moralidade e da defesa de supostas liberdades. Não podemos aceitar que esse processo encontre novos caminhos por meio das redes sociais, do financiamento internacional, da intimidação cotidiana e da omissão institucional.


O incêndio na UFPE é fato e é metáfora. Fato, porque destruiu patrimônio científico, interrompeu pesquisas e deixou uma universidade diante de perdas profundas. Metáfora, porque ocorre em um país no qual outros incêndios, menos visíveis, também ameaçam consumir bens fundamentais: a liberdade de pensamento, a confiança nas instituições, o direito à crítica e a própria capacidade da sociedade de decidir seu destino sem medo.


O fogo material poderá ser apagado. Os edifícios poderão ser recuperados. Alguns equipamentos poderão ser substituídos. Mas há danos à vida democrática que não se reconstroem com recursos financeiros. A confiança destruída, o medo instalado e o silêncio imposto deixam consequências que atravessam gerações. E é justamente por isso que o país não pode esperar até que o dano se torne irreversível para compreender a gravidade do momento.


A extrema-direita segue alimentando um ambiente de confrontação, seus representantes multiplicam ataques e suas conexões políticas e tecnológicas ampliam o alcance das disputas. Ao mesmo tempo, aqueles que denunciam ameaças e arbitrariedades frequentemente precisam gastar suas energias defendendo o próprio direito de falar.


Depois, diante do ambiente de hostilidade que ajudaram a construir, muitos dos seus protagonistas se apresentam como espectadores inocentes. Atiça-se o fogo político e, em seguida, pergunta-se quem acendeu o fósforo. Essa contradição não pode continuar sendo tratada como uma característica comum do jogo eleitoral.


O que está em disputa não é apenas quem vencerá uma eleição.


  • É saber se, depois dela, os brasileiros continuarão tendo liberdade para discordar, pesquisar, protestar, fiscalizar e denunciar sem se sentirem ameaçados.

  • É saber se a universidade pública continuará sendo reconhecida como espaço de conhecimento ou será permanentemente transformada em alvo de guerras ideológicas.

  • É saber se a Justiça Eleitoral terá capacidade de responder aos desafios do mundo digital antes que seus danos se consolidem.

  • É saber, sobretudo, se a sociedade brasileira aceitará que o medo determine os limites de sua participação política.


A pergunta que permanece é incômoda, mas necessária: Até quando o Brasil assistirá à destruição de suas instituições, à intimidação de seus cidadãos e ao enfraquecimento de seus direitos como se tudo isso fosse apenas mais uma disputa entre partidos?


Até quando a violência verbal será relativizada? Até quando ameaças serão confundidas com liberdade de expressão? Até quando empresas privadas poderão restringir vozes sem prestar contas? Até quando as instituições responderão à urgência dos acontecimentos com a lentidão de quem parece não compreender o perigo?


E, principalmente, até quando o medo será mais forte do que a coragem de resistir? Porque uma democracia que obriga seus cidadãos a escolher entre o silêncio e a exposição ao ódio já está deixando de cumprir parte de sua promessa.


A liberdade não pode existir apenas para quem tem poder, dinheiro, influência ou milhões de seguidores. Ela precisa alcançar também o estudante ameaçado, o professor constrangido, o jornalista atacado, o pesquisador silenciado e o cidadão comum que deseja manifestar sua opinião.


Defender essas pessoas não é uma concessão ideológica. É defender as condições mínimas para que a democracia continue sendo democracia.


O estopim já foi aceso.


Resta saber quem terá coragem de apagar as chamas antes que aquilo que ainda nos resta de liberdade seja consumido pelo medo.


O estopim. Porque calar não é opção.

O estopim — O começo da notícia!


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