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Cinco críticas ao governo Lula que podem pesar contra sua reeleição em 2026

Dívida pública em alta, juros elevados, aumento da carga tributária, problemas apontados pelo TCU e investimento baixo pressionam o discurso de continuidade do governo.


Por Mateus Ayres para O estopim |

Cobertura especial das Eleições 2026

9 de agosto de 2026

Luiz Inácio Lula da Silva durante agenda pública em 2026
Dívida em 81,9% do PIB, juros de 14%, carga tributária maior, ressalvas do TCU e investimento baixo estão entre as principais pressões sobre Lula em 2026. | Foto: Ricardo Stuckert

Luiz Inácio Lula da Silva chega à eleição de 2026 pressionado por problemas econômicos e fiscais que atingem diretamente a avaliação de seu terceiro mandato. A dívida pública cresceu, os juros continuam elevados, a carga tributária aumentou, o Tribunal de Contas da União apontou fragilidades na gestão das contas públicas e a taxa de investimento permanece baixa.


São questões que atingem o governo justamente no momento em que Lula tenta convencer o eleitorado de que mais quatro anos no Palácio do Planalto representam segurança econômica e continuidade de políticas sociais.


1. A dívida pública aumentou mais de 10 pontos do PIB


A dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB em junho de 2026. Desde janeiro de 2023, início do terceiro mandato de Lula, o crescimento foi de 10,2 pontos percentuais do PIB.


O avanço ocorre apesar do aumento da arrecadação federal e das novas regras fiscais implantadas pelo próprio governo.


Nos 12 meses encerrados em junho, o déficit nominal atingiu aproximadamente R$ 1,3 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB. A conta de juros respondeu por 8,8% do PIB.


O resultado mostra o peso crescente do endividamento sobre as contas públicas. Quanto maior a dívida e mais elevados os juros, maior a parcela do orçamento destinada ao pagamento de despesas financeiras.


O TCU também chamou atenção para o problema ao analisar as contas federais de 2025. O Tribunal concluiu que o esforço fiscal realizado naquele ano não foi suficiente para interromper a trajetória de crescimento da dívida.


O governo cumpriu formalmente a meta fiscal, mas utilizou o limite inferior da banda e exclusões permitidas pela legislação.


Em 2025, o déficit efetivo da União foi de R$ 58,7 bilhões. Para efeito de cumprimento da meta, R$ 48,7 bilhões em despesas foram retirados do cálculo, reduzindo o déficit considerado para R$ 10 bilhões.


O resultado político é difícil de esconder: depois de três anos e meio de governo, a dívida pública está significativamente maior.


2. A inflação continua acima da meta e a Selic está em 14%


O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,64% em junho de 2026, acima da meta de inflação de 3%.


A taxa básica de juros também permanece elevada. Depois dos cortes realizados pelo Banco Central, a Selic está em 14% ao ano.


O efeito chega diretamente à população. Financiamento de imóveis, automóveis, empréstimos pessoais, crédito rotativo, parcelamentos e capital de giro das empresas ficam mais caros quando a taxa básica permanece nesse nível.


Os juros também aumentam o custo da própria dívida pública. O país passa a gastar mais para financiar o Estado justamente quando precisa ampliar investimentos em infraestrutura, saúde, educação, habitação, indústria e tecnologia.


A inflação perdeu força em alguns meses, mas o acumulado continua acima do objetivo perseguido pelo Banco Central.


Para um governo que chegou ao poder prometendo melhorar a vida da população e ampliar o poder de compra, inflação acima da meta e juros de 14% são problemas políticos concretos.


3. A carga tributária aumentou


A carga tributária bruta do governo geral chegou a 32,40% do PIB em 2025, com aumento de 0,18 ponto percentual em relação ao ano anterior.


No governo central, responsável pela arrecadação federal, a elevação foi de 0,26 ponto percentual do PIB.


O aumento ocorreu durante um governo que buscou ampliar receitas para sustentar o novo arcabouço fiscal e financiar programas públicos.


A contradição está nos números. O Estado arrecadou mais, mas a dívida continuou crescendo.


Esse é um dos pontos mais frágeis do discurso econômico do governo. O contribuinte paga mais enquanto o endividamento público também aumenta.


Empresas enfrentam tributação elevada e crédito caro. Trabalhadores e consumidores sentem parte dessa carga nos preços, nos serviços e no consumo.


O problema não está apenas no tamanho da arrecadação, mas no resultado entregue depois dela.


Quando um governo aumenta receitas sem estabilizar a dívida e sem elevar significativamente o nível de investimento, a cobrança sobre a qualidade do gasto se torna inevitável.


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4. O TCU apontou problemas na gestão fiscal e orçamentária


O Tribunal de Contas da União aprovou as contas presidenciais de 2025 com ressalvas e apresentou uma extensa lista de fragilidades.


Entre os problemas analisados pelo Tribunal estavam a qualidade das estimativas fiscais, a capacidade das regras fiscais de controlar a dívida, a gestão de benefícios tributários, a transparência do orçamento e a execução de investimentos públicos.


O TCU identificou problemas de avaliação e controle em gastos tributários que superaram R$ 544 bilhões.


Também encontrou falhas de rastreabilidade em programações discricionárias relacionadas a emendas parlamentares.


Outro problema apareceu na inclusão de novos projetos sem garantia adequada de recursos para obras que já estavam em andamento.


O Tribunal apontou ainda desalinhamentos entre prioridades previstas no Plano Plurianual e a execução efetiva de políticas nas áreas de saúde, educação, assistência social e infraestrutura.


Esses problemas atingem uma questão central para qualquer governo: a capacidade de transformar orçamento em política pública eficiente.


Não basta arrecadar mais ou ampliar despesas. É preciso saber onde o dinheiro está sendo aplicado, quais resultados foram entregues e se existem controles capazes de impedir desperdício, desorganização e decisões de curto prazo.


5. O Brasil continua investindo pouco


A taxa de investimento brasileira continua baixa. Em 2025, a Formação Bruta de Capital Fixo ficou em 16,8% do PIB. No primeiro trimestre de 2026, a taxa caiu para 16,5% do PIB.


A Formação Bruta de Capital Fixo apresentou crescimento de 3,5% em relação ao trimestre anterior, mas ficou 1,4% abaixo do resultado registrado no mesmo período de 2025.


Esse é um problema estrutural para um país que precisa crescer de maneira sustentável.

Investimento significa construção de fábricas, expansão da infraestrutura, compra de máquinas, modernização tecnológica e aumento da capacidade produtiva.


Sem investimento suficiente, o crescimento econômico encontra limites. O Brasil precisa ampliar portos, rodovias, ferrovias, saneamento, geração e transmissão de energia, infraestrutura digital, indústria e capacidade tecnológica.


Uma taxa próxima de 16% do PIB continua pequena diante dessas necessidades. O governo pode apresentar crescimento do PIB e melhora do mercado de trabalho, mas o baixo investimento limita o potencial de expansão da economia nos próximos anos.


Emprego forte não elimina os problemas econômicos


O principal ativo econômico do governo Lula está no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, abaixo dos 6,2% registrados um ano antes. O rendimento real também apresentou crescimento.


Esse resultado ajuda o governo eleitoralmente. Mas emprego forte não apaga dívida crescente, juros elevados, aumento da carga tributária, problemas de gestão orçamentária e investimento baixo.


A questão central de 2026 será saber se o eleitor considera que os resultados positivos do mercado de trabalho compensam os riscos acumulados nas contas públicas e na capacidade de crescimento da economia.


A conta chegou ao centro da eleição


A economia será uma das principais disputas da campanha presidencial. O governo tentará apresentar emprego, renda e políticas sociais como argumentos de continuidade.


A oposição terá números para atacar. A dívida bruta alcançou 81,9% do PIB. A Selic está em 14%. A inflação permanece acima da meta. A carga tributária aumentou. O TCU encontrou fragilidades importantes na gestão fiscal e orçamentária. A taxa de investimento continua próxima de 16% do PIB.


O terceiro mandato de Lula não termina economicamente onde começou. O Estado está mais endividado, a arrecadação pesa mais sobre a economia e o país continua investindo pouco.


Esse será um dos principais obstáculos para quem pretende convencer o eleitorado de que quatro anos adicionais representam continuidade sem aumento dos riscos fiscais.


O que acontece agora?


Os partidos têm até sábado (15) para apresentar pedidos de registro de candidatura à Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral começa no domingo (16).


O primeiro turno das eleições será realizado em 4 de outubro de 2026. Caso nenhum candidato obtenha maioria absoluta dos votos válidos, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.


Até lá, inflação, juros, emprego, dívida pública, impostos e custo de vida devem permanecer entre os principais temas da campanha.


Os próximos dados fiscais e econômicos mostrarão se o governo consegue chegar às urnas com uma melhora desses indicadores ou se a deterioração das contas públicas ganhará ainda mais peso na disputa.


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Mateus Ayres é jornalista de O estopim, com atuação em política nacional, política internacional e análise de conjuntura. Acompanha relações de poder, democracia e justiça social com apuração factual e rigor documental.

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