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Dívida pública em alta, juros elevados, aumento da carga tributária, problemas apontados pelo TCU e investimento baixo pressionam o discurso de continuidade do governo.


Por Mateus Ayres para O estopim |

Cobertura especial das Eleições 2026

9 de agosto de 2026

Luiz Inácio Lula da Silva durante agenda pública em 2026
Dívida em 81,9% do PIB, juros de 14%, carga tributária maior, ressalvas do TCU e investimento baixo estão entre as principais pressões sobre Lula em 2026. | Foto: Ricardo Stuckert

Luiz Inácio Lula da Silva chega à eleição de 2026 pressionado por problemas econômicos e fiscais que atingem diretamente a avaliação de seu terceiro mandato. A dívida pública cresceu, os juros continuam elevados, a carga tributária aumentou, o Tribunal de Contas da União apontou fragilidades na gestão das contas públicas e a taxa de investimento permanece baixa.


São questões que atingem o governo justamente no momento em que Lula tenta convencer o eleitorado de que mais quatro anos no Palácio do Planalto representam segurança econômica e continuidade de políticas sociais.


1. A dívida pública aumentou mais de 10 pontos do PIB


A dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB em junho de 2026. Desde janeiro de 2023, início do terceiro mandato de Lula, o crescimento foi de 10,2 pontos percentuais do PIB.


O avanço ocorre apesar do aumento da arrecadação federal e das novas regras fiscais implantadas pelo próprio governo.


Nos 12 meses encerrados em junho, o déficit nominal atingiu aproximadamente R$ 1,3 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB. A conta de juros respondeu por 8,8% do PIB.


O resultado mostra o peso crescente do endividamento sobre as contas públicas. Quanto maior a dívida e mais elevados os juros, maior a parcela do orçamento destinada ao pagamento de despesas financeiras.


O TCU também chamou atenção para o problema ao analisar as contas federais de 2025. O Tribunal concluiu que o esforço fiscal realizado naquele ano não foi suficiente para interromper a trajetória de crescimento da dívida.


O governo cumpriu formalmente a meta fiscal, mas utilizou o limite inferior da banda e exclusões permitidas pela legislação.


Em 2025, o déficit efetivo da União foi de R$ 58,7 bilhões. Para efeito de cumprimento da meta, R$ 48,7 bilhões em despesas foram retirados do cálculo, reduzindo o déficit considerado para R$ 10 bilhões.


O resultado político é difícil de esconder: depois de três anos e meio de governo, a dívida pública está significativamente maior.


2. A inflação continua acima da meta e a Selic está em 14%


O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,64% em junho de 2026, acima da meta de inflação de 3%.


A taxa básica de juros também permanece elevada. Depois dos cortes realizados pelo Banco Central, a Selic está em 14% ao ano.


O efeito chega diretamente à população. Financiamento de imóveis, automóveis, empréstimos pessoais, crédito rotativo, parcelamentos e capital de giro das empresas ficam mais caros quando a taxa básica permanece nesse nível.


Os juros também aumentam o custo da própria dívida pública. O país passa a gastar mais para financiar o Estado justamente quando precisa ampliar investimentos em infraestrutura, saúde, educação, habitação, indústria e tecnologia.


A inflação perdeu força em alguns meses, mas o acumulado continua acima do objetivo perseguido pelo Banco Central.


Para um governo que chegou ao poder prometendo melhorar a vida da população e ampliar o poder de compra, inflação acima da meta e juros de 14% são problemas políticos concretos.


3. A carga tributária aumentou


A carga tributária bruta do governo geral chegou a 32,40% do PIB em 2025, com aumento de 0,18 ponto percentual em relação ao ano anterior.


No governo central, responsável pela arrecadação federal, a elevação foi de 0,26 ponto percentual do PIB.


O aumento ocorreu durante um governo que buscou ampliar receitas para sustentar o novo arcabouço fiscal e financiar programas públicos.


A contradição está nos números. O Estado arrecadou mais, mas a dívida continuou crescendo.


Esse é um dos pontos mais frágeis do discurso econômico do governo. O contribuinte paga mais enquanto o endividamento público também aumenta.


Empresas enfrentam tributação elevada e crédito caro. Trabalhadores e consumidores sentem parte dessa carga nos preços, nos serviços e no consumo.


O problema não está apenas no tamanho da arrecadação, mas no resultado entregue depois dela.


Quando um governo aumenta receitas sem estabilizar a dívida e sem elevar significativamente o nível de investimento, a cobrança sobre a qualidade do gasto se torna inevitável.


Leia também


4. O TCU apontou problemas na gestão fiscal e orçamentária


O Tribunal de Contas da União aprovou as contas presidenciais de 2025 com ressalvas e apresentou uma extensa lista de fragilidades.


Entre os problemas analisados pelo Tribunal estavam a qualidade das estimativas fiscais, a capacidade das regras fiscais de controlar a dívida, a gestão de benefícios tributários, a transparência do orçamento e a execução de investimentos públicos.


O TCU identificou problemas de avaliação e controle em gastos tributários que superaram R$ 544 bilhões.


Também encontrou falhas de rastreabilidade em programações discricionárias relacionadas a emendas parlamentares.


Outro problema apareceu na inclusão de novos projetos sem garantia adequada de recursos para obras que já estavam em andamento.


O Tribunal apontou ainda desalinhamentos entre prioridades previstas no Plano Plurianual e a execução efetiva de políticas nas áreas de saúde, educação, assistência social e infraestrutura.


Esses problemas atingem uma questão central para qualquer governo: a capacidade de transformar orçamento em política pública eficiente.


Não basta arrecadar mais ou ampliar despesas. É preciso saber onde o dinheiro está sendo aplicado, quais resultados foram entregues e se existem controles capazes de impedir desperdício, desorganização e decisões de curto prazo.


5. O Brasil continua investindo pouco


A taxa de investimento brasileira continua baixa. Em 2025, a Formação Bruta de Capital Fixo ficou em 16,8% do PIB. No primeiro trimestre de 2026, a taxa caiu para 16,5% do PIB.


A Formação Bruta de Capital Fixo apresentou crescimento de 3,5% em relação ao trimestre anterior, mas ficou 1,4% abaixo do resultado registrado no mesmo período de 2025.


Esse é um problema estrutural para um país que precisa crescer de maneira sustentável.

Investimento significa construção de fábricas, expansão da infraestrutura, compra de máquinas, modernização tecnológica e aumento da capacidade produtiva.


Sem investimento suficiente, o crescimento econômico encontra limites. O Brasil precisa ampliar portos, rodovias, ferrovias, saneamento, geração e transmissão de energia, infraestrutura digital, indústria e capacidade tecnológica.


Uma taxa próxima de 16% do PIB continua pequena diante dessas necessidades. O governo pode apresentar crescimento do PIB e melhora do mercado de trabalho, mas o baixo investimento limita o potencial de expansão da economia nos próximos anos.


Emprego forte não elimina os problemas econômicos


O principal ativo econômico do governo Lula está no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, abaixo dos 6,2% registrados um ano antes. O rendimento real também apresentou crescimento.


Esse resultado ajuda o governo eleitoralmente. Mas emprego forte não apaga dívida crescente, juros elevados, aumento da carga tributária, problemas de gestão orçamentária e investimento baixo.


A questão central de 2026 será saber se o eleitor considera que os resultados positivos do mercado de trabalho compensam os riscos acumulados nas contas públicas e na capacidade de crescimento da economia.


A conta chegou ao centro da eleição


A economia será uma das principais disputas da campanha presidencial. O governo tentará apresentar emprego, renda e políticas sociais como argumentos de continuidade.


A oposição terá números para atacar. A dívida bruta alcançou 81,9% do PIB. A Selic está em 14%. A inflação permanece acima da meta. A carga tributária aumentou. O TCU encontrou fragilidades importantes na gestão fiscal e orçamentária. A taxa de investimento continua próxima de 16% do PIB.


O terceiro mandato de Lula não termina economicamente onde começou. O Estado está mais endividado, a arrecadação pesa mais sobre a economia e o país continua investindo pouco.


Esse será um dos principais obstáculos para quem pretende convencer o eleitorado de que quatro anos adicionais representam continuidade sem aumento dos riscos fiscais.


O que acontece agora?


Os partidos têm até sábado (15) para apresentar pedidos de registro de candidatura à Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral começa no domingo (16).


O primeiro turno das eleições será realizado em 4 de outubro de 2026. Caso nenhum candidato obtenha maioria absoluta dos votos válidos, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.


Até lá, inflação, juros, emprego, dívida pública, impostos e custo de vida devem permanecer entre os principais temas da campanha.


Os próximos dados fiscais e econômicos mostrarão se o governo consegue chegar às urnas com uma melhora desses indicadores ou se a deterioração das contas públicas ganhará ainda mais peso na disputa.


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Mateus Ayres é jornalista de O estopim, com atuação em política nacional, política internacional e análise de conjuntura. Acompanha relações de poder, democracia e justiça social com apuração factual e rigor documental.

Escolhido em 5 de agosto, deputado nega acusação sexual


Por Raul Silva para O estopim | Cobertura especial das Eleições 2026

7 de agosto de 2026

Alfredo Gaspar, escolhido como vice de Flávio Bolsonaro, durante anúncio em Brasília.
Alfredo Gaspar, escolhido como vice de Flávio Bolsonaro, durante anúncio em Brasília. | Foto: Vittor Sales

A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro levou para o centro da eleição presidencial de 2026 uma acusação criminal grave ainda sem conclusão. Anunciado por Flávio em 5 de agosto, Gaspar é alvo de diligências relacionadas a uma notícia de fato que pede apuração de suposto estupro de vulnerável contra uma menina que teria 13 anos à época dos fatos. Ele nega a acusação. A Procuradoria-Geral da República pediu novas diligências à Polícia Federal, enquanto a abertura formal de inquérito ainda depende de decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.


A escolha ocorre antes do encerramento formal da fase de registro das candidaturas. Pela legislação eleitoral, partidos e coligações têm até as 19h de 15 de agosto para protocolar no Tribunal Superior Eleitoral os pedidos de registro das chapas à Presidência e à Vice-Presidência. Portanto, Gaspar foi escolhido e anunciado como vice, mas a formalização eleitoral ainda passa pelo procedimento no TSE.


O que a notícia de fato contra Alfredo Gaspar realmente diz


A peça foi apresentada à Polícia Federal em 27 de março pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke. O documento é dirigido ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e pede tramitação sob sigilo, preservação de provas e proteção das pessoas envolvidas.


Segundo o texto, os parlamentares afirmam ter recebido informações, registros documentais e conversas que indicariam, em tese, relação sexual com uma menina de 13 anos. A narrativa sustenta ainda que da suposta violência teria resultado uma gravidez e, posteriormente, o nascimento de uma criança. Os nomes foram omitidos da parte pública por envolver dados sensíveis.


A notícia de fato também apresenta uma segunda acusação, ligada a uma possível tentativa de impedir que o episódio chegasse às autoridades. De acordo com a peça, um intermediário teria participado de tratativas que mencionavam R$ 70 mil supostamente já pagos e novas negociações no valor de R$ 400 mil. Os autores pediram rastreamento da origem, do destino e da forma de transferência desses recursos.


Alfredo Gaspar nega a acusação desde que ela veio a público. Sua defesa afirmou que os fatos apresentados por ele aos jornalistas envolveriam um primo e divulgou o relato de uma mulher adulta que disse não ser filha biológica do deputado. Segundo ela, seu pai seria Maurício Breda, primo de Gaspar, relação que teria sido confirmada por exame de DNA realizado anos atrás.


A controvérsia, contudo, não terminou com essa apresentação. Lindbergh Farias e Soraya Thronicke sustentaram que o episódio apresentado pela defesa seria diferente daquele informado à Polícia Federal, inclusive por divergências de cronologia. Reportagem publicada em março registrou que as versões mencionavam datas distintas.


Em 23 de abril, Gaspar realizou coleta de material genético na Perícia Oficial de Alagoas. Ele declarou que o objetivo era permitir a produção antecipada de prova e afastar a acusação.


Nesta sexta-feira, 7 de agosto, a defesa voltou a cobrar celeridade das autoridades para que seja realizado o confronto genético oficial. Até a publicação desta reportagem, não havia resultado público dessa comparação capaz de encerrar a controvérsia.


A denúncia sexual chegou ao debate público em 27 de março, no ambiente já altamente conflagrado da CPMI do INSS, da qual Alfredo Gaspar era relator.


No dia seguinte, o relatório produzido por ele, com cerca de 4 mil páginas e pedidos de indiciamento de mais de 200 pessoas, foi rejeitado por 19 votos a 12. A comissão terminou sem relatório final aprovado.


A coincidência entre o encerramento da CPMI e a apresentação da notícia de fato alimentou acusações políticas dos dois lados. Gaspar afirmou ser vítima de uma ofensiva para desmoralizá-lo. Seus acusadores sustentaram que a gravidade do material exigia intervenção imediata da Polícia Federal.


Ao anunciar Alfredo Gaspar como candidato a vice, Flávio Bolsonaro transformou uma controvérsia até então concentrada no Congresso e no STF em tema da eleição presidencial.


Gaspar não é mais apenas um deputado discutindo acusações com adversários em uma comissão parlamentar. Ele foi escolhido para integrar uma chapa que disputa a Presidência da República.


A Reuters registrou que a escolha ocorreu num cenário de dificuldades do PL em ampliar alianças nacionais e depois de Flávio ter discutido outros perfis para a vice. A chapa anunciada permanece integralmente dentro do PL.


O que acontece agora?


A Polícia Federal deve cumprir as novas diligências solicitadas pela PGR no caso da acusação por estupro de vulnerável. Depois disso, o material poderá subsidiar a decisão do ministro Gilmar Mendes sobre a abertura formal de investigação no STF. A defesa de Gaspar pressiona pela realização rápida do confronto de DNA.


Na esfera eleitoral, o PL tem até 15 de agosto, às 19h, para formalizar no TSE o pedido de registro da chapa presidencial.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na produção de conteúdo jornalístico com foco em apuração, análise documental e interesse público.

Por Helena Valente para O estopim | 23 de Maio de 2026



A denúncia apresentada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, sobre possíveis irregularidades em contratos de manutenção e reforma de escolas estaduais colocou a gestão Raquel Lyra diante de uma pergunta que não cabe mais na propaganda oficial: onde foi parar o dinheiro destinado à educação pública? O caso ganhou força após vídeo da presidenta licenciada do sindicato, Ivete Caetano, circular com imagens de boletins de medição, valores milionários e escolas que, segundo a entidade, seguem com infiltrações, mofo, risco elétrico, forros quebrados e ambientes sem condições adequadas para estudantes e profissionais.


O episódio atinge o centro do discurso político da governadora. Raquel Lyra tem repetido que passou parte do governo “arrumando a casa” e que agora Pernambuco “acelerou”. A denúncia do Sintepe inverte o sentido da frase e impõe outra leitura: se a casa foi arrumada, por que escolas listadas como atendidas por reformas continuam parecendo abandonadas? Se o governo acelerou, acelerou a entrega real ou acelerou a liberação de pagamentos sem garantia pública de resultado?


A pergunta é dura, mas necessária. Não se trata de afirmar, sem conclusão dos órgãos de controle, que houve desvio. Trata-se de cobrar explicação imediata sobre a distância entre a planilha oficial e a parede mofada, entre o boletim de medição e o fio exposto, entre o valor liquidado e a sala sem segurança.


Fachada branca de prédio alto com janelas verticais, galhos de árvore na frente e brasão na base.
Fachada da ETEPAM, escola que consta como recém reformada e onde os boletins de medição afirmam que foram gastos mais de R$ 2 milhões em melhorias | Foto: Sintepe

O Sintepe afirma ter coletado informações no Portal da Transparência do Governo de Pernambuco sobre um contrato de manutenção de escolas no valor total de R$ 182.784.905,05. Segundo a entidade, o contrato teria abrangido 798 unidades de ensino em todo o Estado.


A partir de boletins de medição de obra, o sindicato informou ter analisado parte da documentação e realizado vistoria presencial em uma amostra de dez escolas. A conclusão apresentada em coletiva foi grave: unidades que aparecem como contempladas por serviços de manutenção e reforma seguiriam com problemas estruturais incompatíveis com os valores informados.


Entre os problemas apontados estão:

  • infiltrações e mofo em paredes, tetos e salas de aula;

  • fiação exposta e risco de choque elétrico;

  • ambientes interditados ou inadequados para atividades pedagógicas;

  • banheiros sem condições adequadas de uso;

  • quadras deterioradas;

  • climatização insuficiente;

  • relatórios fotográficos com possíveis inconsistências;

  • suspeita de repetição de imagens em boletins de medição de períodos diferentes.


O sindicato diz ter encaminhado a denúncia ao Tribunal de Contas do Estado, ao Ministério Público de Pernambuco e ao Tribunal de Contas da União. A apuração desses órgãos será decisiva para separar erro administrativo, falha de fiscalização, irregularidade contratual e eventual dano ao erário.


Em vídeo publicado nas redes sociais, Ivete Caetano aparece diante da Escola ETEPAM e apresenta documentos, mostrando valores que passam de R$ 1,4 milhão, R$ 1,6 milhão e R$ 2,3 milhões para intervenções em unidades da rede estadual. Ela questiona, como escolas que aparecem em registros oficiais de manutenção continuam com sinais de precariedade.


Esse é o ponto central. O caso não depende apenas da retórica oposicionista nem da defesa automática do Palácio. O que precisa ser respondido é documental: qual serviço foi contratado, qual serviço foi executado, quem mediu, quem atestou, quem pagou, qual fonte de recurso foi usada e qual escola recebeu efetivamente cada intervenção.


A força da fala de Ivete Caetano está justamente na exposição de uma contradição concreta. Se o boletim informa manutenção elétrica, por que há denúncia de risco elétrico? Se o relatório fotográfico comprova serviço, por que o Sintepe aponta repetição de imagens? Se a escola foi reformada, por que professores e estudantes ainda convivem com mofo, infiltração e teto comprometido?


  • Documentos apresentados por Ivete Caetano em vídeo publicado no Instagram
  • Documentos apresentados por Ivete Caetano em vídeo publicado no Instagram
  • Documentos apresentados por Ivete Caetano em vídeo publicado no Instagram
  • Documentos apresentados por Ivete Caetano em vídeo publicado no Instagram

A denúncia vem sendo tratada no debate público como mais um escândalo na educação pernambucana e levanta questionamentos sobre dinheiro vinculado à educação, especialmente em um ambiente de confusão entre Fundeb, Fundef, precatórios e despesas de manutenção.


Essa distinção importa. O Fundeb financia a educação básica e possui regras de vinculação. Parte dos recursos deve ser destinada à remuneração de profissionais da educação e outra parte pode custear ações de manutenção e desenvolvimento do ensino. Já os precatórios do Fundef, decorrentes de diferenças históricas no financiamento educacional, também carregam forte marca de vinculação à educação e de disputa jurídica com trabalhadores da área.


Por isso, a gestão estadual precisa responder com precisão: os R$ 182,7 milhões questionados saíram de qual fonte? Houve uso de recursos de precatórios do Fundef? Houve mistura com outras rubricas da educação? Algum valor relacionado ao Fundeb entrou na execução? As despesas foram classificadas corretamente? As escolas receberam o serviço correspondente ao que foi liquidado?


Quando o dinheiro é carimbado para educação, a régua de transparência precisa ser mais alta. Não basta dizer que houve manutenção. É preciso mostrar a ordem de serviço, a nota de empenho, a medição, a foto, o fiscal responsável, a liquidação, o pagamento e o resultado físico dentro da escola.


Teto de sala vazia com placas faltando, luminárias e alto-falantes; paredes cinza e porta azul ao fundo.
Auditório da ETEPAM após reforma | Fonte: Sintepe.

A denúncia revela uma fratura comum na administração pública: a diferença entre a escola que aparece na planilha e a escola que o estudante encontra quando chega para estudar.


Na planilha, há valores milionários, medições, relatórios, fotos e atestos. No chão da escola, segundo o Sintepe, há mofo, fiação exposta, teto quebrado e calor. Essa distância é o verdadeiro escândalo, independentemente do desfecho jurídico.


Se a manutenção foi paga e não resolveu o problema, houve ao menos falha de planejamento. Se a medição foi atestada sem execução adequada, houve falha de fiscalização. Se documentos foram repetidos ou usados para justificar serviços não realizados, o caso entra em patamar mais grave e precisa de responsabilização administrativa, civil e, se for o caso, criminal.


A pergunta que o governo precisa responder não é apenas “quanto foi investido?”. A pergunta correta é: o que mudou na escola depois que o dinheiro saiu do cofre público?


Armários azuis gastos com cadeados em corredor, com adesivos e arranhões; pequeno texto branco visível.
Armários usados na ETEPAM após melhorias estruturais feitas pelo Governo Raquel Lyra na escola | Fonte: Sintepe

A Secretaria de Educação informou à imprensa que vem empenhando esforços para tornar o ambiente escolar mais seguro e adequado ao processo de ensino e aprendizagem. Também afirmou que as escolas passam por serviços de manutenção, reforma e ampliação, além de citar repasses do Programa Investe Escola para ações pedagógicas, conservação e melhorias de infraestrutura.


Em manifestação ao Jamildo.com, a Secretaria declarou que não haveria impedimento legal para a contratação da empresa Cetus Construtora e que duplicidades em boletins de medição teriam sido identificadas e saneadas.


A resposta, no entanto, não encerra o caso. Ao contrário, abre novas perguntas. Se havia duplicidade, quando ela foi identificada? Quem identificou? Qual foi o impacto financeiro? Houve pagamento indevido? O valor foi glosado? A empresa foi notificada? Houve responsabilização de fiscais? A documentação corrigida foi publicada de forma acessível?


A expressão “saneada” não pode funcionar como borracha administrativa. Em contratos de quase R$ 183 milhões, toda inconsistência precisa deixar rastro público de correção.


  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo
  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo
  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo
  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo
  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo
  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo
  • ETEPAM após melhorias feitas pela Cetus Construtora Ltda. paga com dinheiro público pelo governo

A empresa citada nos registros e nas reportagens é a Cetus Construtora Ltda.. A discussão sobre a contratação envolve valores elevados, serviços espalhados por centenas de unidades e execução simultânea em regiões diferentes do Estado.


Esse tipo de contrato exige fiscalização robusta. Não basta que a empresa apresente boletim. O Estado precisa conferir a execução física, validar quantidades, verificar qualidade, cruzar datas, comparar fotos, ouvir a direção da escola e registrar eventuais falhas.


A administração pública não pode terceirizar a confiança. Quando uma escola continua com problema depois de uma suposta manutenção, o fiscal do contrato precisa explicar por que atestou. Quando a foto se repete, alguém precisa explicar por que ela passou. Quando o serviço é pago e o usuário final não percebe a melhoria, o gestor precisa mostrar o que foi feito.


O caso da educação não aparece isolado. Ele se soma a uma sequência de episódios em áreas sensíveis do governo estadual, especialmente na saúde, onde a narrativa de obras e requalificações também tem sido confrontada por imagens de precariedade.


No Hospital da Restauração, maior emergência pública de Pernambuco, o governo anunciou investimentos milionários em reforma, ampliação e requalificação. Ainda assim, vídeos recentes mostraram água invadindo áreas internas, parte do teto cedendo e relatos de pacientes e acompanhantes com medo durante as chuvas. Também circularam registros de vazamentos por luminárias, tomadas e paredes.


A comparação é inevitável porque o padrão político se repete: o governo anuncia obra, exibe número, produz peça publicitária e vende a ideia de aceleração. Depois, a realidade aparece por baixo da pintura, na água que escorre, no teto que cede, no fio exposto, no mofo e no medo de quem precisa usar o serviço público.


Educação e saúde são áreas diferentes, com contratos diferentes e fontes de recurso diferentes. Mas a pergunta pública é a mesma: o dinheiro anunciado está virando entrega real ou está virando apenas imagem de governo?


Governos têm direito de divulgar ações. Mas propaganda pública não pode ocupar o lugar da transparência. Quando uma gestão diz que “arrumou a casa”, precisa aceitar que a sociedade abra a porta e olhe os cômodos.


No caso das escolas, o que se vê nas denúncias do Sintepe é um choque entre narrativa e evidência. O governo diz que acelerou. O sindicato diz que encontrou escolas deterioradas apesar de pagamentos milionários. A imprensa mostrou que a própria Secretaria reconhece ter havido duplicidades em boletins, ainda que afirme que o problema foi corrigido.


Esse conjunto é suficiente para exigir investigação ampla. Não basta uma nota de assessoria. Pernambuco precisa saber se houve erro, negligência, desperdício, pagamento indevido ou fraude.


Fachada moderna do Tribunal de Contas de Pernambuco, com placa Edif. Dom Helder Câmara, vista em ângulo.
Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco | Fonte: TCE/PE

O Tribunal de Contas, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União precisam atuar com rapidez, porque escolas continuam funcionando enquanto a apuração se arrasta.


O caminho mínimo passa por cinco providências:

  • auditoria dos contratos, empenhos, liquidações e pagamentos;

  • cruzamento entre boletins de medição e vistorias presenciais;

  • análise das fotografias usadas para comprovar execução;

  • identificação dos fiscais que atestaram cada serviço;

  • verificação da origem dos recursos e da compatibilidade com as regras da educação.


Também é necessário ouvir diretores, professores, estudantes, empresas contratadas, fiscais de contrato e gestores da Secretaria de Educação. A investigação não pode ficar limitada à formalidade dos documentos, porque a denúncia trata justamente da distância entre documento e realidade.


Mulher de camisa branca fala ao microfone em sala com painéis de madeira, em postura séria e concentrada.
Raquel Lyra atual governadora de Pernambuco | Foto: Reprodução

Raquel Lyra chegou ao governo prometendo gestão técnica, reconstrução administrativa e capacidade de entrega. A denúncia do Sintepe atinge esse núcleo de imagem. Se a gestão se vende como organizada, precisa provar que sabe controlar contratos. Se diz que acelerou, precisa demonstrar que a aceleração não atropelou a fiscalização.


O problema não é apenas contábil. É político, social e moral. Cada real mal aplicado em uma escola pública é retirado de estudantes que já enfrentam desigualdade, salas quentes, evasão, violência, falta de estrutura e desvalorização dos profissionais.


Não há política educacional séria quando o prédio adoece. Não há valorização do professor quando ele trabalha sob risco elétrico. Não há aprendizagem plena quando o aluno precisa dividir atenção entre a aula e a infiltração no teto.


O Governo de Pernambuco deve explicações objetivas à sociedade. Não basta dizer que investiu. Precisa provar que entregou.


As perguntas centrais são:

  • qual foi o valor total contratado, empenhado, liquidado e pago à Cetus Construtora na manutenção das escolas;

  • quais escolas foram atendidas e quais serviços foram realizados em cada unidade;

  • qual foi a fonte de recurso usada em cada pagamento;

  • quem foram os fiscais responsáveis por atestar os boletins;

  • quais boletins tiveram duplicidade ou inconsistência;

  • se houve glosa, ressarcimento, penalidade ou correção contratual;

  • por que escolas apontadas como reformadas seguem com problemas estruturais;

  • como o governo pretende proteger estudantes e servidores enquanto a apuração ocorre.


A resposta precisa vir com documentos, não com slogans.


O Sintepe e Ivete Caetano colocaram uma pergunta que o governo não pode tratar como ataque político: cadê a reforma das escolas?


A sociedade pernambucana tem o direito de fazer outra: se a gestão passou três anos dizendo que arrumava a casa e agora diz que acelerou, acelerou exatamente o quê?


A resposta precisa aparecer nas escolas. Não no vídeo oficial, não no discurso de palanque, não na placa de obra. Precisa aparecer na sala sem mofo, no banheiro funcionando, no fio protegido, na quadra segura, no teto firme e no dinheiro público aplicado onde deveria estar.


Enquanto isso não acontecer, a denúncia sobre os R$ 183 milhões continuará sendo mais que uma disputa entre governo e sindicato. Será um retrato incômodo de um Estado que anuncia transformação, mas ainda precisa provar que transformou a vida de quem depende da escola pública.


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Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Dedica sua cobertura às políticas públicas, ao financiamento da educação, às desigualdades escolares e aos impactos das decisões de Brasília no cotidiano de estudantes, professores e comunidades. Sua escrita une apuração, análise crítica e compromisso com a defesa da escola pública, gratuita, laica, inclusiva e socialmente referenciada.

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