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Raquel Lyra apresenta balanço de obras viárias; esses investimentos incluem empréstimos e recursos federais

Parte do ciclo de obras foi financiada por Banco do Brasil e Caixa, com garantia da União; projetos em Petrolina também começaram antes da atual gestão.


Por Raul Silva para O estopim |

27 de agosto de 2026

Cobertura das Eleiçcões 2026



Raquel cita R$ 7 bi, mas não fala de empréstimos
Raquel Lyra durante sabatina em que apresentou investimentos do PE na Estrada em Pernambuco | Foto: Reprodução

A governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), apresentou nesta quinta-feira (27), durante sabatina na Rádio Grande Rio FM, o programa PE na Estrada como uma das principais realizações de sua gestão. Ela afirmou que o Estado investe mais de R$ 7 bilhões em rodovias e disse que 1.650 quilômetros já foram restaurados ou implantados. Na apresentação dos números, porém, não citou que parte importante do ciclo de investimentos foi financiada por empréstimos contratados junto a bancos públicos federais, com operações avalizadas pela União, nem que obras incluídas na vitrine atual já tinham projetos e processos iniciados antes de sua posse.


“Estamos investindo mais de R$ 7 bilhões nas estradas de Pernambuco”, declarou Raquel durante a entrevista.

Segundo a candidata, intervenções nos perímetros irrigados de Petrolina e em outras regiões do Sertão fazem parte do resultado de sua administração.


O total de R$ 7 bilhões, entretanto, não corresponde integralmente a dinheiro já gasto. Em março deste ano, quando o Governo de Pernambuco anunciou mais R$ 2 bilhões para o PE na Estrada, o programa passou de R$ 5,1 bilhões previstos para R$ 7,1 bilhões. Naquele momento, o balanço divulgado apontava R$ 4,6 bilhões aplicados em obras concluídas ou em andamento. Dados posteriores apontaram R$ 5 bilhões executados e outros R$ 2 bilhões garantidos para novas intervenções.



Governo Raquel Lyra contratou bilhões em empréstimos


Uma das bases financeiras para a ampliação dos investimentos públicos de Pernambuco foi a contratação de operações de crédito.


Em maio de 2023, a Assembleia Legislativa de Pernambuco autorizou o governo Raquel Lyra a contratar até R$ 3,4 bilhões em empréstimos com instituições financeiras nacionais e internacionais. A autorização previa garantia da União.


Ao longo daquele ano, o Estado anunciou cerca de R$ 3,4 bilhões em operações: R$ 900 milhões com o Banco do Brasil, R$ 1,7 bilhão com a Caixa Econômica Federal, mais R$ 650 milhões com a Caixa e R$ 197,6 milhões novamente com o Banco do Brasil. Estradas estavam entre os destinos informados para os recursos captados.


Os empréstimos passaram a financiar investimentos do Governo de Pernambuco, mas também se tornaram obrigações financeiras do Estado. O dinheiro precisa ser devolvido aos bancos, com juros e encargos.


O próprio Governo de Pernambuco registrou em balanço divulgado pela Secretaria da Fazenda que a captação recorde ocorreu com “diálogo constante junto ao governo federal”. A administração estadual informou que os R$ 3,4 bilhões pactuados em nove meses seriam usados para reforçar o caixa e ampliar investimentos públicos.


Banco do Brasil aparece como fonte de obra no Sertão


A ligação entre empréstimos e obras rodoviárias aparece nos registros oficiais de despesas. O sistema Tome Conta, do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, registra um empenho de R$ 10,8 milhões para a restauração de 10,1 quilômetros da VPE-639, entre a BR-407, em Burrinho, e a região do Núcleo 5, em Petrolina.


A fonte indicada pelo TCE-PE é BB 900 - Projeto de Infraestrutura Rodoviária III”, referência à operação de crédito de R$ 900 milhões contratada com o Banco do Brasil. Do empenho registrado em 2023, mais de R$ 10,5 milhões aparecem como pagos.


A VPE-639 integra o conjunto de vias dos perímetros irrigados de Petrolina destacado pelo governo. O sistema rodoviário estadual identifica atualmente o trecho da BR-407, em Burrinho, em direção ao Núcleo 5 como parte da PE-654.


Assim, ao menos uma das intervenções usadas como exemplo na região tem registro oficial de pagamento associado diretamente ao financiamento de R$ 900 milhões do Banco do Brasil.


Caixa também financiou infraestrutura e rodovias


A Caixa Econômica Federal, outro banco controlado pela União, também participou do financiamento da gestão estadual.


Em abril de 2025, a Caixa assinou com o Governo de Pernambuco um novo contrato de R$ 288 milhões pelo Finisa, linha de financiamento destinada à infraestrutura e ao saneamento.

A própria Caixa informou que o dinheiro poderia ser utilizado em expansão e recuperação da malha viária, mobilidade, infraestrutura hídrica, saúde e segurança pública.


Na assinatura, Raquel afirmou que o financiamento serviria para pavimentação, recapeamento e outras obras.


Parte da estrutura financeira já existia antes de Raquel


A declaração feita por Raquel na sabatina também atribui à atual gestão o período necessário para “arrumar a casa”, elaborar projetos e captar recursos.


Documentos da Secretaria da Fazenda mostram que Pernambuco terminou 2022, ainda no governo Paulo Câmara, informando R$ 3 bilhões em caixa e R$ 3,4 bilhões em operações de crédito pré-aprovadas com aval da União.


O governo anterior havia recuperado a capacidade de pagamento necessária para contratar novos financiamentos. Em apresentação feita ainda em 2022, a Sefaz registrou que a melhora fiscal permitiria ao governo seguinte iniciar 2023 com capacidade para contratar bilhões em operações de crédito.


A gestão Raquel negociou, contratou e executou novos financiamentos, mas recebeu um Estado que já havia recuperado acesso ao mercado de crédito.


Obras de Petrolina tiveram processos iniciados em 2022


Também há continuidade administrativa nas próprias rodovias apresentadas atualmente como entregas da gestão.


A PE-638, citada pela campanha durante a passagem de Raquel por Petrolina, já tinha processo licitatório para obras de restauração em julho de 2022. Documento oficial daquele ano registra a concorrência para recuperar o trecho entre a BR-428 e a BR-407.


A VPE-639 também já possuía contratação relacionada à supervisão e fiscalização da obra em 2022. Mapa oficial de contratos do DER registra a concorrência daquele ano para os serviços no trecho entre a BR-407, em Burrinho, e a região do Núcleo 5.


As intervenções foram retomadas, financiadas e concluídas durante o governo Raquel, mas não começaram administrativamente do zero em janeiro de 2023.


Governo Lula também investe diretamente nas rodovias de Pernambuco


Além dos financiamentos contratados pelo Estado em bancos federais, o governo Lula mantém investimentos próprios na infraestrutura rodoviária de Pernambuco.


Em maio deste ano, o Ministério dos Transportes e o DNIT anunciaram R$ 473 milhões do Novo PAC para obras em rodovias federais no Estado.


O pacote inclui intervenções nas BRs 101, 104, 110, 316 e 363, com recursos federais para pavimentação, recuperação, mobilidade e revitalização. Somente os trechos das BRs 110 e 316 receberam previsão superior a R$ 387 milhões.


Essas obras são investimentos diretos da União e se somam ao ciclo de infraestrutura em Pernambuco.


O que ficou fora do discurso da sabatina


Na Grande Rio FM, Raquel destacou os quilômetros recuperados e os bilhões destinados às estradas, mas não explicou a composição financeira que permitiu ampliar os investimentos.


O quadro documentado envolve empréstimos tomados pelo Estado, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, garantia da União e capacidade de crédito recuperada na gestão anterior e investimentos rodoviários executados diretamente pelo governo federal.


Também envolve dívida pública. O dinheiro captado nos financiamentos bancários não foi gerado exclusivamente pelo caixa estadual. Pernambuco recebeu os recursos antecipadamente e assumiu a obrigação de pagá-los ao longo dos anos.


Ao anunciar que “estamos investindo mais de R$ 7 bilhões”, a candidata concentra o crédito político das obras em sua administração. Os documentos públicos mostram uma estrutura financeira e administrativa mais ampla por trás da vitrine apresentada na campanha.


O que acontece agora?


Raquel promete manter o ritmo de investimentos caso seja reeleita. A campanha afirma que 1.650 quilômetros já foram recuperados ou implantados e que mais obras serão realizadas.


O próximo ponto de fiscalização é acompanhar quanto dos R$ 7 bilhões foi efetivamente pago, quanto está em execução, quanto ainda depende de contratação e qual parcela foi financiada por operações de crédito que permanecerão na dívida de Pernambuco.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim.Atua na cobertura de política, poder público, fiscalização e temas de interesse coletivo.


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