João Campos usa 7 de Setembro para defender igualdade e cita mais de 80% dos investimentos nas periferias
Candidato apresenta gestão do Recife como modelo para Pernambuco, recorre à história de movimentos emancipacionistas e reforça aliança com Lula no guia eleitoral
Por Clara Mendes para O estopim |
Cobertura das Eleições
7 de Setembro de 2026
O candidato ao Governo de Pernambuco João Campos, do PSB, usou o guia eleitoral veiculado nesta segunda-feira, 7 de Setembro, para associar a história política pernambucana à promessa de ampliar oportunidades entre as diferentes regiões do estado. A propaganda também apresentou a gestão do Recife como vitrine da candidatura e destacou que mais de 80% dos investimentos municipais foram destinados às periferias durante sua passagem pela Prefeitura.
“Meu sonho é que qualquer pessoa possa nascer em qualquer lugar do estado e ter o mesmo direito de sonhar, ter as mesmas oportunidades. Meu compromisso é pelo povo que carrega essa bandeira”, afirmou João no programa.
O percentual superior a 80% dos investimentos aplicados nas periferias foi confirmado por fonte oficial da Prefeitura do Recife consultada por O estopim. O dado se refere aos investimentos municipais, categoria que reúne principalmente obras, equipamentos e outras despesas de capital. Não significa que mais de 80% de todas as despesas da Prefeitura, incluindo salários, custeio dos serviços, previdência e outras despesas correntes, tenham sido direcionadas exclusivamente às periferias.
A informação também passou a ser utilizada pela campanha eleitoral. No primeiro guia de rádio, veiculado no fim de agosto, João afirmou que mais de 80% dos investimentos municipais foram direcionados à periferia durante sua administração.
Gestão de João Campos no Recife vira referência da candidatura
A distribuição territorial dos investimentos aparece como parte da estratégia de João para apresentar sua experiência na capital como modelo de governo estadual.
Entre os programas voltados para áreas de vulnerabilidade está o ProMorar Recife, que reúne intervenções de urbanização, saneamento, drenagem, habitação, contenção de riscos e infraestrutura urbana.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento registra custo total de US$ 325 milhões para o programa. Desse valor, US$ 260 milhões correspondem ao financiamento aprovado pelo BID e US$ 65 milhões à contrapartida local.
Os recursos são direcionados a áreas classificadas como social e ambientalmente vulneráveis, o que dá suporte concreto à afirmação de que a antiga gestão concentrou parcela elevada dos investimentos em territórios periféricos.
João deixou definitivamente a Prefeitura do Recife em abril deste ano para disputar o Governo de Pernambuco. Victor Marques, eleito vice-prefeito em 2024, assumiu o comando da administração municipal em 6 de abril.
Guia recorre à história de Pernambuco
A propaganda de 7 de Setembro também utiliza episódios da história pernambucana para construir a mensagem sobre independência e igualdade.
Em 1817, Pernambuco protagonizou uma revolução de caráter republicano que rompeu com a unidade do Império português e organizou um governo provisório por pouco mais de dois meses. O movimento ocorreu cinco anos antes da proclamação formal da Independência do Brasil.
Em 1821, a Convenção de Beberibe levou à deposição do governo de Luís do Rego e à formação de uma junta governativa escolhida localmente. As tropas portuguesas deixaram completamente Pernambuco em dezembro daquele ano, antes do 7 de Setembro de 1822.
A campanha também remete ao enfrentamento ao Império. Em 1824, Pernambuco tornou-se o principal centro da Confederação do Equador, movimento contrário à centralização política do governo de Dom Pedro I.
A bandeira de Pernambuco, presente de forma recorrente no vídeo, também está ligada a esse histórico. O desenho original foi criado pelos revolucionários de 1817 e posteriormente transformado em símbolo oficial do estado.
A trajetória pernambucana, porém, não significa que todas as primeiras manifestações de ruptura com Portugal tenham ocorrido no estado. Outros movimentos de contestação ao domínio colonial antecederam 1817. O protagonismo de Pernambuco está sobretudo na instalação efetiva de um governo republicano naquele ano e nos movimentos posteriores de 1821 e 1824.
Eduardo Campos e Lula aparecem no programa
A peça eleitoral também recupera imagens e referências ao ex-governador Eduardo Campos, pai de João, morto em 2014.
O material da campanha descreve as administrações de Eduardo como período de dinamismo em Pernambuco. A expressão é uma avaliação política da propaganda. O uso da imagem do ex-governador reforça a ligação de João com a trajetória do PSB e com a tradição política das famílias Campos e Arraes.
Lula também aparece como elemento central da campanha estadual.
O presidente declarou formalmente apoio a João Campos em 15 de junho, durante mensagem exibida em um evento político em Gravatá. Na ocasião, Lula relembrou a relação histórica entre PT e PSB e sua proximidade com Miguel Arraes e Eduardo Campos.
“Vocês me viram andando o Recife inteiro e vão ver um governador que vai andar Pernambuco inteiro, ouvindo as pessoas, realizando o sonho de quem já não consegue sonhar mais”, afirma João no guia deste 7 de Setembro.
Campanha ocorre em cenário de empate
A propaganda foi ao ar em uma disputa sem liderança isolada no levantamento mais recente da RealTime Big Data.
Pesquisa divulgada em 3 de setembro mostrou João Campos e a governadora Raquel Lyra, do PSD, com 43% das intenções de voto cada no cenário estimulado de primeiro turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 29 de agosto e 2 de setembro e foi registrado no TSE sob o número PE-09116/2026.
Ao escolher o Dia da Independência para divulgar a mensagem, a campanha reúne três elementos que João tem usado na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas: a memória das lutas políticas de Pernambuco, os resultados apresentados pela antiga gestão municipal e a aliança com Lula.
A promessa de garantir aos pernambucanos “o mesmo direito de sonhar”, independentemente da região em que nasceram, permanece como compromisso eleitoral. Já o uso das periferias como prioridade de investimento no Recife tem um indicador concreto: segundo dado oficial da administração municipal confirmado a O estopim, mais de 80% dos investimentos da gestão foram aplicados nesses territórios.
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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista de O estopim. Cobre política, eleições, poder público, Justiça e os principais acontecimentos do dia.
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