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Inquérito apura denúncia de coação contra assistentes administrativos convocados para visitas domiciliares do programa Busca Ativa Escolar.


Por Clara Mendes para O estopim |

9 de setembro de 2026


Gerência Regional de Educação Sertão do Moxotó Ipanema, relacionada a inquérito do MPPE sobre servidores de escolas de Arcoverde
Gerência Regional de Educação Sertão do Moxotó Ipanema, relacionada a inquérito do MPPE sobre servidores de escolas de Arcoverde | Foto: Google Street View

O Ministério Público de Pernambuco, por meio da 4ª Promotoria de Justiça de Arcoverde, instaurou um inquérito civil para investigar possíveis casos de desvio de função e assédio moral envolvendo Assistentes Administrativos Educacionais em escolas estaduais vinculadas à Gerência Regional de Educação Sertão do Moxotó/Ipanema. Segundo a portaria que abriu o procedimento, servidores teriam sido coagidos por diretores escolares a realizar pesquisas de campo e visitas domiciliares na função de “técnico verificador” do Programa Busca Ativa Escolar.


O procedimento é o Inquérito Civil nº 02291.000.127/2026 e está sob responsabilidade do promotor de Justiça Edson de Miranda Cunha Filho. A investigação teve origem na Manifestação Audívia nº 4336992, decorrente de denúncia anônima, segundo o conteúdo da portaria divulgado publicamente.


A abertura do inquérito não significa que o desvio de função ou o assédio moral estejam comprovados. O procedimento foi instaurado justamente para reunir documentos, identificar os servidores e escolas envolvidos, ouvir as instituições responsáveis e verificar se as condutas denunciadas efetivamente ocorreram.



Denúncia aponta pressão para trabalho de campo e visitas domiciliares


O núcleo da investigação está na utilização de Assistentes Administrativos Educacionais como técnicos verificadores do Programa Busca Ativa Escolar.


De acordo com a portaria, esses servidores estariam sendo orientados ou coagidos a realizar atividades de campo, incluindo visitas domiciliares para localização e acompanhamento de estudantes. Há inclusive relato, reproduzido nas informações sobre o procedimento, de realização de deslocamentos a pé.


O MPPE pretende verificar se essas atribuições são compatíveis com o cargo ocupado pelos servidores e se houve constrangimento ou intimidação para que aceitassem as tarefas.


A apuração envolve, portanto, duas questões diferentes. Uma é a possível ocorrência de desvio de função. A outra é a possível prática de assédio moral ou coação funcional contra servidores que teriam sido obrigados a executar essas atividades.


Lei define o cargo como de apoio administrativo


A portaria utiliza como uma das referências a Lei Estadual nº 12.642/2004, que disciplina cargos do sistema público estadual de educação.


A legislação enquadra o Assistente Administrativo Educacional no grupo de Apoio Administrativo e de Serviços Auxiliares.


A descrição sumária do cargo determina a execução de tarefas de rotina administrativa, como atendimento ao público, protocolo de documentos, organização de arquivos, digitação de informações e outras atividades dessa natureza.


Entre as atribuições detalhadas estão recebimento e encaminhamento de documentos, preenchimento de formulários, acompanhamento de processos, apoio a reuniões, elaboração de relatórios, controle de materiais e serviços auxiliares financeiros e contábeis.


Ao final, a lei estabelece que o servidor pode executar “outras tarefas administrativas inerentes ao cargo”. Esse trecho é relevante porque coloca no centro da investigação a natureza da atividade determinada aos servidores.


O ponto que o MPPE pretende esclarecer é se realizar pesquisas de campo e visitas domiciliares na condição de técnico verificador pode ser considerado uma tarefa administrativa inerente ao cargo ou se configura exercício de função distinta daquela prevista para o servidor concursado.


MPPE também considera as regras do concurso


A investigação também leva em conta as atribuições estabelecidas no concurso público utilizado para ingresso desses servidores na rede estadual.


Segundo a portaria reproduzida publicamente, o MPPE confrontará as atividades determinadas aos assistentes com a legislação estadual e com as regras do certame para verificar se houve violação às atribuições definidas para o cargo.


Essa análise é importante porque o servidor público ingressa em cargo específico mediante concurso e deve exercer funções compatíveis com a carreira para a qual foi nomeado.


A conclusão sobre a existência ou não de desvio de função ainda dependerá da documentação requisitada pelo Ministério Público e da manifestação técnica da Secretaria de Educação.


Busca Ativa está no centro da controvérsia


A atividade questionada ocorre dentro do Programa Busca Ativa Escolar. O programa procura identificar estudantes em situação de abandono, evasão ou risco de afastamento da escola e prevê ações para localizar esses alunos e suas famílias.


A controvérsia aberta pela portaria não questiona a finalidade da Busca Ativa. A investigação procura esclarecer quem deve realizar determinadas atividades de campo e se Assistentes Administrativos Educacionais podem ser obrigados a assumir essa função.


Esse é o ponto funcional colocado sob análise pelo MPPE.


GRE deverá identificar escolas e servidores


Entre as primeiras diligências, o Ministério Público determinou que a Gerência Regional de Educação Sertão do Moxotó/Ipanema forneça informações sobre as escolas e os servidores envolvidos.


O MPPE quer saber quais Assistentes Administrativos Educacionais estão lotados nas unidades estaduais de Arcoverde e se houve atos formais determinando que esses profissionais exercessem a função de técnico verificador.


A Promotoria requisitou cópias de eventuais portarias, ordens de serviço ou outros documentos de designação.


Essa documentação poderá demonstrar se as atividades foram formalmente atribuídas, quais gestores autorizaram as designações e qual fundamentação administrativa foi utilizada.


MPPE quer saber se já houve apuração interna


A GRE também deverá informar se existem procedimentos administrativos internos relacionados às denúncias de desvio de função ou constrangimento contra servidores.


Esse levantamento permitirá verificar se a administração estadual já havia recebido reclamações sobre as situações agora investigadas pelo Ministério Público.


O conteúdo das eventuais apurações poderá ser incorporado ao inquérito civil.


Secretaria de Educação terá de apresentar parecer técnico


Uma das diligências mais importantes determinadas pela Promotoria é dirigida à Secretaria Estadual de Educação.


O MPPE requisitou um parecer técnico-normativo sobre o enquadramento dos executores de campo do Programa Busca Ativa Escolar e sobre a compatibilidade dessas atividades com as atribuições dos Assistentes Administrativos Educacionais.


O prazo indicado na portaria é de 15 dias úteis. Esse parecer deverá esclarecer a posição oficial da Secretaria sobre a questão que está no centro do inquérito.


Se a administração considerar as visitas compatíveis com o cargo, deverá apresentar a fundamentação utilizada.


A manifestação será analisada pelo Ministério Público juntamente com as demais provas reunidas.


GRE argumentou que decreto permite mobilização de servidores


Segundo o conteúdo da portaria reproduzido publicamente, a própria GRE reconheceu o caráter administrativo das atribuições do cargo, mas sustentou que gestores escolares poderiam mobilizar servidores para a Busca Ativa com fundamento no decreto estadual que regulamenta o programa.


Esse argumento também será confrontado pelo Ministério Público com a legislação específica da carreira e com o edital do concurso.


É justamente desse conflito que surge uma das questões centrais do procedimento: uma norma que permite mobilizar servidores para determinado programa autoriza a administração a atribuir a um ocupante de cargo administrativo atividades de campo que não aparecem expressamente entre suas funções? A resposta ainda não foi dada.


Assédio moral também será investigado


A portaria não se limita à compatibilidade das atribuições. O MPPE também investiga relatos de coação e assédio moral relacionados à imposição dessas atividades.


Segundo a denúncia que originou o procedimento, diretores escolares estariam pressionando os assistentes para realizar as tarefas externas.


Trata-se, neste momento, de uma acusação sob investigação. A abertura do inquérito não autoriza afirmar que gestores específicos praticaram assédio.


O Ministério Público deverá verificar como as determinações foram feitas, se houve resistência dos trabalhadores, quais foram as respostas dadas pelos superiores e se existem documentos ou outros elementos que comprovem as situações denunciadas.


Ministério Público cita princípios da administração pública


A portaria também situa a investigação no campo dos princípios constitucionais que regem a administração pública.


Entre eles estão legalidade, moralidade e eficiência, previstos no artigo 37 da Constituição Federal. Segundo o teor divulgado do procedimento, o MPPE considera necessário verificar se as designações respeitaram as regras funcionais aplicáveis aos servidores.


No serviço público, a administração não possui liberdade irrestrita para alterar as atribuições de cargos criados e regulamentados por lei. É justamente essa compatibilidade que está sendo submetida à investigação.


SINTEPE deverá informar se recebeu denúncias


A Promotoria também requisitou informações ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco.


O objetivo é saber se o SINTEPE possui registros ou denúncias relacionadas a possível desvio de função e assédio moral envolvendo Assistentes Administrativos Educacionais nas escolas estaduais de Arcoverde.


Essas informações poderão ajudar o MPPE a verificar se a situação denunciada ocorreu de forma isolada ou se há outras reclamações semelhantes.


MPPE fará levantamento de outras denúncias de assédio


Outra providência prevista na portaria é verificar a existência de outras representações formais relacionadas a assédio moral nas escolas estaduais do município.


Esse levantamento ainda é uma diligência. Não significa que outros casos tenham sido confirmados.


Caso sejam encontrados novos procedimentos ou denúncias relacionadas ao mesmo contexto, o Ministério Público poderá avaliá-los durante a investigação.


O que a investigação ainda precisa esclarecer


A portaria deixa uma série de questões em aberto. O MPPE precisa identificar quais servidores foram designados. Precisa saber em quais escolas isso ocorreu. Precisa verificar se existiram ordens formais. Precisa analisar a compatibilidade das atividades com o cargo. Precisa conhecer a posição técnica da Secretaria de Educação.


E precisa apurar se as cobranças relatadas ultrapassaram os limites de uma determinação funcional e configuraram constrangimento ou assédio moral. É somente depois dessas diligências que será possível avançar sobre eventual responsabilidade administrativa.


Inquérito civil não significa condenação


A instauração de um inquérito civil é uma etapa de investigação do Ministério Público.


Neste momento, não existe decisão final afirmando que houve desvio de função. Também não existe conclusão definitiva de que houve assédio moral.


A função do procedimento é justamente transformar relatos em fatos verificáveis ou descartá-los caso as provas não confirmem as acusações.


O que acontece agora?


A GRE Sertão do Moxotó/Ipanema e a Secretaria Estadual de Educação deverão responder às requisições expedidas pela 4ª Promotoria de Justiça de Arcoverde.


O MPPE deverá analisar os documentos funcionais, eventuais ordens de designação, informações sobre procedimentos internos e o parecer técnico solicitado à Secretaria.


O SINTEPE também deverá informar se possui denúncias relacionadas ao caso.


A partir desse material, o promotor Edson de Miranda Cunha Filho poderá determinar novas diligências e aprofundar a investigação.


O ponto central permanece em aberto: se Assistentes Administrativos Educacionais foram efetivamente colocados para desempenhar atribuições incompatíveis com seus cargos e se houve coação ou assédio moral para obrigá-los a executar essas tarefas.


O espaço permanece aberto para os esclarecimentos e respostas do Governo do Estado, da Secretaria de Educação de Pernambuco e da GRE Sertão Moxotó-Ipanêma/Arcoverde.


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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista de O estopim, com atuação na cobertura de política, acontecimentos urgentes e checagem de informações.

Mobilização de 26 de março reúne estudantes e trabalhadores da educação, enquanto SINTEPE contesta o índice de 40% usado pelo governo para vender valorização da categoria; gestão destaca obras, nomeações e programas, mas segue cobrada por resultados concretos na carreira e no cotidiano escolar


Por Helena Valente para O estopim | 26 de março de 2026


Multidão de manifestantes em camisas vermelhas protestam segurando bandeiras e faixas por respeito e valorização. Ambiente externo.
Professores de Pernambuco cobram respeito e valorização de Raquel Lyra que, apesar das propagandas e estratégias narrativas, não entrega o que exibe nos anúncios do governo na TV | Foto: Sintepe Digital

A mobilização do Dia Nacional da Paralisação dos Estudantes, realizada nesta quinta-feira (26), recolocou a educação no centro da disputa política em Pernambuco. Em meio a atos em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade, estudantes, professores e demais profissionais da rede estadual passaram a ecoar uma crítica que já vinha crescendo: a de que o governo Raquel Lyra construiu uma narrativa de valorização da educação mais robusta do que os efeitos concretos percebidos por quem vive a escola. O ponto mais sensível está no reajuste salarial da categoria e no desgaste provocado pela diferença entre o discurso oficial e os números apresentados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o SINTEPE.


Estudantes e profissionais da educação ocupam a mesma trincheira


O texto de apoio à paralisação estudantil enviado à reportagem sintetiza o tom da mobilização. A mensagem afirma que o dia 26 de março começou com estudantes nas ruas, nas escolas e nas praças de todo o país, levantando suas vozes em defesa da educação pública. O documento também registra o apoio de professores e demais profissionais da educação, que associam a luta estudantil à defesa de escolas com estrutura digna, valorização de quem ensina e de quem aprende, condições reais de ensino e respeito à escola pública.


O dado político mais relevante desse encontro é que ele amplia o alcance da insatisfação. Quando estudantes e trabalhadores da educação se reconhecem na mesma pauta, o debate deixa de ser apenas corporativo e passa a envolver a qualidade do serviço prestado à população. O desgaste, nesse caso, atinge diretamente o governo estadual, que há mais de três anos tenta se apresentar como protagonista de uma virada na educação pernambucana.


Raquel Lyra mente: a disputa pelos números do reajuste


O centro do conflito está na forma como o governo apresenta os ganhos salariais da categoria. Em material divulgado pelo SINTEPE, a presidenta da entidade, Ivete Caetano, afirma que o reajuste acumulado nos últimos quatro anos não foi de 40%, como sustentou o governo do Estado. Segundo o sindicato, o reajuste com repercussão efetiva na carreira, isto é, aquele que alcança todas e todos os profissionais da educação sem excluir segmentos, foi de apenas 16%.


Grupo de pessoas com camisetas vermelhas e bandeiras protestam animadamente ao ar livre. Fundo com cartaz "Alepe Mulher". Muita energia.
Reajuste além de obrigatório ao Governo de Raquel Lyra só foi conquistado graças a luta dos professores e após paralizações na Rede e agora a Governadora tenta vender a narrativa de que foi fruto da valorização que seu governo dá a categoria, o que, segundo eles, não é totalmente verdade e os números comprovam | Foto: Sintepe Digital

Ainda de acordo com a entidade, mesmo quando se considera o reajuste de 13,5% concedido em 2023, que não teria contemplado mais de 52 mil trabalhadoras e trabalhadores da educação, o acumulado chega a 31,7%, e não a 40%. A diferença não é apenas contábil. Ela revela uma divergência sobre o que pode ou não ser apresentado como valorização real.


Na prática, a crítica sindical é a de que o governo soma percentuais de naturezas diferentes, com impactos distintos sobre a folha e sobre a carreira, para construir um saldo político mais favorável. É esse tipo de operação que transforma um anúncio administrativo em peça de propaganda. Quando isso ocorre numa área tão sensível quanto a educação, o ruído deixa de ser apenas técnico e passa a afetar a confiança da categoria e da sociedade.


O que o governo mostra e o que ainda não resolve


Seria impreciso dizer que a gestão Raquel Lyra nada fez na área. As páginas públicas do Governo de Pernambuco e da Secretaria de Educação destacam investimentos em infraestrutura, construção de creches, entrega de ônibus escolares, distribuição de notebooks, realização de eventos literários, pagamento de bônus e nomeações de professores. O programa Juntos pela Educação também segue sendo apresentado como a principal vitrine da política educacional do governo.


Essas iniciativas existem e têm peso administrativo. O problema é outro. Elas não encerram, por si só, as cobranças sobre salário, carreira, condições de trabalho e coerência entre discurso e realidade. Uma gestão pode inaugurar quadras, abrir editais, entregar equipamentos e ampliar a rede de serviços. Ainda assim, permanecer vulnerável a críticas quando a base da educação considera que segue subvalorizada, excluída de parte dos reajustes ou obrigada a conviver com precarização.


É justamente aí que a crítica ao governo Raquel Lyra ganha consistência. O erro político da gestão não está apenas em enfrentar uma categoria organizada. Está em tentar converter toda ação administrativa em prova suficiente de valorização, mesmo quando o cotidiano da rede ainda produz contestação. Em vez de reduzir a tensão, essa estratégia pode aprofundá-la, porque aumenta a distância entre a comunicação oficial e a experiência concreta de quem está no chão da escola.



A Alepe vira novo campo de prova para o governo


Segundo o material do SINTEPE, o projeto de lei do reajuste da educação já está em tramitação na Assembleia Legislativa de Pernambuco e foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça. Isso desloca parte do conflito para o Legislativo, onde a disputa passa a ser também sobre narrativa pública, custo político e capacidade de articulação do Palácio do Campo das Princesas.


Nesse ambiente, o governo será pressionado a demonstrar com mais clareza o alcance real do reajuste que anuncia. Já a oposição e os movimentos ligados à educação tendem a explorar a divergência entre o percentual divulgado oficialmente e os números apresentados pela categoria. A questão central deixa de ser apenas qual índice cabe no orçamento. Passa a ser também qual versão dos fatos resiste melhor ao escrutínio público.


O problema de fundo é a confiança


A educação é uma área em que governos costumam buscar resultados de imagem com rapidez. Obras rendem fotografias. Entregas rendem agenda positiva. Programas com nomes fortes rendem marca política. Mas educação não se sustenta apenas com vitrine. Ela exige continuidade, financiamento, diálogo com a base e valorização profissional que faça sentido no contracheque, na progressão e no ambiente escolar.


Grupo de pessoas segurando placas de protesto em praça, com cartazes em vermelho e preto. Ambiente urbano ao fundo, emoções sérias.
As manifestações e atos públicos de hoje aconteceram em todo país e ganharam apoio e adesão em todo o estado de Pernambuco, incluindo Arcoverde | Foto: Michael Andrade/Agência O estopim+

O que a paralisação estudantil de 26 de março expõe, em Pernambuco, é que o governo Raquel Lyra ainda não conseguiu pacificar a percepção sobre sua política educacional. Ao contrário. A mobilização mostra que permanece aberta uma frente de desconfiança. Estudantes denunciam descaso, precarização e falta de compromisso com a escola pública. Trabalhadores da educação contestam números, cobram respeito à carreira e afirmam que o reajuste anunciado não contempla integralmente a categoria.


Quando esse conjunto de vozes passa a se sobrepor ao discurso oficial, o sinal para o governo é claro. Não basta investir e comunicar. É preciso convencer. E convencer, nesse caso, depende menos de marketing institucional e mais de transparência, negociação efetiva e reconhecimento material de quem sustenta a educação pública todos os dias.


O que está em jogo daqui para frente


A tramitação do reajuste na Alepe tende a ser apenas uma etapa de um conflito maior. O embate envolve remuneração, carreira, prioridade orçamentária e credibilidade política. Também envolve o direito da sociedade de saber se a valorização anunciada pelo governo corresponde, de fato, ao que chega aos profissionais da educação.


Se o Palácio insistir em tratar a contestação como mero ruído de oposição ou resistência sindical previsível, corre o risco de agravar o próprio desgaste. Porque, na educação, o problema raramente começa no ato público. O ato é só a parte visível de uma insatisfação acumulada. O estopim, quase sempre, já veio antes.


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Assembleia convocada pelo Sintepe valida pagamento retroativo para quem está abaixo do piso nacional e reajuste linear a partir de junho para os demais cargos; governo promete enviar projeto de lei à Alepe.


Por Raul Silva para O estopim | 19 de Março de 2026


Pessoa de roupa vermelha levanta cartaz em auditório lotado. Multidão veste vermelho e segura cartazes, em ambiente iluminado. Emoção coletiva.
Manifestação de educadores celebra a aprovação do acordo salarial entre Sintepe e o Governo do Estado, destacando a valorização e respeito à educação | Foto: Sintepe Digital

A rede estadual de ensino de Pernambuco aprovou, por unanimidade, o acordo salarial da Campanha Salarial Educacional 2026 negociado entre o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) e o Governo de Pernambuco. A deliberação ocorreu em assembleia com mais de mil participantes, no Recife, na noite de 18 de março.


O principal ponto do acordo é a aplicação do reajuste de 5,4% do Piso do Magistério em toda a carreira, com extensão para demais cargos da educação na rede estadual. Para professores com vencimentos abaixo do piso nacional, fixado em R$ 5.130,63 para jornada de 40 horas semanais, o pagamento deve ser retroativo a janeiro de 2026. Para docentes que já recebem acima do piso e para os demais servidores da educação, o aumento deve ser aplicado de forma linear a partir de junho, alcançando professores, analistas, administrativos, ativos e aposentados, efetivos e temporários, além do apoio escolar.


O piso nacional do magistério foi atualizado pelo Ministério da Educação (MEC) em 30 de janeiro, por meio da Portaria nº 82/2026, com efeitos financeiros a partir de janeiro deste ano. O valor de referência passou de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63, um acréscimo de 5,4%, com proporcionalidade para outras jornadas.


A atualização nacional de 2026 ocorre sob a nova metodologia instituída pela Medida Provisória nº 1.334/2026. Pela regra, o reajuste anual considera a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado no ano anterior somada a 50% da média da variação, em termos reais, da receita do Fundeb nos cinco anos anteriores.



Na negociação em Pernambuco, o Sintepe defendeu que o percentual do piso repercutisse em toda a matriz de vencimentos, o que significa que o índice não fique restrito ao vencimento inicial do magistério. O sindicato também incluiu na pauta a atualização dos vencimentos-base de analistas educacionais, assistentes e auxiliares administrativos, com extensão para toda a carreira.


Além do reajuste, o acordo prevê mudanças na carreira e em gratificações. Para analistas educacionais, a Gratificação de Função Técnico-Pedagógica deve ser reajustada para R$ 1.000 a partir de junho de 2026. Outra medida acordada altera o fluxo da progressão funcional: servidores que concluírem o estágio probatório poderão participar da avaliação de desempenho logo após o fim do período, com acesso à progressão para quem concluir o probatório até setembro.


O acordo também mantém a Gratificação de Educação Especial para a Educação Inclusiva e Socioeducativa e assegura que profissionais lotados em unidades socioeducativas (GEUSP) continuem recebendo gratificação durante a licença-prêmio.


O Governo de Pernambuco informou ao sindicato que deve encaminhar, nos próximos dias, um projeto de lei à Assembleia Legislativa de Pernambuco para formalizar o acordo. O calendário eleitoral foi citado em atos e comunicados anteriores do Sintepe como fator de pressão, por impor prazos para tramitação de propostas com impacto financeiro.


Linha do tempo da campanha


A Campanha Salarial Educacional 2026 começou formalmente em 6 de fevereiro, quando o Sintepe entregou ao gabinete da governadora e às secretarias estaduais de Educação e de Administração a pauta de reivindicações aprovada pela categoria. Em março, antes do desfecho do acordo, o sindicato convocou paralisações e protestos cobrando proposta concreta e celeridade na negociação.


Nos comunicados que antecederam o acordo, a direção do Sintepe afirmou que, após uma mesa de negociação, não havia proposta concreta apresentada pela gestão e indicou 4 de abril como prazo-limite para aprovação de projeto de lei naquele ano, em razão das normas eleitorais.


A pauta de reivindicações não se limitou ao reajuste. O documento entregue ao governo incluiu temas como revisão do Plano de Cargos, Carreira e Rendimentos (PCCR), progressão por titulação, formação continuada, concurso público e incorporação de gratificações.


Entre as reivindicações que circularam durante a campanha, apareceram queixas sobre problemas estruturais em escolas, rede elétrica insuficiente para instalação de equipamentos, falta de climatização e qualidade da merenda. A Secretaria de Educação de Pernambuco tem um programa de climatização em andamento e divulgou, em 2025, que 500 unidades já estavam climatizadas e que a meta era concluir a climatização das demais escolas até 2026.


A pasta também projetou investimentos para ampliar a climatização, incluindo a aquisição de mais de 15 mil aparelhos de ar-condicionado e obras de infraestrutura elétrica, como construção de subestações e reforço de rede em parte das unidades. A rede estadual pernambucana atende cerca de 500 mil estudantes e reúne pouco mais de 1.080 escolas, segundo dados divulgados a partir da primeira etapa do Censo Escolar 2025.


Pesquisas científicas sobre ambiente escolar e aprendizagem são usadas por redes de ensino para embasar políticas de infraestrutura. Um estudo publicado em 2020 no American Economic Journal: Economic Policy analisou milhões de registros escolares nos Estados Unidos e encontrou queda de aprendizagem em anos letivos mais quentes quando as escolas não tinham ar-condicionado, com mitigação do efeito em unidades com climatização.


No campo de políticas de pessoal, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aponta que a falta de professores e a evasão da carreira se agravaram em diferentes países, com impacto na oferta de profissionais. Um relatório global da organização destaca que taxas de saída de professores do ensino primário cresceram na última década e cita remuneração e condições de trabalho entre os fatores frequentemente associados à permanência na profissão.


Após a assembleia que aprovou o acordo, o Sintepe informou que seguirá cobrando do governo a tramitação do projeto de lei e a continuidade de discussões sobre itens não encerrados da pauta educacional. Do lado do Executivo estadual, a formalização depende do envio do texto à Alepe e da votação dentro do prazo considerado viável para implementação em 2026.


Esta não é a primeira vez que a Campanha Salarial da Educação em Pernambuco se organiza em torno do piso nacional e do impacto no plano de carreira. Em 2025, o piso nacional havia sido fixado em R$ 4.867,77 para 40 horas, antes da atualização de 5,4% em 2026.


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Jornalista, Escritor e Professor. Raul Silva é a mente que arquitetou O estopim. Sua missão é desmontar narrativas hegemônicas e oferecer um jornalismo que não tem medo de comprar briga com o poder estabelecido. Aqui, ele assina as principais análises editoriais e coordena a visão estratégica do portal.

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