Há 30 anos, “Xica da Silva” estreava na Manchete e marcava a TV com sucesso, polêmicas e conflitos nos bastidores
Por Michael Andrade, da redação do Portal O Estopim | 18 de setembro de 2026
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Novela projetou Taís Araújo nacionalmente, teve direção de Walter Avancini e foi escrita secretamente por Walcyr Carrasco sob o pseudônimo de Adamo Angel; três décadas depois, produção segue cercada por histórias de bastidores e discussões sobre um possível remake.
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Uma protagonista de 17 anos, um autor escondido atrás de uma identidade fictícia, um diretor conhecido pelo estilo rigoroso e uma sucessão de controvérsias envolvendo nudez, religião, censura e conflitos nos bastidores. Há 30 anos, em 17 de setembro de 1996, a Rede Manchete estreava “Xica da Silva”, novela que se tornaria um dos títulos mais conhecidos da história da emissora.
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Livremente inspirada na trajetória de Francisca da Silva de Oliveira, que viveu no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, em Minas Gerais, no século XVIII, a novela acompanhava Xica, interpretada por Taís Araújo, uma mulher escravizada que conquista a liberdade e passa a ocupar uma posição de destaque na sociedade após se relacionar com o contratador de diamantes João Fernandes, vivido por Victor Wagner.
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A produção reuniu nomes como Drica Moraes, Zezé Motta, Carlos Alberto, Carla Cabral, Murilo Rosa, Guilherme Piva, Dalton Vigh, Adriane Galisteu e Giovanna Antonelli, entre outros. A direção geral ficou sob responsabilidade de Walter Avancini.
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Para Taís Araújo, então com 17 anos, Xica representou uma mudança definitiva na carreira. A atriz já havia participado de “Tocaia Grande”, também na Manchete, mas ganhou projeção nacional ao assumir a protagonista. Segundo reportagem da Folha publicada dois dias antes da estreia, Avancini escolheu Taís por considerar que ela tinha o temperamento adequado para a personagem.
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O misterioso Adamo Angel
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Um dos maiores segredos de “Xica da Silva” estava fora das telas.
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Quando a Manchete anunciou a produção, a autoria foi atribuída a Adamo Angel. Em junho de 1996, meses antes da estreia, uma reportagem da Folha de S.Paulo chegou a apresentar Angel como escritor esotérico, com formação pela USP, especialização em roteiro nos Estados Unidos e conhecimento sobre o período histórico retratado pela novela. O suposto autor, dizia a reportagem, não concedia entrevistas por ser reservado. A história era sustentada publicamente por Walter Avancini.
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Adamo Angel, porém, era Walcyr Carrasco.
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Naquele período, Carrasco trabalhava como consultor de teledramaturgia do SBT e adotou o pseudônimo para escrever a novela da concorrente. Anos depois, o próprio autor contou que o nome foi uma sugestão de Avancini. A brincadeira estava inclusive no sobrenome: “Angel”, anjo em inglês, fazia contraponto a “Carrasco”.
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O segredo não duraria para sempre. Silvio Santos descobriu quem estava por trás do pseudônimo e Carrasco acabaria escrevendo posteriormente “Fascinação”, exibida pelo SBT em 1998. O episódio se tornou uma das histórias mais conhecidas do início da trajetória do autor na televisão.
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Walter Avancini e os conflitos com Taís Araújo
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Três décadas depois, os bastidores da novela voltaram ao noticiário a partir de relatos de Taís Araújo.
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Em entrevista divulgada em julho de 2026, a atriz afirmou ter sofrido assédio moral de Walter Avancini durante a produção. Segundo Taís, divergências com o diretor foram tão intensas que ela chegou a decidir abandonar o papel. A atriz relatou ainda que sua mãe, Mercedes Araújo, interveio no conflito e que Avancini posteriormente recuou e pediu desculpas.
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Os conflitos entre a protagonista e a direção, no entanto, já apareciam publicamente durante a exibição. Em maio de 1997, Avancini criticou Taís em entrevista à Folha por resistir à abordagem mais sensual que ele pretendia para a personagem. Taís, por sua vez, defendia que a importância de Xica estava ligada à inteligência e não apenas ao erotismo. Walcyr Carrasco também se manifestou na época e disse que alterou aspectos da personagem diante da resistência da atriz a determinadas cenas.
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A relação entre Taís e Avancini, portanto, foi marcada por conflitos que ganharam novas interpretações ao longo dos anos. Apesar dos relatos sobre os episódios vividos na produção, a atriz também já reconheceu a importância profissional do diretor em sua formação.
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Nudez, maioridade e o Juizado
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A idade de Taís colocou “Xica da Silva” no centro de outra controvérsia.
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A atriz tinha 17 anos quando começou a interpretar a protagonista. A novela explorava a sensualidade da personagem, enquanto a chegada de Taís aos 18 anos passou a ser acompanhada pela imprensa diante da expectativa sobre cenas de nudez.
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Em novembro de 1996, a Folha noticiou que o Juizado de Menores do Rio pretendia autuar a Manchete por considerar que imagens de nudez haviam sido gravadas quando a atriz ainda era menor. A emissora e os pais de Taís negaram essa versão. Reportagens da época registraram versões conflitantes sobre quando exatamente as imagens foram feitas.
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A controvérsia levou a novela para além das páginas de televisão. O Estatuto da Criança e do Adolescente proibia a gravação e exibição de menores nus, e o Juizado passou a acompanhar o caso.
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A discussão também expõe como a imagem da jovem atriz foi tratada naquele período. Trinta anos depois, o fato de uma protagonista adolescente ter sido colocada no centro de uma campanha marcada pela expectativa em torno de sua sensualidade é um dos aspectos da produção que passaram a ser revisitados sob uma perspectiva diferente.
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Religião, protestos e cenas alteradas
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“Xica da Silva” também enfrentou resistência de grupos católicos.
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Em março de 1997, capítulos que mostrariam noviças enfeitiçadas e em situações de caráter sexual provocaram protestos antes mesmo da exibição. A Manchete decidiu reeditar cinco capítulos e retirar ou amenizar parte das sequências. Walter Avancini classificou a pressão como “censura cultural”.
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O caso chegou à Justiça. Uma liminar da 40ª Vara Cível do Rio de Janeiro vetou a exibição de algumas das cenas. Antes mesmo de tomar conhecimento da decisão, a Manchete já havia optado por modificar o material. Na Sexta-feira Santa daquele ano, a emissora também retirou a novela da programação e exibiu um filme religioso no horário.
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Cicciolina e a busca por repercussão
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A estratégia de manter “Xica da Silva” em evidência continuou até a reta final.
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Em 1997, a Manchete trouxe ao Brasil Ilona Staller, a Cicciolina, ex-atriz pornô e ex-deputada italiana, para uma participação especial. Ela interpretou Ludovica, uma cortesã que se apresentava como princesa genovesa e chegava ao Arraial do Tijuco com a intenção de arrecadar dinheiro alegando que construiria um convento.
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A própria imprensa da época descreveu a contratação como uma estratégia de marketing da emissora para tentar ampliar a audiência nos capítulos finais. Avancini chegou a tentar participações de nomes internacionais como Denzel Washington e Whoopi Goldberg, que não se concretizaram.
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Antes de Cicciolina, artistas como Adriane Galisteu, Eduardo Dusek e Leci Brandão também passaram pela produção. A presença de convidados conhecidos fazia parte da estratégia de repercussão adotada pela Manchete.
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Entre ficção e história

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Apesar de partir de uma personagem real, “Xica da Silva” foi construída como folhetim e não como uma reprodução rigorosa da trajetória histórica de Francisca da Silva de Oliveira.
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Romance, vingança, disputas de poder, humor e erotismo foram incorporados à narrativa, assim como personagens e situações ficcionais. A escravidão, a violência contra pessoas escravizadas e as relações raciais também apareceram de forma recorrente na produção.
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A novela transformou a personagem histórica em uma protagonista com características próprias da dramaturgia televisiva e provocou, já na época, discussões sobre a distância entre a Xica da ficção e a mulher que viveu no século XVIII.
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O sucesso sobrevive ao fim da Manchete
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“Xica da Silva” permaneceu no ar por quase 11 meses e terminou em 1997, com 231 capítulos na exibição original. A produção se consolidou como um dos últimos grandes títulos da dramaturgia da Rede Manchete, emissora que encerraria suas atividades em 1999.
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Mas a história da novela na televisão brasileira não terminou com a Manchete.
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Em 28 de março de 2005, quase nove anos após a estreia original, “Xica da Silva” voltou ao ar pelo SBT. A emissora adquiriu os direitos da produção e colocou a novela no horário nobre, por volta das 21h15. A situação tinha uma ironia particular: era justamente o SBT a emissora à qual Walcyr Carrasco estava profissionalmente ligado quando precisou esconder sua identidade para escrever a obra em 1996.
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A reprise voltou a gerar repercussão e alcançou dois dígitos de audiência em diferentes semanas. O retorno também reacendeu discussões sobre direitos de imagem. Na época, Giovanna Antonelli, intérprete de Elvira, esteve entre os nomes que recorreram à Justiça em uma disputa relacionada à reapresentação.
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E o remake?
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A possibilidade de uma nova versão de “Xica da Silva” é discutida há anos e ganhou força novamente com a expansão dos serviços de streaming.
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Em 2023, o Notícias da TV informou que a Globo trabalhava nos bastidores para viabilizar uma nova adaptação destinada ao Globoplay e que ainda negociava questões relacionadas aos direitos da obra. A reportagem apontava a intenção de produzir um remake, mas o projeto não chegou a ser oficialmente lançado.
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Desde então, o assunto voltou a aparecer em diferentes momentos na imprensa. Até setembro de 2026, porém, não há anúncio oficial de uma nova versão com produção, elenco e data de estreia confirmados.
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Onde assistir “Xica da Silva” hoje?
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Para quem deseja rever a novela 30 anos depois, a situação é mais complicada.
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Até esta sexta-feira (18), “Xica da Silva” não está oficialmente disponível em nenhum serviço de streaming no Brasil, segundo levantamento do JustWatch. O serviço identifica disponibilidade da produção em plataformas nos Estados Unidos, mas não aponta uma opção oficial para assistir à novela completa no mercado brasileiro.
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No YouTube, circulam cenas, chamadas, aberturas e outros registros da produção publicados por diferentes canais. A presença desses materiais, no entanto, não equivale à disponibilização oficial e integral da novela pela detentora dos direitos. Por isso, a plataforma não pode ser indicada atualmente como uma opção oficial para assistir aos 231 capítulos.
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Trinta anos depois
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Três décadas após a estreia, “Xica da Silva” permanece associada a diferentes capítulos da história da televisão brasileira: a projeção nacional de Taís Araújo, a dramaturgia da extinta Rede Manchete, o trabalho de Walter Avancini e o início da trajetória de Walcyr Carrasco como autor de novelas.
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Ao mesmo tempo, documentos e reportagens da época, somados aos relatos posteriores de quem participou da produção, permitem revisitar a obra sob questões que hoje recebem outra atenção, especialmente a exposição de uma protagonista adolescente, as relações de trabalho nos bastidores e a forma como sensualidade, violência, escravidão e personagens negros foram retratados.
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O que começou em 17 de setembro de 1996 ainda desperta interesse 30 anos depois. “Xica da Silva” saiu da Manchete, voltou pelo SBT, atravessou gerações, tornou-se objeto recorrente de rumores sobre um remake e, mesmo atualmente fora dos serviços de streaming brasileiros, continua ocupando um lugar particular na memória da teledramaturgia nacional.
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Fontes: Folha de S.Paulo, UOL, Globoplay, Diário do Grande ABC e JustWatch
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