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IPEC mostra só 14% de confiança nos vereadores; Luciano lidera lembrança e atuação, enquanto Câmara falha em representação, fiscalização e sintonia.


Por Mateus Ayres para O estopim |

8 de agosto de 2026

Análise política



Câmara de vereadores de Arcoverde, em Pernambuco | Foto: Reprodução/Google Street View
Câmara de vereadores de Arcoverde, em Pernambuco | Foto: Reprodução/Google Street View

A pesquisa institucional do IPEC sobre Arcoverde entrega à Câmara de Vereadores um diagnóstico bem mais duro do que o registrado para a Prefeitura. A avaliação positiva do Legislativo chega a apenas 26%, enquanto 35% consideram seu trabalho regular e 32% o classificam como ruim ou péssimo. Outros 7% não souberam ou não responderam.


Mas a avaliação geral nem sequer é o dado mais preocupante.


Quando o levantamento entra em confiança, representação dos interesses da população, fiscalização da Prefeitura e contribuição para o desenvolvimento da cidade, aparece uma instituição com baixo crédito político perante o eleitorado.


Nesse cenário, um vereador se descola claramente dos demais: Luciano Pacheco.


O presidente da Câmara é lembrado espontaneamente por 32% dos entrevistados e apontado por 31% como o vereador mais atuante. Na pergunta sobre atuação, o segundo colocado, Célia, aparece com apenas 5%. Todos os outros vereadores citados, somados, chegam a 21%, abaixo dos 31% de Luciano sozinho.


Isso não significa que 31% aprovem Luciano, pretendam votar nele ou concordem com suas posições. A pesquisa não perguntou isso.


Significa algo politicamente muito importante:


entre os atuais integrantes da Câmara, Luciano Pacheco conseguiu construir uma percepção de presença pública que os demais vereadores, individualmente, estão muito longe de alcançar.

A outra metade dessa história é ainda mais incômoda para a Casa.


A Câmara tem mais avaliação negativa do que positiva


O IPEC perguntou como os eleitores avaliam o trabalho da Câmara, lembrando aos entrevistados que compete ao Legislativo produzir leis e fiscalizar a Prefeitura.


Apenas 5% responderam excelente e 21% bom. A avaliação positiva consolidada é de 26%.


Outros 35% classificaram o trabalho como regular. Ruim aparece com 12% e péssimo com 20%, levando a avaliação negativa a 32%. Sete por cento não souberam ou não responderam.


Numericamente, a avaliação negativa supera a positiva em seis pontos percentuais. Mas o dado politicamente mais robusto está no conjunto: 67% dos entrevistados colocam o trabalho da Câmara entre regular, ruim ou péssimo, contra 26% que o avaliam como excelente ou bom.


A mensagem é difícil de ignorar. A maioria não enxerga no Legislativo municipal um desempenho claramente positivo.


O indicador mais grave talvez seja a confiança. Quando o IPEC perguntou diretamente se o eleitor confia na atuação dos vereadores de Arcoverde, apenas 3% responderam "confio muito" e 11% "confio". São 14% de confiança mais firme.


No sentido oposto, 37% disseram confiar pouco e 46% afirmaram não confiar. Somadas, essas duas categorias representam 83% da amostra. Outros 3% não souberam ou não responderam.


É difícil interpretar esse resultado como simples problema de comunicação. Quando mais de oito em cada dez entrevistados ficam entre pouca confiança e nenhuma confiança, a questão passa a atingir a própria legitimidade política da representação.


A Câmara existe para representar interesses diversos, controlar o Executivo, legislar e abrir espaço institucional para o conflito democrático. Se o cidadão não confia em quem ocupa as cadeiras, a instituição continua funcionando juridicamente, mas perde capacidade de representar politicamente.


Outro resultado reforça o problema. Apenas 8% dizem que os vereadores representam os interesses da população "sempre". Outros 9% respondem "na maioria das vezes". São apenas 17% que percebem representação de maneira frequente.


Para 28%, isso ocorre apenas às vezes. Outros 23% dizem raramente e 28% nunca. Quatro por cento não souberam ou não responderam. O dado permite uma leitura particularmente dura: 51% dizem que os interesses da população são representados raramente ou nunca.


Se acrescentados os 28% que respondem "às vezes", chega-se a 79% que não percebem representação de maneira contínua. A pesquisa não diz quais interesses esses entrevistados esperavam ver defendidos. Também não permite concluir que todo vereador esteja desconectado de sua própria base eleitoral. Mas mostra uma sensação coletiva de distância entre a Câmara e a cidade.


Luciano Pacheco virou exceção dentro de uma Câmara apagada


É nesse ambiente de baixa confiança que o desempenho espontâneo de Luciano Pacheco ganha dimensão.


Quando o entrevistado precisa citar, sem receber uma lista de nomes, um vereador ou vereadora que conhece ou de quem se lembra, Luciano aparece com 32%. Célia registra 13%, João Taxista 8%, Luiza Margarida 6%, Wellington Siqueira 5%, Heriberto do Sacolão, João Marcos e Paulinho Galindo aparecem com 4% cada, Rodrigo Roa com 2% e Sargento Brito abaixo de 0,5%. Dez por cento respondem "nenhum" e 12% não sabem ou não respondem.


A diferença fica ainda maior quando a pergunta muda de simples lembrança para quem é o vereador mais atuante de Arcoverde. Luciano Pacheco aparece com 31%. Célia vem muito atrás, com 5%. Luiza Margarida tem 4%, Wellington Siqueira 3%, Heriberto do Sacolão, João Marcos, João Taxista e Rodrigo Roa aparecem com 2% cada, Paulinho Galindo com 1% e Sargento Brito não registra percentual significativo.


Há um detalhe decisivo: os demais vereadores nominalmente citados somam 21%. Luciano, sozinho, tem 31%. A distância é grande demais para ser tratada apenas como uma diferença marginal.


Existe, porém, um número que impede que o resultado de Luciano seja confundido com uma percepção positiva sobre a Câmara como um todo. Na pergunta sobre o vereador mais atuante, 19% dizem "nenhum". Outros 29% não souberam ou não responderam. Somadas, as duas respostas chegam a 48%.


Ou seja, quase metade da amostra não consegue apontar espontaneamente uma atuação parlamentar que mereça destaque, seja porque considera que nenhum vereador se sobressai, seja porque não consegue ou não deseja citar alguém.


A Câmara vive, portanto, uma contradição. Luciano Pacheco alcançou uma visibilidade individual relevante, enquanto o Legislativo, coletivamente, enfrenta baixa confiança, baixo reconhecimento de sua capacidade fiscalizadora e dificuldade de demonstrar que representa a população.


Também seria equivocado transformar os 31% em um atestado irrestrito sobre Luciano Pacheco. O presidente da Câmara esteve no centro das maiores crises políticas do Legislativo em 2026.


Em fevereiro, os dez vereadores eram apresentados publicamente como integrantes da base do governo Zeca Cavalcanti. A ruptura política entre o prefeito e Luciano, anunciada em março, modificou completamente essa configuração.


Luciano depois se tornou alvo de um pedido de cassação relacionado a questionamentos sobre o exercício da advocacia enquanto presidia a Casa. Ele negou irregularidade.


A OAB-PE arquivou a denúncia administrativa relacionada ao caso, após o MPPE também não identificar ilícito penal naquela questão específica. Em 28 de maio, a própria Câmara arquivou o pedido de cassação após parecer pelo encerramento do processo.


Portanto, a pesquisa não deve ser usada para absolver ou condenar politicamente nenhum dos lados da crise. O que ela registra é percepção de atuação. E nesse quesito Luciano aparece muito à frente dos pares.


Parte dessa lembrança pode decorrer justamente de sua exposição como presidente e protagonista de conflitos que dominaram a agenda política local. Ainda assim, visibilidade também é um elemento da representação política. Um mandato que não é lembrado enfrenta dificuldade até para fazer seu trabalho ser reconhecido.


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A falta de senso institucional dos demais vereadores


Os acontecimentos recentes permitem falar de algo mais preciso: falta de senso institucional em determinadas decisões políticas que colocaram a disputa entre grupos acima do funcionamento regular da Câmara.


Após a ruptura entre Luciano e o grupo governista, sessões ordinárias passaram a ser prejudicadas por ausência de parlamentares.


Em 11 de maio, Célia Galindo, Luiza Margarida, Paulinho Galindo, Rodrigo Roa e Wellington Siqueira não compareceram, impedindo o quórum mínimo. Luciano, Sargento Brito, Heriberto do Sacolão, João Taxista e João Marcos estavam presentes.


Na semana seguinte, em 18 de maio, apenas Luciano Pacheco compareceu ao plenário, e a sessão novamente terminou sem deliberações. Os outros nove parlamentares divulgaram posição conjunta afirmando que não reconheciam a legitimidade de Luciano na presidência e relacionaram suas ausências às denúncias que apresentavam contra ele.


Os vereadores tinham direito de questionar Luciano, formular denúncias e buscar os instrumentos regimentais que considerassem cabíveis. O problema democrático surge quando o instrumento da disputa deixa de ser o voto, a fiscalização, o requerimento, a comissão ou o plenário e passa a ser a própria ausência do plenário.


O resultado concreto foi uma Câmara incapaz de deliberar. E é exatamente essa Câmara que, dois meses depois, aparece diante do eleitorado com somente 14% de confiança mais firme.


Não é possível demonstrar estatisticamente que uma coisa provocou a outra. É possível, no entanto, afirmar que os episódios ajudam a contextualizar um desgaste que a pesquisa tornou mensurável.


Fiscalizar a Prefeitura é o maior recado do eleitorado


Há um indicador particularmente importante para compreender o que a população espera dos vereadores. O IPEC perguntou se os atuais parlamentares fiscalizam adequadamente a Prefeitura. Apenas 15% responderam sim.


Para 32%, a fiscalização ocorre parcialmente. Para 46%, os vereadores não fiscalizam adequadamente a Prefeitura. Outros 7% não souberam ou não responderam. Ou seja, 78% colocam a fiscalização entre parcial e inexistente.


Esse resultado ganha relevância diante da composição política que marcou o início de 2026. Em fevereiro, os dez vereadores eram descritos como integrantes da bancada governista.


Ter relação política com o Executivo não é irregular. Governos municipais precisam construir maiorias legislativas para aprovar projetos e executar programas. O problema começa quando a maioria é percebida como incapaz de exercer controle sobre quem governa.


Um episódio recente ajuda a explicar por que a fiscalização aparece tão mal avaliada. Em julho, Luciano Pacheco apresentou requerimento solicitando informações sobre patrocinadores, valores repassados e gastos relacionados ao São João de Arcoverde. Segundo dois veículos locais que acompanharam a votação, o pedido foi rejeitado por 9 votos a 1.


O estopim não localizou, nas fontes consultadas para esta análise, uma justificativa pública detalhada dos nove vereadores explicando individualmente por que consideraram inadequado o requerimento. Por isso, não é correto afirmar que a votação tenha ocorrido necessariamente para esconder informações. Mas o efeito político é difícil de ignorar.


Quando apenas 15% dos entrevistados dizem que os vereadores fiscalizam adequadamente a Prefeitura e, semanas antes da pesquisa, nove parlamentares rejeitam um pedido de informações sobre receitas e despesas de um grande evento municipal, surge um problema de coerência institucional.


Fiscalizar não significa ser oposição. Fiscalizar significa exigir documentos, acompanhar contratos, verificar despesas, cobrar resultados e permitir que o cidadão saiba como o dinheiro e os bens públicos são administrados. A Câmara pode aprovar projetos do prefeito e, ao mesmo tempo, fiscalizá-lo. Uma função não elimina a outra.


A avaliação da contribuição dos vereadores para o desenvolvimento de Arcoverde é igualmente severa. Apenas 15% respondem que os atuais vereadores contribuem para o desenvolvimento da cidade. Outros 39% dizem que contribuem "em parte". Para 42%, os vereadores não estão contribuindo para o desenvolvimento de Arcoverde. Quatro por cento não souberam ou não responderam.


Novamente, há uma concentração das respostas fora do reconhecimento pleno. Somando "em parte" e "não", são 81%. O eleitorado parece cobrar uma Câmara cuja presença seja percebida para além de requerimentos de rotina, homenagens, disputas internas e alinhamentos de grupo.


A cidade nem sequer conhece bem a própria Câmara


Outro dado mostra o tamanho da distância institucional. O IPEC perguntou espontaneamente quantos vereadores existem atualmente em Arcoverde. A resposta correta é dez, informação que o próprio questionário utiliza depois ao perguntar sobre possível aumento de vagas.


Apenas 28% responderam dez. Mais da metade, 52%, não soube ou não respondeu. Outros 20% deram números diferentes. Não se pode responsabilizar exclusivamente os vereadores pelo desconhecimento do eleitor. Mas uma instituição cuja composição básica é desconhecida por grande parte da população precisa perguntar se está conseguindo ser presente, inteligível e acessível.


Há uma diferença entre aparecer em redes sociais e efetivamente integrar a vida política do cidadão.


O recado fica ainda mais explícito quando o IPEC aborda a ampliação das vagas. A pergunta informava aos entrevistados que Arcoverde poderia chegar a 17 vereadores e acrescentava que isso ocorreria sem aumento de despesas.


Mesmo com essa ressalva, 61% se disseram contra aumentar o número de vereadores. Apenas 33% foram favoráveis e 6% não souberam ou não responderam. Entre os 33% favoráveis, o levantamento perguntou quantas vagas seriam ideais. Nesse universo específico de 100 entrevistados, 33% escolheram 17 cadeiras e 29% preferiram 15.


Mas o resultado geral é inequívoco na fotografia da pesquisa: a maioria não quer ampliar a Câmara. Politicamente, esse é talvez o recado mais simples.


Antes de convencer a população de que Arcoverde precisa de mais vereadores, a Câmara precisa convencer a cidade da utilidade política dos vereadores que já possui.

Luciano ocupa um espaço que os demais deixaram vazio


A vantagem de Luciano Pacheco não pode ser explicada exclusivamente pelo conflito com Zeca Cavalcanti ou pela presidência da Casa. Esses fatores certamente aumentam sua exposição, mas não explicam sozinhos por que a percepção espontânea de atuação dos demais é tão baixa.


A diferença entre 31% e 5% para o segundo colocado é enorme. Mais importante ainda é constatar que nenhum outro vereador chega sequer a dois dígitos quando o eleitor é perguntado sobre quem mais atua. Isso sugere um problema coletivo de construção de mandato.


Vereador não é apenas alguém que comparece à sessão e vota. Representação exige presença territorial, prestação de contas, fiscalização, elaboração de propostas, capacidade de escuta e disposição para contrariar até o próprio grupo político quando o interesse público exigir.


A pesquisa indica que, para grande parte da população, esse trabalho ou não está acontecendo em intensidade suficiente ou não está sendo percebido. Nos dois casos, há um problema político.


O eleitorado deu um recado aos dez vereadores


Os indicadores permitem resumir os principais alertas da pesquisa:


  1. Reconstruir confiança. Apenas 14% confiam ou confiam muito nos vereadores, enquanto 83% confiam pouco ou não confiam.

  2. Representar a população com mais consistência. Só 17% percebem representação sempre ou na maioria das vezes; 51% respondem raramente ou nunca.

  3. Fiscalizar de verdade. Apenas 15% consideram adequada a fiscalização sobre a Prefeitura e 46% dizem que ela não é adequada.

  4. Mostrar utilidade para a cidade. Só 15% veem contribuição plena para o desenvolvimento, enquanto 42% não enxergam contribuição.

  5. Parar de transformar ausência em instrumento político. Os episódios de falta de quórum mostraram uma instituição vulnerável à disputa interna.

  6. Demonstrar por que mais cadeiras seriam necessárias. Sessenta e um por cento rejeitam ampliar o número de vereadores, mesmo após serem informados de que a mudança não implicaria aumento de despesas.


Há uma conclusão política que atravessa quase todos os dados. Luciano Pacheco conseguiu se separar da imagem coletiva da Câmara. A Casa é vista com desconfiança. Luciano é percebido como atuante por parcela muito maior do eleitorado do que qualquer colega. Isso não transforma Luciano em representante automático da maioria e tampouco elimina as controvérsias que cercaram sua presidência. Mas produz um problema para os outros nove vereadores.


Se a estratégia política era isolar Luciano após o rompimento com o governo, a fotografia do IPEC sugere que o resultado, ao menos na percepção de atuação, foi inverso: Luciano aparece isolado, mas isolado na frente. Enquanto isso, seus adversários dentro da Casa precisam explicar por que nenhum deles ultrapassa 5% na pergunta sobre atuação.


A democracia municipal não funciona plenamente quando o Legislativo é tratado como extensão administrativa da Prefeitura nem quando vira palco permanente de vinganças, boicotes e guerras pessoais. O papel de uma Câmara é justamente permitir que interesses divergentes sejam processados institucionalmente.


O conflito faz parte da política. A ausência deliberada, a paralisia e o abandono das funções de fiscalização não podem virar substitutos do conflito democrático.


Em maio, O estopim já havia apontado que a crise política local estava produzindo paralisia, personalismo e perda do foco no interesse público. A pesquisa do IPEC agora oferece números que ajudam a medir o tamanho dessa ruptura entre instituição e sociedade.


O eleitorado não parece pedir uma Câmara sem divergências. Pede uma Câmara que trabalhe apesar das divergências.


O que acontece agora?


Os vereadores de Arcoverde têm pouco mais de dois anos pela frente antes da eleição municipal de 2028. Até lá, os indicadores que mais merecem acompanhamento não são apenas popularidade individual ou quantidade de requerimentos apresentados.


O teste será verificar se a Câmara consegue recuperar confiança, ampliar a percepção de representação, exercer fiscalização mais visível e construir uma agenda reconhecida pela população como relevante para o desenvolvimento da cidade.


Luciano Pacheco, por sua vez, terá o desafio inverso: transformar grande visibilidade em capacidade institucional sem permitir que a presidência da Casa seja reduzida ao confronto permanente com adversários.


A pesquisa IPEC foi realizada entre 25 e 27 de julho de 2026 com 304 eleitores das áreas urbana e rural de Arcoverde, em entrevistas presenciais. O levantamento informa nível de confiança de 95% e margem máxima de erro de 5,62 pontos percentuais. O instituto recomenda cautela na interpretação dos cruzamentos por sexo, idade, renda, escolaridade e área quando as bases absolutas forem menores.


Os resultados entregam uma agenda clara para o restante da legislatura. A Câmara não precisa apenas melhorar sua imagem. Precisa mostrar por que existe, quem representa, o que fiscaliza e de que maneira suas decisões melhoram a vida da população.


Luciano Pacheco aparece como o vereador que mais conseguiu transformar mandato em percepção pública de atuação. Para os demais, o recado do eleitorado é menos confortável: ocupar uma cadeira não basta para ser percebido como representante.


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Mateus Ayres é jornalista e analista político de O estopim, com atuação em política nacional e internacional e análise de conjuntura. Seu trabalho acompanha instituições e relações de poder com atenção à justiça social, ao interesse público e ao rigor documental.



Representação pede investigação por improbidade, afastamento cautelar, convocação de suplentes e corte de subsídios. O caminho legal, porém, é mais longo e menos automático do que o embate político sugere.


Por Raul Silva para O estopim | 21 de maio de 2026



Dois homens sorrindo, um segura um documento. Fundo vermelho com porta branca. Um homem usa camisa azul. Cena ao ar livre e clima descontraído.
Guilherme Ribeiro presidente do PT Arcoverde e Jairo Rodrigues Secretário de Comunicação no MPPE de Arcoverde | Foto: Comunucação/PT Arcoverde

O diretório municipal do PT de Arcoverde protocolou uma representação no Ministério Público de Pernambuco contra nove vereadores da Câmara Municipal de Arcoverde e transformou uma crise política local em uma disputa de natureza institucional, administrativa e judicial. Na peça, o partido sustenta que houve absenteísmo deliberado para esvaziar sessões, derrubar o quórum mínimo e paralisar o funcionamento do Legislativo. A denúncia pede investigação por improbidade administrativa, afastamento cautelar dos parlamentares, convocação imediata de suplentes e desconto proporcional nos subsídios pagos aos faltosos. O caso se passa em meio a sessões frustradas, vídeos publicados nas redes e um conflito aberto em torno da presidência da Casa.


O ponto central, no entanto, está menos no impacto político imediato da denúncia e mais no que a lei realmente permite a partir daqui. A representação do PT pode abrir um caminho formal de apuração, mas não produz, por si só, qualquer efeito automático sobre mandato, remuneração ou composição da Câmara. Entre a peça entregue ao MPPE e uma eventual sanção existe um percurso jurídico que depende de triagem, coleta de provas, contraditório, enquadramento legal e, em alguns casos, decisão judicial.



A representação sustenta que a crise deixou de ser apenas um impasse interno e passou a comprometer o próprio funcionamento do Poder Legislativo municipal. O PT atribui a paralisação a um boicote organizado por nove vereadores, apontados nominalmente na peça: Célia, Heriberto do Sacolão, João Marcos, João Taxista, Luiza Margarida, Paulinho Galindo, Rodrigo Roa, Sargento Brito e Wellington Siqueira. O presidente da Câmara, Luciano Pacheco, ficou fora do polo passivo porque, segundo o documento, teria sido o único presente nas sessões esvaziadas.


O partido afirma que a conduta foi assumida publicamente em vídeo e que não se tratou de ausência fortuita, motivada por doença, licença ou força maior. A tese é a de um absenteísmo consciente, usado como instrumento de pressão política contra a presidência da Casa. A peça também cita sessões frustradas em março e maio, com impacto sobre pautas administrativas e sobre a tramitação de pedidos de cassação.


Na prática, o PT pede seis providências centrais: a autuação da notícia e a abertura de investigação, a requisição das listas de presença e dos registros das sessões, o ajuizamento de ação por improbidade, o afastamento cautelar dos nove vereadores, a posse imediata dos suplentes e a emissão de recomendação para desconto proporcional nos subsídios pagos aos faltosos.



Antes mesmo de chegar à legislação federal, o caso encontra regras claras no plano local. O Regimento Interno da Câmara de Arcoverde estabelece que as sessões ordinárias só podem ser abertas com a presença da maioria absoluta dos vereadores. Como a Lei Orgânica do município, atualizada em 2024, registra uma Câmara com 10 cadeiras, o número mínimo para abrir os trabalhos é de seis parlamentares. Se esse número não for alcançado, o presidente aguarda 15 minutos, manda lavrar uma ata sintética e declara prejudicada a realização da sessão.


Esse ponto é decisivo porque ajuda a separar duas discussões. A primeira é política: a minoria ou a maioria pode faltar como forma de pressão? A segunda é jurídica: quando a ausência deixa de ser uma escolha individual do parlamentar e passa a afetar a continuidade de um poder constitucionalmente instituído? No caso de Arcoverde, a denúncia do PT tenta justamente deslocar o debate para essa segunda camada.



A Lei Orgânica também contém dois dispositivos que pesam no diagnóstico. O primeiro determina o desconto proporcional nos proventos dos vereadores faltosos em relação às sessões não assistidas. O segundo prevê perda de mandato para o vereador que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa anual, à terça parte das sessões ordinárias, salvo doença comprovada, licença ou missão autorizada pela edilidade. O texto ainda trata como hipótese de perda de mandato a utilização do cargo para atos de improbidade administrativa e considera incompatível com o decoro o abuso das prerrogativas parlamentares ou a percepção de vantagens ilícitas ou imorais.


Isso significa que o ordenamento local já oferece instrumentos de reação. A Presidência pode justificar ou não a falta, registrar a ausência, promover o desconto proporcional e, em cenário mais extremo, abrir ou admitir o debate político-administrativo sobre perda de mandato, desde que observadas as regras de rito e defesa. A própria Lei Orgânica admite provocação por partido político legalizado em hipóteses de perda de mandato ligadas a proibições e decoro. Em outras palavras, a representação ao MPPE não substitui os mecanismos internos da Câmara, mas tenta acelerar sua responsabilização por outra via.


Fachada do Ministério Público de Pernambuco, Promotoria de Arcoverde. Prédio com paredes de tijolos, jardim em frente e texto em placa.
Sede do Ministério Público de Pernambuco em Arcoverde PE | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O Ministério Público tem base constitucional para promover inquérito civil e ação civil pública em defesa do patrimônio público, da moralidade administrativa e de interesses coletivos. Essa é a porta jurídica utilizada pelo PT ao levar o caso para fora da Câmara. A legislação nacional também dá ao MP poder para requisitar documentos, colher informações e, se houver elementos suficientes, propor ação judicial.


Mas é justamente na passagem do conflito político para a esfera judicial que o caso fica mais complexo.


A representação foi construída com base na Lei de Improbidade Administrativa. O problema para os denunciantes é que, depois da reforma de 2021, o enquadramento por improbidade ficou mais restritivo. Hoje, o artigo 11 da lei exige ação ou omissão dolosa, e a jurisprudência passou a cobrar um lastro probatório mais robusto para diferenciar improbidade de mera irregularidade, desorganização administrativa ou disputa política dura. O Supremo Tribunal Federal consolidou que a responsabilização por improbidade exige responsabilidade subjetiva. Em português claro, não basta mostrar que a Câmara parou. É preciso demonstrar que a paralisação decorreu de conduta dolosa juridicamente enquadrável.


Esse detalhe faz toda a diferença. O PT parte de uma premissa forte ao dizer que a intenção estaria confessada em vídeo. Se o conteúdo comprovar, de fato, uma decisão coordenada de faltar para impedir o funcionamento da Casa, a tese ganha densidade. Ainda assim, a prova do dolo não encerra o debate. O Ministério Público e, depois, o Judiciário terão de avaliar se essa conduta se encaixa no tipo legal da improbidade ou se permanece no terreno da responsabilidade político-administrativa interna.


Há ainda outra lei importante no pano de fundo: o Decreto-Lei nº 201, de 1967, que disciplina a responsabilidade de prefeitos e vereadores. No caso dos vereadores, esse decreto prevê hipóteses de cassação de mandato pela Câmara, inclusive quando o parlamentar usa o mandato para praticar atos de corrupção ou de improbidade administrativa. Isso reforça um aspecto central da crise de Arcoverde: parte relevante da resposta institucional pode continuar dentro da própria Câmara, desde que haja quórum e disposição política para processar o caso.


Prédio do Poder Legislativo com fachada espelhada, palmeira à frente e carro branco estacionado. Céu nublado ao fundo. Pessoas caminhando.
Câmara de Vereadores de Arcoverde | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O primeiro passo costuma ser a autuação da demanda como notícia de fato. Nessa fase inicial, o Ministério Público analisa se o relato descreve lesão ou ameaça relevante a interesse tutelado pelo órgão, se há base documental mínima e se o caso realmente está em sua esfera de atribuição. Essa etapa não é mera formalidade. É ali que a representação pode seguir, ser arquivada ou ser convertida em procedimento mais robusto.


Se entender que o fato exige apuração, o promotor pode instaurar o instrumento adequado, que pode ser um procedimento preparatório, um procedimento administrativo ou um inquérito civil, a depender da natureza do que precisa ser esclarecido. Na prática, isso abre espaço para o MPPE ouvir os envolvidos, analisar os vídeos citados, comparar as listas de presença, requisitar atas, examinar folhas de pagamento, verificar se houve justificativas formais de ausência e aferir o impacto concreto da paralisia sobre a atividade legislativa.


Essa fase é decisiva porque o caso não se resolve apenas com narrativa. O Ministério Público vai precisar responder perguntas objetivas: houve falta sem justificativa legal? Houve coordenação entre os ausentes? A paralisação foi pontual ou reiterada? Projetos, votações, fiscalizações e processos internos deixaram de ocorrer por causa das ausências? Houve pagamento integral de subsídios em sessões frustradas? Houve reação formal da Mesa Diretora ou do controle interno?


Dependendo das respostas, o MPPE pode adotar caminhos diferentes. Pode arquivar o caso se entender que os fatos não configuram ilícito. Pode expedir recomendação administrativa para que a Câmara cumpra regras de desconto e publicidade. Pode buscar solução extrajudicial. Ou pode ajuizar ação por improbidade, se concluir que há prova de dolo, tipicidade e lesão relevante à moralidade administrativa.


A crise em Arcoverde ficou politicamente ruidosa, mas a lei não trabalha em modo automático. A mera apresentação da representação não afasta vereador, não corta salário de imediato, não empossa suplente e não produz cassação instantânea.


O afastamento cautelar pedido pelo PT é uma medida excepcional. Pela Lei de Improbidade, ele depende de decisão judicial e deve ser justificado pela necessidade concreta de evitar novos ilícitos ou proteger a instrução processual. Não se trata de punição antecipada nem de atalho para recompor maioria em plenário. Em geral, o Judiciário exige fundamentação objetiva, risco demonstrado e adequação da medida ao caso concreto.


A convocação de suplentes também não decorre automaticamente da representação. Pela Lei Orgânica de Arcoverde, a convocação ocorre nos casos de vaga ou licença. Se houver um afastamento judicial, ainda será necessário discutir se a decisão gera, por si, situação apta a justificar a convocação temporária e em que moldes isso se daria. Sem essa ordem específica, o pedido formulado pelo PT pode esbarrar numa lacuna prática.


O mesmo raciocínio vale para o desconto nos subsídios. A previsão local existe e é clara, mas sua aplicação depende de apuração administrativa e de verificação da natureza da falta. Se houve ausência injustificada, o corte encontra respaldo normativo. Se houve justificativa formal aceita pela Presidência, o cenário muda. A denúncia do PT pressiona para que esse filtro seja feito com rigor, mas o filtro ainda precisa ser feito.


Cadeira de vereadores vazia em uma câmara municipal. Mesas de mármore, bandeiras ao fundo e cadeiras pretas e brancas no salão. Atmosfera formal.
Plenário da Câmara de Arcoverde | Foto: Reprodução Redes Sociais

A representação parte de três elementos que, do ponto de vista jurídico, não são desprezíveis.


O primeiro é a materialidade mínima inicial. A peça não se apoia só em rumor político. Ela lista nomes, datas, links de vídeos e sessões concretas, e descreve a consequência institucional das ausências.


O segundo é a existência de regra local expressa sobre quórum, desconto por falta e perda de mandato por ausência reiterada. Isso afasta o argumento de que a crise estaria num vácuo normativo.


O terceiro é o interesse público envolvido. Quando o conflito interno deixa de ser apenas disputa entre bancada e presidência e passa a bloquear sessões, votações e funções de fiscalização, o caso ganha relevância para além dos grupos em confronto.


A robustez política da denúncia não elimina seus obstáculos legais.


O primeiro é o padrão atual da improbidade administrativa, mais exigente do que era no passado. A reforma legislativa e a jurisprudência recente reduziram o espaço para enquadrar como improbidade toda conduta censurável no plano ético ou político.


O segundo é a autonomia do Legislativo. O Judiciário e o Ministério Público podem agir quando há indício de ilegalidade, lesão à moralidade ou abuso, mas tendem a ser cautelosos quando a controvérsia pode ser tratada por mecanismos regimentais internos.


O terceiro é a própria arquitetura dos pedidos. Afastar nove vereadores e, ao mesmo tempo, determinar a posse imediata de suplentes é uma solução juridicamente ousada. Pode ser defendida sob o argumento da continuidade institucional, mas está longe de ser uma decorrência simples da lei local.


No curto prazo, o desfecho mais provável não é uma decisão explosiva, e sim uma etapa de investigação. O MPPE deve primeiro verificar a consistência da representação, reunir elementos documentais e ouvir as partes antes de decidir se leva o caso ao Judiciário. Esse é o rito mais compatível com a gravidade da acusação e com as exigências atuais da legislação de improbidade.


No plano político, a denúncia aumenta a pressão sobre os vereadores citados e sobre a própria Presidência da Câmara. Se as ausências continuarem, a crise tende a ganhar contornos mais severos, porque o acúmulo de faltas pode fortalecer não apenas a via do Ministério Público, mas também as hipóteses de responsabilização previstas na Lei Orgânica e no Decreto-Lei nº 201.


No plano institucional, o caso coloca Arcoverde diante de uma pergunta mais ampla: até onde vai a autonomia do mandato parlamentar quando a ausência deixa de ser um ato individual e passa a comprometer o funcionamento de um poder inteiro? A resposta a essa pergunta não virá de uma postagem em rede social nem de uma frase de efeito em vídeo. Ela virá da prova, do rito e da capacidade das instituições de separar protesto político de paralisação deliberada da máquina pública.


Por ora, o que existe é uma crise formalmente judicializada. O que ainda não existe é punição pronta.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder local e interesse público, com foco em apuração documental e análise institucional.


Por Raul Silva para O estopim | 19 de maio de 2026



A política de Arcoverde entrou, nos últimos meses, numa espiral de desgaste que mistura denúncia, pedido de cassação, renúncia, confusão em plenário, sessão sem quórum e troca permanente de acusações entre vereadores e grupos ligados ao Executivo. O resultado prático é um só: enquanto a Câmara se fecha em disputas internas e a relação com a Prefeitura desce ao nível do confronto aberto, a população fica sem o debate sério que deveria orientar um Poder Legislativo eleito para fiscalizar, legislar e representar.


Fachada de um prédio do Poder Legislativo, com janelas espelhadas refletindo o céu. Bandeiras hasteadas. Um cartaz anuncia itens por R$ 1,50.
Prédio da Câmara Municipal de Arcoverde | Fonte: Reprodução/Facebook

O contraste é eloquente. No início de fevereiro, o discurso oficial era de convergência entre os poderes, com presença de representantes do Executivo na abertura dos trabalhos e promessa de diálogo institucional. Menos de quatro meses depois, o ambiente é outro. O que era anunciado como harmonia virou disputa por narrativa, guerra por controle político da Câmara e uma sequência de episódios que corroem a credibilidade do parlamento municipal.


A crise ganhou força com o avanço de denúncias contra o presidente da Câmara, Luciano Pacheco, acusado por adversários de ter exercido atividade privativa da advocacia enquanto ocupava cargo incompatível na Mesa Diretora. Ele nega irregularidade e sustenta que é alvo de perseguição política. Em paralelo, o então vice-presidente Claudelino Costa renunciou ao mandato em meio a outra frente de desgaste político e jurídico, o que ampliou o ambiente de excepcionalidade dentro da Casa.


Em vez de produzir contenção institucional, o episódio abriu mais frentes de conflito. As sessões passaram a ser contaminadas por disputas que extrapolaram a divergência política e migraram para o terreno da provocação, da exposição pessoal e da desordem.


A sessão de 20 de abril virou símbolo desse rebaixamento. O que deveria ser espaço de debate público terminou associado a bate-boca, interrupção dos trabalhos e tensão fora do rito parlamentar. Não se trata apenas de um incidente isolado. Trata-se de um sintoma. Quando uma Casa legislativa perde a capacidade de manter ordem, foco e decoro, ela deixa de ser arena democrática e passa a operar como palco de conflito performático.


Esse desvio ficou ainda mais evidente quando, em 11 de maio, a sessão ordinária não ocorreu por falta de quórum. A ausência de parlamentares já seria grave em qualquer contexto. Em meio a uma crise instalada, torna-se ainda mais reveladora. Faltar a uma sessão numa conjuntura assim significa aumentar a sensação de que a política local está concentrada mais na disputa entre grupos do que na obrigação com a cidade.


No material em vídeo que circulou após os episódios, uma frase resume com precisão o sentimento predominante: “Faltas às sessões e troca de acusações entre vereadores: só quem perde é a população de Arcoverde”. O ponto central é esse. Não importa qual ala grite mais alto. Numa cidade que depende da regularidade institucional para votar projetos, fiscalizar gastos e destravar agendas públicas, a desorganização do Legislativo deixa de ser um problema de bastidor e passa a ser um problema coletivo.


A pauta da sessão de 18 de maio mostra que a crise deixou de ser lateral e passou ao centro da atividade legislativa. Em vez de um parlamento concentrado em prioridades urbanas, serviços, saúde, infraestrutura, mobilidade e políticas sociais, o que se vê é uma Casa absorvida por requerimentos de cassação e por uma agenda moldada pela luta interna de poder.



Não há democracia madura quando o mecanismo excepcional de responsabilização política passa a ocupar o coração da agenda sem que a população consiga enxergar, com clareza, uma saída institucional rápida, transparente e estável. Instrumentos de apuração e responsabilização são legítimos. O problema surge quando a sucessão de denúncias, notas e embates transforma a Câmara num organismo voltado para si mesmo.


Arcoverde não elegeu vereadores para assistir a sessões consumidas por vaidade, revide e cálculo de facção. E também não elegeu uma Câmara para servir como extensão emocional de brigas entre grupos que até ontem dividiam o mesmo palanque e hoje disputam a narrativa do rompimento. O eleitor vota esperando representação. O que recebe, neste momento, é um espetáculo de instabilidade.


A crise na Câmara não pode ser lida como um problema apenas interno do Legislativo. Ela revela também o esgarçamento da relação política com o Executivo municipal. De um lado, a Prefeitura adotou postura pública de distanciamento formal em relação a parte das denúncias e tenta evitar a imagem de interferência direta. De outro, o ambiente político local é atravessado por acusações de articulação, rompimento de alianças e reposicionamento de lideranças de olho no tabuleiro estadual e nas eleições futuras.


Esse tipo de guerra quase nunca fica restrito ao discurso. Quando Executivo e Legislativo entram numa lógica de hostilidade permanente, a cidade inteira sente. Projetos atrasam, votações se contaminam, a pauta administrativa perde previsibilidade e a confiança do cidadão desaba. A população não acompanha apenas um duelo de versões. Ela convive com o risco real de paralisia.


É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. A política de Arcoverde não está vergonhosa porque existe conflito. Conflito faz parte da democracia. Ela está vergonhosa porque o conflito deixou de produzir mediação, fiscalização e deliberação e passou a produzir ruído, constrangimento público e infantilização da vida institucional.


Retrato com nove quadros de pessoas sorrindo em roupas formais, emoldurados na parede branca. Expressão amigável e formal.
Onde estão os vereadores de Arcoverde? | Foto: Reprodução/IA Gemini

Nas redes sociais e na cobertura local, a reação predominante foi de desgaste. O vocabulário que passou a circular em publicações, comentários e chamadas de vídeos é revelador: crise, caos, semana turbulenta, questionamentos, omissão, vexame. Não é coincidência. É a linguagem que emerge quando a população deixa de enxergar firmeza institucional e passa a perceber a política como descontrole.


Há, de um lado, o registro da sessão de 18 de maio, já sob o peso da crise. Há, de outro, vídeos curtos produzidos para redes sociais e grupos de mensagem em que o foco deixa de ser a deliberação parlamentar e passa a ser o comentário sobre faltas, acusações e desgaste público. Quando a principal narrativa sobre uma Câmara não é a lei que ela discute, mas a confusão que ela produz, o problema político já ultrapassou o limite do tolerável.


Vista aérea de uma cidade ao pé das montanhas em dia nublado. Prédios e casas com tetos alaranjados destacam-se sob nuvens cinza.
Vista da cidade de Arcoverde do Alto do Cruzeiro | Fonte: Wikipédia

Arcoverde tem mais de 82 mil habitantes e não pode naturalizar um padrão de degradação institucional como se fosse folclore político do interior. Não é. É falha de representação. É desvio de prioridade. É quebra de compromisso com a função pública.


A cidade tem o direito de cobrar, no mínimo, cinco coisas imediatas.


  • Regularidade das sessões e presença dos parlamentares

  • Transparência integral sobre denúncias, ritos e votações

  • Contenção do uso da tribuna e do plenário para ataques pessoais

  • Separação clara entre disputa política legítima e sabotagem institucional

  • Retomada urgente da agenda concreta da cidade


Sem isso, a Câmara continuará parecendo menos uma instituição republicana e mais uma arena de humilhação pública. E uma democracia local começa a adoecer justamente quando seus representantes perdem a noção do ridículo institucional, ainda que mantenham intacta a capacidade de ocupar microfones, publicar notas e alimentar trincheiras.


Arcoverde merece divergência, fiscalização e debate duro. O que não merece é a substituição da política por um teatro de ressentimentos em que quase todos falam em nome do povo, mas poucos demonstram disposição real para trabalhar por ele.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, interesse público e os impactos concretos das decisões de poder na vida local.


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