Relatório com dados de 21 países calcula que 20 milhões de crianças e adolescentes sofreram exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia em um ano; no Brasil, estimativa chega a 3 milhões de vítimas
Por Clara Mendes para O estopim |
7 de setembro de 2026

Mais de 15 milhões de crianças e adolescentes de 12 a 17 anos foram expostos a conteúdo sexual indesejado em ambientes digitais durante um período de um ano, segundo relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef. O levantamento reúne dados de usuários de internet em 21 países e estima que cerca de 20 milhões tenham sofrido ao menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia.
O relatório “Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil” calcula ainda que 9 milhões de crianças e adolescentes receberam pedidos para participar de conversas de natureza sexual ou compartilhar imagens íntimas contra a própria vontade. Outros 4 milhões tiveram imagens íntimas divulgadas sem consentimento.
Os números não representam todas as crianças e adolescentes do mundo. O estudo é baseado em pesquisas nacionalmente representativas feitas com aproximadamente 21 mil usuários de internet de 12 a 17 anos nos países incluídos no levantamento, além de entrevistas aprofundadas com 100 jovens que sofreram abuso durante a infância.
A coleta reúne duas etapas do projeto Disrupting Harm. A primeira ocorreu principalmente entre 2020 e 2021 em 12 países. A segunda, realizada em 2024 e 2025, incluiu outros nove, entre eles o Brasil.
Cerca de 60% dos casos identificados no levantamento global ocorreram em grandes plataformas de redes sociais e aplicativos de mensagens, incluindo Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp. Os jogos online responderam por 14% das ocorrências.
O relatório também confronta a ideia de que o agressor é, na maior parte das vezes, um desconhecido. Em 57% dos casos, a violência envolveu alguém que a criança ou adolescente já conhecia, como amigos, familiares, parceiros afetivos ou outras pessoas do convívio. Em 38%, porém, o primeiro contato com o agressor aconteceu pela internet.
A subnotificação aparece como um dos principais obstáculos para dimensionar a violência. Mais de 40% dos casos analisados nunca foram revelados pela vítima a nenhuma pessoa. Menos de 1% chegaram à polícia, a profissionais de assistência social ou a serviços de apoio.
Segundo o Unicef, uma das principais razões apresentadas pelas vítimas para não denunciar é não saber a quem recorrer.
Segundo a Unicef o Brasil tem cerca de 3 milhões de vítimas
No recorte brasileiro do projeto, 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que usam a internet relataram ter sofrido exploração ou abuso sexual facilitado por tecnologia em um período de 12 meses. A proporção corresponde a aproximadamente 3 milhões de meninas e meninos.
A exposição a conteúdo sexual não solicitado foi a ocorrência mais comum no país e atingiu 14% dos entrevistados.
No Brasil, 49% das situações envolveram uma pessoa conhecida da vítima. Outros 34% dos entrevistados que sofreram esse tipo de violência disseram que não contaram o ocorrido a ninguém.
As tecnologias digitais estiveram diretamente envolvidas em 66% dos casos brasileiros identificados pela pesquisa. Redes sociais e aplicativos de mensagens concentraram 64% das ocorrências, enquanto jogos online responderam por 12%.
Instagram e WhatsApp apareceram entre as plataformas mais citadas pelas vítimas, com índices de 59% e 51%, respectivamente. Os percentuais não significam que as plataformas tenham cometido os crimes, mas indicam os ambientes em que as situações relatadas ocorreram.
Impactos vão além do ambiente digital
O levantamento encontrou associação entre a violência sexual facilitada por tecnologia e indicadores de sofrimento psicológico.
Crianças e adolescentes que relataram esse tipo de exploração ou abuso apresentaram probabilidade quatro vezes maior de também relatar pensamentos ou comportamentos suicidas e automutilação quando comparados aos demais participantes. Os níveis de ansiedade também foram maiores.
Os dados mostram associação entre os fatores e não permitem afirmar, isoladamente, que a violência digital seja a única causa desses problemas.
Brasil endurece regras para plataformas e crimes digitais
Os dados são divulgados no mesmo ano em que novas normas brasileiras passaram a ampliar a proteção de crianças e adolescentes na internet.
O ECA Digital, Lei nº 15.211 de 2025, está em vigor desde 17 de março de 2026 e obriga fornecedores de serviços digitais acessados por crianças e adolescentes a prevenir e reduzir riscos de exploração sexual, assédio e exposição a conteúdo pornográfico.
A legislação prevê mecanismos de aferição de idade para conteúdos restritos, configurações de segurança, ferramentas de supervisão parental e sistemas para que usuários comuniquem violações.
Quando identificarem conteúdo com indícios de exploração, abuso sexual, sequestro ou aliciamento de crianças e adolescentes, as plataformas devem adotar medidas de retirada e comunicação às autoridades nos casos previstos pela regulamentação.
Em agosto, a Lei nº 15.487 de 2026 também ampliou dispositivos penais relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes. A legislação passou a alcançar conteúdos manipulados ou gerados por tecnologias digitais, inclusive inteligência artificial, e aumentou penas para determinadas formas de produção, divulgação e comercialização desse material.
Dados da SaferNet reforçam que o problema já ocupa parcela significativa das denúncias sobre crimes na internet no país. Entre janeiro e julho de 2025, a entidade recebeu 49.336 denúncias anônimas relacionadas a abuso e exploração sexual infantil, equivalentes a 64% das notificações recebidas pelo canal no período.
Casos de violência ou violação de direitos contra crianças e adolescentes podem ser comunicados gratuitamente ao Disque 100, que funciona 24 horas por dia. Crimes praticados pela internet também podem ser encaminhados aos canais oficiais da Polícia Federal e às ferramentas de denúncia das próprias plataformas.
O relatório do Unicef conclui que a proteção não pode ser transferida exclusivamente para crianças, adolescentes ou suas famílias. A organização defende mudanças no desenho das plataformas, mecanismos de denúncia acessíveis, restrições a contatos indesejados, fiscalização das empresas de tecnologia e sistemas públicos capazes de acolher as vítimas.
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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista do O estopim, com cobertura de direitos humanos, política, Justiça, segurança pública e acontecimentos em tempo real.
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