Reportagem mostra servidor cedido ao Estado descrevendo rede com mais de 300 perfis; PF e Justiça Eleitoral apuram suspeitas, ainda sem conclusão.
Por Raul Silva para O estopim |
25 de agosto de 2026
Cobertura das Eleições 2026

Uma reportagem exibida pela Record na noite desta terça-feira (25), acrescentou novos elementos às suspeitas sobre uma rede digital de ataques a adversários políticos em Pernambuco. O material mostra Amisadai Andrade da Silva, funcionário da Caixa Econômica Federal cedido ao Governo do Estado, descrevendo uma estrutura formada por páginas, portais e perfis que atuariam de maneira articulada para atingir politicamente João Campos (PSB), candidato ao Governo de Pernambuco e principal adversário da governadora Raquel Lyra (PSD) na eleição de 2026. A emissora afirma que parte da estrutura recebe recursos provenientes da publicidade pública estadual.
A expressão “gabinete do ódio” aparece em denúncias apresentadas desde 2025 relacionadas do Governo Raquel Lyra. No vídeo analisado por O estopim, Amisadai afirma que houve reunião no Palácio do Campo das Princesas e explica uma dinâmica baseada em veículo próprio, perfis parceiros e publicações conjuntas nas redes sociais. Em um dos trechos, diz:
“A gente conversa com o pessoal das redes para fazer ‘collab’.”
A Record afirma que a rede alcançaria mais de 300 perfis.
Como a rede descrita na reportagem funcionaria
O modelo apresentado pela reportagem não depende de uma única página. Segundo o relato de Amisadai, existe um veículo de comunicação que publica conteúdo político e mantém relação com diferentes páginas e perfis. Essas contas podem compartilhar a mesma publicação por meio da ferramenta de colaboração das redes sociais, ampliando simultaneamente o alcance de determinado conteúdo.
Na gravação, ele também relata que o Governo do Estado teria enxergado o grupo como um canal capaz de “desidratar” João Campos.
Em outro momento, Amisadai menciona uma reunião no Palácio do Campo das Princesas.
Esses trechos são relevantes porque indicam três componentes de uma operação digital: produção de conteúdo, distribuição coordenada por vários perfis e objetivo político de reduzir a força de um adversário.
O vídeo disponível, sozinho, não permite saber quem participou da reunião citada, quais orientações teriam sido dadas nem comprovar que Raquel Lyra pessoalmente comandou ou autorizou a estrutura.
O texto publicado pelo R7 após a exibição da reportagem afirma que Amisadai teria dito que foi chamado pela governadora para realizar o trabalho contra Campos.
Quem é Amisadai Andrade e qual sua ligação com o governo
A relação funcional de Amisadai com o Governo de Pernambuco é confirmada por documentos públicos.
Portaria da Caixa Econômica Federal publicada no Diário Oficial da União em abril de 2025 autorizou sua cessão ao Governo de Pernambuco para atuação como superintendente do Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo, o Prodetur. O documento estabeleceu que o ônus da remuneração seria do órgão cessionário.
Em maio de 2025, atos publicados no Diário Oficial de Pernambuco registraram Amisadai em funções comissionadas da Secretaria de Turismo e Lazer, inclusive como superintendente de Operações da Arena de Pernambuco.
O sistema Tome Conta, do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, também registra despesas relacionadas ao ressarcimento à Caixa pela cessão do servidor. Um empenho de fevereiro de 2026, por exemplo, registra R$ 12.193,52 referentes à competência de dezembro de 2025.
Portanto, é fato documentado que Amisadai mantém vínculo funcional com a estrutura estadual.
Isso, por si só, não comprova que atividades políticas ou digitais eventualmente realizadas por ele tenham sido determinadas pelo governo.
Portal de Prefeitura aparece no centro da distribuição
A reportagem identifica o Portal de Prefeitura, pertencente à Portal Comunicação e Marketing Ltda., como um dos principais pontos de distribuição de conteúdo da rede.
A Record afirma que Amisadai já integrou a sociedade da empresa e que continua ligado ao domínio eletrônico do portal. O site possui centenas de milhares de seguidores e, segundo a emissora, participa de publicações compartilhadas com outras contas.
O cadastro empresarial atualmente disponível para a Portal Comunicação e Marketing Ltda., CNPJ 33.470.439/0001-37, não apresenta Amisadai entre os sócios atuais.
Esse ponto também foi contestado pela própria empresa.
Em nota exibida na reportagem da Record, a Portal Comunicação e Marketing afirmou que Amisadai deixou formalmente a sociedade em setembro de 2024, não integra a administração e não responde por contratos, publicações ou outros atos praticados posteriormente à sua saída. Porém, fica claro que a extensão dessa relação precisa ser esclarecida pelas investigações.
Como entraria o dinheiro público
A parte central da reportagem está no financiamento. Na reportagem a Record mostra uma tela de ordens bancárias referentes a 2026 cuja soma destacada chega a R$ 186.413,04.
No conteúdo publicado no R7, a emissora afirma que a Portal Comunicação e Marketing recebe recursos vinculados à publicidade do Governo de Pernambuco desde 2023 e que o total acumulado já ultrapassou meio milhão de reais.
A hipótese apresentada pela reportagem é que a publicidade institucional funcionaria como a origem financeira de veículos que, paralelamente, participariam da rede de conteúdo político.
O mecanismo seria, em linhas gerais, este: o governo contrata agências de publicidade; as agências administram campanhas e veiculações; veículos e páginas recebem recursos pela publicação de publicidade institucional; alguns desses mesmos veículos ou operadores participariam da produção ou amplificação de conteúdos contra adversários.
O ponto que ainda precisa ser demonstrado é se os pagamentos foram realizados especificamente como contrapartida pela produção de ataques políticos, ou se correspondem a veiculações institucionais regulares contratadas segundo critérios técnicos. Essa diferença é decisiva.
Contrato de publicidade de até R$ 1,2 bilhão virou foco de disputa
A discussão ocorre dentro de uma estrutura de publicidade estadual muito maior. Em 2025, o Governo de Pernambuco realizou licitação para contratar quatro agências de propaganda para atender a Secretaria de Comunicação. Documentação oficial registra entre as concorrentes a E3 Comunicação Integrada, posteriormente contratada ao lado de outras três agências.
O modelo prevê até R$ 120 milhões por ano, com valor potencial de R$ 1,2 bilhão ao longo de dez anos, considerando as prorrogações possíveis. A dimensão do contrato levou a oposição na Assembleia Legislativa a propor a chamada CPI da Publicidade.
A Record também retomou questionamentos envolvendo a instalação da E3 em Pernambuco e um imóvel relacionado a Waldemiro Ferreira Teixeira, conhecido como Dodi, primo da governadora.
Uma auditoria do TCE-PE sobre o processo de contratação apontou problemas e fez recomendações relacionadas à documentação e à transparência, mas não encontrou indícios de direcionamento do certame.
CPI foi aberta, travou e acabou extinta
A CPI da Publicidade surgiu na Assembleia Legislativa em agosto de 2025 após requerimento da então deputada Dani Portela e apoio de outros parlamentares.
A comissão, entretanto, enfrentou sucessivas disputas políticas e judiciais, praticamente não funcionou e foi oficialmente extinta em maio de 2026.
Antes disso, o presidente da Alepe, Álvaro Porto, havia acusado um assessor do gabinete da governadora de atuar em uma “milícia digital” contra parlamentares e instituições.
O assessor citado, Manoel Medeiros, rejeitou a acusação e afirmou ter atuado no exercício da cidadania ao encaminhar denúncias a órgãos de controle. O episódio mostra que a suspeita de uma estrutura digital ligada ao governo antecede a reportagem exibida agora pela Record.
Polícia Federal e Justiça Eleitoral entraram no caso
A Record afirma que a Polícia Federal investiga a empresa e que o material gravado foi levado à corporação. Outras reportagens publicadas desde abril informam a existência de inquérito para investigar uma suposta estrutura digital ligada ao Governo de Pernambuco.
Ainda, não é possível afirmar que Raquel Lyra seja formalmente investigada pessoalmente nesse procedimento apenas com as informações disponíveis.
Na Justiça Eleitoral, a campanha de João Campos apresentou neste mês um pedido ao TRE-PE para que plataformas digitais preservem dados relacionados a 13 pessoas identificadas e outros 40 perfis cujos responsáveis ainda precisariam ser determinados.
A finalidade declarada é preservar registros para eventual investigação eleitoral posterior sobre uma possível rede coordenada e seu financiamento.
O que diz a campanha de Raquel Lyra
Em resposta à iniciativa de João Campos no TRE-PE, a campanha de Raquel Lyra afirmou que o pedido de preservação de dados não comprova irregularidade.
A campanha disse receber a medida com tranquilidade, afirmou confiar na Justiça Eleitoral e sustentou que manifestações espontâneas de apoio nas redes sociais não podem ser automaticamente tratadas como participação em atividade ilegal.
Esse posicionamento foi apresentado antes da nova reportagem da Record. O texto publicado pelo R7 sobre a gravação desta terça-feira não reproduz uma nova manifestação específica da governadora sobre as declarações de Amisadai.
O que acontece agora
O caso passa a ter três frentes principais.
A Polícia Federal poderá aprofundar a análise das relações entre servidores, empresas, pagamentos e administradores dos perfis apontados nas denúncias.
O TRE-PE poderá receber dados preservados pelas plataformas e avaliar, em eventual ação eleitoral, se existiu atividade coordenada, quem a financiou e se houve participação de agentes ou recursos públicos.
Politicamente, a nova gravação deverá ampliar o confronto entre Raquel Lyra e João Campos durante a campanha para o Governo de Pernambuco. Mas a disputa eleitoral não elimina a necessidade de distinguir acusação de prova.
A questão central agora é documental: quem pagou, quem recebeu, quem produziu, quem distribuiu e quem deu as ordens.
São essas respostas que determinarão se a rede apresentada pela Record corresponde apenas a um ecossistema de páginas politicamente alinhadas ou a uma estrutura financiada com dinheiro público para interferir na disputa eleitoral.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na apuração e produção de reportagens sobre política, poder público, fiscalização e temas de interesse coletivo.
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