- Raul Silva

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Rachadinhas, baixa conversão de projetos próprios, mansão financiada pelo BRB, agenda ambiental e histórico fiscal entram no escrutínio eleitoral.
Por Raul Silva para O estopim |
Cobertura das Eleições 2026
10 de agosto de 2026

O Partido Liberal oficializou em 25 de julho a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Ele ocupa uma cadeira no Senado pelo Rio de Janeiro desde 2019 e chega à eleição tentando transformar o capital político do bolsonarismo em projeto presidencial próprio. No currículo, porém, estão episódios e decisões que ajudam a medir como ele lidou com dinheiro público, produção legislativa, patrimônio, meio ambiente e política fiscal.
1. O caso das rachadinhas acabou sem condenação, mas não desapareceu da trajetória de Flávio
Em outubro de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outras 15 pessoas. A acusação envolvia organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita em fatos que, segundo o MPRJ, teriam ocorrido entre 2007 e 2018, período em que Flávio exercia mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio.
O processo não terminou com condenação. Decisões judiciais anularam provas utilizadas na investigação e a própria Promotoria posteriormente pediu o arquivamento. Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, rejeitou recursos do MPRJ relacionados ao caso. O STF registrou também que a anulação das provas não impediria uma nova denúncia ou outra investigação baseada em elementos juridicamente válidos.
O encerramento judicial, portanto, é um fato. Também é fato que houve uma denúncia formal apresentada pelo Ministério Público e que o caso acompanhou Flávio por anos.
Em março de 2026, a Folha mostrou que as investigações haviam terminado após a anulação de provas pelo STF e pelo STJ e apontou questões que permaneceram sem resposta sobre movimentações financeiras do período. A assessoria de Flávio afirmou que as investigações demonstraram sua honestidade e sustentou que não existe atualmente inquérito contra ele por ilícito ou malversação de recursos. O senador sempre negou participação em esquema de rachadinha.
Para quem pretende governar o país, esse histórico faz parte do escrutínio sobre integridade, administração de gabinete e relação com recursos públicos.
2. Sete anos no Senado produziram poucos projetos próprios aprovados
Flávio Bolsonaro assumiu o Senado em 2019. Até maio de 2026, levantamento do UOL baseado nos dados da própria Casa identificou 62 propostas em que ele aparecia como autor principal nas categorias legislativas analisadas. Apenas duas haviam sido aprovadas pelo Senado e nenhuma tinha se transformado em lei. Entre 54 senadores com mandato iniciado em 2019 considerados no levantamento, Flávio aparecia na 47ª posição nesse indicador.
As duas propostas aprovadas tratavam da inclusão da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação entre entidades beneficiadas por recursos de loterias e de regras para reciclagem de baterias de veículos elétricos. Ambas continuavam na Câmara.
O dado ganha peso porque segurança pública é uma das principais bandeiras políticas do senador. Mais da metade das 62 propostas analisadas pelo UOL estava concentrada nessa área, mas nenhuma das proposições próprias de segurança havia sido aprovada naquele levantamento.
A assessoria de Flávio contesta essa forma de medir desempenho. Argumenta que considerar apenas a autoria principal produz uma visão incompleta do mandato e cita coautorias, relatorias, articulações políticas e emendas destinadas à segurança pública. Quando as coautorias são incluídas, nove propostas assinadas por ele haviam sido aprovadas e duas se transformaram em normas.
Ainda assim, para uma candidatura que pede ao eleitor a administração do Executivo federal, a capacidade demonstrada de transformar propostas próprias em normas é um dado objetivo do histórico parlamentar.
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3. A mansão de R$ 5,97 milhões e a quitação antecipada do financiamento do BRB
Em 2021, Flávio Bolsonaro comprou em Brasília um imóvel de R$ 5,97 milhões. Do valor, R$ 3,1 milhões foram financiados pelo Banco de Brasília, o BRB, com contrato inicialmente previsto para 30 anos. Documentos judiciais mostraram que ele informou ao banco renda mensal de R$ 56,8 mil para a obtenção do financiamento.
A dívida não levou três décadas para desaparecer. Foi quitada em 2024, três anos depois da compra. Segundo documentos citados pela Folha, foram feitos seis pagamentos extraordinários, com valores entre R$ 198 mil e R$ 997 mil.
O caso foi questionado judicialmente pela deputada Erika Kokay, que apontou possível favorecimento na concessão do crédito por um banco controlado pelo Distrito Federal. Essa acusação não prosperou. O Ministério Público do Distrito Federal não identificou favorecimento e, em julho de 2025, a Justiça rejeitou a ação, entendendo que a renda familiar era suficiente e que a operação seguiu as regras do banco.
Isso encerra a acusação de favorecimento naquela operação, mas os números permanecem relevantes para o exame patrimonial de um candidato presidencial: uma compra de quase R$ 6 milhões, um financiamento de R$ 3,1 milhões contratado por 30 anos e liquidado em apenas três.
A defesa de Flávio declarou no processo que sua renda não vinha apenas do mandato, mas também de atividades empresariais e da advocacia.
4. Flávio já propôs extinguir a reserva legal e hoje relata a PEC dos terrenos de marinha
Em abril de 2019, Flávio Bolsonaro e o senador Marcio Bittar apresentaram o PL 2.362/2019. O texto era direto: revogava o capítulo do Código Florestal que trata da reserva legal em propriedades rurais. A explicação oficial do Senado registrava que a mudança permitiria a exploração econômica dessas áreas. O projeto foi retirado pelos próprios autores em agosto daquele ano.
Reserva legal é a parcela do imóvel rural cuja vegetação nativa deve ser mantida de acordo com as regras do Código Florestal. A tentativa de eliminar esse instrumento mostra qual solução legislativa Flávio e Bittar estavam dispostos a colocar em votação naquele momento.
O senador também é o atual relator, na Comissão de Constituição e Justiça, da PEC 3/2022, conhecida como PEC dos terrenos de marinha. A proposta transfere parte dessas áreas hoje pertencentes à União para estados, municípios, foreiros e ocupantes e elimina cobranças como foro, taxa de ocupação e laudêmio. A página do Senado registra que a matéria continua em tramitação e que Flávio apresentou parecer favorável.
A própria explicação institucional do Senado aponta os dois lados da mudança. Estados, municípios e ocupantes podem ganhar patrimônio, autonomia e segurança jurídica, enquanto a União perde parte do controle sobre essas áreas e das receitas correspondentes.
Não se trata de uma discussão abstrata. Presidências da República decidem sobre fiscalização ambiental, patrimônio da União, ocupação territorial, desenvolvimento urbano e proteção de áreas costeiras. O histórico legislativo mostra a direção adotada por Flávio quando esses interesses entram em conflito.
5. O discurso de Estado enxuto convive com o voto por R$ 41,25 bilhões fora do teto em 2022
Na pré-campanha de 2026, Flávio Bolsonaro passou a defender redução da carga tributária e uma máquina pública mais enxuta. Em junho, afirmou que pretende suspender por um ano a entrada em vigor da reforma tributária e reformular o modelo, associando redução de impostos ao corte de desperdícios e à modernização do Estado.
Seu histórico de votação inclui, porém, apoio a uma das maiores expansões extraordinárias de despesas do último ano do governo Jair Bolsonaro.
Em 30 de junho de 2022, Flávio votou sim nos dois turnos da PEC 1/2022, que declarou estado de emergência e abriu espaço para R$ 41,25 bilhões em benefícios sociais e outras medidas até o fim daquele ano. Os recursos ficaram dispensados do teto de gastos, da regra de ouro e de dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal relativos à compensação de aumento de despesa e renúncia de receita.
A proposta teve apoio esmagador do Senado. Foram 72 votos favoráveis e apenas um contrário no primeiro turno, e 67 a um no segundo. O dinheiro foi destinado à ampliação do Auxílio Brasil e do vale-gás, benefícios a caminhoneiros e taxistas, transporte de idosos, compra de alimentos e outras medidas.
O ponto de comparação não está na legalidade do voto, mas na política econômica que o candidato apresenta hoje. Flávio pede confiança em um projeto de Estado mais enxuto e impostos menores. Seu histórico inclui apoio expresso a uma expansão fiscal excepcional de R$ 41,25 bilhões quando seu grupo político controlava o Executivo.
O que acontece agora?
O PL formalizou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência em 25 de julho. Em 5 de agosto, ele anunciou o deputado federal Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente de sua chapa.
O próximo prazo decisivo é 15 de agosto, quando termina o período para o registro formal das candidaturas à Presidência no Tribunal Superior Eleitoral. A propaganda eleitoral nas ruas e na internet começa em 16 de agosto. A partir daí, propostas de governo, alianças, patrimônio declarado, histórico parlamentar e posições dos candidatos entram no confronto direto da campanha.
O eleitor não precisa de currículo higienizado de candidato algum. Precisa de fatos verificáveis, histórico e consequência. Os próprios princípios editoriais de O estopim definem o veículo como de esquerda e, ao mesmo tempo, apartidário, independente de candidatos e obrigado a submeter preferências políticas ao rigor da apuração.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, fiscalização do poder público e temas de interesse coletivo.
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