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Contratos foram encerrados em 1º de setembro, mas parte dos professores só recebeu a informação depois; escolas perderam até sete docentes, segundo apuração de O estopim.


Por Michael Andrade para O estopim |

4 de setembro de 2026

Ivete Caetano fala em vídeo no qual denuncia demissões de professores temporários pelo Governo de Pernambuco
Ivete Caetano durante participação no PodJá em 2025 | Imagem: Reprodução

Professores contratados temporariamente pela rede estadual de Pernambuco tiveram os vínculos encerrados em 1º de setembro, em pleno segundo semestre do ano letivo, sem terem recebido comunicação oficial prévia sobre o desligamento. Segundo apuração de O estopim, parte dos profissionais continuou trabalhando normalmente no dia seguinte e só tomou conhecimento da situação na noite de 2 de setembro, quando começaram a circular mensagens entre gestores e trabalhadores da educação.


A medida já provoca falta de professores em escolas estaduais. No vídeo divulgado nesta semana, a presidenta licenciada do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe), Ivete Caetano, cita o caso de uma escola que perdeu sete professores e de outra que perdeu cinco. O estopim confirmou com fontes da rede estadual os quantitativos mencionados e a existência de outras unidades atingidas pelos desligamentos em que ficamram sem 10 professores em pleno período letivo.



Ivete, que atualmente é candidata a deputada estadual pelo PT, denuncia que os contratos foram encerrados sem planejamento para substituição dos profissionais.


“Os professores estão me ligando desesperados, sem saber como vão pagar água, luz, aluguel e fazer a feira. Não se trata um professor dessa forma. É preciso respeitar a dignidade de quem trabalha”, afirmou.

Professores trabalharam sem saber que contrato já havia terminado


A apuração de O estopim ouviu fontes internas da rede estadual que confirmaram a ausência de aviso prévio oficial.


Segundo os relatos, professores procuraram escolas e Gerências Regionais de Educação, as GREs, em busca de informações, mas encontraram desencontro de orientações e situações consideradas humilhantes pelos profissionais atingidos.


Em alguns casos, docentes trabalharam normalmente no dia 2 de setembro e somente depois foram informados de que, para o Estado, seus contratos haviam terminado no dia anterior.


Há ainda relatos de que esse dia adicional de trabalho poderá não ser remunerado. A situação precisa ser esclarecida formalmente pela Secretaria de Educação, inclusive porque o serviço foi efetivamente prestado.


O problema ultrapassa a relação trabalhista. Professor retirado de uma sala de aula significa turma sem professor quando não existe substituto disponível.


Segundo Ivete, é exatamente o que já ocorre.


“Tem escolas que são sete professores. Outra escola que são cinco professores. E assim são diversas escolas que estão nessa situação”, afirma no vídeo.

Os casos citados foram checados pela redação.


Mensagem fala em falta de autorização e atribui impedimento ao TCE


Uma mensagem encaminhada a gestores e obtida com exclusividade por O estopim afirma que a Secretaria de Educação não teria conseguido autorização para renovar os contratos de profissionais que completaram seis anos de vínculo.


O texto diz ainda que foram realizadas novas contratações, mas reconhece que o número de profissionais que assumiram foi insuficiente para substituir aqueles cujos contratos terminaram.


Em outra mensagem encaminhada aos trabalhadores, aparece a afirmação de que “o Tribunal de Contas não permitiu a continuidade desses contratos”.


Essa justificativa exige esclarecimentos.


Na imagem, obtida com exclusividade pelo Portal O estopim, um professor é informado pelo gestor na noite de 02 de setembro que o contrato havia acabado. Na mensagem, a pessoa responsável da GRE em questão atribui ao TCE o encerramento dos contratos temporários, estamos aguardando retorno do TCE-PE e a matéria pode ser atualizada a qualquer momento. | Imagem: Reprodução.
Na imagem, obtida com exclusividade pelo Portal O estopim, um professor é informado pelo gestor na noite de 02 de setembro que o contrato havia acabado. Na mensagem, a pessoa responsável da GRE em questão atribui ao TCE o encerramento dos contratos temporários, estamos aguardando retorno do TCE-PE e a matéria pode ser atualizada a qualquer momento. | Imagem: Reprodução.

O limite de seis anos para contratos temporários existe no ordenamento estadual e já foi objeto de fiscalização do Tribunal de Contas. Em análise anterior, o próprio TCE identificou vínculos que ultrapassavam esse período e apontou incompatibilidade com a legislação estadual.


Isso, entretanto, não significa que o Tribunal tenha determinado agora a demissão imediata dos professores em 1º de setembro, muito menos sem aviso e sem reposição.


Até o fechamento desta reportagem, O estopim não localizou no portal público do TCE-PE uma decisão recente determinando especificamente o encerramento desses contratos nessa data e nessas condições.


O que o TCE realmente decidiu sobre temporários e concursados


Há decisões anteriores do Tribunal de Contas relacionadas à utilização de professores temporários pelo Governo de Pernambuco.


Em abril de 2024, uma decisão determinou a nomeação de concursados e a redução de contratos temporários. O próprio TCE registrou, porém, que a substituição dos temporários deveria ocorrer de forma planejada para não prejudicar o andamento do ano letivo.


Posteriormente, ao analisar recurso do Governo do Estado, o Pleno afastou a substituição imediata, mas manteve a orientação para que a Secretaria não renovasse ou celebrasse novos contratos temporários para professor enquanto houvesse candidatos aprovados aguardando convocação, ressalvadas situações excepcionais.


O histórico deixa uma questão central para a gestão Raquel Lyra: se o Estado sabia há meses, e em alguns casos há anos, que determinados contratos chegariam ao limite legal, por que não organizou previamente a substituição dos profissionais antes de setembro?


A data de encerramento não surgiu de surpresa.


Governo recorreu contra nomeação de 464 professores concursados


A situação ganha outro componente porque o Governo de Pernambuco mantém uma disputa com professores aprovados no concurso de 2022.


No vídeo, Ivete afirma que o Estado recorreu de uma determinação do Tribunal de Contas para convocar “quase quinhentos professores concursados”.


A informação corresponde à decisão tomada pelo TCE em 29 de julho de 2026.


O Tribunal determinou que a Secretaria de Educação conclua a nomeação de 464 professores, sendo 73 docentes remanescentes e outros 391 relacionados a vagas deixadas por candidatos que não assumiram os cargos.


A decisão estabeleceu prazo de 60 dias para as nomeações. O Governo de Pernambuco recorreu.


Segundo a Secretaria de Educação, o recurso foi apresentado contra a decisão e a pasta aguardaria o julgamento antes de adotar novas providências. Cerca de 1,5 mil professores aprovados permaneciam no cadastro reserva, conforme levantamento publicado pelo Jornal do Commercio.


A contradição apontada por Ivete está justamente nesse ponto.


O governo encerra contratos temporários alegando impedimentos para mantê-los, mas, ao mesmo tempo, recorre contra uma decisão que determina a chegada de centenas de professores concursados à rede.


Alunos ficam no meio da disputa lembra Ivete Caetano


Para os estudantes, a discussão administrativa tem consequência concreta.


Uma escola que perde de sete a dez professores de uma só vez não enfrenta um problema abstrato de gestão de pessoal. Enfrenta falta total de aulas.


O mesmo ocorre nas unidades que perderam cinco docentes ou outros profissionais ainda não contabilizados publicamente. Como os gestores dessas escolas vão poder cumprir como suas funções e assegurar o cumprimento do Calendário Letivo?


Em setembro, estudantes do terceiro ano do ensino médio já estão na etapa final de preparação para o Enem. A retirada de professores sem substituição imediata pode atingir diretamente o conteúdo programático, avaliações, revisão e acompanhamento pedagógico.


Ivete questiona a ausência de planejamento.

“Por que não houve planejamento para garantir a continuidade das aulas?”

Segundo ela, contratos poderiam ter sido tratados com antecedência suficiente para garantir uma transição até o fim do ano letivo ou para que os concursados fossem chamados antes da saída dos temporários.


Comunicação depois do desligamento amplia o problema


Outro ponto grave revelado pela apuração é a forma como os trabalhadores foram tratados. Se o Estado considerava os contratos encerrados em 1º de setembro, a administração tinha conhecimento prévio da data.


Ainda assim, professores relataram não terem recebido aviso antes do encerramento. A mensagem que explica a situação começou a chegar apenas na noite do dia 2.


Ou seja, profissionais chegaram às escolas, trabalharam, atenderam estudantes e cumpriram suas funções sem saber que administrativamente já não teriam vínculo vigente.

Não se trata apenas de uma falha de comunicação.


Trata-se de respeito básico a trabalhadores que dependem do salário para sustentar suas famílias e que deveriam ter sido informados com antecedência sobre uma decisão capaz de alterar imediatamente sua renda.


Mais um episódio de descaso com a educação de Pernambuco


Na avaliação editorial de O estopim, o episódio representa mais uma demonstração de descaso do governo Raquel Lyra com a educação pública de Pernambuco.


O problema não está simplesmente na existência de um prazo legal para contratos temporários.


O problema está em permitir que um prazo conhecido chegue ao fim sem que o Estado tenha organizado professores suficientes para assumir as turmas, sem comunicar adequadamente os profissionais atingidos e sem evitar que estudantes fiquem sem aula.


Uma administração pública não pode tratar o calendário escolar e a vida de trabalhadores como se fossem acontecimentos inesperados.


A própria mensagem que circulou entre gestores admite que as novas contratações foram insuficientes.


Isso significa que o governo sabia que haveria lacunas.


Se também não convocou os concursados necessários e ainda recorreu contra a determinação para nomear 464 professores, a responsabilidade pela falta de planejamento precisa ser explicada pela gestão estadual.


O episódio se soma a uma sequência de conflitos entre o governo Raquel Lyra e os profissionais da educação. Em 2026, a categoria voltou às ruas por reajuste salarial, carreira, condições estruturais das escolas e convocação de concursados. A aprovação do reajuste de 5,4%, por exemplo, ocorreu depois de mobilização e pressão organizada pelo Sintepe.


Agora, temporários deixam as salas enquanto concursados permanecem aguardando e estudantes ficam no meio de uma política de pessoal que novamente chega às escolas sob a forma de crise.


Governo precisa apresentar o documento atribuído ao TCE


A Secretaria de Educação precisa esclarecer publicamente qual decisão do Tribunal de Contas teria impedido especificamente a continuidade desses contratos em setembro.


Se existe uma determinação, parecer, acórdão ou cautelar com esse conteúdo, o documento deve ser apresentado.


Caso não exista uma ordem específica do TCE para esses desligamentos, é necessário explicar quem tomou a decisão administrativa, quando ela foi tomada e por que professores e escolas não foram avisados previamente.


Também precisam ser respondidas outras questões:


  • Quantos professores foram efetivamente desligados?

  • Quantas escolas foram atingidas?

  • Quantas turmas estão sem docentes?

  • Quais GREs concentram os maiores déficits?

  • Por que professores trabalharam no dia 2 de setembro sem saber que seus contratos eram considerados encerrados?

  • Esse dia será pago?

  • Por que a comunicação ocorreu apenas depois do término do vínculo?

  • E qual é o cronograma para substituir todos os profissionais?


Até o fechamento desta reportagem, O estopim não havia localizado posicionamento público da Secretaria de Educação respondendo especificamente a essas questões.


O espaço permanece aberto para manifestação do Governo de Pernambuco.


O que acontece agora?


O Sintepe solicitou reunião com a Secretaria de Educação e anunciou que pretende intensificar a mobilização contra os desligamentos.


“Não vamos aceitar esse desrespeito. O Sintepe está ao lado desses trabalhadores e dessas famílias. Vamos à luta, nas ruas e nas redes sociais, para denunciar o que está acontecendo e cobrar do Governo de Pernambuco responsabilidade, planejamento e respeito aos profissionais em educação e aos estudantes”, afirmou Ivete.

A pressão agora será para que o governo apresente números, documentos e um plano imediato de recomposição das equipes.


Para trabalhadores e alunos, cada dia de indefinição significa salário ameaçado de um lado e aula perdida do outro.


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Por Raul Silva para O estopim | 3 de abril de 2026



Texto grande "FUNDEF 2026" em branco sobre fundo azul claro com padrão de linhas. Tamanho e cor do texto chamam atenção.
Precatórios do FUNDEF: Planejamento para 2026 destaca a importância de alocar recursos adequadamente na educação, visando o fortalecimento do ensino básico e a valorização dos profissionais da educação. | Foto: Reprodução

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, informou em vídeo divulgado nas redes que a parcela de 2026 do precatório do Fundef, estimada em quase R$ 434 milhões, já foi transferida para a conta judicial do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O avanço acelera o trâmite para um novo repasse a Pernambuco, mas ainda não significa pagamento imediato aos beneficiários, porque seguem pendentes a transferência para a conta específica do Estado e a publicação de um cronograma oficial de liberação.


No vídeo, a presidenta do Sintepe, Ivete Caetano, apresenta o depósito como mais uma etapa vencida na disputa em torno dos precatórios do Fundef e afirma que a assessoria jurídica do sindicato seguirá cobrando celeridade até que os valores cheguem aos profissionais da educação. A mensagem reforça que o dinheiro já saiu da esfera da União e entrou na conta judicial do STF, ponto considerado decisivo no rito que antecede o repasse ao Estado.


Na prática, a informação indica que o processo saiu da fase de expectativa política e entrou numa fase de execução financeira mais concreta. Ainda assim, há um percurso administrativo e judicial a cumprir até que o valor seja convertido em pagamento na ponta, com definição de lotes, conferência cadastral, tratamento dos casos de herdeiros e divulgação dos valores individualizados.



O precatório do Fundef tem origem na ação judicial em que Pernambuco cobrou da União diferenças de repasses feitos entre 1997 e 2006, período em que o valor mínimo anual por aluno foi calculado de forma contestada por estados e municípios. Ao longo dos últimos anos, o caso se tornou uma das maiores disputas federativas na área da educação, com impacto direto sobre o financiamento da rede pública e sobre o direito de subvinculação de parte dos recursos ao magistério.


A primeira frente dessa disputa resultou no pagamento das parcelas regulares entre 2022 e 2024. Depois, o litígio avançou sobre o chamado saldo controverso, relacionado à diferença entre os cálculos defendidos por Pernambuco e os valores aceitos pela União. Em 2024, um acordo entre o Estado e a Advocacia-Geral da União consolidou essa nova etapa e abriu caminho para um calendário adicional de pagamentos em 2025, 2026 e 2027.


A transferência para a conta judicial do STF não encerra o processo. O próximo passo é o repasse para a conta específica do Fundef em Pernambuco. Só depois dessa etapa o governo estadual poderá anunciar o cronograma de pagamento e alimentar a plataforma usada para consulta de valores e processamento dos casos pendentes.


Esse ponto é central porque a experiência recente mostra que a chegada do dinheiro à conta do Estado não significa crédito automático para todos os beneficiários no mesmo dia. Há exigências administrativas, validação de dados e cumprimento de decisões judiciais, sobretudo nos casos que envolvem espólio, herdeiros e contas judiciais individualizadas.


Se for mantida a lógica aplicada na parcela paga em 2025, 60% do montante deverão ser destinados aos profissionais do magistério com direito ao rateio, enquanto os outros 40% permanecem vinculados a despesas da educação pública estadual. Mas o valor efetivamente rateado em 2026 ainda depende de confirmação oficial após a entrada do recurso em Pernambuco e da atualização dos cálculos finais.


A chamada quarta parcela do Fundef, que tecnicamente corresponde ao saldo controverso reconhecido no acordo, começou a ser destravada em 2024. Em dezembro daquele ano, o Sintepe informou que Pernambuco havia assegurado mais de R$ 1,2 bilhão em valores atualizados até abril de 2024. Em agosto de 2025, a Secretaria de Educação anunciou que a primeira parcela dessa nova etapa havia entrado na conta do Estado e que mais de R$ 336 milhões seriam distribuídos a cerca de 53 mil beneficiários.


Agora, a movimentação da parcela de 2026 recoloca a pressão sobre o governo estadual e sobre o sistema de tramitação judicial para que não se repita um intervalo excessivo entre o depósito na esfera federal e o pagamento na ponta. A cobrança do sindicato é para que o rito seja abreviado e que a categoria receba informações objetivas sobre prazos, critérios e valores.


O tema dos precatórios do Fundef deixou de ser apenas uma ação judicial e se transformou num terreno de disputa política, sindical e institucional. De um lado, o governo estadual procura demonstrar capacidade de execução e de organização dos pagamentos. De outro, o Sintepe sustenta que a conquista é resultado de décadas de pressão sindical, articulação jurídica e mobilização da categoria.


Essa disputa por narrativa não é secundária. Ela influencia a leitura pública sobre quem abriu caminho para a subvinculação dos 60%, sobre a remuneração da assessoria jurídica e sobre a velocidade com que cada parcela é convertida em dinheiro no bolso dos professores e professoras. No vídeo divulgado agora, o sindicato volta a insistir numa mensagem central: nenhum desses repasses ocorreu por inércia administrativa, mas por pressão continuada.


Para os beneficiários, os próximos sinais concretos serão a confirmação do repasse à conta do Estado, a divulgação de cronograma pela Secretaria de Educação e a atualização da plataforma de consulta do Fundef. Sem essas etapas, a transferência ao STF continua sendo um avanço importante, mas ainda intermediário.


O dado novo, portanto, não é o pagamento em si, e sim a comprovação de que a parcela de 2026 entrou na fase judicial de transferência. Em um processo marcado por atrasos, disputas e forte judicialização, isso reduz a margem de incerteza, mas não elimina a necessidade de vigilância pública sobre o destino final dos recursos.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação voltada à cobertura de educação, política e temas de interesse público.


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