Inquérito apura pagamentos a médicos, questões previdenciárias, condições de trabalho e falhas na estrutura da unidade; autos também serão enviados ao TCE-PE.
Por Raul Silva para O estopim |
10 de setembro de 2026
Fachada da Policlínica Dr. José Cavalcanti Alves, alvo do Inquérito Civil nº 02291.000.174/2025 do MPPE em Arcoverde | Foto: Reprodução/Google Maps
O Ministério Público de Pernambuco abriu o Inquérito Civil nº 02291.000.174/2025 para investigar a gestão administrativa, financeira e estrutural da Policlínica Dr. José Cavalcanti Alves, em Arcoverde. A portaria foi assinada pelo promotor Edson de Miranda Cunha Filho em 3 de setembro de 2026 e publicada no Diário Oficial do MPPE no dia 8.
A investigação reúne denúncias sobre pagamentos classificados como “extra” a médicos temporários, possíveis irregularidades previdenciárias e fiscais, condições de trabalho, demissões de profissionais, pressão para emissão de atestados de óbito sem exame prévio do corpo e problemas estruturais já identificados pelo Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, o Cremepe.
A Prefeitura de Arcoverde está diretamente envolvida porque mantém a Policlínica e contrata os médicos que trabalham na unidade. O prefeito Zeca Cavalcanti e a Secretaria Municipal de Saúde foram formalmente acionados pelo Ministério Público para apresentar documentos e comprovar a correção das irregularidades apontadas.
Pagamentos a médicos entram na mira do MPPE
Um dos principais pontos do inquérito é a forma como médicos temporários da Policlínica vinham sendo remunerados.
O MPPE investiga complementos salariais chamados de “extra” e determinou que a Diretoria de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde apresente documentos referentes aos médicos plantonistas contratados temporariamente nos últimos 12 meses.
A requisição inclui folhas de pagamento, planilhas de evolução salarial, notas de empenho, ordens bancárias e contracheques.
A Prefeitura também terá de identificar a origem e a rubrica orçamentária utilizada para eventuais pagamentos adicionais.
A documentação permitirá confrontar os valores previstos nos contratos com aquilo que foi efetivamente empenhado, pago e registrado pela administração municipal.
O inquérito também alcança possíveis repercussões previdenciárias desses pagamentos.
Prefeitura já havia respondido ao Ministério Público
A portaria mostra que as cobranças do MPPE começaram antes da abertura do inquérito civil.
Durante o procedimento preparatório, a gestão municipal apresentou respostas por meio dos Ofícios nº 604/2025, 71/2025 e 72/2025, ligados à Diretoria de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde e à Secretaria Municipal de Saúde.
Segundo o Ministério Público, o Município informou que havia realizado adequações estruturais na Policlínica.
A portaria registra, porém, novas cobranças para que a Prefeitura apresente comprovação da regularização definitiva das falhas identificadas pelo Cremepe e documentos detalhados sobre os pagamentos realizados aos médicos.
Cremepe encontrou problemas na Policlínica
Parte dos problemas analisados pelo Ministério Público foi registrada durante fiscalização realizada pelo Cremepe em 10 de setembro de 2025.
A Vistoria nº 967/2025 ocorreu sem aviso prévio.
O relatório identificou a Policlínica como unidade pública municipal com atendimento de urgência durante 24 horas e médicos contratados diretamente pela Prefeitura de Arcoverde.
Na Sala de Reanimação e Estabilização de Pacientes Graves, conhecida como Sala Vermelha, os fiscais encontraram apenas um leito. O roteiro utilizado pelo conselho previa pelo menos dois.
Também foram registradas ausência de ventilador mecânico por leito, falta de médico exclusivo para a Sala Vermelha, ausência de materiais para traqueostomia e cricotireoidostomia, falta de alguns tamanhos de tubos endotraqueais e ausência de máscara laríngea.
Os cilindros de oxigênio não estavam fixados à parede nem acondicionados em carrinho apropriado.
O Cremepe apontou ainda ausência de inscrição da unidade no Conselho Regional de Medicina e indisponibilidade integral de equipamentos ou insumos de suporte à vida.
Unidade estava sem alvará do Corpo de Bombeiros e medicamentos estavam indisponíveis
A fiscalização também constatou que a Policlínica não possuía, naquele momento, Alvará de Prevenção e Combate a Incêndios emitido pelo Corpo de Bombeiros.
A regularização desse documento está entre as providências que o MPPE agora exige da Prefeitura.
A gestão também deverá comprovar a inscrição regular da Policlínica no conselho profissional e a adequação da Sala Vermelha.
O relatório do Cremepe registrou ainda falta de medicamentos e insumos no momento da fiscalização.
Entre os itens relacionados aparecem Enoxaparina, Tobramicina em colírio, Digoxina, Codeína, Naloxona, Carbamazepina, Ampicilina, Amitriptilina, Deslanosídeo e Biperideno.
A portaria do Ministério Público também menciona Noradrenalina ao tratar das deficiências identificadas na unidade.
Médico plantonista acompanhava transferência de pacientes graves e plantões de 24 horas também são investigados
Outro problema registrado pelo Cremepe estava relacionado ao transporte de pacientes.
A Policlínica não dispunha de médico exclusivo para acompanhar transferências de pacientes graves.
Quando havia necessidade de transferência, o próprio médico que estava no plantão acompanhava o paciente, deixando temporariamente a unidade sem aquele profissional.
Os pacientes graves eram encaminhados principalmente ao Hospital Regional Ruy de Barros Correia. A unidade possuía uma ambulância básica.
A fiscalização também registrou médicos trabalhando em plantões de 24 horas consecutivas.
Durante a visita, foi informado ao Cremepe que esse formato havia sido adotado pelo próprio corpo clínico. O relatório também registrou que não havia atrasos salariais desde janeiro de 2025.
A investigação do MPPE vai além da existência ou não de atraso salarial. O foco está na forma de contratação, composição da remuneração, pagamentos adicionais, recolhimentos e condições de trabalho.
O inquérito também apura relatos de pressão institucional para que médicos emitissem atestados de óbito sem a realização prévia do exame do corpo.
O MPPE deverá identificar quem teria feito as cobranças, em quais circunstâncias elas ocorreram e se existem documentos, mensagens ou depoimentos que permitam reconstruir os episódios.
A apuração também reúne relatos sobre demissões de profissionais temporários e a forma como esses desligamentos foram realizados.
Prefeito Zeca Cavalcanti terá de responder ao MPPE e o TCE-PE também receberá a íntegra do inquérito
A portaria determina o envio de ofício ao prefeito Zeca Cavalcanti e à secretária municipal de Saúde.
A Prefeitura terá de apresentar documentação comprovando a regularização das principais falhas encontradas pelo Cremepe, entre elas a inscrição da Policlínica no CRM, o alvará do Corpo de Bombeiros e as adequações da Sala Vermelha.
Zeca Cavalcanti ocupa a chefia do Executivo desde 1º de janeiro de 2025, período que alcança a fiscalização realizada pelo Cremepe e os 12 meses de documentos financeiros requisitados pelo Ministério Público.
A resposta da gestão será importante para esclarecer quando o prefeito e a Secretaria de Saúde tomaram conhecimento dos problemas, quais providências foram determinadas e em quais datas as correções foram executadas.
O Ministério Público também determinou o envio de cópia eletrônica integral dos autos ao Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco.
O objetivo é permitir que o TCE-PE avalie as questões fiscais e previdenciárias levantadas durante a investigação e adote as medidas de fiscalização que considerar necessárias.
A entrada do Tribunal de Contas amplia o alcance da apuração sobre a folha de pagamento e os gastos municipais relacionados aos médicos temporários.
Perguntas que Arcoverde precisa ver respondidas
A investigação abre uma série de questões sobre a administração da Policlínica.
A Prefeitura precisa esclarecer se existiram pagamentos além dos valores previstos nos contratos, quem autorizou esses valores, quais rubricas foram utilizadas e se todos os pagamentos tiveram empenho, liquidação, ordem bancária e recolhimento previdenciário correspondente.
Também precisa informar quando a Policlínica conseguiu sua inscrição regular no Cremepe, quando obteve o alvará do Corpo de Bombeiros e em que data a Sala Vermelha passou a atender integralmente às exigências apontadas na fiscalização.
Outro ponto é saber se a unidade continua utilizando o próprio médico plantonista para acompanhar transferências de pacientes graves.
No campo trabalhista, será necessário esclarecer quem definiu os plantões de 24 horas, quantos profissionais temporários foram desligados e qual foi a motivação administrativa de cada demissão analisada pelo MPPE.
Também precisam ser esclarecidas as denúncias sobre pressão para emissão de atestados de óbito.
A população precisa saber ainda quando o prefeito Zeca Cavalcanti tomou conhecimento das irregularidades, quais providências determinou e por que o Ministério Público precisou reiterar pedidos de documentos e comprovação das correções.
O que acontece agora?
A Prefeitura de Arcoverde, a Secretaria Municipal de Saúde e a Diretoria de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde terão de entregar ao MPPE os documentos requisitados.
Depois da análise desse material, o Ministério Público poderá realizar novas diligências, convocar profissionais para prestar depoimento, requisitar outras informações e aprofundar a análise financeira, previdenciária e administrativa.
O TCE-PE também receberá a íntegra dos autos para avaliar a necessidade de fiscalização própria.
As respostas da Prefeitura e os documentos sobre a remuneração dos médicos serão decisivos para os próximos desdobramentos do Inquérito Civil nº 02291.000.174/2025.
Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi
Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder público, fiscalização e temas de interesse coletivo, com foco em documentos, dados e seus impactos para a população.
IPEC registra 52% de ótima ou boa, mas só 42% veem compromisso frequente; 62% dizem que Zeca está próximo apenas em parte ou não está.
Por Mateus Ayres para O estopim | 8 de agosto de 2026
Análise política
Prefeito de Arcoverde Zeca Cavalcanti (Podemos-PE) | Foto: Reprodução
A gestão do prefeito Zeca Cavalcanti chega a um ano e meio de mandato com um dado que, isoladamente, parece confortável: 52% dos entrevistados pelo Instituto de Pesquisas Científicas de Pernambuco, o IPEC, classificam a administração de Arcoverde como ótima ou boa. São 20% de ótima e 32% de boa. Outros 32% consideram o governo regular, 14% ruim ou péssimo e 2% não souberam ou não responderam.
O problema político aparece quando a pesquisa deixa de perguntar apenas se o governo é bom ou ruim e mede compromisso, proximidade e capacidade de fazer suas ações serem percebidas pela população. Nesses indicadores, a fotografia fica menos confortável para o prefeito.
Só 42% dizem que Zeca demonstra compromisso com os interesses da população sempre ou na maioria das vezes. Em sentido contrário, 52% respondem que isso ocorre apenas às vezes, raramente ou nunca. Outros 6% não souberam ou não responderam.
Quando a pergunta é sobre proximidade, 34% consideram que o prefeito está presente e próximo da população. Outros 32% respondem "em parte" e 30% dizem que ele não está próximo. Isso significa que 62% dos entrevistados situam Zeca entre uma proximidade apenas parcial e a ausência de proximidade, uma soma analítica das duas categorias, e não uma classificação criada pelo IPEC. Outros 4% não souberam ou não responderam.
A conclusão mais importante da pesquisa, portanto, não é que Zeca Cavalcanti esteja rejeitado. Ele não está. O que os números sugerem é outra coisa: existe uma diferença relevante entre avaliar positivamente a administração e perceber o governo como continuamente conectado aos interesses, às demandas e ao cotidiano da cidade.
Como ler a pesquisa
O levantamento foi realizado de 25 a 27 de julho de 2026 com 304 eleitores de Arcoverde, residentes nas zonas urbana e rural, por meio de entrevistas presenciais. O estudo informa nível de confiança de 95% e margem máxima de erro de 5,62 pontos percentuais. O próprio IPEC recomenda cautela na leitura dos cruzamentos por renda, idade, escolaridade e região, porque determinadas subdivisões podem ter bases absolutas pequenas.
Isso ajuda a colocar os 52% em perspectiva. Trata-se de uma maioria no resultado pontual, mas não de um consenso. Além dos 14% que classificam a administração como ruim ou péssima, o IPEC divide os 32% de regular em 24% de regular positiva e 8% de regular negativa.
Se os 8% de regular negativa forem agregados, exclusivamente para efeito de análise política, aos 14% de ruim ou péssima, chega-se a 22% em uma faixa mais crítica de percepção. Esse agrupamento, porém, não é o índice oficial de reprovação do levantamento. A tabela consolidada do IPEC mantém 14% como avaliação negativa e 32% como regular.
Há, portanto, um contingente de 32% instalado no meio da escala. Politicamente, esse grupo importa porque não está na rejeição aberta, mas também não oferece ao governo a segurança de uma avaliação boa ou ótima.
A avaliação positiva, no entanto, não significa alinhamento político.O dado mais incômodo para o governo aparece na pergunta sobre compromisso com os interesses da população.
São 31% os que afirmam que Zeca Cavalcanti demonstra compromisso "sempre" e 11% "na maioria das vezes". A soma é de 42%. Outros 29% dizem "às vezes", 13% "raramente" e 10% "nunca", o que totaliza 52%. Há ainda 6% que não souberam ou não responderam.
A diferença permite uma leitura mais precisa do que simplesmente afirmar que o prefeito possui 52% de avaliação positiva.
Parte dos arcoverdenses pode reconhecer serviços, obras ou melhorias e, simultaneamente, não sentir que as decisões da Prefeitura correspondem de maneira frequente às suas prioridades.
É nesse intervalo entre avaliação administrativa e identificação com as decisões do governo que aparece um dos principais alertas da pesquisa. A percepção de compromisso é mais frágil entre famílias de menor renda.
Entre entrevistados com renda familiar de até dois salários mínimos, 30% dizem que o prefeito demonstra compromisso sempre e 10% na maioria das vezes. São 40%.
No mesmo grupo, 28% respondem às vezes, 14% raramente e 12% nunca. Juntas, essas três respostas chegam a 54%.
Entre os entrevistados com renda superior a dois salários mínimos, 39% respondem sempre e 16% na maioria das vezes, totalizando 55% de percepção de compromisso frequente.
A amostra possui 244 entrevistados na faixa de até dois salários mínimos e 60 acima desse patamar. Por essa razão, o próprio relatório recomenda cautela na comparação entre segmentos.
Não é possível transformar essa diferença em uma conclusão definitiva sobre classe social. O dado, entretanto, funciona como alerta para o governo: a percepção de alinhamento aparece mais frágil justamente no grupo de menor renda da amostra, parcela para a qual políticas e serviços públicos municipais tendem a ter peso especialmente relevante no cotidiano.
Também existe uma diferença etária a observar. Entre as pessoas de 35 a 44 anos, 27% consideram Zeca próximo, enquanto 45% dizem que ele não está próximo. Outros 26% respondem "em parte". O dado não autoriza generalizações isoladas, mas identifica um segmento em que a percepção de distância aparece com mais intensidade.
Metade dos entrevistados não apontou espontaneamente uma entrega
Talvez nenhum indicador seja tão relevante para compreender comunicação e percepção das entregas quanto a pergunta espontânea sobre o trabalho, obra ou ação mais importante do governo.
Saúde aparece em primeiro lugar, com 12%. Pavimentação tem 11%, educação 10%, limpeza urbana 5% e festas de rua 2%.
Mas 40% não souberam ou não responderam e outros 10% disseram "nada" ou "nenhuma". Ou seja, metade dos entrevistados não apontou espontaneamente uma ação principal da administração, seja porque não soube ou não respondeu, seja porque afirmou não haver nenhuma a destacar.
Esse dado exige precisão.
Ele não significa que metade da população considere que a Prefeitura nada fez. Apenas 10% deram explicitamente a resposta "nada/nenhuma". Os outros 40% estão classificados pelo instituto como NS/NR, categoria que reúne quem não soube ou não respondeu.
A pergunta também é espontânea. Portanto, mede sobretudo lembrança e capacidade de associação da gestão a uma entrega, e não a existência material de obras ou políticas públicas.
Ainda assim, politicamente o resultado é relevante. Se uma administração está há um ano e meio no poder e uma parcela tão grande da amostra não associa espontaneamente o governo a uma realização específica, existem pelo menos duas hipóteses possíveis, que podem coexistir: as entregas não são percebidas com a mesma intensidade por toda a população ou a comunicação municipal não está conseguindo transformá-las em conhecimento público.
A própria Prefeitura apresentou, no fim de 2025, um balanço em que afirmava ter reorganizado administrativamente o município, regularizado pendências fiscais, retomado capacidade de investimento e mantido serviços e pagamentos.
Se o governo sustenta possuir esse conjunto de resultados e, meses depois, 40% não sabem ou não respondem qual seria sua principal realização e 10% dizem não existir nenhuma, aparece um problema de conversão entre ação administrativa e percepção social.
Outro dado espontâneo reforça essa leitura. Quando o IPEC pediu aos entrevistados uma palavra ou frase que marcasse o governo Zeca Cavalcanti, 42% não souberam ou não responderam.
"Bom governo/boa gestão" aparece com 13%.
Um agrupamento feito pelo próprio instituto, que reúne expressões como "governo péssimo", "gestão ruim", "horrível", "regular", "uma derrota", "uma negação", "governo fraco" e "relaxado", soma 11%. Por conter também a expressão "regular", esse grupo não deve ser apresentado simplesmente como um bloco integralmente negativo.
Outros 6% aparecem no agrupamento "tem que melhorar/deixa a desejar/aceitável/básico/razoável/mediano".
Também há 2% no grupo de respostas "cuida mais do centro/esquece a zona rural/governa para os ricos". Outros 1% aparecem na frase "governo que prefere investir em festas do que na cidade".
São percentuais pequenos e não podem ser tratados como sentimento generalizado da cidade. Eles ganham significado quando observados junto aos demais indicadores de proximidade, compromisso e lembrança das entregas.
A força do resultado está menos em uma resposta isolada e mais no conjunto: uma parcela expressiva dos entrevistados ainda não associa espontaneamente a administração a uma marca definida.
O São João mostra que aprovação do evento não significa concordância com todas as decisões
A localização do principal polo do São João oferece um exemplo concreto de possível desalinhamento entre uma decisão administrativa e a preferência majoritária captada pela pesquisa.
Segundo o IPEC, 57% preferem que o polo principal funcione no Bandeirante, onde era realizado anteriormente. Outros 27% preferem o espaço em frente à Escola Antonio Japiassu, usado atualmente. Sete por cento deram outras respostas e 9% não souberam ou não responderam.
Isso não significa que a população rejeite o São João realizado pela gestão Zeca.
Dos 304 entrevistados, 123, equivalentes a 41%, afirmaram ter participado ativamente do evento. Entre esses participantes, 18% avaliaram o São João como excelente e 53% como bom. A soma é de 71% de excelente ou bom entre os participantes ativos, e não entre toda a amostra.
Há, portanto, duas percepções que podem coexistir: o evento pode ser bem avaliado por quem participou e, ao mesmo tempo, uma decisão específica sobre a localização do polo principal pode contrariar a preferência da maioria dos entrevistados.
Esse é um alerta contra a interpretação automática de que o sucesso percebido de uma política ou evento represente concordância com todas as decisões administrativas relacionadas a ele.
Para uma gestão acusada por adversários de inflexibilidade, o dado sobre a localização é politicamente relevante.
A crise com o Legislativo criou um problema político para a imagem do Executivo
A relação entre Zeca Cavalcanti e o presidente da Câmara, Luciano Pacheco, oferece outro contexto para compreender o debate sobre compromisso, proximidade e diálogo.
Em 24 de março, Zeca e o vice-prefeito Siqueirinha tornaram público o rompimento político com Pacheco. Seis dias depois, uma sessão ordinária não aconteceu por falta de quórum. Apenas o presidente da Câmara compareceu, enquanto vereadores alinhados ao Executivo se ausentaram. Entidades representativas de vereadores manifestaram preocupação com a independência institucional entre Legislativo e Executivo.
Em abril, um pedido de cassação foi protocolado contra Pacheco. O vereador passou a afirmar publicamente que era alvo de perseguição política depois do rompimento com o grupo de Zeca.
A acusação de perseguição política não está comprovada. Zeca Cavalcanti declarou que não tinha participação no processo, e a líder governista Célia Galindo também negou interferência do prefeito.
Posteriormente, O estopim noticiou que uma denúncia relacionada ao exercício da advocacia por Luciano Pacheco foi arquivada pela OAB-PE e que o MPPE não havia identificado ilícito penal naquela questão específica. A disputa política e os procedimentos no Legislativo, porém, continuaram.
O que pode ser afirmado é que houve uma ruptura política pública seguida por uma escalada institucional.
Isso produz custo para todos os envolvidos e, para o Executivo, cria a necessidade de demonstrar que divergência política não significa bloqueio ao funcionamento autônomo do Legislativo.
Ambulantes colocaram diálogo e exercício da autoridade em debate
A retirada de comerciantes informais do centro de Arcoverde, em 2025, também se tornou um episódio sensível para a imagem da gestão.
O MPPE havia recomendado à Prefeitura um levantamento atualizado das ocupações dos espaços públicos, campanha educativa e, posteriormente, um cronograma de desobstrução, seguido do exercício do poder de polícia quando necessário.
A Prefeitura afirmou que realizou abordagens educativas, orientou ambulantes a se cadastrarem e disponibilizou boxes no Cecora, sustentando que buscava conciliar organização urbana e respeito aos trabalhadores.
Dias depois, uma operação registrou momentos de tensão, detenções e uso de algemas. O episódio foi criticado por trabalhadores e adversários políticos, que classificaram a abordagem como excessivamente dura.
Há queixas de abandono e ausência de diálogo
Na zona rural, O estopim registrou em junho reclamações apresentadas pela Associação dos Produtores Rurais da Malhada II e Região, a APROMAR. Moradores afirmaram que demandas relacionadas à feira, produção local e programação cultural permaneciam sem resposta efetiva da Prefeitura.
A queixa dialoga com o pequeno grupo da pesquisa espontânea que associa o governo às expressões "cuida mais do centro", "esquece a zona rural" ou "governa para os ricos", agrupamento que representa 2% da amostra.
O que a apuração permite apontar é uma possível desigualdade na percepção desse diálogo: enquanto existem setores inseridos em instâncias formais de participação, comunidades e grupos específicos relatam dificuldade para obter respostas.
Nesse contexto, os números da proximidade ganham importância: apenas 34% consideram Zeca efetivamente próximo da população; outros 32% dizem que ele está próximo apenas em parte e 30% respondem que não está próximo.
Educação produziu alerta concreto sobre organização administrativa
Em novembro de 2025, o MPPE recomendou que a Prefeitura preenchesse com urgência vagas de professores e profissionais correlatos com candidatos aprovados no concurso municipal.
O Ministério Público informou existir mais de 700 contratos temporários e afirmou que contratos firmados no início de 2025 haviam ocorrido de forma precária e sem transparência. Também pediu planejamento para substituição de temporários e recomendou evitar novas contratações dessa natureza quando houvesse candidatos aprovados disponíveis.
Em dezembro, Zeca anunciou a convocação de professores aprovados, incluindo integrantes do cadastro de reserva. O portal municipal também passou a disponibilizar convocações relacionadas ao concurso.
O caso mostra duas etapas distintas da gestão pública: houve cobrança formal de um órgão de controle sobre organização e transparência e, posteriormente, uma resposta administrativa.
Na pesquisa IPEC, educação é espontaneamente citada por 10% dos entrevistados como o principal trabalho, obra ou ação do governo municipal.
Gastos com festas exigem transparência redobrada
Em abril deste ano, o MPPE fez uma recomendação ao prefeito de Arcoverde para reforçar controle, transparência e economicidade nas contratações artísticas dos festejos de 2026.
O órgão estabeleceu parâmetros de mercado, atenção especial para contratações superiores a R$ 600 mil e recomendou que o gasto global com festividades não ultrapassasse o montante de 2025, exceto pela correção inflacionária.
O tema ganha dimensão política porque aparece, ainda que de forma minoritária, entre as respostas espontâneas da pesquisa. Festas de rua são citadas por 2% como principal ação do governo e 1% associa a gestão à frase "governo que prefere investir em festas do que na cidade".
Em 2025, um vídeo de bastidores divulgado pela imprensa também gerou repercussão ao registrar Zeca sugerindo que o valor de um patrocínio estadual destinado ao São João não fosse informado naquele momento da coletiva para evitar repercussão política.
O episódio, por si só, não demonstra irregularidade na aplicação de recursos, mas criou um problema de comunicação e transparência política para a gestão.
Os principais alertas da pesquisa para o governo Zeca
O conjunto dos números oferece seis sinais que merecem atenção da Prefeitura:
A avaliação administrativa positiva é maior do que a percepção de compromisso frequente. Os 52% de ótima ou boa convivem com apenas 42% que dizem que o prefeito demonstra compromisso com os interesses da população sempre ou na maioria das vezes.
A proximidade plena é percebida por pouco mais de um terço. São 34% os que respondem "sim". Outros 32% dizem "em parte" e 30% "não", totalizando 62% nessas duas últimas categorias.
Existe um problema de reconhecimento espontâneo das entregas. Quarenta por cento não souberam ou não responderam qual seria a principal ação do governo, e 10% disseram "nada" ou "nenhuma".
O compromisso percebido é mais frágil entre entrevistados de menor renda. Entre quem recebe até dois salários mínimos, 40% veem compromisso frequente e 54% respondem às vezes, raramente ou nunca. O cruzamento deve ser interpretado com cautela.
Uma política bem avaliada pode conter decisões rejeitadas pela maioria. O São João recebe avaliação excelente ou boa de 71% dos participantes ativos, mas 57% do conjunto dos entrevistados preferem o polo principal no Bandeirante.
Os conflitos externos à pesquisa tornam os indicadores relacionais mais importantes. Rupturas políticas, críticas à forma de execução de decisões e dificuldades relatadas por determinados setores não explicam estatisticamente os resultados do IPEC, mas aumentam a relevância política das perguntas sobre compromisso, proximidade e diálogo.
Zeca Cavalcanti iniciou o terceiro mandato em janeiro de 2025 depois de vencer a eleição municipal de 2024 com 59,17% dos votos válidos.
Em junho de 2025, a Prefeitura divulgou pesquisa do Instituto Múltipla que apontava 86% de aprovação segundo o critério utilizado naquele levantamento.
Como Múltipla e IPEC são institutos diferentes, com metodologias, perguntas e momentos de coleta distintos, não é metodologicamente correto apresentar a diferença entre os dois percentuais como uma queda linear de 86% para 52%.
A fotografia de julho de 2026 precisa ser analisada por seus próprios indicadores.
O prefeito conserva um ativo importante. A maior parcela dos entrevistados classifica sua administração como ótima ou boa. Saúde, pavimentação e educação aparecem como as ações mais lembradas, e o São João recebe avaliação majoritariamente favorável entre aqueles que participaram.
Mas existe um déficit relacional relevante. A pesquisa sugere que:
reconhecer positivamente uma administração não significa necessariamente perceber o prefeito como plenamente próximo ou suas decisões como continuamente alinhadas às prioridades da população.
É nessa distância que se encontram alguns dos principais riscos políticos para o restante do mandato.
O que acontece agora?
Para acompanhar a evolução dessa percepção, a próxima pesquisa não deveria ser observada apenas pela taxa de ótima ou boa.
Será necessário comparar também compromisso com os interesses da população, proximidade, lembrança espontânea das entregas e diferenças sociais, etárias e territoriais.
Também deverão ser acompanhados o desfecho dos conflitos institucionais, o cumprimento das recomendações dos órgãos de controle, a relação da Prefeitura com trabalhadores informais e comunidades rurais e a capacidade da administração de transformar políticas públicas e obras em resultados concretamente percebidos pela população.
Até o fechamento desta análise, O estopim não havia localizado nos canais públicos da Prefeitura uma manifestação específica sobre a pesquisa IPEC realizada entre 25 e 27 de julho. As posições públicas da gestão sobre os episódios citados foram registradas ao longo do texto.
O principal teste político para Zeca Cavalcanti não está em provar que possui hoje uma maioria numérica de avaliações positivas.
Está em saber se a administração conseguirá diminuir a distância entre governar, comunicar, dialogar e ser percebida como próxima dos interesses da população.
A pesquisa não prevê o futuro do governo. Ela mostra onde estão, neste momento, alguns de seus pontos de maior vulnerabilidade.
O estopim — O começo da notícia!
Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi
Mateus Ayres é jornalista e analista político de O estopim, com atuação em política nacional e internacional e análise de conjuntura. Seu trabalho acompanha o poder com atenção à justiça social, ao interesse público e ao rigor documental.
Unidade de Suporte Avançado reforça urgência, mas serviço depende de base pronta, equipe, regulação e funcionamento 24 horas.
Por Raul Silva para O estopim | 25 de junho de 2026
Veículos vão fortalecer o atendimento em 114 municípios de 15 estados | Foto: Ricardo Stuckert/PR
A chegada de uma Unidade de Suporte Avançado do SAMU a Arcoverde pode mudar o atendimento de urgência no município ao ampliar a capacidade de resposta em casos graves, como infarto, AVC, acidentes, crises respiratórias e outras ocorrências que exigem socorro rápido. A Prefeitura afirma que a cidade também deve receber uma Unidade de Suporte Básico nos próximos dias, dentro de propostas aprovadas junto ao Novo PAC, programa do Governo Federal.
A Prefeitura de Arcoverde já havia informado, em julho de 2025, que o município foi contemplado com investimentos do Novo PAC na saúde, incluindo duas ambulâncias para o SAMU 192. A publicação oficial reconhece que os veículos fazem parte do esforço federal para modernizar o atendimento pré-hospitalar no país.
Na prática, a chegada das ambulâncias coloca Arcoverde em uma nova etapa da rede de urgência. O município passa a ter estrutura física e móvel para avançar na implantação do serviço, mas ainda precisa transformar a entrega dos veículos em atendimento real à população.
O Ministério da Saúde explica que as ambulâncias do SAMU se dividem em duas categorias principais. A Unidade de Suporte Básico, conhecida como USB, é formada minimamente por condutor socorrista e técnico ou auxiliar de enfermagem. Ela atende casos de menor complexidade e leva equipamentos básicos de suporte à vida.
A Unidade de Suporte Avançado, chamada de USA, é acionada em casos mais graves, quando há necessidade de intervenção médica. A equipe inclui condutor socorrista, enfermeiro e médico, com equipamentos semelhantes aos de uma UTI móvel, como ventilador mecânico, bombas de infusão, desfibrilador e medicações específicas.
O principal ganho esperado é a redução do tempo de resposta em emergências. O SAMU organiza o socorro a partir do telefone 192, com regulação médica, orientação inicial e envio da unidade adequada para cada caso.
Isso pode melhorar o atendimento em acidentes de trânsito, quedas, convulsões, crises hipertensivas, parada cardiorrespiratória, trabalho de parto com risco, ferimentos graves e transferências reguladas entre unidades de saúde.
A mudança também ajuda a organizar o fluxo entre a casa do paciente, a rua, as unidades básicas, o hospital e a rede de urgência. Em uma cidade polo como Arcoverde, esse ponto é decisivo porque o atendimento local não envolve apenas a sede do município, mas também a circulação de pacientes da região.
O SAMU não é uma ação isolada de um governo municipal. É uma política nacional do SUS. O Ministério da Saúde registra que o serviço foi criado pelo Governo Federal em 2003, como componente pré-hospitalar móvel do Plano Nacional de Atenção às Urgências, e que Lula assinou em 2004 o decreto que instituiu sua execução em estados e municípios, com acesso nacional pelo número 192.
Na seleção de 2025 do Novo PAC Saúde, o Ministério da Saúde informa que o objetivo é ampliar e expandir a frota de ambulâncias do SAMU 192 para universalizar o acesso ao serviço de urgência e melhorar o atendimento pré-hospitalar. As ambulâncias são compradas de forma centralizada pelo Ministério da Saúde e doadas aos entes federados selecionados.
Esse dado é importante no debate público de Arcoverde. A Prefeitura tem papel administrativo na proposta, na implantação e no funcionamento, mas o programa, os veículos e a política de expansão têm origem federal.
O reconhecimento do papel federal não elimina a obrigação municipal. O Ministério da Saúde informa que estados, Distrito Federal e municípios podem propor pedidos ao Novo PAC, mediante carta-consulta e cumprimento de requisitos técnicos.
Agora, a Prefeitura precisa garantir base descentralizada, equipe, escala, insumos, manutenção, combustível, comunicação, articulação com a Central de Regulação e integração com a rede hospitalar. Sem isso, a ambulância existe como patrimônio, mas não como serviço completo.
A população deve acompanhar quando a base do SAMU começará a funcionar, qual será o modelo de contratação, quantos profissionais serão chamados, como será a escala de plantão e qual hospital receberá os casos regulados.
Outro ponto é a transparência sobre o custeio. O Ministério da Saúde explica que o SAMU 192 funciona com custeio tripartite: a União repassa valores de investimento e custeio, enquanto estados e municípios complementam os recursos e ficam responsáveis pelo funcionamento do serviço.
A chegada da Unidade de Suporte Avançado é um passo importante, mas não encerra o processo. O próximo avanço esperado é a chegada da Unidade de Suporte Básico, a implantação da base, a seleção da equipe e o início efetivo das operações pelo 192.
Para Arcoverde, o SAMU representa uma conquista concreta do SUS e do investimento federal retomado pelo Novo PAC. Para a gestão municipal, representa uma responsabilidade: fazer o serviço funcionar todos os dias, com equipe preparada, resposta rápida e atendimento digno.
O estopim — O começo da notícia!
Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi
Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder público, saúde, cultura e direitos, com foco em contexto, checagem e interesse público.