top of page

A política externa de Donald Trump recoloca a América Latina sob uma lógica de tutela que o continente conhece bem. Para o Brasil, o problema não é apenas ideológico: envolve soberania, democracia, economia e o direito de decidir seu próprio futuro.


Por Raul Silva para O estopim | Cobertura especial das Eleições 2026

7 de agosto de 2026

Artigo de opinião


Donald Trump diante das bandeiras dos Estados Unidos e da América Latina em montagem sobre tensões geopolíticas, soberania e eleições de 2026 no Brasil.
O estopim analisa como a retomada de uma lógica de preeminência regional, o uso de instrumentos econômicos e o precedente da intervenção na Venezuela acendem um alerta para a soberania brasileira antes das eleições de 2026. | Imagem: IA/Chat GPT

soberania brasileira nas eleições de 2026

O Brasil se aproxima das eleições de 2026 em um ambiente internacional mais tenso e mais agressivo. A competição entre grandes potências aumentou, guerras continuam abertas e instrumentos econômicos passaram a ser usados com frequência como formas de pressão política. Nesse cenário, merece atenção a política de Donald Trump para a América Latina, principalmente porque os Estados Unidos voltaram a tratar o hemisfério como uma área sobre a qual Washington pretende reafirmar sua preeminência.


Não se trata de teoria conspiratória. A própria estratégia norte-americana recuperou a linguagem da Doutrina Monroe e passou a apresentar a liderança dos Estados Unidos no continente como objetivo de segurança nacional. Para países latino-americanos, essa formulação não é historicamente neutra. A região conhece intervenções, apoio a golpes, operações clandestinas, sanções e pressões destinadas a enquadrar governos considerados inconvenientes aos interesses de Washington.


É justamente por isso que o Brasil precisa entrar na eleição com o sinal de alerta ligado, visto que a atual política externa dos Estados Unidos mostra disposição para utilizar seu peso econômico, diplomático e militar quando considera que seus interesses estão ameaçados. Quando uma potência pretende estabelecer quais alianças são aceitáveis e quais decisões internas de outros países devem ser punidas, a discussão deixa de ser apenas diplomática e passa a atingir a soberania.


A Venezuela tornou essa questão ainda mais concreta. A operação militar norte-americana realizada em território venezuelano em janeiro de 2026, que terminou com a captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, demonstrou que o uso direto da força voltou a fazer parte da realidade política sul-americana. Maduro pode ser duramente criticado por autoritarismo, repressão e violações de direitos. Nada disso, porém, concede automaticamente aos Estados Unidos o direito de decidir pela força quem governa outro país.


Esse princípio precisa valer mesmo quando o governo atingido nos desagrada. Caso contrário, a soberania deixa de ser regra e passa a depender da aprovação das grandes potências. Hoje, a intervenção pode atingir um governo rejeitado por parte importante da sociedade. Amanhã, outro argumento pode ser utilizado contra qualquer país que contrarie interesses estratégicos de Washington. Grandes potências não constroem apenas ações pontuais. Elas constroem precedentes.


No Brasil, a discussão também deixou de ser abstrata. Em 2025, a Casa Branca relacionou publicamente medidas econômicas ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro pelas instituições brasileiras. Presidentes estrangeiros podem ter afinidades políticas. O que não deveria ser naturalizado é o uso da força econômica de um Estado para pressionar outro país por decisões tomadas dentro de sua ordem constitucional.


O raciocínio é simples. Se o governo brasileiro impusesse tarifas aos Estados Unidos para pressionar a Suprema Corte norte-americana a beneficiar um político aliado de Brasília, Washington classificaria a medida como interferência nos assuntos internos do país. E estaria correto. O mesmo princípio precisa valer quando a pressão segue o caminho inverso.


Em 2026, novas tarifas contra produtos brasileiros receberam justificativas comerciais e regulatórias diferentes e não devem ser tratadas como se fossem exatamente o mesmo episódio. Mas o precedente político continua relevante: os Estados Unidos já demonstraram que consideram aceitável misturar poder econômico e disputas políticas brasileiras quando seus interesses estão envolvidos.


Defender a soberania nacional não significa defender Lula de críticas, nem oferecer imunidade ao Supremo Tribunal Federal, ao Congresso ou ao Tribunal Superior Eleitoral. Instituições precisam ser fiscalizadas, criticadas e responsabilizadas quando erram. A questão é outra: os problemas políticos brasileiros devem ser resolvidos pelos brasileiros e pelas instituições estabelecidas pela Constituição. Governo se troca pelo voto. Decisões judiciais são enfrentadas pelos mecanismos legais. Leis são alteradas pelo Congresso. Um governo estrangeiro não ganha autoridade sobre esse processo porque discorda de seu resultado.


Da mesma maneira, rejeitar tutela norte-americana não significa aceitar dependência da China, da Rússia ou de qualquer outro centro de poder. O Brasil deve negociar com todos sem se subordinar a ninguém. Relações com Estados Unidos, China, Europa, África e países latino-americanos precisam servir aos interesses brasileiros, e não transformar o país em extensão política de outra potência.


As eleições de outubro tornam essa questão ainda mais importante porque o próximo presidente governará em um mundo marcado pela disputa entre Estados Unidos e China e pelo uso crescente de comércio, tecnologia e finanças como instrumentos de poder. Qualquer governo brasileiro sofrerá pressão. O que importa é saber se responderá a ela com base no interesse nacional ou na preferência ideológica por uma capital estrangeira.


Também seria ingênuo imaginar que interferência externa só existe quando soldados atravessam uma fronteira. No ambiente atual, campanhas digitais, desinformação, publicidade política segmentada e manipulação artificial de alcance podem interferir no debate público. Isso não autoriza paranoia nem censura, mas exige atenção porque grande parte da esfera pública brasileira está dentro de plataformas controladas por empresas estrangeiras. Com o avanço da inteligência artificial, a capacidade de produzir vídeos, imagens e áudios falsos torna essa vulnerabilidade ainda maior.


Donald Trump não inventou o intervencionismo norte-americano. Governos republicanos e democratas participaram, ao longo da história, de políticas que colocaram interesses estratégicos dos Estados Unidos acima da autonomia latino-americana. A diferença é que Trump torna essa lógica mais explícita. Quando sua administração fala em recuperar preeminência no hemisfério, a velha relação de poder aparece com menos disfarces.


É nesse ponto que a palavra imperialismo deixa de ser apenas um rótulo ideológico. Uma política assume caráter imperialista quando uma potência considera legítimo limitar a autonomia política, econômica ou estratégica de outros países porque possui força suficiente para fazê-lo. Não há problema em os Estados Unidos defenderem seus interesses. O Brasil também precisa defender os seus. O problema começa quando interesse nacional é transformado em pretensão de tutela sobre outros povos.


Os Estados Unidos não são os xerifes do planeta. Sua força militar, econômica e tecnológica não lhes concede soberania sobre outros países, muito menos o direito de estabelecer quais governos latino-americanos merecem existir. Poder não é sinônimo de legitimidade.


A fragmentação da América Latina favorece essa assimetria. Uma região dividida negocia pior e resiste menos a pressões externas. Não é necessário provar a existência de um grande plano secreto para compreender que países isolados são mais vulneráveis do que governos capazes de construir posições comuns em assuntos estratégicos.


O Brasil tem responsabilidade especial porque é a maior economia latino-americana, possui território continental, recursos naturais decisivos, produção agrícola de escala mundial, petróleo e minerais estratégicos. É natural que grandes potências tenham interesse no país. O que não pode ser tratado como natural é a transformação desse interesse em direito de intervenção.


Soberania, portanto, não é uma palavra velha nem um slogan nacionalista. É a condição para que uma sociedade continue decidindo seu próprio caminho. Sem autonomia econômica, diplomática e política, um país pode continuar realizando eleições enquanto decisões fundamentais passam a ser condicionadas por forças que seus cidadãos não elegeram.


Isso também não significa que o Brasil deva transformar os Estados Unidos em inimigo. Os dois países possuem relações importantes e devem cooperar sempre que houver interesses comuns. Uma relação madura, porém, pressupõe capacidade de discordar. Submissão não é amizade e tutela não é parceria.


Se os brasileiros escolherem Lula, Washington terá de negociar com Lula. Se escolherem Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato, Pequim e as demais potências terão de respeitar essa decisão. Esse deveria ser o princípio elementar de qualquer eleição soberana: governos estrangeiros podem ter preferências, mas não podem pretender substituir a vontade dos eleitores.


Por isso, ligar o sinal de alerta não significa reconhecer que há uma política norte-americana declaradamente voltada à recuperação de sua preeminência regional e que o Brasil já sentiu na prática como instrumentos econômicos podem ser associados a disputas políticas internas.


A questão central das eleições de 2026, portanto, não é escolher um candidato com medo de Washington, Pequim ou qualquer outra potência. É garantir que a escolha continue pertencendo aos brasileiros. Podemos discordar profundamente sobre governos, tribunais, partidos e projetos econômicos. O que não deveríamos aceitar é que outro país reivindique o direito de definir até onde nossa democracia pode ir.


O Brasil não pertence aos Estados Unidos, à China, à Rússia nem a qualquer outro centro de poder. Pertence aos brasileiros. E, diante de uma política internacional que volta a naturalizar a força como argumento, defender esse princípio deixou de ser retórica. Tornou-se necessidade.


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, sociedade e os acontecimentos que ajudam a compreender as disputas e consequências por trás da notícia.

bottom of page