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Bolsonarismo, segurança, redução de impostos, propriedade e voto anti-Lula pesam mais que propostas sociais já existentes.


Por Mateus Ayres para O estopim |

Cobertura das Eleições 2026

10 de agosto de 2026


Flávio Bolsonaro durante ato político na pré-campanha presidencial de 2026
O que realmente pode levar um eleitor a votar em Flávio Bolsonaro em 2026 e quais propostas atribuídas ao candidato já existiam antes. | Foto : Camila Cunha

Flávio Bolsonaro disputa a Presidência em 2026 sustentado por cinco fatores políticos claros: continuidade do bolsonarismo, endurecimento penal, promessa de redução de impostos e do tamanho do Estado, defesa mais rígida da propriedade privada e concentração do voto contrário a Lula.


Não é uma candidatura marcada, até agora, por um conjunto amplo de políticas públicas próprias transformadas em resultados de governo. Parte das iniciativas sociais atribuídas ao senador já existia antes de seus projetos. Outras propostas citadas como realizações são de autoria coletiva, de outros parlamentares ou continuam apenas em tramitação.


1. Para quem quer a continuidade do bolsonarismo


O primeiro motivo é o mais simples. Flávio Bolsonaro é o candidato que representa diretamente a continuidade política de Jair Bolsonaro. Não apenas porque é seu filho, mas porque ocupa o espaço eleitoral construído pelo ex-presidente e concentra hoje parcela expressiva desse eleitorado.


A pesquisa Quaest divulgada em 5 de agosto colocou Lula com 39% das intenções de voto e Flávio com 30% no primeiro turno. Em eventual segundo turno, Lula aparecia com 44% e Flávio com 39%. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 31 de julho e 3 de agosto e tem margem de erro de dois pontos percentuais.


Esse é um motivo de identidade política, não de desempenho administrativo. Flávio nunca comandou o governo federal e sua trajetória nacional foi construída no Legislativo.


A própria montagem da chapa mostrou a dependência do núcleo bolsonarista. Depois de não conseguir atrair para a vice nomes de outros partidos relevantes da direita, o PL fechou uma chapa interna com o deputado Alfredo Gaspar, também do partido. Progressistas e Republicanos não aderiram nacionalmente à candidatura.


2. Para quem defende penas mais duras e mais prisão


Segurança pública é o campo em que Flávio tem projetos próprios mais claramente identificáveis.


O PL 4.082/2024, de sua autoria, restringe a concessão de liberdade provisória e de medidas cautelares alternativas à prisão para presos em flagrante por crimes hediondos ou equiparados. O projeto continua em tramitação e chegou à Comissão de Constituição e Justiça em julho.


O PL 4.597/2025 também é de Flávio e agrava a legislação para homicídios, crimes com armas e delitos relacionados a drogas quando praticados com drones ou equipamentos automatizados.


Há ainda o PL 494/2025, que propõe pena de quatro a oito anos para furto de celular, e o PL 6.043/2023, que determina o bloqueio do IMEI após registro policial de furto, roubo ou extravio. Ambos são de autoria do senador e permanecem em tramitação.


Portanto, quem considera aumento de penas, ampliação do encarceramento e endurecimento da legislação criminal prioridades pode encontrar nesse eixo uma razão para votar em Flávio.


O que não existe nesses projetos é resultado de política pública já mensurado. Eles representam uma escolha penal e legislativa. Não demonstram, por si, redução da criminalidade.


3. Para quem quer reduzir impostos e encolher o Estado


Na economia, a candidatura apresenta uma linha liberal. Flávio defende suspender por pelo menos um ano a implementação da reforma tributária do consumo, rever exceções e tentar reduzir a alíquota de referência do novo IVA. Também fala em corte de despesas e diminuição do tamanho do Estado.


O posicionamento contra o texto central da reforma tem respaldo no histórico de votação. Em novembro de 2023, Flávio votou contra a PEC 45/2019 tanto na votação principal do primeiro turno quanto no segundo turno no Senado.


Esse é um motivo essencialmente econômico e ideológico. Para o eleitor que defende menor tributação, privatizações e menor participação estatal, Flávio oferece uma agenda identificável.


A conta fiscal continua sendo o problema central. Reduzir arrecadação e despesas exige definir quais gastos, políticas ou estruturas serão cortados. Até agora, a campanha apresentou a direção, mas não um orçamento federal completo demonstrando como essa redução seria financiada.


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4. Para quem quer fortalecer a propriedade privada


A defesa da propriedade é outro ponto concreto da trajetória de Flávio. Ele aparece como primeiro signatário, ao lado de outros 26 senadores, da PEC 80/2019. A proposta altera as regras constitucionais sobre função social da propriedade urbana e rural e limita a possibilidade de o Executivo declarar seu descumprimento para fins de desapropriação, exigindo autorização legislativa ou decisão judicial em determinadas situações. A PEC continua parada na CCJ.


Já a chamada PEC dos terrenos de marinha não é de autoria de Flávio Bolsonaro. A PEC 3/2022 começou na Câmara como PEC 39/2011 e tem como autor o então deputado Arnaldo Jordy. No Senado, Flávio é relator e apresentou parecer favorável. A proposta transfere parte dos terrenos atualmente pertencentes à União para estados, municípios e ocupantes privados e extingue cobranças como foro, taxa de ocupação e laudêmio nas áreas transferidas.


O próprio material acadêmico anexado registra que a proposta foi apresentada originalmente em 2011, aprovada pela Câmara em 2022 e chegou ao debate no Senado anos depois. Também aponta os conflitos envolvendo acesso público e proteção ambiental da zona costeira.


Flávio pode ser responsabilizado politicamente por defender e relatar a PEC. Não pode ser apresentado como seu autor.


5. Para quem quer concentrar o voto contra Lula


O quinto motivo não está em nenhum projeto. É o voto útil da direita contra Lula. Na Quaest de agosto, Flávio aparece nove pontos atrás do presidente no primeiro turno, mas muito à frente dos demais candidatos da direita testados no levantamento. Renan Santos e Ronaldo Caiado tinham 4% cada, e Romeu Zema, 2%.


Isso transforma Flávio, hoje, no principal destino do eleitor que tem como prioridade retirar Lula do Planalto e pretende concentrar o voto no adversário mais bem colocado.


Esse argumento independe da qualidade de seus projetos. É cálculo eleitoral. Também não significa que a direita esteja unificada em torno dele. A dificuldade para formar uma coligação nacional fora do PL e a neutralidade de partidos conservadores relevantes mostram que a candidatura ainda enfrenta resistência dentro do próprio campo político que pretende representar.


O que não pode ser apresentado como novidade de Flávio Bolsonaro


O PL 3.190/2023 sobre microcrédito aparece no material anexado como o único projeto de “autoria principal” de Flávio transformado em lei. O registro oficial do Senado mostra outra coisa.


O autor é Esperidião Amin, do PP de Santa Catarina. Flávio aparece entre dezenas de coautores, ao lado de parlamentares de diferentes partidos, incluindo Teresa Leitão, Rogério Carvalho e Paulo Paim, do PT, Leila Barros, do PDT, além de integrantes de PSB, PSD, União Brasil e outras legendas. A proposta tornou-se a Lei 15.364/2026.


Não é correto contabilizar essa lei como produção legislativa exclusiva de Flávio Bolsonaro.


Diagnóstico do autismo no SUS já era direito


O PL 3.980/2025 é, de fato, de autoria de Flávio. Ele determina cobertura integral e prioritária de exames especializados para identificação precoce do transtorno do espectro autista pelo SUS. O texto continua em tramitação.


Mas o direito ao diagnóstico precoce no sistema público não nasceu com esse projeto. A Lei 12.764, sancionada em 2012 pela então presidente Dilma Rousseff, já estabelecia a atenção integral à saúde das pessoas autistas, incluindo expressamente diagnóstico precoce, atendimento multiprofissional e acesso aos serviços de saúde.


O projeto de Flávio acrescenta exigências específicas sobre exames e prioridade. Não cria o direito ao diagnóstico pelo SUS.


Centro-Dia para idosos também já existe


O PL 5.115/2025, também de Flávio, determina a instalação de centros-dia para pessoas idosas atendidas pelo Sistema Único de Assistência Social.


O Centro-Dia, porém, já existe no SUAS. O governo federal mantém serviço público específico de Centro-Dia para pessoas idosas e pessoas com deficiência com dependência de cuidados. O próprio Ministério do Desenvolvimento Social define o serviço como parte da Proteção Social Especial e registra sua oferta para idosos.


A modalidade já aparecia na estrutura do SUAS e em programas federais da década passada. Em 2012, o sistema ampliou a implantação de Centros-Dia dentro do Plano Viver Sem Limite.


O projeto do senador tenta transformar em obrigação legal uma expansão desse atendimento. Não cria o serviço do zero.


O que realmente sobra como escolha eleitoral


Os motivos mais consistentes para um voto em Flávio Bolsonaro não estão numa suposta coleção de novos programas sociais.


Estão na posição política que ele representa. Quem quer manter o bolsonarismo no comando do campo da direita encontra nele o herdeiro eleitoral direto. Quem defende penas maiores encontra projetos próprios nessa direção. Quem quer menos impostos e menos Estado encontra uma proposta econômica liberal. Quem prefere ampliar a proteção à propriedade privada encontra posições legislativas coerentes com essa agenda. Quem pretende simplesmente derrotar Lula encontra hoje em Flávio o candidato mais bem colocado da direita nas pesquisas nacionais mais recentes.


O restante precisa ser chamado pelo nome correto: coautoria não é autoria exclusiva, relatoria não é criação de uma PEC e ampliação de um serviço existente não equivale à criação de uma política pública.


O que acontece agora?


Os partidos têm até 15 de agosto para registrar formalmente as candidaturas na Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro.


Flávio entra nessa etapa com Alfredo Gaspar como vice, uma chapa formada apenas pelo PL e o desafio de transformar a base bolsonarista em maioria eleitoral.


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Mateus Ayres cobre política nacional e internacional e análise de conjuntura para O estopim. Seu trabalho acompanha poder, democracia e justiça social com apuração factual e rigor documental.

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