Defesa de Flávio Bolsonaro fez quatro pedidos para levar “Dark Horse” a André Mendonça; cronologia inclui encontro com Vorcaro e embate com a PF.
Por Raul Silva para O estopim |
14 de setembro de 2026

Em julho de 2026, a defesa do senador Flávio Bolsonaro apresentou ao Supremo Tribunal Federal ao menos quatro pedidos para retirar de Flávio Dino uma frente da investigação sobre o filme Dark Horse e concentrá-la com André Mendonça. Os advogados alegaram prevenção e risco de decisões conflitantes. Os requerimentos foram protocolados antes de se tornar público que Mendonça havia recebido Daniel Vorcaro reservadamente, em março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo.
Depois, já à frente de investigações ligadas ao Banco Master, o gabinete de Mendonça voltou a ouvir Vorcaro, dessa vez sem a presença da Polícia Federal.
A sequência passou a integrar o conflito institucional dentro do próprio Supremo. Em decisão na PET 16.669, Flávio Dino questionou não apenas a competência de atos do colega, mas a possibilidade de Mendonça decidir sobre relatórios policiais que também o mencionavam.
A controvérsia ganhou outro elemento nesta segunda-feira, 14 de setembro. A Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Transparência e cumpriu mandados contra Cezinha de Madureira, um dos articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça.
Quatro pedidos para levar “Dark Horse” a André Mendonça
A Folha de S.Paulo revelou que os advogados de Flávio Bolsonaro apresentaram quatro pedidos ao Supremo em julho para concentrar as investigações sobre o filme nas mãos de André Mendonça, ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro.
Em um dos documentos, a defesa sustentou que, “dos seis processos autuados” relacionados ao caso, apenas um não estava sob a relatoria de Mendonça. Também acusou a distribuição para Dino de “manipulação artificial de competência”.
Os requerimentos foram apresentados antes de se tornar público que Mendonça havia recebido Vorcaro reservadamente em São Paulo.
O encontro fora do Supremo
André Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, instituição privada fundada pelo ministro. O encontro não ocorreu no Supremo e não constou de agenda pública.
A reunião foi articulada pelo deputado Cezinha de Madureira e pelo advogado Ciro Rocha Soares, que atuava para Vorcaro.
Segundo Mendonça, a conversa durou entre 20 e 30 minutos e teve como assunto uma disputa sobre precatórios de interesse do Banco Master. O ministro afirmou que se limitou a ouvir o empresário e que, posteriormente, sua posição no processo foi contrária ao interesse defendido por Vorcaro.
O encontro aconteceu cerca de um ano antes de Mendonça assumir papel central nas investigações envolvendo o Master.
A conexão voltou formalmente aos autos em setembro. Na página 9 da decisão da PET 16.669, Flávio Dino registrou a reunião ao discutir a atuação de Mendonça.
“Mais grave se torna essa interferência [...] quando, recentemente, veio a lume a informação de que o Ministro André Mendonça teria recebido [...] o Sr. Daniel Vorcaro.”
Dino não afirmou que o encontro resultou em favorecimento. Colocou, porém, a reunião diretamente dentro da discussão sobre competência e atuação judicial e, na página seguinte, classificou a situação como “complexa”, exigindo da magistratura “moderação, equilíbrio e prudência”.
Vorcaro voltou a ser ouvido pelo gabinete de Mendonça
Em 27 de agosto de 2026, quando Mendonça já comandava investigações ligadas ao Master, Daniel Vorcaro foi ouvido por um juiz auxiliar de seu gabinete.
O depoimento contou com representante do Ministério Público, mas não teve integrantes da Polícia Federal.
O gabinete confirmou o procedimento e afirmou que a própria defesa de Vorcaro havia pedido uma audiência urgente porque o ex-banqueiro relatava “graves intimidações”.
A justificativa apresentada para a ausência da PF foi justamente o teor das acusações. Segundo a versão divulgada pelo gabinete, as intimidações envolviam policiais.
Reportagens posteriores informaram que Vorcaro mencionou Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, durante seus relatos. Fontes ouvidas pela CNN disseram que o ex-banqueiro afirmou que uma tentativa de delação teria encontrado obstáculos porque poderia envolver o chefe da PF.
Poucos dias depois, Mendonça tomou uma das decisões que aprofundaram a crise institucional no Supremo.
Mendonça afastou o diretor-geral da PF
Na PET 16.662, André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial.
A decisão também ordenou a suspensão da produção, elaboração ou compartilhamento, inclusive internamente, de relatórios de inteligência destinados à análise de determinados atos praticados por integrantes do Judiciário, da advocacia pública e da própria polícia.
A ordem aparece reproduzida na página 5 da decisão de Flávio Dino na PET 16.669. É nesse ponto que Dark Horse deixa de aparecer apenas como um caso paralelo.
A decisão atingia concretamente a investigação do filme
Andrei Rodrigues recorreu a Flávio Dino e sustentou que sua retirada do comando da PF prejudicava diretamente trabalhos em andamento na própria PET 16.669.
Na página 3 da decisão, Dino registra que a Polícia Federal havia acabado de obter acesso ao material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação sobre empresas relacionadas às emendas parlamentares e ao filme Dark Horse.
Segundo o documento, o afastamento do diretor-geral interferia na organização da equipe responsável pelas investigações, retardava o acesso ao material e comprometia a atuação célere da instituição.
A PF investigava emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, organizações presididas por Karina Ferreira da Gama.
A representação policial relacionava Karina à produção de Dark Horse e descrevia vínculos financeiros e empresariais que estavam sendo aprofundados pela investigação.
Na página 7, Dino reproduziu trechos da investigação policial que identificavam Karina como empresária ligada à produção do filme e registravam que o Instituto Conhecer Brasil recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares.
Assim, quando Mendonça afastou integrantes da direção da PF e atingiu a produção de relatórios de inteligência, uma das investigações alcançadas pela crise era justamente a frente de Dark Horse conduzida por Dino.
“Interessa, sobretudo, aos investigados”
Na página 4 da decisão, Dino analisou o efeito objetivo da interrupção das investigações.
“É evidente que, objetivamente, a interrupção dos trabalhos de direção de investigações policiais interessa, sobretudo, aos investigados.”
Dino separou efeito e intenção. Não atribuiu dolo, mas sustentou que a consequência objetiva da interrupção beneficiava quem estava sendo investigado.
Mais adiante, na página 15, afirmou que a suspensão determinada por Mendonça poderia atingir “quiçá centenas de investigações” e destacou a importância das funções exercidas por Andrei Rodrigues e Leandro Almada para a continuidade dos trabalhos de inteligência da PF.
Dino questiona se Mendonça poderia decidir sobre relatórios que o mencionavam
Nas páginas 8 e 9 da PET 16.669 está um dos pontos mais sensíveis da controvérsia.
Dino lembrou que a Presidência do STF havia aberto a PET 16.704 para examinar relatórios da Polícia Federal que mencionavam, entre outras autoridades, o próprio André Mendonça.
Em seguida, questionou:
“Uma parte pode ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que expressamente a mencionam?”
Dino também escreveu que direitos eventualmente invocados por Mendonça não poderiam fundamentar uma “decisão em causa própria” com efeito de paralisar investigações e trabalhos policiais.
É nesse mesmo bloco argumentativo que aparece a referência ao encontro particular entre Mendonça e Vorcaro.
A discussão, portanto, deixou de existir apenas no campo da interpretação jornalística. Um ministro do Supremo registrou formalmente nos autos a questão sobre a possibilidade de Mendonça decidir a respeito de material que também o mencionava.
O celular de Vorcaro abriu outra frente de conflito
No domingo, 13 de setembro, Mendonça se posicionou contra a abertura indiscriminada da íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro naquele momento.
Argumentou que a medida poderia tumultuar o julgamento, desviar o foco e prejudicar investigações em andamento.
Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes passaram a cobrar acesso integral ao material.
Zanin ressaltou que não existe hierarquia entre os ministros do STF. Gilmar Mendes criticou a disponibilização apenas de “recortes de diálogos”.
O aparelho de Vorcaro é uma das fontes dos registros que revelaram contatos do ex-banqueiro com diferentes autoridades, entre eles o encontro de 2025 envolvendo Mendonça.
Os quatro pedidos de Flávio reaparecem no centro da cronologia
Quando os advogados de Flávio Bolsonaro tentaram concentrar Dark Horse em Mendonça, o encontro reservado com Vorcaro ainda não era de conhecimento público.
Também não havia ocorrido a crise que terminaria com Mendonça afastando o diretor-geral da Polícia Federal e suspendendo relatórios de inteligência.
A defesa sustentava uma questão processual: prevenção e risco de decisões conflitantes. A cronologia, porém, coloca uma pergunta de interesse público: por que houve quatro tentativas para retirar de Dino justamente a frente das emendas parlamentares e colocá-la sob o ministro que já concentrava os demais procedimentos relativos ao filme?
Os quatro requerimentos, isoladamente, não respondem à pergunta. Agora, entretanto, eles fazem parte de uma sequência que reúne o encontro reservado entre Mendonça e Vorcaro, a oitiva extraordinária do ex-banqueiro sem a PF, a posterior ordem contra a cúpula policial e a constatação formal de Dino de que a medida atingia trabalhos ligados ao caso Dark Horse.
Cezinha de Madureira vira alvo da PF
Nesta segunda-feira, 14 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Transparência e cumpriu quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo.
Cezinha de Madureira, um dos articuladores do encontro entre Vorcaro e Mendonça, está entre os alvos.
Segundo a PF, a investigação apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionados à suspeita de negociação de valores para influenciar resultados de processos.
A operação foi autorizada por Flávio Dino. A Polícia Federal ressaltou que, até agora, não há elementos indicando participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos investigados.
A operação não transforma o encontro de 2025 em crime.
Acrescenta, porém, um novo fato objetivo à cronologia: um dos responsáveis por aproximar Vorcaro de Mendonça passou a ser investigado pela PF por suspeitas relacionadas a tráfico de influência e processos judiciais.
O que acontece agora?
O Plenário do STF tem sessão extraordinária marcada para 15 de setembro para examinar a crise aberta em torno da PET 16.662 e das decisões conflitantes envolvendo a direção da Polícia Federal.
No caso Dark Horse, permanecem em discussão a competência sobre as diferentes frentes, o acesso ao material investigativo e a continuidade das apurações.
Há ainda duas perguntas centrais deixadas pela cronologia.
A primeira é institucional: depois do encontro privado com Vorcaro, da nova oitiva do ex-banqueiro, das decisões envolvendo a direção da PF e da existência de relatórios que também mencionam o ministro, quais são as condições objetivas para André Mendonça continuar conduzindo frentes relacionadas ao mesmo núcleo investigativo?
A segunda está diretamente ligada a Dark Horse: por que a defesa de Flávio Bolsonaro insistiu quatro vezes para que justamente essa investigação saísse das mãos de Flávio Dino e fosse concentrada em André Mendonça?
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na produção de reportagens, análises e conteúdos de interesse público para as plataformas do portal.
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