top of page

Investigação aponta mais de 600 integrantes, núcleo radicalizado, discussão sobre explosivos e conteúdo neonazista; caso amplia alerta sobre violência política contra Lula, a esquerda e as instituições


Por Raul Silva para O estopim |

Cobertura da Eleição 2026

10 de agosto de 2026

atentados em Brasília

Palácio do Planalto em Brasília, citado como possível alvo em investigação sobre grupo extremista e planos de atentados.
Palácio do Planalto em Brasília, citado como possível alvo em investigação sobre grupo extremista e planos de atentados. | Foto: Roberto Cerri

Uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal revelou a existência de um grupo organizado pela internet no qual participantes discutiam ataques contra políticos e prédios públicos em Brasília. O grupo principal reuniria mais de 600 integrantes e funcionaria como uma espécie de porta de entrada para um núcleo menor, formado pelos participantes considerados mais radicalizados.


Nesse espaço restrito, segundo a investigação, eram discutidos possíveis alvos, custos e materiais necessários para a fabricação de explosivos. O Palácio do Planalto, sede da Presidência da República, apareceria como o principal alvo.


As conversas também incluíam compartilhamento de manuais, discurso de ódio e referências à ideologia neonazista. O monitoramento envolveu estruturas ligadas ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.


O episódio surge em um momento em que Brasília permanece sob atenção especial das forças de segurança por causa do avanço de redes extremistas, das ameaças contra autoridades e do histórico recente de violência política no país.


O Planalto novamente no centro das ameaças


A escolha do Palácio do Planalto como possível alvo dá ao caso uma dimensão que ultrapassa uma ameaça contra um edifício público.


O prédio é a sede administrativa da Presidência da República e um dos principais símbolos do poder político brasileiro. Desde a volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao governo, em janeiro de 2023, o local passou a ocupar posição central em episódios de contestação violenta ao resultado eleitoral.


Em 8 de janeiro de 2023, o Planalto foi invadido e depredado durante os ataques às sedes dos Três Poderes. O Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal também foram tomados por grupos que contestavam a derrota de Jair Bolsonaro e defendiam uma ruptura institucional.


Mais tarde, a investigação da Polícia Federal sobre a tentativa de golpe revelou que a ofensiva contra o governo eleito havia ido muito além das depredações de janeiro.


Lula já esteve na mira de um plano de assassinato


Em novembro de 2024, a Polícia Federal tornou pública a Operação Contragolpe, que revelou um dos episódios mais graves da crise política iniciada após a eleição de 2022.


Segundo a PF, integrantes da organização investigada planejaram impedir a posse de Lula e chegaram a elaborar uma operação para matar o presidente eleito, o vice-presidente Geraldo Alckmin e uma autoridade do Supremo Tribunal Federal.


O planejamento ficou conhecido como Punhal Verde e Amarelo. As investigações apontaram que militares e outros envolvidos discutiram formas de executar o plano antes da posse presidencial.


Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal concluiu os julgamentos dos quatro núcleos da trama golpista. Dos 31 réus julgados, 29 foram condenados. Jair Bolsonaro recebeu a maior pena, de 27 anos e três meses.


O episódio consolidou judicialmente a existência de uma articulação organizada para impedir a posse do governo eleito em 2022.


O aparecimento de um novo grupo discutindo explosivos e possíveis ataques em Brasília ocorre, portanto, poucos anos depois de uma tentativa concreta de ruptura institucional que chegou a incluir o assassinato do presidente eleito.


O extremismo migrou para grupos fechados na internet


A nova investigação também chama atenção para a forma como comunidades extremistas funcionam nas plataformas digitais.


O grupo maior, com mais de 600 participantes, seria utilizado como espaço de circulação de conteúdos e aproximação entre integrantes.


Os participantes considerados mais radicalizados eram então direcionados para um ambiente mais restrito.


É nesse núcleo que a investigação encontrou as discussões mais graves. Ali estariam mensagens sobre possíveis ataques, custos das ações e materiais necessários para a produção de explosivos.


Essa estrutura em camadas é particularmente relevante porque separa uma comunidade ampla de simpatizantes de um núcleo menor disposto a discutir ações violentas.


O modelo também dificulta o trabalho de investigação. Grupos abertos podem ser utilizados para propaganda, recrutamento e identificação de novos participantes, enquanto as conversas mais sensíveis migram para ambientes fechados, canais privados ou plataformas criptografadas.


Neonazismo aparece novamente ligado à radicalização digital


Outro elemento central do caso é a presença de referências neonazistas. As autoridades identificaram conteúdos relacionados a discurso de ódio e ideologia nazista entre as mensagens compartilhadas pelos integrantes.


O fenômeno não é isolado. Nos últimos anos, operações policiais em diferentes estados localizaram comunidades digitais que misturavam racismo, antissemitismo, misoginia, exaltação de massacres e defesa de ataques contra autoridades e instituições.


Em abril de 2026, o Ministério da Justiça informou que o Laboratório de Operações Cibernéticas, o Ciberlab, auxiliou uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro contra um adolescente que administrava comunidades no Telegram.


Segundo as autoridades, esses grupos divulgavam conteúdos de ódio, referências ao nazismo, exaltação de autores de massacres e ameaças contra autoridades públicas.


No Distrito Federal, a Polícia Civil mantém uma estrutura específica para enfrentar esse tipo de ameaça.


A Divisão de Prevenção e Combate ao Extremismo Violento já participou de operações envolvendo ameaças ideológicas, antissemitismo e ataques contra autoridades e instituições.


O Ministério da Justiça monitora redes extremistas


O avanço dessas comunidades levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a ampliar a atuação de unidades especializadas em crimes praticados pela internet.


Entre elas está o Ciberlab, estrutura utilizada em investigações de grupos extremistas, ameaças contra autoridades, crimes de ódio e violência organizada em plataformas digitais.


A participação de estruturas desse tipo no monitoramento mostra como as ameaças deixaram de ser tratadas apenas como manifestações isoladas em redes sociais.


A preocupação passa a ser identificar quando discursos violentos começam a se transformar em planejamento operacional.


A diferença pode estar em detalhes como a escolha de um alvo, divisão de tarefas, levantamento de custos, aquisição de materiais ou reconhecimento de locais.


No caso investigado em Brasília, as conversas sobre explosivos e possíveis alvos colocaram o grupo em um nível de atenção muito superior ao de uma comunidade dedicada apenas à propaganda extremista.


A esquerda também virou alvo de redes neonazistas


As ameaças produzidas em ambientes neonazistas não se limitam a autoridades do Estado.


Em outubro de 2025, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que acompanhava ameaças contra o historiador e comunicador pernambucano Jones Manoel, uma das figuras públicas mais conhecidas da esquerda brasileira nas redes sociais.


As ameaças foram atribuídas a um grupo neonazista. O caso levou o ministério a acionar o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas.


O episódio mostrou que intelectuais, comunicadores e militantes identificados com a esquerda também passaram a figurar entre os alvos dessas comunidades.


A lógica desses grupos costuma combinar racismo, antissemitismo, misoginia, anticomunismo e hostilidade contra movimentos sociais, instituições democráticas e figuras políticas consideradas inimigas.


O precedente de 8 de Janeiro


A invasão das sedes dos Três Poderes continua sendo o principal exemplo recente de como a radicalização política pode ultrapassar as redes e chegar fisicamente às instituições.


Em 8 de janeiro de 2023, milhares de pessoas avançaram sobre a Praça dos Três Poderes e invadiram o Congresso, o Supremo e o Palácio do Planalto.


Os prédios foram depredados. Obras de arte, móveis, documentos e estruturas internas foram destruídos ou danificados.


As investigações posteriores identificaram financiadores, organizadores, participantes e agentes públicos envolvidos nos acontecimentos.


Até janeiro de 2026, o Ministério Público Federal havia denunciado mais de 1,9 mil pessoas relacionadas aos atos antidemocráticos.


O STF também responsabilizou criminalmente centenas de envolvidos. O ataque demonstrou que ambientes alimentados durante meses por discursos de ruptura institucional podem produzir consequências concretas.


Leia também


Explosivos voltaram a aparecer no centro de Brasília


Brasília também registrou outro episódio grave em novembro de 2024. Francisco Wanderley Luiz, ex-candidato a vereador pelo PL em Santa Catarina, morreu após detonar explosivos nas proximidades do Supremo Tribunal Federal.


Antes da explosão que provocou sua morte, artefatos foram lançados na região da Praça dos Três Poderes.


O episódio ocorreu poucos dias antes da reunião do G20 no Rio de Janeiro e levou as forças de segurança a ampliar o nível de alerta na capital federal.


As investigações encontraram ainda outros explosivos relacionados ao caso. O ataque reforçou a preocupação com ações individuais ou pequenos grupos radicalizados que podem transformar discursos políticos extremos em violência.


Segurança presidencial entra em nova fase em 2026


A Polícia Federal anunciou em julho uma operação nacional para proteger os candidatos à Presidência durante as Eleições 2026.


A estrutura foi planejada para atender simultaneamente até dez candidaturas e poderá mobilizar até 458 servidores.


O protocolo inclui veículos blindados, sistemas antidrone, reconhecimento facial, monitoramento de ameaças digitais e equipes preparadas para vistorias antibomba.


Mais de 600 profissionais receberam treinamento entre 2025 e 2026. A PF também reservou aproximadamente R$ 95 milhões para a estrutura de segurança eleitoral.


O modelo de proteção varia de acordo com o nível de risco de cada candidatura, levando em consideração histórico de ameaças, inteligência policial, características dos locais visitados e vulnerabilidades das agendas.


Em um ambiente político marcado por atentados, ameaças digitais e tentativas de ruptura institucional, a proteção dos candidatos se tornou uma das principais preocupações da segurança pública para o processo eleitoral deste ano.


O desafio agora é identificar quem passou da propaganda para o planejamento


A investigação do grupo com mais de 600 integrantes pode ajudar a esclarecer uma das questões mais difíceis no combate ao extremismo digital: identificar o momento em que uma comunidade deixa de ser apenas um espaço de propaganda e começa a preparar violência real.


A existência de um núcleo restrito é um dos elementos mais importantes da apuração. Será necessário determinar quem administrava esses espaços, quem selecionava os participantes, quais integrantes discutiam ataques e se houve compra ou tentativa de compra de materiais.


Outro ponto fundamental será identificar quais autoridades aparecem nas conversas. Se o Palácio do Planalto estava realmente no centro dos planos, os investigadores precisarão descobrir se o objetivo era atacar o prédio como símbolo político, atingir servidores e autoridades ou alcançar diretamente integrantes do governo Lula.


Também será importante verificar se integrantes realizaram reconhecimento de locais, acompanharam agendas oficiais ou tentaram obter informações sobre segurança presidencial.


Violência política não pode ser tratada como fenômeno marginal


O Brasil chega às Eleições 2026 depois de atravessar uma sequência de episódios que mudaram o patamar da violência política no país.


  • O Palácio do Planalto foi invadido.

  • O STF foi atacado.

  • Um plano para matar Lula, Alckmin e uma autoridade do Supremo foi descoberto pela Polícia Federal.

  • Explosivos foram detonados na Praça dos Três Poderes.

  • Redes neonazistas continuaram sendo investigadas por ameaças contra autoridades, comunicadores e figuras públicas da esquerda.

  • Agora, uma nova investigação aponta para um grupo numeroso no qual participantes mais radicalizados teriam discutido ataques e fabricação de explosivos.


A dimensão do caso dependerá do que as próximas etapas da investigação revelarem sobre a organização, seus integrantes e sua capacidade de transformar conversas virtuais em violência.


Mas o surgimento de mais uma comunidade dedicada a combinar radicalização política, discurso de ódio e discussão sobre atentados mostra que a ameaça deixou de caber apenas dentro das telas.


Em Brasília, depois de tudo o que aconteceu desde 2022, as instituições sabem exatamente o tamanho do risco quando a violência política começa a ganhar planejamento.


O que acontece agora


A investigação deverá avançar sobre os administradores dos grupos, integrantes do núcleo radicalizado, possíveis compras de materiais e identificação dos políticos mencionados nas conversas.


Outro ponto central será descobrir até onde os planos chegaram. A existência de discussões sobre custos e explosivos pode permitir aos investigadores reconstruir o grau de preparação dos participantes e identificar quem tinha condições de executar alguma ação.


A eventual presença de Lula ou de integrantes do governo entre os alvos também deverá ser esclarecida a partir das mensagens apreendidas e dos depoimentos dos investigados.


Com a campanha presidencial de 2026 em andamento, qualquer avanço nessa direção deverá produzir impacto imediato nos protocolos de segurança adotados em Brasília e nas agendas dos candidatos.


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, democracia, poder e temas de interesse público, com foco em investigação, documentação e contexto.

IMAGEM DE NIETZSCHE
Friedrich Nietzsche

O retrato é célebre: em abril de 1931 Adolf Hitler, ainda a caminho do poder, inclina-se diante de um busto de Friedrich Nietzsche no Nietzsche-Archiv, em Weimar. A imagem — distribuída pela máquina de propaganda do futuro Führer — selava um casamento simbólico entre o filósofo que proclamara “Deus está morto” e o movimento que transformaria a Alemanha numa teocracia racial. Desde então, tornou-se quase senso comum dizer que o autor de Assim Falou Zaratustra foi a inspiração intelectual do nazismo, sobretudo pelo conceito de Übermensch (além-homem ou super-homem). O problema é que nada, nem na biografia nem na obra de Nietzsche, autoriza tal leitura: ele detestava o antissemitismo, ridicularizava o nacionalismo alemão e descreveu o Estado como “o mais frio de todos os monstros”. Como, então, ocorreu tão profunda distorção? A resposta atravessa a ação de sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, o uso que o Terceiro Reich fez de edições manipuladas, e a recente reciclagem digital dessa fraude por extremistas contemporâneos — fenômeno que exige hoje, mais do que nunca, um esforço de resgate filológico e crítico.


Do Arquivo ao Reich — a falsificação de Elisabeth


O golpe decisivo que vinculou Nietzsche ao nazismo não partiu de Berlim, mas de Weimar, onde sua irmã mais velha, Elisabeth Förster-Nietzsche, instalou em 1894 o Nietzsche-Archiv. Nacionalista ardorosa, antissemita confessa e viúva de um agitador que tentara fundar uma colônia “ariana” no Paraguai, Elisabeth assumiu a tutela legal do irmão logo após o colapso mental dele em 1889 e passou a gerir, sozinha, os manuscritos, cartas e cadernos deixados em desordem. Desde o início, o projeto tinha dupla face: preservar a memória familiar e refinar um Nietzsche politicamente útil à nova direita alemã. Ao mesmo tempo em que erguia a casa-museu Villa Silberblick, ela filiava-se ao Partido Nacional do Povo Alemão, um dos berços ideológicos do futuro nazismo, e cultivava relações com editores simpáticos ao pangermanismo.



IRMÀ DE NIETZSCHE
Elisabeth Förster-Nietzsche

Foi sob esse viés que Elisabeth realizou a intervenção mais profunda sobre a obra do irmão: a publicação, entre 1901 e 1906, de Der Wille zur Macht (A Vontade de Poder) como se fosse o “sistema filosófico” póstumo de Nietzsche. Na realidade, o livro não passava de uma colagem de fragmentos inéditos cujo ordenamento — títulos de seções, recortes, supressões — foi inteiramente produzido pela própria curadora, muitas vezes contraindicado pelo filósofo ainda em vida. Décadas depois, os filólogos Giorgio Colli e Mazzino Montinari, ao confrontar linha por linha os originais, demonstrariam que esse compêndio era uma construção artificial, invertendo a cronologia dos cadernos e amputando passagens em que Nietzsche atacava frontalmente o antissemitismo. A adulteração criava a impressão de um autor engajado numa filosofia da força, pronta para legitimar hierarquias biológicas e violência política — exatamente o que o nacional-socialismo buscaria alguns anos mais tarde.


Não por acaso, em 12 de abril de 1931 Adolf Hitler foi recebido com honras na Villa Silberblick. Fotografado ao lado do busto de Nietzsche, o futuro Führer empunhou a bengala do filósofo enquanto Elisabeth — então com 84 anos — lhe mostrava páginas escolhidas dos manuscritos. O registro foi reproduzido em jornais do partido e transformado em cartão-postal, selando o alinhamento simbólico entre pensamento e regime. Pouco depois, o Ministério da Propaganda encomendou novas reimpressões “oficiais” das obras, prefaciadas por intelectuais nazistas, nas quais o Super-homem aparecia como legitimação da supremacia racial germânica. Estudos recentes demonstram que o Archiv funcionou, na prática, como oficina de material propagandístico: trechos inconvenientes eram suprimidos, enquanto aforismos sobre poder, domínio e “rebanho” abasteciam folhetins ideológicos distribuídos em escolas e quartéis.


O efeito foi devastador e duradouro. Mesmo após 1945, quando o nazismo se tornou sinônimo de barbárie, a associação “Nietzsche = precursor fascista” já havia penetrado enciclopédias, colégios e até manuais de história da filosofia. Embora a edição crítica Colli-Montinari (1967-) tenha desmontado academicamente o mito, ele sobreviveu no senso comum — pronto para ser reciclado, décadas depois, por novas extremas-direitas digitais. Assim, a manipulação de Elisabeth comprovou quão longe uma distorção editorial pode ir quando encontra, primeiro, a passividade dos leitores e, depois, a vontade de poder de um regime disposto a transformar pensamento em slogan.


Memes, 4chan e Bolsonaro — o Super-homem 2.0


O século XXI abriu um novo front para a velha deturpação. Se no passado Elisabeth Förster-Nietzsche precisou manipular cadernos e editores, hoje basta um editor de imagens gratuito e um fórum anônimo para ressuscitar o “Nietzsche nazista”. O processo ganhou força em 4chan — sobretudo no board /pol/ — onde a alt-right (direita alternativa) norte-americana misturou animações de sapos, filtros neon e trilhas de trap para fabricar um Super-homem hipertrofiado, musculoso, branco, que encara o mundo com desprezo cínico. Pesquisadores da Vox já em 2017 apontavam que “a alt-right está bêbada de más leituras de Nietzsche” e que figuras como Richard Spencer se diziam “red-pilled” pelo filósofo, embora o citassem fora de contexto ou inventassem frases inexistentes. O padrão tornou-se claro: recorta-se meia linha sobre “a morte de Deus” ou um epigrama contra “moral de rebanho”, cola-se sobre a foto de um guerreiro viking desenhado por IA e o meme está pronto para circular como prova de que Nietzsche estaria do lado dos supremacistas.


EXEMPLO DE MEME
Memes bolsonaristas utilizando-se da figura do Super-homem

Esse ecossistema memético ganhou nova camada em 2024, quando a rede de pesquisas GNET mapeou o uso de geradores de imagem para sofisticar a estética da extrema-direita: avatars produzidos por IA ostentam runas nórdicas, referências ao “Grande Substituição” e, claro, slogans atribuídos a Nietzsche que ele jamais escreveu. A lógica — apontam os autores do relatório — é inundar o feed com símbolos de força e fatalismo, transformando a filosofia em linguagem gráfica digerível em segundos. Nesse ambiente, a distinção entre citação autêntica e frase inventada torna-se irrelevante; o que importa é o “efeito aura”, a sensação de se apoiar em um clássico para justificar misoginia, racismo ou violência política. O resultado é um “Nietzsche fast-food”: sem leitura, sem contexto, mas com alto teor calórico de ódio.


O Brasil entrou nesse circuito por vias bolsonaristas. A partir de 2018, páginas de apoio ao então candidato Jair Bolsonaro exportaram o template americano: o Super-homem vira o “cidadão de bem armado”, contraposto ao “NPC petista”. Estudo de doutorado da UFMG sobre dessubjetivação memética mostrou que perfis conservadores replicaram, em português, montagens de 4chan acrescentando legendas como “A virtude está com os fortes — Nietzsche” para defender fechamento do Congresso ou tiros em criminosos (os posts, claro, omitem que Nietzsche chamava o Estado de “monstro frio”). Paralelamente, investigações do Conselho Nacional de Direitos Humanos registram que células neonazistas no país cresceram 270 % entre 2019 e 2024; os monitoramentos identificaram grupos de Telegram onde trechos falsos de Nietzsche são usados para legitimar supremacismo branco e antissemitismo. Nesse ambiente, referências ao filósofo aparecem lado a lado com símbolos de SS, cruzes célticas e hashtags em defesa de “intervenção militar já”, reforçando a fusão entre culto à força e negacionismo histórico.


O fenômeno não se limita a nichos radicais: influenciadores com centenas de milhares de seguidores no YouTube e no Instagram citam supostos aforismos de Nietzsche — “os fracos devem servir aos fortes”, “pena é vício dos derrotados” — para vender cursos de masculinidade “alfa” ou comentar política nacional. Em editorial de 2018, a Los Angeles Times já alertava que a direita radical não está sozinha nessa apropriação simplista, mas certamente a dirige ao público mais vulnerável à retórica do ressentimento. No Brasil, o algoritmo das plataformas impulsiona esse conteúdo: quanto mais polêmica a frase, maior o engajamento; quanto mais engajamento, maior a difusão da distorção. Assim nasce o Super-homem 2.0 — um produto pop de consumo rápido, vitaminado por IA, traduzido em likes e compartilhamentos, que vende falsa erudição a serviço da intolerância. Desmontar esse ciclo exige devolver Nietzsche ao texto — e lembrar, como ressalta a ABC News australiana, que ele era crítico feroz de qualquer “política de sangue e ferro”. Até lá, a batalha seguirá não apenas nas bibliotecas, mas nas timelines onde o pensamento vira sticker em poucos pixels.


Leituras críticas e o retorno ao texto


O primeiro grande antídoto contra a fraude nazista surgiu nos anos 1960, quando Giorgio Colli e Mazzino Montinari decidiram reexaminar, folha a folha, os 5 000 manuscritos de Nietzsche guardados no Goethe-Schiller-Archiv, em Weimar. Eles descobriram não apenas cortes, inversões cronológicas e enxertos feitos por Elisabeth, mas também que o livro A Vontade de Poder — vendido por décadas como “testamento filosófico” — jamais existira no plano do autor. O resultado foi a Edição Crítica Colli–Montinari, publicada em italiano, francês, alemão e, desde 2023, em inglês pela Stanford University Press — “a primeira tradução completa, anotada e verificada a partir dos originais”, como sublinha a própria editora . Ao desmontar a montagem póstuma, Colli e Montinari recolocaram o Super-homem no seu leito de origem: não um soldado racial, mas a metáfora de uma humanidade que cria valores depois da “morte de Deus”.


PINTURA CARICATURA DE NIETZSCHE
Friedrich Nietzsche. Edvard Munch, 1906

Cinco décadas depois, o movimento filológico ganhou musculatura digital. O portal Nietzsche Source, coordenado pelo pesquisador italiano Paolo D’Iorio, disponibiliza online mais de 8 000 fac-símiles de cadernos, cartas e raridades, além de um aparato crítico comparável às edições impressas. Ali, qualquer leitor pode confrontar a frase duvidosa que viu num meme com a caligrafia original do filósofo em poucos cliques. A iniciativa conecta-se a projetos como “Nietzsche’s Library”, que digitaliza todos os livros anotados pelo autor, e a revistas acadêmicas em open access — a Nietzsche-Studien, por exemplo, migrou para acesso gratuito em 2022, difundindo pesquisas sem barreira de paywall (muro de pagamento). O efeito combinado é poderoso: pela primeira vez, o público leigo dispõe de ferramentas para verificar, em tempo real, se a suposta citação sobre “exterminar os fracos” existe ou é produto de má-fé.


Enquanto a filologia limpa a base textual, novas interpretações devolvem vitalidade filosófica ao Super-homem. No Brasil, o professor Oswaldo Giacoia Jr. — referência nacional em Nietzsche — insiste, em cursos e entrevistas, que o “super-homem” não é dono de escravos, mas artista de si: alguém que transforma a vida em obra inacabada, aberta ao devir. Na África, Achille Mbembe emprega a crítica nietzschiana ao ressentimento para compreender a violência colonial e imaginar “devenires” pós-hegemônicos Pesquisadoras feministas e queer, como Judith Butler, dialogam com a performatividade nietzschiana para pensar os corpos como palcos de criação de sentido; artigos recentes em New Nietzsche Studies mostram o quanto essa leitura desmonta pretensões essencialistas de gênero. Ao cruzarem Nietzsche com decolonialidade, estudos de raça e teoria de gênero, esses autores demonstram que o filósofo pode servir à emancipação — exatamente o oposto da narrativa supremacista que o reduz a porta-voz da brutalidade.


Por fim, cresce uma camada de extensão pública que envolve clubes de leitura, podcasts, canais de YouTube e perfis de TikTok dedicados a verificar “Nietzsche ou fake?”. Livrarias independentes promovem noites de leitura de aforismos com cotejo ao Nietzsche Source; o projeto “Café com Nietzsche”, por exemplo, transmite debates ao vivo para milhares de usuários de 18 a 60 anos, repassando passo a passo como checar um fragmento antes de repostá-lo. Essas iniciativas convergem com a cultura de fact-checking: coletivos de educação midiática já incluem “teste do fac-símile” entre as oficinas para o ensino médio, mostrando que a filosofia também precisa de letramento informacional. Ao mesmo tempo, a chegada das novas traduções críticas ao mercado de língua portuguesa promete reduzir a dependência de compilações duvidosas, oferecendo texto limpo, notas contextuais e índices que facilitam a navegação intergeracional.


Nesse cruzamento de filologia, humanidades digitais e engajamento público, o Super-homem recupera seu sentido original de “além-do-homem” — um convite a superar ressentimentos e criar futuros, não a regressar a hierarquias fósseis. E, quanto mais leitores tiverem acesso ao manuscrito tal como Nietzsche o escreveu, menor será o espaço para que a extrema-direita continue ventriloquizando o filósofo que, ironicamente, chamou o nacionalismo de “doença infantil dos povos modernos”.


Conclusão


A saga do super-homem que nunca foi nazista revela a facilidade com que a política sequestra conceitos filosóficos para vestir velhas certezas com roupa de ideia nova. Do arquivo manipulado por uma irmã ambiciosa aos laboratórios de memes da alt-right, o Super-homem virou logotipo ideológico — enquanto o Nietzsche real segue conclamando à criação de valores sempre provisórios, avessos a toda tirania.

Resgatá-lo não é apenas um exercício de justiça histórica; é defesa do pensamento crítico num tempo de slogans virais. Como o próprio Nietzsche avisou, “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. Entender quem deturpa essas palavras — e por quê — é o primeiro passo para que elas voltem a significar exatamente o que ele pretendia: liberdade diante de todas as servidões, inclusive as que falam em seu nome.

FONTES:

  1. ABC NEWS AUSTRALIA. Philosophy professor explains why Nietzsche would hate being a fascist icon. Sydney, 13 abr. 2020. Disponível em: https://www.abc.net.au/news/2020-04-13/nietzsche-fascist-icon-explainer. Acesso em: 5 jul. 2025.

  2. BALL, Philip. Serving the Reich: The Struggle for the Soul of Physics under Hitler. London: Vintage, 2014.

  3. BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge, 1990.

  4. COLLI, Giorgio; MONTINARI, Mazzino (eds.). Nietzsche Werke: Kritische Gesamtausgabe. Berlin: De Gruyter, 1967-. (Edição crítica em andamento.)

  5. CONSELHO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS (Brasil). Relatório sobre Grupos de Extrema-Direita e Neonazismo no Brasil (2019-2024). Brasília, 2024.

  6. D’IORIO, Paolo (coord.). Nietzsche Source. Disponível em: https://www.nietzschesource.org. Acesso em: 5 jul. 2025.

  7. GNET – GLOBAL NETWORK ON EXTREMISM AND TECHNOLOGY. AI-Generated Propaganda and the Extreme Right. Londres, mar. 2024. Disponível em: https://gnet-research.org/2024/03/ai-generated-propaganda-extreme-right. Acesso em: 5 jul. 2025.

  8. GIACOIA JR., Oswaldo. Nietzsche, Super-Homem e Ética da Autossuperação. São Paulo: UNESP, 2020.

  9. ILLING, Sean. Why the Alt-Right keeps getting Nietzsche wrong. Vox, 11 maio 2017. Disponível em: https://www.vox.com/2017/5/11/alt-right-nietzsche-interpretation. Acesso em: 5 jul. 2025.

  10. LOS ANGELES TIMES (Editorial Board). Opinion: Stop misquoting Nietzsche to justify hate. Los Angeles Times, 7 jun. 2018. Disponível em: https://www.latimes.com/opinion/story/2018-06-07/misquoting-nietzsche. Acesso em: 5 jul. 2025.

  11. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 Edições, 2018.

  12. SILVA, João Henrique da. Dessubjetivação Memética: a disputa pelo sentido político nas redes brasileiras 2018-2022. 2024. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2024.

  13. SOUTHERN POVERTY LAW CENTER. Hate on Display: Explaining Extremist Symbols and Ideologies. Montgomery, 2022. Disponível em: https://www.splcenter.org/hate-symbols. Acesso em: 5 jul. 2025.

  14. STANFORD UNIVERSITY PRESS (org.). The Complete Works of Friedrich Nietzsche. Tradução de Adrian Del Caro et al. Stanford: SUP, 2023-.

  15. WIRED. ZUCKERMAN, Ethan. How Memes Led the Alt-Right from 4chan to the White House. Wired, 30 set. 2019. Disponível em: https://www.wired.com/story/memes-alt-right-white-house/. Acesso em: 5 jul. 2025.

bottom of page