- Raul Silva

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Espaço de 13 metros em Vanguard Cave foi descoberto em 2021; achados incluem ossos de animais e uma concha marinha levada para o interior da caverna, mas não provam que o local tenha sido o último abrigo da espécie
Por Clara Mendes para O estopim |
14 de Agosto de 2026

Arqueólogos do Gibraltar National Museum abriram passagem, em 2021, para uma câmara de cerca de 13 metros no fundo de Vanguard Cave, uma das cavernas do complexo de Gorham, em Gibraltar. O espaço havia permanecido isolado por sedimentos por pelo menos 40 mil anos. A descoberta voltou a circular em 2026 como se fosse recente, mas o anúncio oficial foi publicado em 24 de setembro de 2021.
A equipe procurava desde 2012 passagens e cavidades bloqueadas pelo acúmulo de areia no interior de Vanguard. Nove anos depois, os pesquisadores localizaram uma abertura no sedimento, ampliaram o acesso e chegaram ao espaço até então isolado.
Na superfície da câmara, os arqueólogos encontraram restos de lince, hiena-malhada e grifo, além de marcas de garras nas paredes e indícios de antigos terremotos. Segundo o relato dos pesquisadores à época, os ossos não apresentavam cortes ou outras marcas que permitissem atribuir sua presença diretamente à atividade humana.
Um objeto, porém, chamou atenção especial: uma grande concha marinha. O material foi encontrado numa parte elevada da caverna e distante da costa. Clive Finlayson, que liderava a equipe, afirmou que a localização indica que a concha precisou ser transportada para aquele ponto. O achado abre a possibilidade de presença humana na câmara antes de seu fechamento, mas não demonstra que o local tenha sido ocupado permanentemente por neandertais.
A distinção é importante porque Vanguard Cave está inserida num dos principais sítios arqueológicos associados aos neandertais. O Complexo de Cavernas de Gorham foi inscrito pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2016 e conserva evidências de ocupação humana ao longo de mais de 120 mil anos. O Gibraltar National Museum estima que neandertais utilizaram a área durante aproximadamente 100 mil anos.
Escavações em diferentes pontos do complexo já revelaram fogueiras, ferramentas de pedra e restos de animais explorados por neandertais, incluindo cervos, íbex, focas e golfinhos. Essas descobertas ajudaram pesquisadores a reconstruir uma população que utilizava recursos terrestres e marinhos e ocupava uma paisagem costeira muito diferente da atual.
Gibraltar pode ter sido um dos últimos refúgios
A localização no extremo sul da Península Ibérica transformou Gibraltar em peça central na discussão sobre os últimos grupos neandertais da Europa. Estudos anteriores chegaram a propor sobrevivência muito tardia na região, com base em datações de materiais encontrados em Gorham’s Cave.
Essa cronologia, no entanto, é objeto de debate científico. Pesquisas que aplicaram métodos mais rigorosos de datação questionaram evidências de sobrevivência tão recente no sul da Península Ibérica. Um amplo estudo publicado na revista Nature estimou que as indústrias musterianas associadas aos neandertais desapareceram da Europa entre aproximadamente 41 mil e 39 mil anos atrás, com variações regionais.
Por isso, afirmar que a câmara encontrada em Vanguard foi o “derradeiro refúgio dos neandertais no planeta” vai além do que as evidências demonstram atualmente. Gibraltar permanece como um dos locais mais importantes para investigar as populações finais da espécie, mas a câmara de 13 metros ainda não forneceu prova de que tenha abrigado os últimos indivíduos neandertais.
Vanguard Cave continua revelando tecnologia neandertal
A importância arqueológica da caverna não terminou com a descoberta da câmara. Em novembro de 2024, pesquisadores anunciaram evidências de uma estrutura construída em Vanguard Cave cerca de 60 mil anos atrás para produzir alcatrão vegetal.
Segundo o estudo, a estrutura permitia aquecer material vegetal com pouco oxigênio para extrair uma substância adesiva. Os neandertais poderiam usar esse alcatrão para fixar pontas de pedra em hastes de madeira. A pesquisa envolveu 31 cientistas de seis países e mais de 15 disciplinas.
O achado de 2024 é independente da câmara anunciada três anos antes, mas reforça o valor de Vanguard Cave como registro preservado da vida neandertal. O avanço rápido de dunas antigas ajudou a selar sedimentos e conservar vestígios de atividades realizadas há dezenas de milhares de anos.
A câmara encontrada em 2021 permanece relevante justamente porque passou dezenas de milhares de anos protegida de interferências recentes. Novas escavações podem revelar vestígios humanos mais conclusivos. Até agora, porém, os dados disponíveis sustentam uma formulação mais precisa: Gibraltar pode ter servido como um dos últimos refúgios dos neandertais na Europa, mas não há prova de que aquela câmara específica tenha sido o último abrigo da espécie no planeta.
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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista de O estopim, com atuação voltada à cobertura factual, verificação de informações e notícias de interesse público.
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