top of page

Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem direcionaram emendas para projetos da Academia Nacional de Cultura, presidida por Karina Gama, empresária que controla a produtora da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos do STF, da Polícia Federal e da CGU reconstroem uma teia de relações políticas, empresariais e financeiras em torno das entidades ligadas à empresária.


Por Raul Silva para O estopim |

13 de setembro de 2026


Quatro nomes do PL, R$ 3,6 milhões e a produtora de Dark Horse: documentos expõem o mesmo núcleo
Quatro nomes do PL, R$ 3,6 milhões e a produtora de Dark Horse: documentos expõem o mesmo núcleo | Foto: Reprodução

A investigação sobre o ecossistema de entidades e empresas comandado por Karina Ferreira da Gama abriu uma frente que ultrapassa a discussão sobre a origem dos recursos empregados na produção de Dark Horse. Documentos do Supremo Tribunal Federal, relatórios da Controladoria-Geral da União e peças incorporadas ao inquérito policial mostram que quatro parlamentares do PL, Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, direcionaram emendas para projetos que tinham como beneficiária a Academia Nacional de Cultura, a ANC, presidida pela mesma empresária que controla a Go Up Entertainment, responsável pela cinebiografia de Jair Bolsonaro.


Os documentos também mostram que os quatro nomes aparecem em diferentes etapas da apuração e por caminhos administrativos distintos.


Na PET 16.669, que concentra a etapa mais recente da investigação sob relatoria do ministro Flávio Dino, Bia Kicis e Marcos Pollon aparecem nominalmente na descrição da chamada “plataforma indiciária”.


A decisão reproduz a informação de que o inquérito instaurado pela Polícia Federal tinha entre seus objetos as emendas nº 202444200010, de Pollon, e nº 202439190003, de Kicis, além de duas emendas apresentadas por Mário Frias.


Na página 5, o documento identifica também os valores e o projeto escolhido pelos parlamentares. Marcos Pollon destinou R$ 1 milhão e Bia Kicis, R$ 150 mil, por intermédio do Governo de São Paulo, para o projeto Heróis Nacionais.


O documento registra:


“não tendo havido, até a presente data, repasse de qualquer valor a essa entidade, em razão de óbices normativos e técnicos”

A entidade mencionada é a Academia Nacional de Cultura.


Na sequência, a Polícia Federal destaca outro elemento da operação das emendas. Pollon foi eleito por Mato Grosso do Sul e Kicis pelo Distrito Federal, enquanto as duas indicações foram direcionadas para São Paulo.


Segundo a representação reproduzida pelo STF, a situação “revela aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa”.


A ANC, o Instituto Conhecer Brasil e a Go Up aparecem na mesma investigação dark horse


A PET 16.669 detalha a estrutura empresarial e institucional analisada pelos investigadores.

Na página 17, a Academia Nacional de Cultura é descrita como organização presidida por Karina Gama e beneficiária das emendas apresentadas por Pollon e Kicis.


O documento registra que essas emendas “não tiveram execução financeira” e acrescenta uma informação central para compreender por que a Polícia Federal passou a examinar diferentes pessoas jurídicas em conjunto.


Segundo a decisão, a ANC:


“Compartilha integrantes, procuradores e administradores com o Instituto Conhecer Brasil, integrando a mesma estrutura de gestão e execução dos projetos financiados com recursos públicos.”

Logo depois, a documentação começa a descrever a Go Up Entertainment.


Na página seguinte, a empresa aparece vinculada diretamente a Karina Gama e é identificada de maneira explícita como “Produtora do filme Dark Horse”.


A representação policial também sustenta que a Go Up recebeu recursos de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, circunstância apontada pelos investigadores como indicativo de “possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares”.


A documentação policial estabelece, portanto, a ponte que passou a ser rastreada entre as entidades escolhidas para executar projetos financiados com recursos públicos e a empresa responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.


No caso específico das emendas de Pollon e Kicis, os autos registram que os valores não foram transferidos à ANC.


O dinheiro chegou ao Governo de São Paulo, mas a contratação da ANC não avançou


A sequência documental ajuda a compreender a diferença entre cifras e informações que apareceram em diferentes momentos da investigação.


Peças mais antigas incorporadas ao inquérito paulista reproduzem reportagem segundo a qual a ANC “já havia recebido R$ 2,6 milhões em emendas Pix” apresentadas por Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollon para a série Heróis Nacionais.


O trecho foi incorporado ao Inquérito Policial nº 2104062-06.2026.900842 e cita nominalmente os quatro parlamentares.


A documentação oficial produzida posteriormente detalhou o caminho administrativo desses recursos.


A PET 16.669 registra a inexistência de repasse das emendas de Pollon e Kicis à Academia Nacional de Cultura. A auditoria da CGU, divulgada em setembro, mostra que as verbas foram transferidas para o Governo de São Paulo, mas que a contratação da ANC não chegou a ser concluída.


O governo paulista informou a existência de “impedimentos técnico-jurídicos” e abandonou a execução dos projetos.


Assim, as emendas foram destinadas a projetos que tinham a ANC como entidade executora, os recursos chegaram ao Estado de São Paulo e a parceria não se concretizou.


Zambelli e Ramagem aparecem em outra camada da documentação


Carla Zambelli e Alexandre Ramagem aparecem em uma trajetória documental diferente daquela registrada para Kicis e Pollon na PET 16.669.


Os dois já surgiam em março na ADPF 854, quando Flávio Dino reproduziu uma representação apresentada pela deputada Tabata Amaral.


A peça mencionava aproximadamente R$ 2,6 milhões em emendas Pix destinadas à ANC por Ramagem, Zambelli, Kicis e Pollon.


O documento afirmava que a concentração das indicações na mesma organização evidenciava uma “convergência de interesses que demanda análise cautelosa”.


Naquele despacho, Dino determinou a intimação nominal de Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon, além da Câmara dos Deputados. Ramagem e Zambelli apareciam no histórico das emendas citado na documentação.


Meses depois, a posição dos dois ganhou uma dimensão documental mais ampla. Em relatório produzido em julho e encaminhado ao ministro Flávio Dino, a Controladoria-Geral da União identificou seis repasses de emendas de cinco deputados para entidades vinculadas a Karina Gama.


No recorte específico da Academia Nacional de Cultura, o órgão consolidou aproximadamente R$ 3,6 milhões provenientes de quatro parlamentares, destinados a dois projetos: Heróis Nacionais: Filhos do Brasil que não se rende e o espetáculo musical Amor Ainda É Tudo.


Segundo a auditoria, Carla Zambelli respondeu por R$ 2 milhões e Alexandre Ramagem por R$ 500 mil.


O restante correspondia às indicações de Marcos Pollon e Bia Kicis. Também nesses casos, os recursos foram encaminhados ao Governo de São Paulo e a parceria com a ANC não foi concluída.


A CGU classificou os planos de trabalho como insuficientemente elaborados, enquanto o governo estadual apontou obstáculos técnico-jurídicos para a execução.


Os números diferentes presentes nos documentos correspondem a recortes distintos. Os R$ 2,6 milhões divulgados inicialmente estavam associados ao conjunto de indicações para Heróis Nacionais. A auditoria posterior da CGU ampliou o universo analisado, reuniu dois projetos vinculados à ANC e chegou ao montante aproximado de R$ 3,6 milhões.


Quatro gabinetes e uma mesma entidade


É nesse ponto que a investigação passa da análise individual das emendas para uma questão política mais ampla.


Em um intervalo próximo, quatro parlamentares do mesmo campo político escolheram a mesma organização presidida por Karina Gama para projetos culturais que somavam milhões de reais.


Ao mesmo tempo, outra empresa controlada pela empresária produzia Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.


Dentro dos autos, a Academia Nacional de Cultura não aparece isoladamente. A Polícia Federal situa a ANC em uma estrutura de gestão compartilhada com o Instituto Conhecer Brasil, ICB.


A Go Up Entertainment também aparece vinculada a Karina Gama e é descrita na representação como empresa com possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares.


A própria PET registra que a investigação federal passou a aprofundar vínculos societários, doações eleitorais e relações entre fornecedores, empresas e personagens políticos.


A pergunta que emerge dos documentos é direta: como quatro gabinetes chegaram à mesma entidade?


Quem apresentou a Academia Nacional de Cultura aos parlamentares? Quem encaminhou o projeto Heróis Nacionais? Quem solicitou as emendas? Quais reuniões ocorreram antes das indicações? Houve uma apresentação comum do projeto aos gabinetes?


Essas perguntas passaram a ocupar o centro da apuração porque a convergência não envolve apenas parlamentares de um mesmo partido. Ela ocorre em torno de uma organização comandada por uma empresária que também controla a produtora responsável por uma obra cinematográfica sobre a principal liderança política desse mesmo campo.


A relação de Mário Frias com Karina Gama


A documentação também registra uma relação mais extensa entre Mário Frias e Karina Gama.


Karina participou da campanha de Frias. Empresa ligada à empresária prestou serviços eleitorais ao parlamentar e entidades sob seu comando receberam emendas apresentadas por ele.


Essa conexão aparece de maneira detalhada nos autos e integra a frente de apuração sobre vínculos societários, eleitorais, empresariais e políticos relacionados às entidades investigadas.


O avanço sobre comunicações, documentos eletrônicos, registros de reuniões e materiais apreendidos pela Polícia Federal pode determinar se as indicações feitas por diferentes gabinetes resultaram de decisões independentes ou de algum mecanismo comum de apresentação e captação de recursos. É essa resposta que pode definir a dimensão política do caso.


O que dizem os citados


Marcos Pollon afirma que sua emenda era destinada exclusivamente ao projeto Heróis Nacionais e que, diante da impossibilidade de execução, solicitou o cancelamento e o redirecionamento do valor para uma instituição oncológica.


Bia Kicis nega relação entre sua emenda e a produção de Dark Horse e afirma que o recurso tinha como destino o projeto cultural.


Reportagem do UOL também registra que Kicis, Pollon e Zambelli negaram ao STF irregularidades ou intenção de direcionar os recursos para o filme.


Karina Gama nega que dinheiro proveniente de emendas parlamentares tenha financiado Dark Horse.


Em entrevista divulgada neste domingo, 13 de setembro, afirmou que a produção cinematográfica não recebeu recursos públicos.


O que já está documentado é a convergência: quatro nomes do PL direcionaram emendas para projetos ligados à Academia Nacional de Cultura, presidida pela mesma empresária que controla a produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.


O próximo capítulo depende de uma pergunta que vai além dos valores individuais de cada emenda: quem construiu a ponte entre esses gabinetes e a ANC?


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_

Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim e especialista em Ciências Políticas. Atua na cobertura do poder, das instituições brasileiras, das relações entre política e sociedade e dos mecanismos de financiamento e articulação que atravessam o Estado.

bottom of page