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Presidente volta ao estádio das greves de 1979 e 1980 para abrir a reeleição e transformar memória sindical em mensagem para o Brasil de 2026.


Por Raul Silva para O estopim |

Cobertura das Eleições 2026

16 de agosto de 2026

Lula inicia campanha de 2026 na Vila Euclides
Lula voltou à Vila Euclides para abrir a campanha de 2026. O local explica sua origem política, mas também revela o desafio de falar ao novo mundo do trabalho. | Foto: Adriano Machado/REUTERS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, abriu oficialmente neste domingo, 16 de agosto, sua campanha de Lula 2026 à reeleição no Estádio Municipal 1º de Maio, a histórica Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. No primeiro dia em que a legislação eleitoral permite propaganda, comícios e atos públicos de campanha, Lula retornou ao cenário das grandes assembleias metalúrgicas que o projetaram nacionalmente no fim da década de 1970. A escolha do local condensou a principal mensagem da largada: apresentar a candidatura a um quarto mandato como continuidade de uma história iniciada entre trabalhadores e, ao mesmo tempo, tentar transportar essa memória para um Brasil em que o mundo do trabalho mudou profundamente.


O ato foi construído em torno de duas expressões. A campanha apresentou o slogan “O Brasil pronto para mais”, enquanto a mobilização em São Bernardo adotou o lema “Onde tudo começou”. No palco, Lula esteve acompanhado do candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, do candidato ao Governo de São Paulo Fernando Haddad, da primeira-dama Janja da Silva e de dirigentes e candidatos aliados.


A referência ao começo não é apenas biográfica. Ela remete a um período em que as greves do ABC desafiaram simultaneamente grandes empresas, a estrutura sindical controlada pelo Estado e a ditadura militar.


O estádio em que Lula deixou de ser apenas um dirigente sindical


Em 1979, Lula tinha 33 anos e presidia o sindicato dos metalúrgicos da região quando dezenas de milhares de trabalhadores passaram a ocupar a Vila Euclides para decidir os rumos das paralisações. A Reuters registra que, em uma daquelas assembleias, Lula subiu em uma mesa e falou, sem sistema de som, para cerca de 60 mil grevistas. O estádio também voltou a receber grandes concentrações durante as paralisações de 1980.


As greves extrapolaram a disputa por salários. Ao desafiar as restrições impostas pelo regime militar, o movimento operário do ABC tornou-se um dos focos de reorganização da sociedade civil no período final da ditadura. Historiadores, testemunhas e pesquisadores associam aquelas mobilizações à pressão social que acompanhou o processo de redemocratização. Foi também nesse ambiente que Lula deixou de ser uma liderança essencialmente sindical para se transformar em personagem nacional.


Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Décadas depois, seria eleito presidente em 2002, reeleito em 2006 e voltaria ao Palácio do Planalto após vencer a eleição de 2022. Agora, aos 80 anos, tenta conquistar um quarto mandato não consecutivo.

É essa sequência histórica que a campanha procura comprimir na imagem de um homem que retorna ao mesmo estádio em que começou a falar para multidões.


A campanha transformou memória em cenário político


A produção do evento reforçou deliberadamente a conexão entre 1979 e 2026. Telões exibiram imagens e depoimentos de antigos companheiros das greves. Em uma peça audiovisual, o Lula atual dialogou simbolicamente com o Lula jovem, cercado pela incerteza das mobilizações operárias.


Ao falar ao público, o presidente disse que a emoção de retornar à Vila Euclides era ainda mais forte do que a que havia sentido em 1979. O discurso também recuperou a história de sua mãe, Dona Lindu, trabalhadores que participaram da formação do PT e personagens ligados às lutas democráticas.


A estratégia é clara. A campanha procura reconstruir a imagem de Lula não apenas como presidente que busca permanecer no cargo, mas como personagem cuja trajetória antecede a própria existência do PT e atravessa quase cinco décadas da política brasileira.


A escolha também oferece uma resposta indireta a um problema recorrente de candidatos que já ocuparam o poder por longos períodos: como disputar novamente sem parecer apenas repetição do passado. A campanha tentou resolver essa tensão fazendo do passado sua credencial para falar de futuro.


Trabalho continua no centro, mas o trabalhador mudou


É justamente nesse ponto que a Vila Euclides deixa de ser apenas um cenário confortável para Lula.


O universo profissional que deu origem ao lulismo não existe mais na mesma forma. O Brasil industrializado por grandes fábricas, sindicatos robustos e empregos concentrados em linhas de produção convive hoje com uma economia marcada por terceirização, informalidade, trabalho por aplicativos e vínculos mais fragmentados.


Segundo dados reunidos pela Reuters, a taxa de sindicalização no país caiu de 15,7% em 2014 para 8,9% em 2024. A reportagem também registra uma estimativa de 2,1 milhões de brasileiros trabalhando por plataformas digitais, segmento que cresceu fortemente ao longo da última década.


Esse talvez seja o principal significado político do retorno à Vila Euclides.


A campanha não precisa apenas lembrar por que Lula se tornou uma liderança dos trabalhadores. Precisa demonstrar que o discurso construído em uma fábrica do século 20 pode dialogar com entregadores, motoristas de aplicativo, trabalhadores autônomos, jovens sem vínculo sindical e pessoas cuja relação com patrão, jornada e proteção social é completamente diferente daquela vivida pelos metalúrgicos de 1979.


O PT tem defendido redução da jornada de trabalho e novas formas de proteção para trabalhadores de aplicativos, mas enfrenta resistência de empresas e desconfiança de parte dos próprios profissionais. A Reuters descreve essa transformação como um dos desafios centrais da legenda para 2026.


Voltar ao ABC também significa voltar a um território perdido


Há ainda outra contradição. São Bernardo do Campo é o berço político de Lula e um dos locais mais associados à história do PT, mas o partido já não exerce na região a hegemonia que teve em outros períodos.


Na eleição municipal de 2024, o candidato petista à Prefeitura de São Bernardo terminou em terceiro lugar. Entre as sete cidades tradicionalmente consideradas parte do ABC, o PT venceu apenas em Mauá.


Isso transforma a escolha do estádio em algo mais complexo do que uma visita a um reduto garantido.


A volta é também uma tentativa de reconquista. A Vila Euclides representa o lugar em que a esquerda sindical brasileira construiu uma de suas bases mais fortes, mas está inserida hoje em uma região politicamente mais disputada, socialmente transformada e menos dependente da indústria pesada que moldou a identidade do ABC no século passado.


Nesse sentido, “Onde tudo começou” pode ser lido de duas maneiras. É uma celebração da origem, mas também um reconhecimento de que essa origem precisa ser reconstruída politicamente.


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Mulheres, soberania e segurança entraram no discurso


Embora a memória sindical tenha dominado a montagem do ato, Lula tentou ampliar os destinatários da mensagem.


O presidente fez acenos às mulheres e defendeu igualdade entre homens e mulheres. A primeira-dama Janja da Silva teve papel destacado no evento e homenageou Marisa Letícia, ex-esposa de Lula e personagem histórica da formação do PT.


Lula também voltou a tratar da criação de um Ministério da Segurança Pública, condicionando a medida ao avanço da PEC da Segurança no Congresso, e relacionou a disputa eleitoral à defesa da soberania nacional.


No campo internacional, afirmou que riquezas minerais brasileiras devem ser exploradas em benefício do próprio país e voltou a rejeitar interferência estrangeira no processo eleitoral. O tema ganhou espaço em meio às tensões recentes entre os governos brasileiro e norte-americano.


O conjunto mostra uma tentativa de ampliar a campanha para além da identidade trabalhista tradicional. Trabalho continua como elemento fundador, mas mulheres, segurança, soberania, juventude e defesa da democracia aparecem como eixos necessários para montar uma maioria eleitoral mais ampla.


Uma lembrança de Lula sobre 2019 exige contexto


Durante o discurso, Lula comparou a prisão sofrida em 1980, durante a ditadura, com o período em que esteve preso em Curitiba, em 2019.


Ele lembrou que, quando sua mãe morreu em 1980, recebeu autorização do então delegado Romeu Tuma para deixar a prisão e acompanhar a despedida. Ao falar sobre a morte do irmão Vavá, em janeiro de 2019, Lula afirmou que Dias Toffoli não permitiu que ele fosse ao enterro.


O registro histórico exige uma ressalva. O pedido foi inicialmente negado pela juíza Carolina Lebbos e, posteriormente, no TRF-4. Dias Toffoli, então presidente do Supremo Tribunal Federal, acabou autorizando Lula a sair para encontrar familiares em uma unidade militar, mas a decisão foi divulgada quando o sepultamento já estava ocorrendo ou havia sido concluído. Lula então não realizou a viagem. Portanto, a lembrança apresentada no comício simplificou uma sequência processual mais complexa.


A distinção importa porque um ato de campanha trabalha com memória política, mas jornalismo precisa separar memória, interpretação e registro documental.


O significado de começar onde tudo começou


A escolha da Vila Euclides produziu pelo menos três mensagens políticas. A primeira foi identitária. Lula procurou lembrar ao eleitor que sua biografia política nasceu fora das estruturas tradicionais de poder, entre trabalhadores que reivindicavam salários e liberdade de organização.


A segunda foi democrática. Ao retornar ao palco de mobilizações ocorridas durante a ditadura, a campanha tenta associar a trajetória do candidato à resistência democrática e usar essa memória como contraponto ao campo político que enfrenta em 2026.


A terceira é geracional. O Lula de 2026 precisa convencer pessoas que não eram nascidas quando aconteceram as greves do ABC. O evento tentou transformar fotografias, vídeos, relatos e personagens daquela época em uma narrativa compreensível para eleitores mais jovens.


Mas a força simbólica da Vila Euclides não resolve automaticamente o problema eleitoral.

O lugar em que tudo começou pertence a outro tempo econômico. A pergunta que a campanha terá de responder até outubro é se a identidade política criada ali ainda consegue representar trabalhadores que já não se reconhecem no chão de fábrica, no sindicato ou na experiência industrial que produziu Lula.


É justamente essa tensão que torna a escolha do local relevante. Não foi apenas um retorno ao passado. Foi a decisão de colocar o passado à prova.


A disputa começou em dois territórios simbólicos


Enquanto Lula abriu a campanha no ABC paulista, seu principal adversário do campo da direita, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, iniciou a própria campanha em Copacabana, no Rio de Janeiro, outro território carregado de simbolismo político recente. A largada simultânea mostrou duas campanhas tentando ocupar geografias associadas às suas respectivas bases.


Flávio concentrou sua mensagem em segurança, críticas à esquerda e defesa do legado político do pai, Jair Bolsonaro. Lula procurou organizar a largada em torno de trabalho, democracia, políticas sociais, soberania e continuidade de governo.


A campanha presidencial começa, portanto, como uma disputa não apenas entre candidatos, mas entre memórias políticas distintas e maneiras diferentes de interpretar o país.


O que acontece agora?


A propaganda eleitoral está legalmente autorizada desde este domingo, 16 de agosto. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa em 28 de agosto e segue até 1º de outubro.


Lula informou que apresentará seu programa de governo nos próximos dias. A campanha deverá detalhar propostas para trabalho, segurança, políticas para mulheres e outras áreas que apareceram inicialmente no lançamento.


O primeiro turno das eleições será realizado em 4 de outubro de 2026. Caso nenhum candidato obtenha mais da metade dos votos válidos, o segundo turno para presidente ocorrerá em 25 de outubro.


Até lá, o teste político da mensagem lançada em São Bernardo será saber se “onde tudo começou” consegue deixar de ser apenas lembrança e se transformar em argumento eleitoral para o Brasil de 2026.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder público, cultura e direitos, com foco em contexto, checagem e interesse público.


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Categoria principal: Eleições 2026

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Fontes externas confiáveis: Tribunal Superior Eleitoral ; Reuters ; Associated Press .

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Pauta derivada: “Do metalúrgico ao entregador de aplicativo: como mudou o trabalhador que Lula tenta representar em 2026”.

Deputada estadual leva ao Sertão do Moxotó um discurso de unidade, mobilização de base e enfrentamento à extrema direita durante encontro da Frente Ampla em apoio ao presidente


Por Raul Silva para O estopim | 2 de maio de 2026



Mulher com flor vermelha no cabelo fala ao microfone em uma reunião. Fundo com bandeira colorida e números 13 visíveis. Ambiente sério.
Deputada Dani Portela (PT-PE) durante encontro da Frente Ampla em Arcoverde em apoio a pré-candidatura do presidente Lula | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O estopim da fala da deputada estadual Dani Portela (PT) em Arcoverde foi a tentativa do campo progressista de transformar apoio eleitoral em organização territorial. Em vídeo analisado por O estopim, a parlamentar aparece durante o Encontro da Frente Ampla em Arcoverde, no Sertão do Moxotó, defendendo a construção de uma base popular em torno da pré-candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.


A intervenção de Dani não foi apenas uma saudação de presença. A deputada tratou a eleição de 2026 como uma disputa de projeto nacional e cobrou que a defesa de Lula saia do plano simbólico para a prática cotidiana da militância. O eixo da fala foi a necessidade de unir partidos, movimentos sociais, sindicatos, juventudes, lideranças comunitárias e parlamentares em uma frente capaz de disputar votos, narrativas e presença política no interior pernambucano.


No vídeo, a parlamentar fala de pé, microfone em mãos, diante de militantes e lideranças locais. O tom é de convocação. Dani associa a reeleição de Lula à defesa da democracia, das políticas públicas e da participação popular. A mensagem central é simples, mas politicamente densa: 2026 não será vencido apenas com memória afetiva do lulismo no Nordeste, mas com organização de base e presença nos territórios.


Arcoverde ocupa uma posição estratégica na política do interior pernambucano. Porta de entrada do Sertão do Moxotó e cidade de influência regional, o município funciona como ponto de passagem entre agendas do Agreste, do Sertão e da Região Metropolitana. Por isso, um encontro de frente ampla no município tem peso maior do que uma reunião local isolada.


A mobilização em Arcoverde já vinha sendo organizada por lideranças partidárias, movimentos sociais e militantes alinhados ao campo progressista. A iniciativa, articulada em torno da defesa da reeleição de Lula, foi apresentada como espaço de diálogo entre diferentes segmentos políticos e sociais, com participação de partidos como PT, PCdoB e PV, além de lideranças comunitárias e representantes de movimentos populares.


Grupo de pessoas em pé, sorrindo, gesticulando "L" com as mãos em uma sala com fotos na parede. Vestem roupas coloridas. Ambiente alegre.
Encontro da Frente Ampla em apoio à reeleição de Lula, representando partidos como PT, PCdoB e PV, além de líderes comunitários, todos celebrando o espaço de diálogo político. | Foto: Michael Andrade/Agência O estopim+

Esse desenho revela uma estratégia conhecida no presidencialismo brasileiro: a eleição nacional precisa de capilaridade municipal. Não basta que o candidato lidere pesquisas ou tenha recall histórico. É no município que a política se materializa em comitês, rodas de conversa, visitas a bairros, agendas em sindicatos, escuta de trabalhadores e disputa contra a desinformação.


A fala de Dani Portela se encaixa exatamente nesse diagnóstico. A deputada olha para Arcoverde como base de irradiação. Ao participar do encontro, ela ajuda a nacionalizar a pauta local e, ao mesmo tempo, sertanejar a campanha nacional. Esse movimento é decisivo porque o lulismo sempre teve no Nordeste um de seus pilares, mas enfrenta em 2026 um ambiente mais fragmentado, com redes digitais agressivas, disputa religiosa, pressão do bolsonarismo e rearranjos estaduais ainda em curso.


A presença de Dani Portela no ato também carrega um significado interno para o PT. A parlamentar chegou ao partido em 2026 após uma trajetória construída no PSOL, legenda pela qual foi candidata ao Governo de Pernambuco, vereadora do Recife e deputada estadual. Sua filiação ao PT foi abonada por Lula e apresentada pela própria deputada como uma resposta ao chamado do presidente para fortalecer o campo progressista em Pernambuco.


Dani não chega ao petismo como quadro burocrático. Sua identidade pública está ligada aos movimentos sociais, à luta antirracista, ao feminismo, à defesa da população LGBTQIAPN+, à educação pública e à advocacia popular. Essa trajetória a coloca numa posição peculiar dentro da frente lulista: ela fala para a militância tradicional, mas também para setores que muitas vezes cobram do PT mais radicalidade programática, mais presença nas periferias e maior compromisso com pautas de direitos humanos.



Em Arcoverde, essa dupla função apareceu com nitidez. A deputada defendeu Lula, mas não reduziu a fala ao personalismo. Ao insistir na organização popular, deslocou o centro da mensagem para a construção coletiva. É uma diferença relevante. Campanhas personalistas dependem da imagem do líder. Campanhas orgânicas dependem de estrutura, base, militância e pertencimento.


O encontro em Arcoverde se apresenta como Frente Ampla, mas a fala de Dani Portela aproxima o evento de uma ideia de frente popular. A diferença é política. Frente ampla é o arranjo entre forças diversas para conter um adversário comum, geralmente em nome da democracia. Frente popular pressupõe participação social mais intensa, com sindicatos, movimentos, juventudes, coletivos de mulheres, negros, trabalhadores rurais, comunidades religiosas progressistas e lideranças comunitárias.


A deputada parece apostar nessa segunda camada. Sua intervenção sugere que a unidade eleitoral precisa ser acompanhada de disputa de conteúdo. Em outras palavras, não basta reunir siglas para pedir voto em Lula. É necessário explicar o que está em jogo, defender políticas públicas, mostrar obras e programas, organizar a juventude, combater mentiras e construir um palanque que também dialogue com o cotidiano do povo.


Essa é uma leitura coerente com o momento político. O bolsonarismo demonstrou nos últimos anos que não depende apenas de partidos formais. Opera por redes de influência, templos, grupos de WhatsApp, canais digitais, associações profissionais e lideranças locais. Para enfrentá-lo, o campo progressista precisa fazer mais do que costurar cúpulas. Precisa ocupar território social.


Um homem de terno azul e chapéu branco aponta para a câmera em um ambiente interno com cortinas e móveis de madeira, com expressão séria.
Presidente Lula anunciou que Desenrola 2.0 vai ser lançado na próxima segunda-feira (4) | Crédito: Reprodução

Do ponto de vista legal, a candidatura formal de Lula ainda depende dos ritos eleitorais. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral prevê que partidos e federações realizem convenções entre julho e agosto para escolher candidatas, candidatos e coligações. Por isso, o termo correto neste momento é pré-candidatura.


Mas, no campo político, a disputa já começou. Encontros como o de Arcoverde servem para testar discursos, alinhar bases, reduzir ruídos entre partidos aliados e construir o clima de mobilização. É nesse intervalo entre a pré-campanha e a campanha oficial que se formam as redes que depois vão pedir voto nas ruas.


A fala de Dani Portela, portanto, deve ser lida como peça de uma engrenagem maior. Ela não apenas declarou apoio a Lula. Ela cobrou método. E método, em política, significa saber quem mobiliza, onde mobiliza, com qual narrativa e para qual projeto.


Pernambuco é central para Lula por razões históricas, afetivas e eleitorais. O presidente nasceu em Garanhuns, no Agreste Meridional, e sempre encontrou no estado uma base expressiva de apoio. Ainda assim, a política pernambucana de 2026 não é linear. Há disputas sobre palanques estaduais, composição para o Senado, fortalecimento da bancada federal e articulações entre PT, PSB, PCdoB, PV, PDT e outros partidos do campo governista.


Dani Portela tem defendido publicamente que o PT evite candidaturas avulsas e priorize unidade em torno do palanque de Lula. Esse ponto reaparece no sentido político da fala em Arcoverde. A deputada sabe que uma eleição presidencial apertada exige mais do que voto para presidente. Exige eleger deputados federais, senadores e governadores alinhados, porque governabilidade não se constrói apenas no Palácio do Planalto. Ela se constrói no Congresso e nas Assembleias Legislativas.


Esse é o ponto que aproxima a fala da deputada de uma leitura mais estrutural. Para o lulismo, vencer a Presidência sem maioria suficiente no Congresso significa repetir parte das dificuldades enfrentadas desde 2023: negociações custosas, pressão do Centrão, derrotas em pautas sensíveis e necessidade permanente de conter ofensivas conservadoras.


Mulher com flor no cabelo fala ao microfone. Veste preto com padrão branco. Ao fundo, bandeira colorida e ambiente claro. Emocional.
Deputada Dani Portela (PT-PE) durante encontro da Frente Ampla em Arcoverde em apoio a pré-candidatura do presidente Lula | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A força da fala de Dani Portela está menos na novidade formal e mais no recado político. Ela chamou a militância a assumir uma tarefa. A pré-candidatura de Lula, segundo o sentido de sua intervenção, não pode depender apenas de grandes lideranças, ministros, senadores ou prefeitos. Precisa de gente comum defendendo o projeto no chão da cidade.


Isso inclui juventudes que tiram título de eleitor, professoras que discutem educação, trabalhadoras que defendem renda, movimentos de moradia que cobram política urbana, sindicatos que discutem emprego, agricultores familiares que dependem de crédito, mulheres que enfrentam violência e comunidades negras que exigem presença efetiva do Estado.


Ao levar esse discurso para Arcoverde, Dani tenta ampliar o campo de escuta do PT. O partido sabe que o Nordeste é uma fortaleza eleitoral, mas uma fortaleza sem manutenção pode perder muralhas. A manutenção, neste caso, é política de base.


A fala de Dani Portela durante o Encontro da Frente Ampla em Arcoverde funciona como uma fotografia do momento progressista em Pernambuco. Há disposição de unidade, mas também há consciência de que a eleição de 2026 será dura. Há confiança no capital político de Lula, mas também há percepção de que carisma presidencial não substitui organização local.


Em termos práticos, o encontro reforça três movimentos. Primeiro, a interiorização da pré-campanha lulista. Segundo, a tentativa de transformar frente ampla em rede popular. Terceiro, a consolidação de Dani Portela como uma das vozes do PT pernambucano capazes de dialogar com movimentos sociais e militância urbana e interiorana.


No tabuleiro político, Arcoverde não é detalhe. É trincheira de articulação no Sertão. E Dani Portela, ao falar ali, deixou claro que a pré-candidatura de Lula será disputada não apenas nos palanques de capital, mas nas bases municipais onde a política ainda se decide olho no olho.


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim, especialista em Ciência Política, instituições democráticas e relações entre poder, território e sociedade no Nordeste brasileiro.


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