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Jovens defendem memes e críticas após governadora anunciar B.O.; caso reacende debate sobre liberdade política e uso institucional da polícia.


Por Raul Silva para O estopim |

Cobertura das Eleições 2026

11 de agosto de 2026



Jovens da Juventude Socialista Brasileira de Pernambuco em vídeo de resposta a Raquel
Jovens da JSB dizem que seguirão fazendo críticas, memes e sátiras após Raquel Lyra registrar B.O. por conteúdos sobre Pix. | Imagem: Vídeo/Redes Sociais

Jovens da Juventude Socialista Brasileira (JSB) em Pernambuco, ligada ao PSB, rebateram em vídeo a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) após ela anunciar que registrou um boletim de ocorrência por causa de conteúdos relacionados a Pix e afirmar que o caso seria investigado. Na resposta, o grupo defende o direito à crítica, à sátira e aos memes e retoma a acusação política de que intimidação e autoritarismo não combinam com a democracia.


Raquel afirma que sua imagem foi utilizada em conteúdos editados para simular pedidos de dinheiro e atribuiu a circulação do material a uma “ação coordenada” de adversários. A governadora registrou o B.O. no sábado, 8 de agosto. Segundo reportagem do Jornal do Commercio, um dos vídeos apresentados por Raquel havia sido compartilhado pelo perfil da JSB de Pernambuco, mas não havia indicação de que o grupo tivesse produzido ou fosse autor do conteúdo.


Essa distinção é central. Compartilhar uma publicação e produzir o material são fatos diferentes e, até o momento, não há elemento público apresentado nas fontes consultadas que permita atribuir aos jovens a autoria da peça contestada pela governadora.


Da declaração de R$ 1 ao vídeo sobre Pix


A controvérsia começou depois da divulgação dos dados patrimoniais dos candidatos às Eleições 2026. O TSE mantém pública a base de bens declarados pelas candidaturas.


No caso de Raquel Lyra, a declaração inclui R$ 1 em uma conta bancária. O dado ganhou repercussão nas redes sociais e passou a ser usado em comentários, ironias e memes.


No vídeo que antecedeu a resposta da JSB, Raquel disse ter recebido transferências em sua conta e afirmou que o episódio havia ultrapassado o limite da brincadeira. A governadora sustentou que imagens suas foram editadas para sugerir que estaria solicitando Pix e vinculou a circulação a uma ação organizada contra ela e sua campanha.

Os jovens responderam que a informação sobre os bens é pública e disseram que não pretendem interromper as críticas.


“Vamos continuar falando, cobrando, fazendo meme e zoando muito”, afirmam no vídeo enviado a O estopim.

Em outro trecho, defendem que quem ocupa cargo público precisa estar preparado para ouvir críticas. A peça também associa a atuação política da juventude a memes, sátiras e cobranças dirigidas ao poder público.


B.O. mostrado no vídeo aparece como ocorrência não criminal


Um detalhe do documento reproduzido na resposta da JSB chama atenção. A imagem do boletim de ocorrência mostra a natureza do registro como “outras ocorrências não criminais”.


A própria Delegacia pela Internet da Polícia Civil de Pernambuco mantém essa categoria separada de naturezas como ameaça, estelionato ou fraude eletrônica, falsa identidade, calúnia e difamação.


Isso não significa que fatos posteriormente apresentados não possam ser analisados pelas autoridades nem antecipa qual será a conclusão policial. Significa apenas que, no documento mostrado no vídeo, o registro inicial não aparece classificado como crime de ameaça, fraude ou outra infração penal específica.


O dado é relevante porque ajuda a separar o que efetivamente consta do registro da repercussão política criada em torno dele.


JSB diz que crítica a governante não pode virar intimidação


Na resposta, os jovens sustentam que ocupantes de cargos públicos estão sujeitos à cobrança da sociedade e dizem que continuarão usando humor e sátira como instrumentos políticos.


O vídeo ainda cita problemas que os participantes atribuem à rede estadual, entre eles atraso de kits escolares, questões estruturais em escolas e falta de fardamento. Esses pontos aparecem como alegações dos jovens e não vieram acompanhados de documentação no material enviado. O estopim não os verificou nesta apuração.


A gravação termina com os participantes reunidos dizendo que seguirão “sem baixar a cabeça e sem medo de ser feliz”.


A reação se conecta a uma linha de discurso que o PSB já havia adotado neste ano em outra controvérsia envolvendo a Polícia Civil. Em fevereiro, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), classificou uma investigação contra um integrante de sua gestão como episódio de “intimidação e autoritarismo” e afirmou que não baixaria a cabeça diante do que considerasse ato autoritário.


Os episódios são diferentes e não devem ser tratados como se fossem o mesmo caso. O ponto em comum é a discussão política sobre os limites da relação entre o governo estadual, a Polícia Civil e adversários do grupo que controla o Executivo.


Raquel Lyra PSD-PE
Raquel Lyra (PSD-PE), governadora de Pernambuco candidata a reeleição | Imagem: Divulgação

O contraditório de Raquel Lyra


A posição da governadora é a de que o problema não é a crítica nem o humor, mas a atribuição falsa de pedidos de dinheiro à sua imagem.


Raquel disse que entende as brincadeiras geradas por sua declaração patrimonial, mas afirmou que conteúdos editados teriam ultrapassado esse limite ao apresentá-la como se estivesse pedindo Pix. Também disse que pretende fazer a campanha discutindo propostas e com transparência.


Esse argumento precisa ser considerado separadamente do debate sobre o uso da estrutura policial. Uma eventual falsificação de imagem ou atribuição deliberadamente falsa deve ser apurada pelos meios legais. Crítica, sátira e meme, por outro lado, fazem parte da disputa pública e não podem ser automaticamente tratados como ilícitos apenas por incomodarem autoridades.


O que acontece agora?


O principal ponto ainda pendente é saber se o boletim de ocorrência resultou ou resultará em procedimento formal de investigação, qual seria o fato investigado, quem seria formalmente alvo da apuração e qual fundamento jurídico sustentaria a medida.


Até esta apuração, O estopim não encontrou informação pública que demonstre que os jovens que aparecem na resposta da JSB tenham sido formalmente indiciados ou apontados como autores do material contestado por Raquel Lyra.


Se houver procedimento policial, sua fundamentação, a identificação precisa das condutas investigadas e a preservação da imparcialidade institucional serão elementos centrais para distinguir uma investigação regular de qualquer eventual instrumentalização política.


A disputa ocorre em plena campanha eleitoral e tende a manter no centro do debate duas questões diferentes: o combate a conteúdos deliberadamente falsos e a proteção do direito à crítica política, inclusive quando ela aparece em forma de meme, humor ou sátira.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder público e temas de interesse coletivo, com foco em apuração, contexto e transparência.

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