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Buscadores entregam respostas antes dos links, enquanto Cade e PL 2338/2023 colocam remuneração de conteúdo jornalístico no centro da disputa.


Por Raul Silva para O estopim |

11 de agosto de 2026



Tela de busca com resumo gerado por inteligência artificial acima de links para sites jornalísticos
Resumos gerados por IA reduzem a chance de clique em sites e colocam financiamento, direitos autorais e futuro do jornalismo no centro da disputa. | Imagem: Reprodução

A expansão de respostas geradas por inteligência artificial nos mecanismos de busca está mudando a forma como leitores encontram notícias e ampliando a pressão financeira sobre veículos jornalísticos. Estudos mostram que usuários clicam menos nos links quando recebem um resumo pronto na página de resultados. No Brasil, a discussão já chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, e ao Congresso, onde o PL 2338/2023 prevê regras para o uso remunerado de obras protegidas por sistemas comerciais de IA.


O impacto atinge um ponto central do modelo econômico do jornalismo digital. Durante anos, mecanismos de busca funcionaram como uma das principais portas de entrada para reportagens. O site publicava a informação, o buscador indicava o link e o leitor seguia até a página do veículo. Com os resumos gerados por IA, parte dessa jornada pode terminar no próprio Google.


Resumos de IA reduzem a chance de clique


Um levantamento do Pew Research Center ajuda a dimensionar a mudança. A instituição analisou a navegação de 900 adultos nos Estados Unidos durante março de 2025. Quando uma página de resultados do Google mostrava um resumo gerado por IA, os usuários clicavam em um resultado tradicional em apenas 8% das visitas. Sem o resumo, a taxa chegava a 15%.


Os próprios links apresentados dentro dos resumos tiveram desempenho ainda menor. Segundo o Pew, eles receberam cliques em apenas 1% das visitas às páginas que continham AI Overviews. Além disso, 26% das visitas com resumo de IA terminaram com o encerramento da sessão de navegação, contra 16% quando havia apenas os resultados tradicionais.


O levantamento não mede especificamente o comportamento dos brasileiros, mas documenta uma transformação importante no funcionamento da busca: a resposta deixa de ser apenas uma lista de caminhos para outras páginas e passa a disputar com essas páginas a atenção do usuário.


O Google lançou o recurso chamado AI Overviews, traduzido pela empresa como Visões Gerais criadas por IA, em maio de 2024. A expansão oficial para o Brasil ocorreu em 15 de agosto daquele ano, junto com outros cinco países e suporte a idiomas locais.


Desde então, a presença da inteligência artificial na Busca aumentou. Em junho de 2026, o Google informou que as Visões Gerais criadas por IA já tinham mais de 2,5 bilhões de usuários ativos mensais no mundo. A empresa também passou a acrescentar mais links diretos, prévias de sites e ferramentas para destacar fontes preferidas pelos usuários.


A transformação desloca parte do poder editorial da página que produziu o conteúdo para a plataforma que o localiza, resume e reorganiza antes de mostrá-lo ao público.


Queda de audiência ameaça receita dos veículos?


No Brasil, a Associação de Jornalismo Digital, Ajor, aponta que um em cada quatro dos 152 veículos acompanhados pela entidade perdeu mais de 20% da audiência em 2025, segundo levantamento citado em reportagem da Agência Brasil, assinada pelo jornalista Lucas Pordeus León.


A redução de tráfego não representa apenas uma queda de pageviews. Para veículos sustentados por publicidade digital, assinaturas, doações ou programas de membros, menos leitores dentro do próprio site significam menos oportunidades de converter audiência em receita e relacionamento direto.


A tendência também aparece em escala internacional. Dados da empresa de análise Chartbeat, reunidos pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, mostram que o tráfego orgânico enviado pelo Google a mais de 2,5 mil sites caiu 33% globalmente entre novembro de 2024 e novembro de 2025. Nos Estados Unidos, a retração chegou a 38%.


O próprio Reuters Institute ressalta que não é possível atribuir toda essa queda exclusivamente ao AI Overviews. Mudanças no algoritmo, nos hábitos de consumo e em outros produtos do Google também interferem nos números. Mesmo assim, dirigentes de empresas jornalísticas consultados pelo instituto esperam uma redução média de 43% no tráfego vindo de buscadores nos próximos três anos.


O Google rejeita a conclusão de que suas ferramentas de IA estejam provocando uma redução generalizada do tráfego da web. Em posicionamento publicado em agosto de 2025, a empresa afirmou que o volume total de cliques orgânicos enviados pela Busca permanecia relativamente estável na comparação anual e que a qualidade média desses acessos havia aumentado.


Segundo a companhia, os resumos de IA estimulam pesquisas mais longas e complexas e podem apresentar mais oportunidades para que diferentes páginas sejam descobertas. O Google reconhece, porém, que determinadas perguntas simples podem ser respondidas diretamente na página de resultados, sem que o usuário precise seguir para outro site.


A divergência expõe o centro do conflito. Para as plataformas, a IA melhora a experiência de busca. Para os veículos que produzem a informação original, a questão é quanto dessa experiência continua enviando público e valor econômico de volta à fonte.


Cade amplia investigação sobre uso de conteúdo jornalístico


No Brasil, o debate ultrapassou o mercado editorial. Em abril de 2026, o Tribunal do Cade aprovou por unanimidade o aprofundamento de uma investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google e recomendou a abertura de processo administrativo.

O inquérito começou em 2019, quando a preocupação estava concentrada na coleta automática de notícias e na exibição de títulos, trechos e imagens nos resultados de busca. Segundo o Cade, a situação mudou com a inteligência artificial generativa, capaz de sintetizar informações diretamente na interface do buscador.


A autoridade concorrencial passou a analisar possíveis efeitos sobre acesso, visibilidade e monetização dos publishers, além de uma eventual apropriação de valor por uma plataforma dominante. A instauração do processo não significa que o Cade já tenha concluído pela existência de uma infração. O procedimento busca reunir dados para aprofundar a análise.


Outra frente está na Câmara dos Deputados. O PL 2338/2023, que cria o marco regulatório brasileiro da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado e está atualmente aguardando parecer do relator na comissão especial da Câmara. O relator é o deputado Aguinaldo Ribeiro, do PP da Paraíba.


No texto enviado pelo Senado, conteúdos protegidos poderiam ser usados livremente em determinadas atividades de pesquisa, jornalismo, educação, museus, arquivos e bibliotecas, desde que obtidos legitimamente e sem finalidade comercial. Fora dessas hipóteses, titulares poderiam impedir a utilização. Quando obras protegidas fossem usadas no desenvolvimento de sistemas comerciais de IA, haveria direito a remuneração.


A definição dessa regra interessa diretamente a jornais, revistas, agências, jornalistas, fotógrafos, escritores e outros produtores de conteúdo. A discussão é sobre quem captura economicamente o valor gerado quando uma reportagem financiada por uma redação passa a servir de matéria-prima para uma resposta automatizada.


Jornalismo entra na economia das respostas


A disputa representa uma mudança estrutural. O mecanismo de busca tradicional organizava links. A nova geração de sistemas tenta responder diretamente à pergunta.


O Reuters Institute descreve esse cenário como parte do debate sobre o chamado “Google Zero”, expressão usada no setor para representar o risco de sites receberem cada vez menos visitas vindas do Google. Em 2026, 10% das pessoas pesquisadas em 48 mercados disseram usar chatbots de IA para consumir notícias, ante 7% no ano anterior. Entre menores de 35 anos, o índice chegou a 16%.


Para o jornalismo, a discussão passa a envolver mais do que adaptação tecnológica. Está em jogo a capacidade de financiar a produção original de informação que alimenta sistemas capazes de responder ao usuário sem necessariamente levá-lo à fonte.


O que acontece agora?


O PL 2338/2023 continua na comissão especial da Câmara e aguarda o parecer do relator antes de avançar no processo legislativo. A regulamentação dos direitos autorais ainda poderá sofrer mudanças durante a tramitação.


No Cade, o processo sobre o Google entrou em uma fase mais aprofundada de investigação após a decisão de abril de 2026. A autoridade pretende analisar como as novas ferramentas de IA alteraram a relação econômica entre a plataforma e os produtores de conteúdo jornalístico.


Enquanto essas duas frentes avançam, buscadores e sistemas generativos continuam ampliando a capacidade de entregar respostas completas. Para as redações, o desafio será preservar audiência direta, reconhecimento de autoria e receita em um ambiente em que a informação pode chegar ao leitor antes mesmo do clique.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, tecnologia e temas de interesse público, com foco nas causas e consequências das transformações sociais.

Por Raul Silva para O estopim | 14 de maio de 2026



Homem de terno azul e óculos gesticula enquanto fala. Fundo escuro com luz amarela intensa à esquerda. Expressão séria e envolvente.
Juliano Cazarré rebate críticas feitas ao seu projeto chamado O Farol e a Forja, mas ao fazer isso expõe para todo o país a real natureza de seus discurso | Foto: Reprodução/GloboNews

Juliano Cazarré entrou no GloboNews Debate de 12 de maio cercado por uma controvérsia previsível: dias antes, havia lançado um encontro pago para homens, embalado por palavras como liderança, fé, família, responsabilidade e “enfraquecimento masculino”. Ao colocá-lo em horário nobre para discutir “o papel do homem nos tempos atuais”, a emissora assumiu um risco editorial que o programa não conseguiu controlar. O que foi vendido como debate virou, em vários momentos, vitrine. E vitrine para quê? Para um repertório já gasto, mas ainda socialmente perigoso: o da masculinidade ferida que se apresenta como cura moral do país enquanto relativiza a violência de gênero, recorre a estatísticas falsas e reposiciona o velho patriarcado como se fosse simples defesa da família.


Seria cômodo reduzir a cena a um erro individual de Juliano Cazarré. Não é suficiente. O ator é só a face televisiva mais recente de uma engrenagem bem maior, que mistura conservadorismo moral, oportunismo midiático, ressentimento masculino e verniz religioso. O discurso é conhecido. O homem teria perdido seu lugar. A sociedade teria “demonizado” a masculinidade. A família estaria ameaçada. A fé seria o último reduto de ordem. As mulheres, emancipadas demais. O feminismo, exagerado. A igualdade, uma espécie de desvio civilizatório.


Esse roteiro não nasceu no estúdio da GloboNews. Ele circula há anos em bolhas digitais, em influenciadores red pill, em setores bolsonaristas e em segmentos religiosos que transformaram púlpito, live e corte de rede social em aparelho de reprodução ideológica. O que a TV fez foi retirar esse discurso da margem e recolocá-lo sob luz respeitável, como se estivesse diante de uma opinião apenas “polêmica”, e não de uma narrativa que ajuda a naturalizar hierarquia entre homens e mulheres.


Debate televisivo com dois apresentadores sentados discutindo o papel dos homens. Tela ao fundo com convidado virtual. Texto da GloboNews.
Cazarré participou de debate na GloboNews nesta terça-feira (12) para falar a respeito do papel do homem na sociedade atual, ou para legitimar o discurso red pill e machista? | Foto: Reprodução/YouTube/GloboNews

Debate jornalístico não é sinônimo de deixar alguém falar o que quiser por tempo suficiente para viralizar. Quando um convidado usa números falsos ou sem base para relativizar a violência contra as mulheres, a mediação tem obrigação de interromper, contextualizar e corrigir. Não depois. Na hora.


Foi exatamente aí que o programa falhou, principalmente por causa do histórico do discurso machista que o ator já carregava consigo, ou seja, era totalmente previsível que alguma fala do tipo ocorresse ali. E ao permitir que a discussão deslizasse para a equivalência falsa entre violência geral e feminicídio, o debate abriu espaço para uma operação retórica conhecida. Primeiro, dissolve-se a especificidade da violência de gênero no caldo amplo da violência urbana. Depois, desloca-se o foco para o sofrimento masculino como se ele anulasse ou desautorizasse a denúncia feita pelas mulheres. Por fim, reapresenta-se o homem como vítima principal de um mundo que teria passado a culpá-lo por tudo.


Não há honestidade intelectual nisso. Há estratégia. Feminicídio não é qualquer homicídio. É o assassinato de mulheres em razão do gênero, geralmente em contexto doméstico, afetivo, de controle e posse. Misturar esse fenômeno com mortes violentas em contextos completamente distintos não é nuance. É distorção. E distorção, quando ganha palco jornalístico sem freio, vira munição para o obscurantismo.


Farois acesos à noite com faíscas. Texto: O Farol e A Forja, Um chamado à responsabilidade. Encontro de homens no Brasil.
Página oficial do tal evento sobre "masculinidade" | Fonte: Reprodução/Página do evento

O site do evento lançado por Cazarré fala em liderança, direção, proteção, presença masculina, homem de princípios, homem que assume seu lugar, homem que serve, marido, pai, fé vivida na prática. O vocabulário parece brando. Mas a gramática é antiga. A ideia central continua sendo a de que existe um lugar natural do homem na condução da família e da vida pública, enquanto às mulheres cabe gravitar ao redor dessa centralidade, desde que o homem exerça a chefia com “responsabilidade”.


É assim que o patriarcado sobrevive no século 21. Ele troca a brutalidade explícita pela linguagem da missão. Troca a imposição pela pedagogia da ordem. Troca o mando cru pela retórica do cuidado. Mas preserva a estrutura. O homem conduz. A mulher acompanha. O homem lidera. A mulher auxilia. Quando esse arranjo é apresentado como virtude espiritual ou remédio social, o que se está fazendo é reciclar desigualdade.


Monge rezando com terço em mãos, em fundo escuro com imagens de figuras religiosas. Expressão serena e luz suave ao redor.
Frei Gilson em momento de oração, conhecido por suas lives espirituais no YouTube, fará transmissão do Santo Rosário pela Havan neste sábado | Foto: Reprodução/Redes Sociais

No campo religioso, Frei Gilson virou hoje um dos casos mais evidentes dessa operação. Sua fala sobre a mulher ter nascido para “auxiliar” o homem e sua crítica ao chamado empoderamento feminino não são ruídos laterais. Elas fazem parte de uma pedagogia de subordinação que tenta dar fundamento sagrado a uma relação desigual. Quando um religioso com alcance massivo diz que o homem recebeu de Deus a liderança e que à mulher cabe outro papel, o que ele oferece não é só uma interpretação bíblica. Ele fornece uma autorização moral.


E essa autorização moral, em um país atravessado por violência doméstica, não é um detalhe teológico qualquer. É uma matéria de interesse público. Porque a mulher agredida não escuta essas falas num seminário abstrato. Ela escuta isso dentro de uma cultura que já a ensina a suportar, ceder, preservar o casamento, silenciar para não “destruir a família”, obedecer para não afrontar Deus. O resultado é um ambiente onde a opressão se espiritualiza e o abuso encontra linguagem de absolvição.


Não se trata de culpar uma única figura religiosa por toda a violência contra as mulheres. Trata-se de dizer o óbvio que muita gente se recusa a enfrentar: discursos de submissão feminina ajudam a manter viva a cultura que relativiza a violência, desculpa o controle masculino e cobra das vítimas uma santidade sacrificial que jamais é exigida dos agressores.


Sacerdote sorri em vestes verdes decoradas. Fundo com plantas e flores. Clima noturno, atmosfera serena. Texto na roupa é legível.
Padre Júlio Lancellotti é conhecido nacionalmente pelo trabalho que realiza com a população em situação de rua na capital paulista. | Foto: Reprodução/Instagram: @padrejulio.lancellotti

A crítica precisa ir além de Frei Gilson. Ela alcança a estrutura que o acolhe, o normaliza e o transforma em ativo de massa. A Igreja Católica no Brasil gosta de repetir que não pode ser julgada por recortes. Pois bem. Que seja julgada então por suas escolhas concretas.


Quando o padre Júlio Lancellotti, conhecido pelo trabalho com a população de rua e pela recusa a qualquer discurso de ódio, foi silenciado nas redes e impedido de seguir com transmissões ao vivo, a mensagem institucional foi cristalina: há vozes que incomodam mais do que outras. Incomoda mais um padre que denuncia a crueldade social do que um religioso conservador que mobiliza multidões enquanto reforça papéis hierárquicos entre homens e mulheres.


Em São Paulo, Dom Odilo Scherer se tornou símbolo dessa contradição. No Recife, Dom Paulo Jackson aparece em outro ponto do mesmo mapa, ao emprestar legitimidade institucional a eventos de grande escala com Frei Gilson sem que se veja resposta proporcional às implicações públicas desse discurso sobre mulheres. O contraste salta aos olhos. Para a voz evangélica da compaixão radical, freio. Para a voz rentável, multitudinária e disciplinadora, acolhimento.


A instituição pode alegar prudência, foro interno, autonomia canônica. O problema é que, fora dos muros e dos códigos eclesiásticos, o efeito social é outro. O que passa para o público é uma pedagogia perversa: o cristianismo que confronta a exclusão vira problema administrativo; o cristianismo que reforça obediência, gênero e autoridade masculina segue livre para crescer.


Logotipo da GloboNews em vermelho sobre fundo branco, com a palavra "NEWS" estilizada. Design limpo e moderno.
Logo GloboNews | Foto: Reprodução/X

Há também uma responsabilidade específica do jornalismo. Não basta dizer que ouvir lados diferentes é parte do ofício. Isso é verdade, mas é só o começo. Jornalismo não existe para equilibrar formalmente qualquer disputa. Existe para informar com método, contexto e compromisso com a realidade. Quando uma emissora põe no mesmo nível um discurso sustentado por distorções e outro lastreado em pesquisa e experiência concreta, corre o risco de fabricar uma simetria fraudulenta.


Esse é o ponto central. O jornalismo não pode funcionar como lavanderia reputacional da misoginia contemporânea. Não pode chamar de “polêmica” o que já se consolidou como engrenagem de rebaixamento feminino. Não pode vestir de pluralismo a omissão diante da mentira factual. E não pode, sobretudo, tratar como curiosidade cultural um ideário que oferece ao homem ressentido um pacote sedutor: culpa terceirizada, autoridade restaurada, religião como escudo e mulher como horizonte de serviço.


Se o debate vira vitrine para esse pacote, a imprensa deixa de iluminar o problema e passa a distribuí-lo.


Não estamos diante de um desacordo inocente sobre costumes. O que está em disputa é a possibilidade de fazer retroceder, com palavras aparentemente brandas, conquistas mínimas de autonomia feminina. O léxico pode variar. Valores familiares. Masculinidade sadia. Fé no lar. Mas a arquitetura permanece reconhecível: conter a liberdade das mulheres, recolocar o homem no centro e reabilitar a desigualdade como se fosse virtude.


Num país que segue registrando números brutais de feminicídio, denúncias de violência e agressões dentro de casa, tratar isso como debate abstrato é uma forma de cegueira editorial. A violência contra a mulher não começa no soco. Ela começa na ideia de posse. Na pedagogia da obediência. Na glamourização da chefia masculina. Na ridicularização do feminismo. Na catequese da resignação. Na mentira repetida para esvaziar a gravidade dos fatos.


Juliano Cazarré não inventou esse enredo. Frei Gilson tampouco. Mas ambos ajudam a atualizá-lo. E o jornalismo que lhes oferece palco sem a devida contenção crítica não está apenas falhando na mediação. Está ajudando a empurrar para a arena pública um discurso que já custou caro demais às mulheres brasileiras.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, mídia, direitos humanos e os mecanismos de poder que costumam se esconder atrás de discursos respeitáveis.

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