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Dados do IBGE e do Banco Central mostram alta acumulada de 44,8% na alimentação no domicílio entre 2020 e 2022; redução de produtos nas embalagens já era alvo do Ministério da Justiça em 2021


Por Clara Mendes para O estopim |

11 de Setembro de 2026

Cobertura das Eleições

Veredito: enganoso


Flávio Bolsonaro culpa Lula por alimentos caros, mas reduflação já existia no governo Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro culpa Lula por alimentos caros, mas reduflação já existia no governo Bolsonaro. | Foto: Reprodução

A afirmação do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro de que o governo Lula é responsável pelo encarecimento dos alimentos e pela redução da quantidade de produtos nas embalagens omite que os dois fenômenos já atingiam os consumidores durante o governo de Jair Bolsonaro. No comício de abertura da campanha, em Copacabana, no Rio de Janeiro, em 16 de agosto, Flávio associou diretamente a chamada reduflação à atual gestão e disse que “a culpa é do Lula” ao citar embalagens menores de chocolates, papel higiênico e ovos.


A associação é enganosa porque transforma fenômenos econômicos de vários anos e múltiplas causas em consequência exclusiva do atual governo. A alta de preços dos alimentos ocorreu também no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente em 2024, mas os dados oficiais mostram que uma escalada expressiva começou anos antes.


Em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro e antes da pandemia de Covid-19, Alimentação e bebidas subiu 6,37%, ante IPCA geral de 4,31%. As carnes avançaram 32,40% naquele ano. Em 2020, Alimentação e bebidas saltou 14,09%, maior aumento anual do grupo desde 2002. O arroz subiu 76,01%, o óleo de soja 103,79%, o leite longa vida 26,93% e as carnes 17,97%.


O movimento continuou. Em 2021, o IPCA chegou a 10,06%, acima do teto da meta de inflação daquele ano, enquanto Alimentação e bebidas aumentou 7,94%. Café moído subiu 50,24% e açúcar refinado, 47,87%. Em 2022, o grupo Alimentação e bebidas avançou outros 11,64%, enquanto a alimentação consumida dentro de casa aumentou 13,23%.


Uma retrospectiva publicada pelo Banco Central calcula que a alimentação no domicílio acumulou alta de 44,8% entre 2020 e 2022, período integralmente situado no governo Jair Bolsonaro. Foram 18,2% em 2020, 8,2% em 2021 e 13,2% em 2022.


Flávio Bolsonaro distorce histórico aos dizer que embalagens menores começaram no governo Lula


A segunda parte da afirmação de Flávio Bolsonaro também omite o histórico do fenômeno. Em setembro de 2021, uma reportagem já registrava no mercado brasileiro caixas de ovos com menos unidades, chocolates e biscoitos menores e redução da quantidade de sabão em pó. A prática ficou conhecida como reduflação, tradução de shrinkflation: a empresa reduz peso, tamanho ou quantidade sem queda proporcional do preço.


O fenômeno tinha dimensão suficiente para provocar uma nova regulamentação durante o próprio governo Jair Bolsonaro. Em 29 de setembro de 2021, o então ministro da Justiça, Anderson Torres, assinou a Portaria nº 392, obrigando fabricantes a informar de maneira clara alterações quantitativas de produtos embalados.


Mesmo dizer que a reduflação “começou no governo Bolsonaro” seria impreciso. A Portaria nº 392 substituiu uma regra de 2002 que já obrigava empresas a informar mudanças na quantidade dos produtos e a quantidade aumentada ou diminuída. A existência dessa regulamentação mostra que o problema antecede tanto Bolsonaro quanto Lula.


Há inclusive registro de que, em agosto de 2022, último ano do governo Bolsonaro, a embalagem convencional de Bis já era comercializada com 16 unidades. A informação aparece em publicação daquele ano sobre o lançamento de uma versão maior do produto.


O que explica a alta entre 2020 e 2022


O Banco Central identifica uma combinação de causas. Em 2020, a pandemia alterou o padrão de consumo das famílias, aumentou a demanda por alimentos dentro de casa e provocou problemas logísticos. Ao mesmo tempo, o real sofreu forte depreciação e as commodities voltaram a subir no mercado internacional. O próprio BC registrou pressões provocadas pela depreciação cambial persistente, pela alta das commodities e pelo aumento da demanda.


Em 2021, câmbio, commodities e condições climáticas desfavoráveis continuaram pressionando alimentos, combustíveis e energia elétrica. Geadas afetaram a produção de café, enquanto a crise hídrica pressionou a energia.


Em 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia acrescentou outro choque. Os preços internacionais de milho e trigo subiram rapidamente, além dos custos de energia e insumos. O Banco Central também registra impactos de fatores climáticos e dos gargalos ainda existentes nas cadeias produtivas.


Alimentos também subiram no governo Lula


Em 2023, Alimentação e bebidas subiu 1,03%, mas a alimentação no domicílio caiu 0,52%. Em 2024, houve nova pressão: Alimentação e bebidas avançou 7,69% e alimentação no domicílio, 8,23%. Carnes subiram 20,84% e café moído, 39,60%.


Em 2025, a alta desacelerou. Alimentação e bebidas avançou 2,95% e alimentação no domicílio, 1,43%. O IBGE registrou seis meses consecutivos de queda nos preços da alimentação em casa entre junho e novembro daquele ano.


O dado mais recente, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026, mostra queda de 0,32% no IPCA de agosto. Alimentação e bebidas recuou 0,34% no mês. A inflação geral acumulada em 12 meses ficou em 4,22%.


A queda da inflação não significa que os preços retornaram aos valores de anos anteriores. Inflação menor significa que o ritmo de aumento diminuiu, e deflação mensal indica queda em relação ao mês imediatamente anterior. O nível de preços ainda incorpora aumentos acumulados no passado.


Veredito: ENGANOSO.


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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista de O estopim, com atuação em política, economia, poder e checagem factual.


Queda de 0,24% em junho não devolve preços ao patamar anterior; cesta, cidade, renda e memória do orçamento ajudam a explicar a diferença.


Por Vitória Régis para O estopim Economia | Cobertura Especial das Eleições 2026

16 de julho de 2026



Consumidor observa preços dos alimentos em supermercado após queda mensal no IPCA
Consumidor observa preços dos alimentos em supermercado após queda mensal no IPCA | Foto: Reprodução

O grupo Alimentação e bebidas do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, recuou 0,24% em junho. A queda registrada pelo IBGE, no entanto, contrasta com a experiência relatada nas compras: 66% dos entrevistados pela Genial/Quaest disseram ter percebido alta nos preços dos alimentos no último mês. Outros 23% afirmaram que os preços ficaram iguais, 9% notaram queda e 2% não souberam responder.  


A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais, entre 10 e 13 de julho. A amostragem passou por 120 municípios, e a margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Os percentuais sobre alimentos aparecem no gráfico da página 50 do relatório.


A expressão “deflação dos alimentos” descreve apenas a comparação entre junho e maio. Ela não significa que o supermercado voltou a cobrar os valores de meses ou anos anteriores.


Em maio, o grupo Alimentação e bebidas havia subido 1,33%. No mês seguinte, recuou 0,24%. Considerados os dois movimentos sucessivos, o nível médio do grupo terminou junho cerca de 1,09% acima do observado no fim de abril.


Em um exemplo apenas didático, uma cesta média que custasse R$ 100 no fim de abril passaria a aproximadamente R$ 101,33 depois da alta de maio. Com a queda de junho, custaria perto de R$ 101,09. Houve redução no último mês, mas o preço continuou acima do ponto de partida.


Também não houve deflação geral na economia. O IPCA completo avançou 0,16% em junho, puxado por outros grupos, enquanto Alimentação e bebidas exerceu impacto negativo de 0,05 ponto percentual sobre o índice.


O IPCA mede a variação média de uma cesta de produtos e serviços. Cada item recebe um peso relacionado à participação que ocupa no orçamento das famílias, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.


Essa cesta média não é igual às compras de todas as pessoas. Uma família que consome mais carnes, café ou frutas enfrenta uma combinação de preços. Outra, que compra mais feijão, batata, produtos industrializados ou refeições prontas, enfrenta outra.


O próprio IBGE explica que o índice pessoal de inflação pode ficar acima ou abaixo do IPCA, conforme os produtos consumidos, a renda e a composição da família.


É nessa diferença que a percepção registrada pela Genial/Quaest ganha sentido. Os entrevistados não foram convidados a calcular uma média estatística. Eles responderam a partir das compras, das embalagens, dos estabelecimentos e do dinheiro disponível em seu cotidiano.


A redução de 0,24% também não foi uniforme. A alimentação dentro do domicílio caiu 0,39%, influenciada pelos recuos do café moído, de 3,72%, das frutas, de 1,58%, e das carnes, de 0,64%.


Ao mesmo tempo, o feijão-carioca subiu 8,31% e a batata-inglesa avançou 3,57%. A alimentação fora de casa continuou aumentando, embora em ritmo menor, com alta de 0,15% em junho.


Uma família que concentrou as compras nos produtos que subiram pode ter enfrentado aumento, mesmo com a média do grupo em queda. Promoções, mudança de marcas, redução de embalagens e substituição de produtos também alteram a experiência dentro do mercado.


O consumidor costuma comparar o valor total da compra com o que pagava meses atrás, e não apenas com a compra imediatamente anterior.


Além disso, alimentos básicos ocupam uma parcela maior da renda das famílias mais pobres. Pequenos aumentos em itens comprados com frequência podem ser percebidos com mais intensidade do que quedas em produtos consumidos ocasionalmente.


Por isso, desaceleração significa que os preços estão subindo mais devagar. Deflação mensal significa que houve uma pequena queda em relação ao mês anterior. Nenhuma das duas expressões significa, por si só, que os preços voltaram a ser baixos.


O IBGE e os consumidores não estão, necessariamente, em contradição.


O IPCA informa quanto variou uma cesta média entre dois períodos. A pesquisa de percepção informa como as pessoas avaliaram os preços encontrados nos locais onde compraram.


O risco é transformar uma queda mensal pequena em afirmação de que “os alimentos ficaram baratos”, ou tratar a percepção dos entrevistados como prova de que o índice oficial está errado. Nenhuma das duas conclusões é sustentada pelos dados disponíveis.


O que acontece agora?


O próximo IPCA, referente a julho, está previsto para 11 de agosto. O resultado mostrará se a queda de junho continuou ou foi apenas uma oscilação mensal.


O relatório fornecido não informa quando haverá uma nova rodada da pergunta sobre percepção dos preços dos alimentos.


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Vitória Régis é editora de O estopim Economia e cobre economia, mercados e educação financeira com atenção ao impacto social das decisões econômicas. Seu trabalho prioriza linguagem acessível, rigor na leitura de dados e efeitos sobre a renda das famílias.

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