Ao declarar que o domínio norte-americano não será questionado e usar a captura de Maduro como demonstração de força, Trump atualiza a velha lógica imperial sobre a América Latina.
Por Raul Silva para O estopim |
11 de agosto de 2026
Artigo de opinião
ÍNDICE

O vídeo compartilhado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos nesta terça-feira, 11 de agosto, transforma em propaganda uma concepção de poder que deveria causar preocupação em qualquer país soberano das Américas. Ao recuperar a captura de Nicolás Maduro e associá-la à afirmação de Donald Trump de que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, o governo norte-americano deixa de falar apenas sobre segurança ou política externa e passa a reivindicar, de maneira explícita, uma posição de supremacia sobre o continente.
Não se trata de uma frase infeliz ou de mais um exagero verbal produzido pelo estilo político de Trump. A declaração revela uma concepção segundo a qual os Estados Unidos ocupam o topo de uma hierarquia continental, enquanto as demais nações teriam sua autonomia tolerada apenas até o ponto em que suas decisões não contrariassem interesses estratégicos, militares e econômicos de Washington. Essa visão tem nome, história e consequências: imperialismo.
As Américas não pertencem a Trump ou a Washington
Nenhum princípio de soberania internacional concede aos Estados Unidos autoridade especial sobre Brasil, México, Colômbia, Venezuela, Argentina, Chile, Cuba ou qualquer outro país das Américas. Estados soberanos não são extensões administrativas da Casa Branca e não precisam de autorização norte-americana para escolher parceiros comerciais, definir alianças diplomáticas, administrar recursos naturais ou estabelecer suas próprias políticas de defesa.
A administração Trump, porém, parece empenhada em transformar essa pretensão histórica em discurso oficial. Depois da operação que resultou na captura de Maduro em Caracas, o presidente norte-americano vinculou sua política regional à Doutrina Monroe e passou a brincar com a expressão “Doutrina Donroe”, fundindo seu próprio nome à formulação criada no século XIX para consolidar a influência dos Estados Unidos sobre o continente.
A escolha das palavras é reveladora porque substitui a linguagem tradicional da diplomacia por uma reivindicação quase patrimonial sobre a região. Quando autoridades norte-americanas dizem que este seria “nosso hemisfério”, não estão descrevendo geografia, mas estabelecendo uma relação de poder na qual Washington se considera autorizado a decidir quais governos, alianças e projetos econômicos seriam aceitáveis nas Américas.
Essa concepção entra em choque com os próprios fundamentos da ordem internacional construída depois da Segunda Guerra Mundial. A Carta das Nações Unidas estabelece a igualdade soberana entre os Estados e proíbe o uso da força contra sua integridade territorial e independência política, enquanto a Carta da Organização dos Estados Americanos também rejeita a intervenção direta ou indireta nos assuntos internos de outras nações.
Ao falar em domínio, Trump não está defendendo essa ordem internacional. Está reivindicando uma exceção para os Estados Unidos.
Maduro transformado em troféu político
A captura de Nicolás Maduro em Caracas, em 3 de janeiro de 2026, foi apresentada pela administração Trump como algo maior do que uma operação contra um governante acusado pela Justiça norte-americana. Desde as primeiras declarações após a ação, o episódio passou a ser utilizado como demonstração de capacidade militar e como advertência dirigida a outros governos do continente.
Esse aspecto é central porque transforma Maduro em instrumento de propaganda geopolítica. A mensagem deixa de ser apenas dirigida à Venezuela e passa a afirmar que os Estados Unidos possuem força suficiente para agir dentro de outro país, remover sua principal autoridade política e interferir diretamente no processo que virá depois.
Não é necessário transformar Maduro em símbolo democrático para perceber o problema dessa lógica. As denúncias e acusações contra um governo não concedem automaticamente a outra potência o direito de invadir seu território, capturar seu dirigente e depois reivindicar autoridade sobre a reorganização política do país.
A soberania não pode ser um princípio aplicado apenas aos governos considerados aceitáveis por Washington. Se a maior potência militar da região puder decidir unilateralmente quais dirigentes são legítimos, quais governos devem cair e quais transições políticas serão autorizadas, então a regra internacional deixa de ser a soberania dos Estados e passa a ser a capacidade de imposição pela força.
Esse é precisamente o tipo de ordem que as normas internacionais deveriam impedir. Trump, no entanto, apresenta essa capacidade de coerção como se fosse um direito natural dos Estados Unidos.
A história que Washington prefere editar
O vídeo divulgado pelo Departamento de Estado é especialmente significativo porque recupera intervenções norte-americanas no continente sem confrontar integralmente o legado político dessas ações. Ao selecionar episódios que podem ser apresentados como defesa da ordem, da democracia ou da segurança regional, a propaganda oficial deixa fora do enquadramento uma longa história de operações clandestinas, apoio a golpes, colaboração com governos autoritários e interferência direta nos processos políticos latino-americanos.
Na Guatemala, em 1954, a CIA participou da operação que derrubou o presidente Jacobo Árbenz. Documentos oficiais norte-americanos registram operações psicológicas, ações paramilitares e outras iniciativas destinadas a provocar a queda do governo, demonstrando que a interferência de Washington não é uma invenção posterior de seus críticos.
No Brasil, documentos históricos também mostram os preparativos da Operação Brother Sam durante o golpe de 1964. O planejamento norte-americano previa disponibilização de navios, combustível, munição e outros recursos caso fossem necessários aos grupos que derrubavam João Goulart, episódio que permanece como uma das expressões mais evidentes da disposição dos Estados Unidos de interferir no equilíbrio político latino-americano durante a Guerra Fria.
No Chile, os arquivos diplomáticos norte-americanos registram os esforços do governo de Richard Nixon para impedir a chegada de Salvador Allende ao poder e, posteriormente, desestabilizar sua administração. Após o golpe de 11 de setembro de 1973, Washington se aproximou do regime comandado por Augusto Pinochet mesmo diante das informações que chegavam sobre perseguições políticas, tortura e violações de direitos humanos.
Esse passado desmonta a narrativa de que a presença norte-americana nas Américas teria sido historicamente guiada apenas pela defesa da democracia. Em diferentes momentos, a democracia foi defendida quando coincidia com os interesses de Washington e relativizada quando governos eleitos ameaçavam prioridades econômicas ou estratégicas dos Estados Unidos.
Quando uma peça oficial relembra intervenções e silencia sobre essa contradição, não está simplesmente resumindo a história. Está produzindo uma memória seletiva destinada a transformar exercício de poder em missão civilizatória.
Trump não criou o imperialismo norte-americano
Seria um erro histórico atribuir a Donald Trump a criação dessa política de domínio continental. O imperialismo norte-americano antecede seu governo em mais de um século e atravessa administrações republicanas e democratas, ainda que tenha assumido formas, justificativas e intensidades diferentes ao longo do tempo.
A Doutrina Monroe foi formulada em 1823, muito antes de Trump entrar na política. A política do Big Stick, as intervenções militares no Caribe, as operações clandestinas da Guerra Fria, o apoio a golpes e as pressões econômicas sobre governos latino-americanos mostram que a pretensão de tratar a região como área prioritária de influência dos Estados Unidos faz parte de uma trajetória muito mais longa.
O que diferencia Trump é sua disposição de retirar parte do verniz diplomático utilizado para apresentar essa política. Onde outros presidentes preferiam falar em liderança, estabilidade regional ou defesa de interesses compartilhados, ele fala em domínio e trata a superioridade norte-americana como algo que deveria ser reconhecido e obedecido.
Essa mudança de linguagem não é apenas estilística. Quando um presidente declara publicamente que o domínio de seu país sobre determinado hemisfério não será questionado, ele transforma uma relação histórica de poder em princípio político assumido.
Trump, portanto, não rompe com o imperialismo norte-americano. Ele reduz a distância entre aquilo que historicamente foi praticado e aquilo que agora pode ser declarado sem constrangimento.
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Petróleo, poder e a velha lógica colonial
As declarações de Trump sobre a Venezuela também revelam outro componente recorrente da política imperial: a associação entre intervenção política e controle econômico. Depois da captura de Maduro, o presidente norte-americano falou sobre a participação de grandes companhias dos Estados Unidos na recuperação da infraestrutura petrolífera venezuelana, aproximando de maneira explícita segurança regional, mudança política e exploração de recursos estratégicos.
A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, e esse fato não pode ser tratado como detalhe secundário na análise das ações norte-americanas. Quando o governo responsável pela intervenção começa imediatamente a discutir o papel de suas próprias empresas na reorganização do setor energético do país atingido, a retórica sobre liberdade e segurança precisa ser examinada com ainda mais rigor.
Os recursos venezuelanos pertencem à Venezuela segundo sua ordem jurídica e não se transformam em patrimônio norte-americano porque empresas dos Estados Unidos tiveram negócios no país ou porque Washington considera que sofreu prejuízos econômicos. A tentativa de apresentar interesses empresariais de uma potência estrangeira como parte natural da reconstrução política de outro Estado reproduz uma lógica colonial conhecida há séculos.
Essa lógica afirma que recursos estratégicos localizados em países mais frágeis devem permanecer acessíveis às grandes potências. Quando governos locais dificultam esse acesso, suas decisões passam a ser interpretadas não como exercício de soberania, mas como ameaça à estabilidade.
As distorções do discurso de Trump
O discurso de Donald Trump sobre as Américas depende de algumas distorções fundamentais para transformar imperialismo em política de segurança. A primeira delas consiste em apresentar domínio regional como mecanismo defensivo, como se proteger o território dos Estados Unidos exigisse determinar as escolhas políticas e econômicas de dezenas de países independentes.
Segurança nacional é o direito de um Estado proteger sua população e seu território contra ameaças reais. Não é autorização para controlar governos estrangeiros, selecionar parceiros comerciais de outros países ou estabelecer quais alianças diplomáticas serão consideradas aceitáveis.
A segunda distorção consiste em transformar superioridade militar em legitimidade política. Os Estados Unidos podem possuir capacidade operacional para realizar ações que outros países não conseguem impedir, mas essa capacidade não produz, por si mesma, qualquer direito especial sobre o destino político de outra sociedade.
Poder fazer alguma coisa não significa ter legitimidade para fazê-la. Confundir força com direito é precisamente uma das características centrais das relações imperiais.
A terceira distorção aparece quando interesses econômicos norte-americanos são apresentados como se fossem interesses universais. Petróleo, minerais estratégicos, rotas comerciais e mercados não deixam de pertencer aos países onde estão localizados apenas porque Washington os considera essenciais para sua segurança ou sua economia.
Quando o império chama obediência de estabilidade
A linguagem do imperialismo raramente se apresenta como defesa aberta da submissão. Historicamente, ela prefere palavras como estabilidade, segurança, ordem, parceria e responsabilidade, expressões capazes de transformar relações profundamente desiguais em supostos compromissos compartilhados.
Dentro dessa lógica, um governo alinhado aos interesses de Washington tende a ser considerado previsível e responsável, enquanto administrações que buscam maior autonomia econômica ou diplomática são frequentemente descritas como ameaças à ordem regional. O conceito de estabilidade passa, então, a significar não a existência de instituições democráticas sólidas, mas a permanência de uma estrutura de poder favorável à potência dominante.
A história latino-americana oferece exemplos suficientes para desconfiar dessa linguagem. Ditaduras receberam apoio externo quando garantiam alinhamento estratégico, enquanto governos eleitos enfrentaram pressões quando suas decisões econômicas contrariavam interesses norte-americanos.
Por isso, a defesa da soberania não pode ser reduzida a discurso nacionalista vazio. Ela precisa significar capacidade concreta de decidir sobre recursos naturais, política externa, comércio, infraestrutura, tecnologia, defesa e relações internacionais sem tutela estrangeira.
Confira o vídeo na integra:
A América Latina não precisa de um tutor
A frase de Trump sobre o domínio dos Estados Unidos deveria produzir uma resposta política clara dos países latino-americanos. Nenhuma região composta por Estados soberanos pode aceitar como normal que uma potência declare possuir autoridade superior sobre o conjunto do continente.
Para o Brasil, essa questão é especialmente relevante. Um país com dimensões continentais, recursos energéticos, Amazônia, minerais estratégicos, grande produção agrícola e relações econômicas diversificadas não pode organizar sua política externa conforme a conveniência de Washington.
Defender autonomia, porém, não significa substituir uma dependência por outra. A América Latina não precisa trocar submissão aos Estados Unidos por submissão à China, à Rússia ou a qualquer outra potência, porque soberania significa exatamente construir relações internacionais sem reconhecer senhores.
Integração regional, diversificação econômica e independência diplomática não são gestos de hostilidade contra os Estados Unidos. São condições mínimas para que países formalmente independentes também sejam politicamente capazes de tomar suas próprias decisões.
O que acontece agora?
A declaração de que o domínio dos Estados Unidos nas Américas “nunca mais será questionado” não deve ser tratada como simples bravata de Donald Trump. Quando esse discurso aparece associado a uma operação militar concreta e depois é transformado em mensagem institucional pelo próprio governo norte-americano, ele passa a funcionar como definição de uma política regional.
A resposta latino-americana não precisa recorrer à retórica vazia nem à reprodução automática de alinhamentos ideológicos. Precisa partir de um princípio elementar: nenhum país possui direito natural de controlar outro, e nenhuma potência pode transformar superioridade militar em autorização permanente para organizar o destino político de um continente.
Durante dois séculos, a América Latina acumulou experiências suficientes para compreender o preço cobrado por políticas formuladas a partir de Washington e apresentadas como inevitáveis. Golpes, intervenções, pressões econômicas e alianças com regimes autoritários fazem parte dessa história e impedem que o discurso atual seja tratado como simples defesa abstrata da democracia.
Donald Trump merece atenção justamente porque tornou mais explícita uma pretensão que muitas vezes foi protegida por linguagem diplomática. Ao afirmar que o domínio norte-americano não será questionado, ele convida o restante do continente a aceitar uma hierarquia política como se fosse parte natural da ordem internacional.
A resposta precisa ser exatamente a oposta. O domínio deve ser questionado porque soberania que depende da autorização de uma potência estrangeira não é soberania, e independência que pode ser revogada pela força não passa de ficção diplomática.
As Américas não são o quintal dos Estados Unidos e não precisam de um tutor instalado em Washington. São um continente formado por povos, sociedades e Estados que têm o direito de construir seus próprios caminhos, inclusive quando esses caminhos desagradam à Casa Branca.
As Américas não têm dono.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, sociedade, poder, direitos e acontecimentos que ajudam a compreender as causas e consequências da notícia.
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