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Em Gravatá, delegados e delegadas discutem o Plano Nacional de Educação, os riscos da política de premiação docente, o avanço do conservadorismo nas escolas e a defesa da diversidade como parte do plano de lutas da educação pública em Pernambuco.



Por Raul Silva para O estopim | 28 de Maio de 2026


Painel no 12º Congresso do SINTEPE com quatro debatedores, dois aplaudindo, mesa vermelha e fundo com o texto do evento.
Primeira mesa do dia com os professores Flávio Brayner da UFPE e Pedro Silva do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O segundo dia do 12° Congresso do Sintepe, realizado nesta quarta-feira (27), no Hotel Canárius, em Gravatá, no Agreste de Pernambuco, concentrou parte das discussões mais estratégicas da programação ao colocar no centro do debate o futuro da escola pública, a valorização dos trabalhadores em educação, a disputa em torno do Plano Nacional de Educação, a crítica aos sistemas de premiação docente, o enfrentamento ao conservadorismo nas escolas e a defesa dos direitos humanos, de gênero e diversidade.


Com o tema “Educação, democracia, soberania e justiça socioambiental”, o encontro reúne delegados, suplentes, observadores e convidados de diferentes regiões do Estado entre os dias 26 e 29 de maio. O congresso é a principal instância deliberativa do sindicato e tem como objetivo atualizar o plano de lutas da categoria a partir da conjuntura política, educacional e sindical.


A programação do segundo dia reforçou que o debate sobre educação pública em Pernambuco não se limita à pauta salarial, embora a remuneração siga como eixo incontornável da valorização profissional. As falas dos palestrantes e as intervenções da base apontaram para uma leitura mais ampla: defender a escola pública exige financiamento, carreira, condições de trabalho, liberdade pedagógica, gestão democrática, proteção contra violências políticas e reconhecimento da diversidade que compõe a comunidade escolar.


Mesa de debate no 12º Congresso do SINTPE, com cinco palestrantes em palco vermelho e fundo com lema sobre educação e democracia.
Mesa dedicada ao PNE com o professor Heleno Araújo e as professora Dalila Andrade e Iana Gomes | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao Plano Nacional de Educação reuniu o professor Heleno Araújo, a professora Dalila Andrade, da Universidade Federal de Minas Gerais, e a professora Iana Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O debate partiu de uma constatação comum aos três eixos apresentados: o PNE não pode ser tratado como um documento distante da vida cotidiana das escolas.


Na discussão, o plano apareceu como instrumento de disputa sobre que projeto de educação o país pretende sustentar nos próximos anos. O PNE define metas sobre financiamento, acesso, permanência, qualidade, formação, carreira, gestão democrática e redução de desigualdades. Por isso, para o movimento sindical, sua execução depende de pressão social, acompanhamento permanente e capacidade de transformar metas legais em políticas públicas reais.


Heleno Araújo, dirigente histórico da educação e nome ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e à Internacional da Educação, situou o PNE dentro de uma agenda maior de democracia e soberania. A leitura apresentada no debate associa a defesa do plano à necessidade de participação popular, valorização dos profissionais e enfrentamento das desigualdades regionais e sociais que ainda atravessam a escola pública brasileira.


Essa abordagem conecta o tema nacional à realidade concreta da rede estadual de Pernambuco. Para os trabalhadores em educação, discutir PNE significa discutir piso, carreira, concurso público, infraestrutura escolar, formação continuada, saúde do trabalhador, gestão democrática e permanência estudantil. Não se trata apenas de acompanhar metas em relatórios oficiais, mas de verificar se elas chegam às salas de aula, às bibliotecas, aos laboratórios, às cozinhas, às quadras e às secretarias escolares.


Homem fala ao microfone em palco vermelho do 12º Congresso do SINTEPE, com laptop, telão e slides ao fundo.
Professor Heleno Araújo em sua fala sobre a LDB | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Um dos pontos mais sensíveis do segundo dia foi a crítica aos sistemas de premiação docente. A discussão questionou políticas que substituem valorização permanente por bonificações pontuais, rankings, metas padronizadas e competição entre escolas ou profissionais.


A crítica não rejeita avaliação pública nem acompanhamento de resultados. O centro do argumento é outro: quando a política educacional reduz qualidade a desempenho em indicadores estreitos, a escola passa a responder mais à lógica da mensuração do que às necessidades reais dos estudantes. Esse modelo tende a desconsiderar diferenças territoriais, desigualdades socioeconômicas, condições de trabalho e a natureza coletiva do processo pedagógico.


Dalila Andrade contribuiu para esse debate ao tratar o trabalho docente como parte de uma estrutura que envolve carreira, formação, tempo de planejamento, saúde, estabilidade, remuneração e autonomia profissional. A valorização, nessa perspectiva, não pode aparecer como prêmio eventual concedido a quem atinge determinada meta. Ela precisa ser política de Estado, com continuidade, orçamento e reconhecimento do conjunto dos trabalhadores da educação.


A preocupação discutida no congresso é que políticas de premiação podem produzir efeitos contrários ao discurso oficial de melhoria. Ao estimular competição, elas enfraquecem a cooperação entre escolas. Ao premiar resultados finais sem enfrentar condições desiguais de partida, podem penalizar justamente unidades que atendem populações mais vulneráveis. Ao individualizar responsabilidades, podem esconder falhas estruturais do poder público.


Mulher fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com telão vermelho ao fundo.
Professora Iana Gomes em sua explanação dos dados sobre o avanço do conservadorismo nas escolas | Foto: Raul Silva/O estopim+

A professora Iana Gomes levou ao debate a reflexão sobre o avanço do conservadorismo nas escolas e suas conexões com políticas educacionais, currículo, liberdade de ensinar e direitos humanos. A discussão mostrou que a escola pública se tornou um dos espaços centrais da disputa política no país.


Nos últimos anos, campanhas contra discussões de gênero, diversidade, raça, desigualdade e direitos humanos buscaram constranger professores, limitar práticas pedagógicas e transformar conflitos sociais em perseguição a educadores. No congresso, esse tema apareceu como ameaça concreta à liberdade de cátedra, à gestão democrática e ao papel da escola como ambiente de formação cidadã.


A relação entre conservadorismo e premiação docente também foi colocada em perspectiva. Em ambos os casos, a escola é pressionada por forças externas que tentam reduzir sua complexidade. De um lado, indicadores e metas podem estreitar o sentido de qualidade. De outro, movimentos conservadores tentam impor silêncio sobre temas que atravessam a vida dos estudantes. A defesa feita no debate aponta para uma escola que ensina conteúdos, mas também forma sujeitos capazes de conviver com a diferença, reconhecer direitos e participar da democracia.


Mulher fala ao microfone com um braço erguido em palco vermelho, diante de painéis com texto como Clientelismo e Mérito.
Professora Denise Botelho (UFRPE) em sua fala sobre mulheres | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao debate de gênero ampliou a leitura do congresso sobre democracia. A presença de Denise Botelho (UFRPE), educadora e militante do movimento LGBTQIAPN+, reforçou que a defesa da educação pública passa também pelo enfrentamento à violência, à discriminação e à exclusão de estudantes e profissionais que fogem dos padrões historicamente impostos por estruturas conservadoras.


A discussão deslocou o tema da diversidade do campo simbólico para o campo concreto das políticas educacionais. Uma escola democrática precisa proteger estudantes LGBTQIAPN+, mulheres, pessoas trans, travestis, pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e todos os grupos que sofrem violações dentro e fora do ambiente escolar.


Na prática, isso exige formação dos profissionais, protocolos contra violência, acolhimento, currículo comprometido com direitos humanos e atuação institucional contra o assédio moral, a transfobia, a LGBTfobia, o racismo e a misoginia. O debate também expôs que neutralidade, quando usada para silenciar violações, não protege a escola. Ao contrário, pode naturalizar desigualdades.


A fala de Denise Botelho se integrou ao eixo central do congresso ao tratar diversidade como dimensão da democracia. A escola pública, nesse sentido, não é apenas lugar de matrícula. É espaço de permanência, reconhecimento, segurança e construção de cidadania.


Homem de terno fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com mesa de debatedores ao fundo.
Professor Flávio Brayner do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

As diretoras Marília Cibelli e Katiane Cavalcanti aparecem nos registros públicos do segundo dia como parte da condução política dos debates. A presença delas reforça a função do congresso como espaço de mediação entre análise conjuntural, formulação sindical e experiência concreta da categoria nas escolas.


Esse ponto é decisivo. Em um congresso sindical, a palestra não encerra a discussão. Ela organiza problemas, apresenta diagnósticos e provoca a base a transformar reflexão em encaminhamento. As intervenções dos delegados e delegadas são parte do processo que define resoluções, prioridades e formas de mobilização.


No segundo dia, as discussões indicaram que o plano de lutas do Sintepe deve dialogar com uma agenda ampla: defesa do PNE, valorização da carreira, combate à precarização, crítica às políticas de bônus, enfrentamento ao conservadorismo, proteção da liberdade pedagógica, defesa da diversidade e cobrança por melhores condições de funcionamento da rede estadual.


Mulher de blusa azul-escura, olhar sério, diante de fundo branco com bandeira desfocada.
Governadora Raquel Lyra, recentemente denunciada pelo Sintepe ao MPPE e ao TCE-PE por possíveis fraudes em pagamentos de reformas em escolas da rede pública de Pernambuco que nunca foram realizadas | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O debate nacional ganha contornos específicos em Pernambuco. A rede estadual convive com desafios que envolvem infraestrutura, remuneração, carreira, gestão, contratos, saúde dos profissionais, permanência estudantil e desigualdades territoriais. Quando o congresso discute PNE, premiação docente e conservadorismo, não fala apenas de conceitos. Fala das condições reais de trabalho em escolas espalhadas pela Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão.


A categoria chega ao congresso com uma pauta que exige respostas do poder público. A defesa da escola pública aparece ligada à fiscalização de investimentos, à execução de reformas, ao cumprimento de direitos, à garantia de condições materiais e ao reconhecimento dos trabalhadores em educação como sujeitos centrais da política educacional.


Nesse sentido, o segundo dia funcionou como uma espécie de ponte entre diagnóstico e ação. Os palestrantes trouxeram fundamentos políticos e acadêmicos. A base sindical trouxe a experiência do cotidiano. A síntese que emerge desse encontro é que a qualidade da educação pública não se constrói com slogans, nem com premiações isoladas, nem com censura pedagógica. Ela depende de financiamento, democracia e trabalho valorizado.


Cartaz vermelho do 12º Congresso do Sintepe, com fotos de pessoas e igrejas, e texto branco e amarelo.
12° Congresso do SINTEPE | Fonte: Sintepe

O 12º Congresso do Sintepe segue até sexta-feira, 29 de maio. Até lá, os participantes devem consolidar avaliações, propostas e encaminhamentos que orientarão a atuação do sindicato no próximo período.


O segundo dia deixou evidente que a disputa pela educação pública em Pernambuco passa por uma agenda que combina questões materiais e democráticas. Salário, carreira e condições de trabalho são inseparáveis de currículo, liberdade pedagógica, diversidade, participação social e justiça socioambiental.


Ao reunir professores, professoras, trabalhadores administrativos, dirigentes sindicais, pesquisadores e militantes sociais, o congresso reafirma que a escola pública é um dos principais territórios de disputa do país. A questão que atravessa as mesas e plenárias é direta: sem democracia na educação, não há democracia plena na sociedade.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na cobertura de política, educação, direitos sociais e temas de interesse público, com foco em apuração, contexto e impacto para a vida coletiva.



Com a presença de lideranças sindicais e a conferência magna do sociólogo Jessé Souza, o 12° Congresso do Sintepe reafirma o compromisso dos trabalhadores da educação com a democracia e a justiça socioambiental


Por Raul Silva para O estopim | 26 de maio de 2026



O 12º Congresso do Sintepe foi aberto nesta terça-feira (26), em Gravatá, com um recado político direto: a defesa da democracia, da soberania nacional e da escola pública voltou ao centro da agenda sindical em Pernambuco. Reunido no Hotel Canárius até a sexta-feira, 29, o encontro mobiliza cerca de mil delegados e delegadas da rede estadual para atualizar o plano de lutas da categoria em meio à disputa por valorização profissional, melhores condições de trabalho e resposta do poder público para os problemas de infraestrutura das escolas.


A abertura do congresso começou com apresentação do grupo Guerreiros do Passo e do maestro Oséas com sua orquestra de frevo. O gesto não foi protocolar. Ao levar a cultura popular para o centro do plenário, o Sintepe demarcou que a discussão sindical não se separa da identidade social e política de Pernambuco.


Na sequência, a mesa política reuniu dirigentes sindicais, representantes de entidades e convidados do campo educacional e institucional. Participaram da abertura a direção do Sintepe, a presidenta da CNTE, Fátima Silva, o presidente da CUT Pernambuco, Paulo Rocha, o vice-presidente da Internacional da Educação para a América Latina, Heleno Araújo, além de representantes de instituições acadêmicas, movimentos sociais e parlamentares.


Grupo de Frevo Guerreiros do Passo
Grupo de Frevo Guerreiros do Passo, que recentemente desfilou no tapete vermelho no festival de cinema de Cannes | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Nas intervenções iniciais, o tom predominante foi de alerta contra o avanço conservador e de reafirmação da organização coletiva como instrumento de defesa de direitos. A presidenta licenciada do Sintepe, Ivete Caetano, citou Paulo Freire e Carolina Maria de Jesus para sustentar que democracia sem direitos concretos não passa de promessa vazia. Ao defender participação social, soberania alimentar, paz e autodeterminação entre os povos, Ivete recolocou a educação como parte de um projeto mais amplo de transformação social.


Fátima Silva, da CNTE, reforçou a necessidade de manter a educação pública no centro da disputa política. A dirigente vinculou o congresso à tarefa de preservar conquistas e ampliar direitos, num momento em que a categoria ainda enfrenta pressões salariais, precarização do trabalho e tentativas recorrentes de esvaziar o papel social da escola.


Já Paulo Rocha, da CUT Pernambuco, aproveitou a tribuna para aproximar a pauta educacional de debates mais amplos do mundo do trabalho, como o enfrentamento à escala 6 por 1, a ausência de regulamentação efetiva do direito de greve e as dificuldades de negociação no serviço público. Heleno Araújo, por sua vez, retomou a trajetória histórica das lutas sindicais na educação e reforçou o lema do encontro ao cobrar democracia, soberania e justiça socioambiental como eixo de ação política.


A presidenta em exercício do Sintepe, Cíntia Sales, resumiu o espírito da abertura ao afirmar que a presença dos delegados e das delegadas no congresso representa mais um passo na construção da consciência política da categoria.


Professor e escritor Jessé de Souza durante Congresso do Sintepe
O professor e escritor Jessé de Souza durante palestra no 12° Congresso do Sintepe | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A conferência de abertura ficou a cargo do escritor e sociólogo Jessé Souza. Ao falar para o plenário, ele deslocou o debate do terreno imediato da conjuntura para uma explicação estrutural do Brasil. Seu argumento central foi o de que a escravidão não é um capítulo encerrado da história nacional, mas uma lógica que segue organizando hierarquias sociais, formas de humilhação e mecanismos de concentração de poder.


Ao afirmar que é preciso compreender como a escravidão atravessa cerca de cinco séculos da formação brasileira, Jessé Souza conectou passado e presente para sustentar que a desigualdade não pode ser tratada como acidente. Nesse enquadramento, a crise social brasileira deixa de ser vista como falha eventual de gestão e passa a ser entendida como parte de uma engrenagem histórica que naturaliza pobreza, violência e exclusão.


A escolha de Jessé Souza para a conferência de abertura ajuda a explicar a linha política que o congresso quer imprimir. O Sintepe não abriu seus trabalhos olhando apenas para a negociação de curto prazo. Abriu, sobretudo, tentando ligar salário, escola, democracia e estrutura social numa mesma leitura de país.


Caderno de Teses que serão debatidas pelos delegados durante o Congresso
Caderno de Teses que serão debatidas pelos delegados durante o Congresso | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O caderno de teses distribuído aos participantes reforça essa mesma direção. Nas páginas iniciais, o documento apresenta uma leitura internacional crítica ao neoliberalismo, ao conservadorismo e à extrema direita, defende a autodeterminação dos povos, o multilateralismo e a paz, condena a escalada de guerras e chama atenção para o impacto da crise climática e das disputas geopolíticas sobre a vida da classe trabalhadora.


Na parte dedicada à conjuntura nacional, o texto recupera os ataques de 8 de janeiro de 2023, trata a tentativa de golpe como expressão organizada da extrema direita e associa a reconstrução democrática à retomada de políticas sociais e à defesa das instituições. Já no debate ambiental, o material coloca Amazônia, Cerrado e Semiárido no centro da agenda e afirma que a justiça socioambiental não pode ser separada da desigualdade social.


Em outra frente, a organização do congresso dividiu as resoluções em oito eixos, que vão da conjuntura internacional ao plano de lutas. Na prática, isso mostra que o encontro foi desenhado para ir além do balanço interno do sindicato. A intenção é produzir orientação política para a categoria num ano em que a educação pública volta a ser pressionada tanto pela lógica fiscal quanto pela disputa ideológica.


A abertura do 12º Congresso do Sintepe ocorre poucas semanas depois de o sindicato conquistar, na Alepe, a aprovação do reajuste linear de 5,4% para a carreira da educação em 2026. Também acontece num momento em que a entidade elevou o tom das denúncias sobre a situação física das escolas estaduais e passou a cobrar explicações sobre obras e reformas que, segundo o sindicato, consumiram recursos elevados sem resolver problemas elementares de infraestrutura.


Esse pano de fundo ajuda a entender por que o congresso começou discutindo democracia e soberania, mas sem perder de vista climatização, merenda, condições de trabalho, carreira e investimento real na rede pública. Em Pernambuco, a disputa sindical continua sendo, ao mesmo tempo, uma disputa sobre orçamento, reconhecimento profissional e sentido público da educação.


Ao abrir seu 12º Congresso do Sintepe com cultura popular, falas políticas e uma conferência centrada na herança escravocrata do país, o Sintepe sinaliza que pretende discutir o presente sem abrir mão da história. O sindicato reúne sua base para deliberar sobre caminhos concretos da luta sindical, mas também para formular uma interpretação do Brasil e do lugar da educação nessa disputa.


Mais do que um rito interno, a abertura em Gravatá expôs uma tese política. Para o Sintepe, não haverá valorização da categoria sem democracia efetiva, não haverá escola pública forte sem investimento e não haverá projeto educacional consistente enquanto a desigualdade seguir sendo tratada como paisagem.

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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, educação e temas de interesse público com foco em apuração, contexto e impacto social.


Por Raul Silva para O estopim | 2 de Abril de 2026



Pessoas sentadas em um palco durante a inauguração da Estação Elevatória da Adutora do Agreste. Painel colorido ao fundo exibe o nome do evento.
Inauguração da Estação Elevatória da Adutora do Agreste em Arcoverde, PE, com a presença de autoridades como o presidente Lula, a governadora Raquel Lyra e a senadora Teresa Leitão em Abril de 2024. | Foto Raul Silva/Agência O estopim

O governo federal, em parceria com o Governo de Pernambuco, acelerou a Adutora do Agreste e transformou a obra em uma das principais vitrines da política hídrica no estado. A primeira etapa do sistema, estimada em R$ 2 bilhões, deve beneficiar 1,3 milhão de pessoas em 23 municípios do Agreste pernambucano, com água da transposição do Rio São Francisco. Em 2026, o projeto voltou ao centro da agenda porque trechos novos começaram a operar, casos históricos de rodízio severo começaram a ceder e cidades como Bezerros e Gravatá passaram a entrar, de forma mais concreta, no mapa da segurança hídrica regional.


O peso político da obra é evidente. Em Pernambuco, onde água sempre foi tema de memória, sobrevivência e disputa, a imagem de Lula associada à Adutora do Agreste tem forte valor simbólico. Mas a dimensão jornalística do caso exige mais do que slogan. A obra de fato avança, o investimento federal é robusto e o impacto social esperado é expressivo. Ao mesmo tempo, o projeto atravessa diferentes governos, exige contrapartida estadual, ainda cobra frentes pendentes e convive com cronogramas oficiais que já variaram entre 2026 e 2027 para a conclusão da primeira etapa.


Em outras palavras, a frase usada por aliados do Planalto, de que o governo Lula está do lado do povo de Pernambuco, ganha força política porque se apoia em entregas reais. Mas o que sustenta essa narrativa, no plano concreto, são tubos assentados, estações em operação, água chegando mais perto das torneiras e um sistema que ainda precisa ser concluído para cumprir toda a promessa anunciada.


O que está em jogo para a Adutora do Agreste


A Adutora do Agreste não é uma obra isolada. Ela integra a engenharia de distribuição da água da transposição do Rio São Francisco para o interior de Pernambuco. Seu papel é transformar uma infraestrutura macro, o Projeto de Integração do São Francisco, em abastecimento efetivo para cidades e populações que historicamente conviveram com escassez, rodízios prolongados e dependência de mananciais instáveis.


O sistema foi desenhado para ser uma das maiores estruturas integradas de abastecimento humano do país. Quando concluído por completo, deverá contar com 1.500 quilômetros de adutoras e capacidade de levar até 4 mil litros de água por segundo para o Agreste pernambucano. Na primeira etapa, a meta é atingir 2 mil litros por segundo, suficiente para ampliar de forma estrutural a oferta hídrica a dezenas de municípios.


O que isso significa, na prática, é simples. O projeto não trata apenas de levar água para onde falta. Trata de reorganizar a segurança hídrica de uma região inteira, reduzir a dependência de reservatórios locais fragilizados e criar condições mais estáveis para a vida urbana, a atividade econômica e o planejamento público.


Os dados oficiais mais consistentes sobre a primeira etapa apontam para este quadro:

  • investimento total estimado: R$ 2 bilhões

  • população beneficiada na primeira etapa: 1,3 milhão de pessoas

  • municípios beneficiados na primeira etapa: 23

  • capacidade prevista da primeira etapa: até 2 mil litros por segundo

  • capacidade prevista do sistema completo: 4 mil litros por segundo

  • extensão prevista do sistema completo: 1.500 quilômetros de adutoras


Há um detalhe importante de contabilidade pública. O valor de R$ 2 bilhões aparece com frequência na comunicação da Compesa e do governo estadual para a primeira etapa. Já documentos federais de planejamento registram a implantação do Sistema Adutor do Agreste pernambucano em rubricas próprias, com números específicos conforme o recorte orçamentário adotado. Isso não invalida a cifra de R$ 2 bilhões como referência da etapa. Mas mostra que, em obras dessa escala, nem sempre o valor comunicado politicamente e o valor registrado em determinado programa orçamentário aparecem de forma idêntica.


O que já foi entregue


O marco mais visível do atual ciclo foi a inauguração, em abril de 2024, da Estação Elevatória de Água Bruta de Ipojuca e do trecho Belo Jardim–Caruaru. Naquele momento, a estrutura passou a ser tratada como peça decisiva para a conclusão da primeira etapa e para a ampliação do atendimento imediato.


Com essa entrega, o número de municípios atendidos diretamente pela adutora subiu de seis para nove, e o abastecimento regular previsto saltou de 190 mil para 615 mil pessoas. O sistema de bombeamento também elevou fortemente a capacidade da estrutura, abrindo caminho para o desenho final da primeira etapa.


Em janeiro de 2026, outro passo importante ocorreu com a entrada em operação do Lote 5B no trecho que chega a Bezerros. A mudança foi concreta. Uma cidade que vivia sob um regime severo de rodízio, com cinco dias com água e 25 dias sem, passou a ter cerca de 93% da área urbana com abastecimento diário, segundo a Compesa. Cerca de 65 mil pessoas foram diretamente beneficiadas.


Na sequência, em março de 2026, Gravatá entrou na fase final de preparação para receber, pela primeira vez, água do Rio São Francisco por meio da Adutora do Agreste. A nova etapa envolve estação de tratamento própria e deve beneficiar cerca de 92 mil pessoas.


Esses movimentos ajudam a separar promessa de entrega. O sistema ainda não terminou, mas já produz efeitos mensuráveis em cidades que viviam com alta vulnerabilidade hídrica.


Como a água chega ao Agreste


A engenharia da Adutora do Agreste é mais complexa do que costuma aparecer nos discursos oficiais. O sistema envolve:


  • unidades de captação

  • adutoras de água bruta

  • estação elevatória de água bruta

  • reservatórios de água bruta

  • estações de tratamento

  • adutoras de água tratada

  • estações elevatórias de água tratada


Essa arquitetura é importante porque água transposta não vira abastecimento por mágica. Entre captar e entregar, é preciso bombear, tratar, armazenar, controlar pressão, distribuir e integrar sistemas antigos e novos.


No caso da primeira etapa, a Estação Elevatória de Água Bruta inaugurada em 2024 passou a ser o coração desse salto operacional. Ela ampliou a capacidade de transporte da água que antes chegava provisoriamente pelo Sistema Moxotó e destravou a lógica de expansão mais robusta para o Agreste.


Mas ainda há obras complementares pendentes. Entre elas, aparecem a Estação de Tratamento de Água em Pesqueira e novas estações elevatórias previstas para municípios como Buíque e Iati. Ou seja, a espinha dorsal já avançou, mas o fechamento fino do sistema ainda cobra execução.


Pessoa de camisa jeans acena sorridente. Fundo azul com texto parcialmente visível: "nauguração". Outras pessoas ao fundo.
Presidente Lula durante a inauguração da Estação Elevatória da Adutora do Agreste em Ipojuca, povoado de Arcoverde, Pernambuco, em abril de 2024, acena para a plateia com um sorriso. | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Quem será beneficiado


Quando a primeira etapa estiver integralmente concluída, os 23 municípios previstos são:


  • Arcoverde

  • Pesqueira

  • Alagoinha

  • Sanharó

  • Belo Jardim

  • Tacaimbó

  • São Bento do Una

  • São Caetano

  • Caruaru

  • Bezerros

  • Gravatá

  • Santa Cruz do Capibaribe

  • Toritama

  • Brejo da Madre de Deus

  • Pedra

  • Venturosa

  • Buíque

  • Tupanatinga

  • Itaíba

  • Águas Belas

  • Iati

  • Cachoeirinha

  • Lajedo


A lista ajuda a dimensionar o alcance social e regional da obra. Não se trata de uma intervenção localizada. Trata-se de uma malha que conecta centros urbanos médios, cidades em expansão e municípios historicamente pressionados por seca, reservatórios frágeis e dependência de soluções emergenciais.


O impacto prometido vai além do consumo doméstico. Segurança hídrica afeta produtividade, saúde pública, atração de investimentos, rotina escolar, atividade comercial e custo operacional de serviços públicos. Em cidades com rodízio severo, falta d’água não é apenas incômodo. É freio econômico.


Quando o abastecimento se torna mais regular, os efeitos se espalham por vários setores. Comércio, bares, restaurantes, lavanderias, pequenas indústrias, escolas, hospitais e serviços municipais passam a operar com menos improviso. No campo, mesmo quando a adutora é pensada prioritariamente para consumo humano, a regularidade do abastecimento urbano também reduz pressão sobre outras fontes de água e melhora a organização produtiva do território.


Estudos e diagnósticos sobre segurança hídrica no Nordeste apontam, há anos, que a escassez de água compromete não só a qualidade de vida, mas também a capacidade de desenvolvimento regional. No caso de Pernambuco, esse diagnóstico é ainda mais severo em áreas dependentes de mananciais vulneráveis e de reservação limitada.


Por que a obra é estratégica em Pernambuco


A Adutora do Agreste volta a ganhar centralidade num momento em que o debate sobre seca e segurança hídrica voltou a se intensificar no estado. O pano de fundo não é apenas histórico. É atual.


Pernambuco continua pressionado por limitações estruturais de reservação, distribuição desigual da água e forte exposição a eventos de escassez. Estudos do Ipea sobre segurança hídrica e análises ligadas ao Projeto de Integração do São Francisco mostram que o estado aparece com fragilidades relevantes justamente na dimensão de resiliência hídrica. Em termos simples, Pernambuco ainda não dispõe, de forma homogênea, de reserva e infraestrutura suficientes para responder com folga às oscilações climáticas e às secas prolongadas.


É por isso que obras desse porte assumem papel estratégico. Elas não resolvem sozinhas todos os problemas da água no estado, mas alteram o patamar de segurança da oferta em regiões inteiras.


Os números e as entregas recentes sustentam a leitura de que o governo Lula recolocou a Adutora do Agreste entre as prioridades federais em Pernambuco. O governo federal informou, em 2024, já ter investido mais de R$ 1,2 bilhão no projeto, enquanto o governo estadual aparecia com R$ 200 milhões de contrapartida naquele recorte.


Além do dinheiro, houve decisão política de associar a obra à narrativa de reconstrução da presença federal no Nordeste. Isso ficou evidente na agenda presidencial em Arcoverde, nas falas públicas de Lula sobre o peso da água tratada para a saúde e para a dignidade e na incorporação da obra ao discurso do Novo PAC e da segurança hídrica.


Mas é preciso registrar uma nuance essencial. A Adutora do Agreste não nasceu agora. Ela atravessa mais de um governo, tanto em Brasília quanto no Recife. O compromisso formal da primeira parte remonta a 2011, a obra teve fases de lentidão e retomada, e o sistema se conecta a estruturas da transposição que também foram executadas em diferentes administrações. Em matéria de infraestrutura hídrica, a disputa política é intensa, mas a cronologia das obras costuma ser mais longa do que os mandatos.


Pessoas com capacetes inauguram estação, revelando placa coberta por pano. Banner azul à esquerda com texto "ÁGUA QUE MUDA VIDAS". Ambiente festivo.
Lula e Raquel Lyra participam da inauguração da Estação Elevatória da Primeira Etapa da Adutora do Agreste, destacando a importância do projeto para o abastecimento hídrico da região. | Foto: Sandy James/DP

Outro ponto central é que a obra só avança com coordenação federativa. A execução, em trechos importantes, passa pela Compesa, sob responsabilidade do Governo de Pernambuco. Foi essa engrenagem conjunta que permitiu transformar água transposta em abastecimento efetivo em cidades como Bezerros e na preparação de Gravatá.


A parceria também ajuda a explicar por que a Adutora do Agreste se converteu em ativo político para diferentes atores. Lula capitaliza a dimensão federal do investimento. Raquel Lyra capitaliza a execução estadual e a entrega concreta em municípios que conviviam com grave insegurança hídrica. Para a população, a disputa de paternidade importa menos do que a regularidade da água. Mas, no terreno político, ela certamente continuará.


Onde a narrativa oficial encontra limite


Apesar do avanço, a matéria não pode ignorar os pontos de cautela.


O primeiro é o prazo. Em 2024 e no início de 2026, parte da comunicação oficial falava em conclusão da primeira etapa ainda em 2026. Já em março de 2026, comunicação posterior da Compesa passou a mencionar 2027 como expectativa para finalizar a etapa. Esse deslocamento não invalida a obra. Mas mostra que o cronograma permanece sensível.


O segundo ponto é que a entrega parcial já melhora a vida de cidades específicas, porém ainda não autoriza tratar o problema da água no Agreste como resolvido. Há trechos em execução, estruturas complementares pendentes e necessidade de manter operação, manutenção e integração com outros sistemas.


O terceiro é o da sustentabilidade da política hídrica. Grandes obras ajudam a garantir oferta, mas precisam caminhar junto com redução de perdas, gestão eficiente, proteção de mananciais, monitoramento climático e planejamento de longo prazo.


Hoje, a Adutora do Agreste representa três coisas ao mesmo tempo.


A primeira é uma obra de infraestrutura concreta, com água chegando mais perto da vida real de milhares de pessoas.


A segunda é uma política pública de segurança hídrica, num estado que ainda convive com alta vulnerabilidade no acesso regular à água.


A terceira é um símbolo político. Para o governo Lula, ela ajuda a reconstruir a imagem de presença federal em Pernambuco. Para a gestão estadual, ela mostra capacidade de execução. Para o Agreste, ela funciona como teste decisivo de uma promessa antiga: a de que a água do São Francisco, enfim, pode deixar de ser anúncio e virar rotina.


O quadro é de avanço real, mas ainda inconcluso. O governo Lula investe pesadamente na Adutora do Agreste e, com apoio do Governo de Pernambuco, consegue apresentar resultados concretos em municípios que viveram anos de escassez severa. A primeira etapa continua estimada em R$ 2 bilhões, mira 23 municípios e 1,3 milhão de pessoas e já começou a produzir mudanças visíveis em pontos estratégicos do Agreste.


Ao mesmo tempo, a obra ainda precisa vencer o desafio clássico da infraestrutura brasileira: transformar inaugurações importantes em sistema integralmente concluído, operando com estabilidade e entregando a promessa completa que justificou o investimento.


É nesse ponto que a disputa política e o interesse público finalmente se encontram. Para o Planalto, a obra rende narrativa. Para Pernambuco, ela precisa render água.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em política, infraestrutura, economia e análise de conjuntura. Trabalha com apuração factual, cruzamento de dados e cobertura orientada pelo interesse público.

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