Por Amanda Oliveira | O estopim | 23 de agosto de 2026
A Banda Cabeça de Alho, de Arcoverde, levou o show “Forró de Corpo e Alma” ao Palco Matrizes do Forró do Festival Pernambuco Meu País, em Buíque, neste sábado (22). | Foto: Amanda Oliveira
A Banda Cabeça de Alho, da cidade de Arcoverde, foi uma das atrações do Palco Matrizes do Forró neste sábado, 22 de agosto. O grupo arcoverdense levou ao palco do festival o seu novo show " Forró de Corpo e Alma" que faz uma homenagem à alma musical do Nordeste.
Unindo canções autorais e releituras de clássicos de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, João Silva, Jorge de Altinho e Jackson do Pandeiro, o show atravessa ritmos como o forró, xote, baião, coco e xaxado, traduzindo a riqueza e a diversidade cultural do povo nordestino.
Banda Cabeça de Alho apresenta o show Forró de Corpo e Alma no Festival Pernambuco Meu País em Buíqu
Banda Cabeça de Alho apresenta o show Forró de Corpo e Alma no Festival Pernambuco Meu País em Buíqu
Banda Cabeça de Alho apresenta o show Forró de Corpo e Alma no Festival Pernambuco Meu País em Buíqu
Banda Cabeça de Alho apresenta o show Forró de Corpo e Alma no Festival Pernambuco Meu País em Buíqu
Banda Cabeça de Alho apresenta o show Forró de Corpo e Alma no Festival Pernambuco Meu País em Buíqu
O público presente ao palco , localizado em plena feira, pôde fazer uma viagem viagem pelas raízes da música nordestina e dançar muito forró. A banda possui seis anos de estrada e já lançou dois álbuns. Em 2021, a Cabeça de Alho lançou o álbum "Temperando o Forró", composto por dez faixas autorais, reafirmando sua identidade e criatividade. Já em 2023, foi a vez do lançamento de "Simboraa Forrozaar", também com dez músicas inéditas, incluindo o sucesso "Tá Muito Bom", que conta com a participação especial do mestre Cicero Gomes do Samba de Coco Trupé de Arcoverde.
A trajetória da banda inclui participações em importantes eventos culturais, como o Festival Cultural da Juventude da Pedra, a tradicional Festa de Reis e o São João de Arcoverde, além de apresentações na Expo Sertão em Petrolândia, no Festival Danado de Bom e a tradicional Sambada do Trupé em Arcoverde.
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Último dia do festival reuniu circo, gastronomia, forró, cultura periférica, artes cênicas e exposições em diferentes pontos da cidade
Por Clarice Drummond para O estopim Cultura |
9 de Agosto de 2026
Festival Pernambuco Meu País ocupou diferentes espaços de Arcoverde com programação cultural gratuita neste domingo (9). | Foto: Juana Carvalho/Secult-PE
O último dia do Festival Pernambuco Meu País em Arcoverde, neste domingo (9), foi marcado por filas, atividades interativas e ocupação de diferentes espaços públicos da cidade. Em pleno Dia dos Pais, famílias acompanharam uma programação gratuita que reuniu circo, gastronomia, forró, hip-hop, artes cênicas, exposições e manifestações da cultura popular.
No País do Circo, a procura foi intensa durante a tarde, com filas para acompanhar as apresentações da Trupe Carcará e do Circo Itinerante Alves. Entre o público estavam Charles Barros e Cristiane Feitosa, acompanhados dos filhos Miguel, Henrique e Sofia, trigêmeos de 5 anos. A família escolheu o festival como programa para o Dia dos Pais depois de não conseguir acompanhar as sessões do sábado.
O Centro de Gastronomia e Artesanato também concentrou público durante boa parte do domingo. No espaço, a chef Carmen Virgínia apresentou uma performance de gastronomia afetiva, enquanto Kaique Rossete comandou uma oficina de mixologia com carraspana. Depois, o forró tomou conta do local com Os Três do Cariri, Zelyto Madeira e Mazinho de Arcoverde.
Para trabalhadores locais, a circulação de visitantes também ampliou as possibilidades de venda. A comerciária Cleide Gonçalves, produtora de carraspana, contou que o festival ajuda a apresentar seu trabalho a novos consumidores e pode gerar encomendas mesmo depois do encerramento da programação.
A cultura periférica ganhou espaço no País da Música, com batalha de MCs, breaking, baile charme, rap e hip-hop. Passaram pelo palco Batalha dos Bruxos, Coletivo de Breaking Jaboatonense, Baile Charme, Okado do Canal e Banda Viruz. Crianças e famílias participaram de diferentes atividades ao longo da tarde.
Outros pontos de Arcoverde receberam cortejos de cultura popular, apresentações de “Caminhos” e “Auto da Compadecida”, exposições de artes visuais e atividades formativas. Bois, quadrilhas, bacamarteiros, afoxés, urso e maracatu também circularam por bairros e praças da cidade.
Arcoverde foi a quarta parada da terceira edição do Pernambuco Meu País, depois de Pesqueira, Salgueiro e Gravatá. A próxima cidade a receber o festival será Bezerros. O evento é realizado pelo Governo de Pernambuco, por meio da Secult-PE, Fundarpe e Empetur, em parceria com os municípios participantes.
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Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.
Por Raul Silva para O estopim | 24 de junho de 2026
Rodrigo Barbosa, o Bahia do Hype, critica a descaracterização do São João, a perda de espaço do forró e a desvalorização dos artistas da terra nas festas juninas.
Wesley Safadão, Iguinho e Lulinha e Kuré fazem da quinta uma das maiores noites do São João de Arcoverde 2026 | Foto: Prefeitura de Arcoverde/Página Oficial da Prefeitura
O influenciador digital Rodrigo Barbosa, o Bahia do Hype, reacendeu nesta semana um debate que já vinha ganhando corpo entre forrozeiros, produtores culturais e parte do público nordestino: a descaracterização das festas juninas. Em vídeo publicado nas redes, ele critica a perda de espaço dos artistas ligados à tradição do São João, mas vai além do questionamento sobre programações dominadas por ritmos alheios à festa, ele destaca um elemento ainda mais incômodo nessa equação: a própria população local, que reclama da perda da identidade cultural, mas muitas vezes não valoriza os artistas da terra com a mesma força com que prestigia atrações de fora. Ou seja, a população cobra tradição no São João, mas abandona o artistas da terra.
A fala de Rodrigo não surgiu no vazio. Ela se conecta a uma sequência de desabafos de artistas regionais que, nos últimos anos, vêm denunciando a transformação do São João em um produto de escala, com estética de festival, cachês inflados, camarotes, áreas exclusivas e grades artísticas cada vez mais distantes do repertório que historicamente deu sentido à festa. O problema, segundo esses relatos, não é apenas musical. É também simbólico, econômico e político.
O centro da crítica feita por Rodrigo Barbosa está menos na oposição simplista entre artistas locais e artistas nacionais e mais numa contradição social que atravessa o debate junino. Para ele, não basta responsabilizar prefeituras, empresários ou produtoras. Há uma parcela de responsabilidade do próprio público, que costuma se indignar com a descaracterização da festa, mas nem sempre comparece, consome, compartilha ou prestigia o artista regional com a mesma intensidade dedicada às atrações de apelo mais massivo.
Esse ponto é decisivo porque desloca a discussão de um terreno exclusivamente administrativo para um problema de comportamento cultural. Ao fazer isso, Rodrigo toca numa ferida antiga do Nordeste: a tendência de valorizar mais o que chega embalado de fora do que aquilo que nasce no próprio território.
No São João, essa lógica aparece com clareza. O forrozeiro local, o trio pé de serra, a quadrilha do bairro, o sanfoneiro da cidade e os artistas que carregam repertório junino tradicional seguem sendo celebrados no discurso, mas muitas vezes são empurrados para horários secundários, palcos menores ou cachês irrisórios, sem mobilização equivalente do público.
A fala do influenciador se cruza com manifestações públicas de artistas que passaram a se posicionar com mais força neste ciclo junino. O cantor Flávio José voltou a denunciar a perda de espaço do forró tradicional e a descaracterização das grades. A cantora Walkyria Santos criticou a diferença de tratamento dada ao forró em comparação com atrações sertanejas. Em Pernambuco, Cristina Amaral resumiu a percepção de muitos artistas ao afirmar que o São João “virou um festival”, expressão que sintetiza uma transformação cada vez mais visível nas grandes programações.
O ponto de convergência entre essas falas está na crítica à perda de centralidade da cultura junina tradicional. Já a cobrança direta à população local, que reclama mas nem sempre valoriza os artistas da própria terra, aparece de forma mais explícita na fala de Rodrigo Barbosa. Os artistas, por sua vez, têm concentrado suas críticas na perda de espaço, na desigualdade de cachês e no modelo de festa cada vez mais orientado pela lógica do espetáculo.
As festas juninas sempre foram dinâmicas e nunca existiram em estado puro. O São João do Nordeste incorporou influências ao longo do tempo e sempre conviveu com mudanças. O que está em discussão hoje, porém, não é a simples renovação da cultura, mas a troca do eixo central da festa.
Historicamente, o São João foi construído como uma celebração popular de rua, ancorada na convivência comunitária, no forró, nas quadrilhas, nas comidas típicas, nas fogueiras, nos cortejos e na ocupação afetiva dos espaços urbanos. Quando o centro da programação passa a ser definido quase exclusivamente pela capacidade de atrair multidões, produzir imagens virais e disputar atenção com outras cidades, a festa deixa de girar em torno da tradição e passa a obedecer à lógica do espetáculo.
É nesse ponto que a expressão “festivalização” ganha força. O São João permanece com bandeirolas, milho e figurino temático, mas em muitos casos muda de alma. O que antes era uma festa com identidade local própria se transforma em uma vitrine padronizada, com atrações semelhantes em cidades diferentes, repertórios intercambiáveis e pouca margem para o sotaque cultural de cada território.
A discussão se torna ainda mais delicada quando entra o volume de recursos públicos envolvidos. Em 2026, o Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público da Bahia consolidou números que recolocaram o tema no centro do debate. O problema não está em reconhecer que o São João move economias locais, gera renda e atrai turismo. Isso é real e relevante. O próprio poder público sustenta esse argumento. Ainda assim, o mesmo debate oficial passou a admitir que o modelo chegou a um limite.
A campanha São João sem Milhão, defendida por prefeitos baianos, e a reserva de 25% dos investimentos estaduais para artistas do autêntico forró mostram que até dentro das estruturas de poder já existe a percepção de que a balança pendeu demais para o lado do mercado.
Prefeituras e governos costumam defender as grandes contratações com um raciocínio conhecido. A festa atrai visitantes, aquece hotelaria, bares, restaurantes, transporte e comércio informal. Em muitos municípios, junho funciona como um período decisivo para a renda de milhares de trabalhadores. Esse argumento não pode ser descartado.
Mas ele também não resolve sozinho a crítica principal. A pergunta que emerge dos artistas e de vozes como a de Rodrigo Barbosa é outra: desenvolvimento para quem e em que termos? Quando uma festa financiada com dinheiro público concentra grande parte do orçamento em poucas atrações externas, diminui a presença dos artistas da região, empurra manifestações tradicionais para espaços secundários e ainda amplia áreas pagas ou exclusivas dentro de um evento popular, o resultado pode até ser lucrativo em termos econômicos, mas culturalmente empobrecedor.
Em outras palavras, o debate não é entre fazer festa ou não fazer festa. É entre qual festa está sendo financiada e quem realmente ocupa o centro dela.
É justamente aí que a fala de Rodrigo ganha densidade. Ao dizer, em essência, que o povo também participa dessa desvalorização, ele rompe com uma narrativa cômoda. É mais fácil atribuir toda a responsabilidade aos gestores do que admitir que a cultura também é enfraquecida por hábitos cotidianos de consumo.
O artista local sofre antes mesmo de subir ao palco. Sofre quando é tratado como “abertura”, quando recebe cachê muito inferior, quando precisa implorar por espaço em sua própria cidade, quando tem menos engajamento nas redes, quando só é lembrado em discursos oficiais sobre identidade cultural e quando sua arte é consumida como tradição decorativa, não como centro da festa.
Rodrigo chama a atenção para um traço recorrente da vida cultural nordestina: o orgulho regional nem sempre se converte em prática de valorização. Muita gente diz defender o forró, mas não acompanha o forró. Diz defender a cultura local, mas não prestigia, na mesma medida, quem produz essa cultura dentro do próprio território. Diz que o São João perdeu as raízes, mas ajuda a alimentar a lógica que desloca essas raízes para o canto do palco.
O que está em disputa não é só a presença de um gênero musical em determinada grade. O que está em disputa é o sentido público do São João. Quando a festa deixa de ser pensada como experiência comunitária e passa a ser organizada como produto competitivo, a memória coletiva perde espaço para a performance mercadológica.
Essa transformação produz efeitos visíveis. Cidades diferentes passam a parecer a mesma festa. O repertório se homogeneíza. Os símbolos tradicionais viram decoração. A praça pública deixa de ser suficiente. O camarote vira signo de status. O povo continua presente, mas em condições distintas de acesso e pertencimento. E o artista da terra, que deveria ser guardião natural daquela celebração, passa a disputar sobras de visibilidade em casa.
Ao vocalizar esse incômodo de forma direta, popular e sem linguagem acadêmica, Rodrigo Barbosa cumpre um papel que muitas vezes falta ao debate institucional. Ele traduz para a linguagem das redes um conflito cultural profundo. E faz isso sem poupar o público, o que explica a repercussão do vídeo.
Seu argumento central é duro porque atinge uma zona de conforto: a de quem denuncia a descaracterização, mas ajuda a sustentá-la. Ao colocar o povo dentro da conta, Rodrigo não absolve gestores. Ao contrário. Ele amplia a responsabilidade. Mostra que prefeitos contratam porque existe demanda, que empresários apostam no que mobiliza audiência e que a política local se aproveita de uma engrenagem na qual tradição e mercado já não estão em equilíbrio.
Se o Nordeste quiser preservar a força simbólica do São João, a discussão não poderá se limitar ao tamanho do palco nem ao nome mais caro do cartaz. Será preciso reordenar prioridades, garantir espaço digno para artistas regionais, proteger a centralidade do forró e das manifestações juninas, ampliar critérios de transparência e rever a ocupação privada de festas públicas.
Mas nada disso produzirá efeito duradouro se o público continuar tratando a cultura local como discurso de ocasião. A crítica de Rodrigo Barbosa expõe exatamente isso: a tradição não desaparece apenas por decisão de gabinete. Ela também se enfraquece quando deixa de ser escolhida.
No fim, a pergunta que fica não é apenas se os prefeitos estão transformando o São João em vitrine eleitoral ou produto turístico. A pergunta mais incômoda é se a própria sociedade nordestina está disposta a defender, na prática, aquilo que diz amar no discurso. E, nesse ponto, o vídeo do Bahia do Hype toca onde mais dói: talvez a crise do São João não esteja só no palco, mas também na plateia.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação voltada para reportagem, análise e cobertura de temas de interesse público, política, cultura e cotidiano nordestino.