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Datafolha revela clivagem política: Raquel é mais forte entre bolsonaristas e evangélicos; João, entre petistas, pretos e eleitores de menor escolaridade.


Por Raul Silva para O estopim |

Cobertura das Eleições 2026

21 de agosto de 2026



Raquel Lyra e João Campos durante a campanha ao Governo de Pernambuco nas eleições de 2026.
Raquel lidera, mas os recortes do Datafolha mostram uma disputa política mais profunda, atravessada por lulismo, bolsonarismo, voto popular e avaliação dos serviços públicos. | Foto: Reprodução

A eleição para o Governo de Pernambuco entrou na campanha oficial com Raquel Lyra (PSD) na liderança e João Campos (PSB) tentando reorganizar a disputa a partir de uma frente política apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Datafolha divulgado nesta sexta-feira, 21 de agosto, registra 47% para Raquel e 40% para João. O levantamento anexado a esta análise, realizado no fim de julho, mostrava 48% a 42%. Mais importante do que observar apenas a distância entre os dois, porém, é entender quem está votando em cada candidatura e que campos políticos começam a se formar em torno delas.


A pesquisa de julho ouviu 1.022 eleitores entre 28 e 30 de julho, antes do início oficial da campanha, com margem de erro de três pontos percentuais. A nova rodada entrevistou 1.204 pessoas entre 18 e 20 de agosto, já com candidatos nas ruas. Os dois levantamentos mostram uma eleição concentrada em Raquel e João, mas os cruzamentos revelam uma disputa social e ideológica muito menos homogênea do que os números gerais sugerem.



A eleição não é apenas Raquel Lyra contra João Campos


A corrida pernambucana não pode ser reduzida a um confronto de personalidades, máquinas partidárias ou estilos de comunicação.


Há uma disputa por direção política do Estado. De um lado, Raquel Lyra tenta transformar a condição de governadora, a avaliação de sua gestão e uma ampla rede de alianças municipais em voto pela continuidade. Ao mesmo tempo, evita assumir um lado na eleição presidencial e tenta preservar interlocução com o governo Lula.


Do outro, João Campos procura reorganizar a tradicional Frente Popular em torno do PSB, do PT e de outras forças, apresentando-se como o candidato ligado a Lula em Pernambuco e tentando aproximar sua candidatura de um campo popular, progressista e democrático.


Essa divisão, porém, não é perfeita. Nem todo eleitor de Lula está com João. Nem todo eleitor de Raquel é bolsonarista. E João tampouco representa sozinho toda a esquerda pernambucana. Os dados ajudam justamente a desmontar essas simplificações.


Raquel lidera, mas sua força é especialmente alta no eleitorado conservador


No Datafolha de julho, Raquel registrava 48% das intenções de voto. Mas alguns segmentos estavam muito acima dessa média.


Entre os evangélicos, chegava a 60%, contra 29% de João. Entre eleitores que declaravam preferência pelo PL, Raquel alcançava 77%, enquanto João tinha 14%. Entre os que pretendiam votar em Flávio Bolsonaro para presidente, a governadora chegava a 76%.



O novo Datafolha reforça essa característica da base eleitoral. Entre os eleitores classificados como bolsonaristas, Raquel aparece com 69%, contra 22% de João. Entre os que não se identificam nem com o petismo nem com o bolsonarismo, ela também lidera, com 49%.


Isso não autoriza chamar Raquel de candidata formal do bolsonarismo. A governadora não assumiu Flávio Bolsonaro como candidato presidencial e mantém posição de neutralidade na disputa nacional.


O que os números permitem afirmar é outra coisa: o eleitorado bolsonarista de Pernambuco encontra hoje em Raquel sua principal opção competitiva para o Governo do Estado.


Essa diferença é fundamental. A política não se resume às declarações dos candidatos. Também é formada pela composição concreta de suas bases, pelos setores que sustentam cada candidatura e pelos interesses que encontram representação em cada projeto de poder.


A neutralidade de Raquel produz um efeito político particular


A posição presidencial adotada por Raquel permite uma movimentação eleitoral incomum. Ao mesmo tempo em que recebe apoio majoritário entre bolsonaristas, a governadora afirma que pretende continuar trabalhando com o governo Lula. Em caminhada no Recife no início da campanha, disse que quer ampliar a parceria com o Governo Federal mesmo depois de o presidente declarar apoio a João Campos.


Na prática, a estratégia permite que Raquel tente separar a eleição estadual da presidencial. Mas ao mesmo tempo, o fato de ela não ter posicionamento e se rodear de bolsonarista da extrema-direita faz com que haja uma grande desconfiança na população, de um estado que é majoritariamente de esquerda, sobre o seu posicionamento político. Some-se a isso a divulgação de anotações e estratégias do PL, que apontam uma preferência velada ou pragmática do senador Flávio Bolsonaro pela reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, onde o partido não lançou candidato próprio.



No final ela não rompe com Lula, porque Pernambuco depende de relações federativas, convênios e investimentos da União. Também não confronta diretamente o eleitorado conservador que hoje forma uma parcela importante de sua sustentação eleitoral.


Do ponto de vista eleitoral, essa posição tem até agora um efeito assimétrico: Raquel consegue receber uma parcela expressiva do voto bolsonarista sem precisar assumir formalmente o candidato presidencial desse campo e ainda procura disputar eleitores que aprovam Lula.


É uma estratégia eficiente para uma candidata governista. Politicamente, porém, ela também impõe uma pergunta que a campanha terá de responder: qual projeto nacional e quais valores políticos estarão associados a um eventual segundo mandato?


A resposta não pode ser deduzida apenas da pesquisa. Precisa ser buscada nas alianças, no programa de governo, nos compromissos assumidos e nas escolhas concretas da candidata.


João encontra força no eleitorado petista, preto e de menor escolaridade


Os dados de julho mostram uma composição diferente na candidatura de João. Entre eleitores que declaravam preferência pelo PT, João tinha 60%, contra 35% de Raquel. Entre aqueles que pretendiam votar em Lula para presidente, chegava a 59%. Entre os que aprovavam o governo federal, tinha 57%.


Há também diferenças sociais importantes. Entre os entrevistados com ensino fundamental, João alcançava 52%, enquanto Raquel tinha 38%. Entre pessoas pretas, João aparecia com 51%, contra 42% da governadora. Entre católicos, o socialista tinha 48%, diante de 45% de Raquel.



Esses números ajudam a localizar uma base potencialmente mais próxima do campo popular que João tenta representar.


Mas há uma ressalva decisiva. Menor escolaridade não é sinônimo automático de menor renda, e o voto popular ainda está em disputa.


Entre famílias com renda de até dois salários mínimos, Raquel registrava 47% e João, 43%. A governadora, portanto, continuava numericamente à frente justamente em uma faixa de renda decisiva para qualquer candidatura que pretenda construir maioria entre os setores populares.


Esse talvez seja um dos dados politicamente mais importantes da pesquisa. João já é forte entre petistas, eleitores de Lula, pessoas pretas e eleitores com menor escolaridade. Mas ainda precisa fazer essa identidade política alcançar de forma mais ampla quem vive com renda mais baixa e enfrenta diariamente as consequências da desigualdade. Não basta falar em campo popular. É preciso conquistá-lo.


Lula é o principal ativo de João, mas transferência de voto não é automática


O Datafolha perguntou diretamente aos pernambucanos sobre o impacto do apoio presidencial.


Se Lula apoiasse um candidato a governador, 36% disseram que votariam com certeza nesse nome. Outros 20% afirmaram que talvez votassem. Já 40% disseram que não votariam de jeito nenhum apenas por causa do apoio presidencial.



Nenhum dos outros nomes presidenciais testados chegou perto dessa capacidade de influência. No caso de Flávio Bolsonaro, 16% disseram que certamente votariam em um candidato apoiado por ele, enquanto 67% responderam que não votariam de jeito nenhum por causa desse apoio.


Lula, portanto, é o maior cabo eleitoral disponível na disputa pernambucana. João já incorporou esse dado à campanha.


Em vídeo divulgado no dia 17, Lula pediu votos diretamente para João Campos, Marília Arraes e Humberto Costa, consolidando um palanque estadual que reúne PSB, PT e aliados.


O movimento é politicamente coerente com os números. Se parte dos eleitores que aprovam Lula ou se identificam com o PT ainda está com Raquel, João precisa aproximar a escolha presidencial da escolha para governador.


Para João, o desafio é transformar identidade política em agenda material


Uma candidatura ligada ao campo popular precisa ser medida não apenas pelas alianças que anuncia, mas pelo que propõe para trabalho, renda, educação, saúde, moradia, transporte, direitos e serviços públicos.


João começou a campanha tentando fazer essa conexão. Na primeira caminhada oficial, em Brasília Teimosa, apresentou a promessa de construir quatro hospitais, incluindo um Hospital Geral Metropolitano, além de unidades no Agreste, Araripe e Vale do São Francisco. A campanha afirma que os projetos terão participação do Governo Federal.



É uma proposta de forte impacto social caso seja executada. Mas promessa eleitoral não é entrega. Os valores anunciados, fontes de financiamento, cronograma, disponibilidade de profissionais, custeio permanente e integração à rede existente precisarão ser acompanhados e cobrados durante a campanha.


Ser aliado de Lula pode abrir portas institucionais. Não substitui planejamento estadual. Essa cobrança vale ainda mais para uma candidatura que pretende ocupar o espaço do campo democrático e popular.


A gestão de Raquel também precisa ser julgada por direitos, não apenas por entregas


Raquel entra na eleição com uma vantagem que João não possui: governa Pernambuco. O Datafolha divulgado nesta sexta mostra 50% de avaliação ótima ou boa da administração estadual, 30% de regular e 18% de ruim ou péssima. Esse índice ajuda a explicar sua competitividade e não pode ser ignorado em qualquer análise séria da eleição.



Mas avaliação positiva de governo não encerra o debate sobre políticas públicas nem apaga as irregularidades documentadas na educação, as denúncias de desabastecimento na saúde e os problemas estruturais encontrados em unidades apresentadas pelo governo como símbolos de reconstrução do Estado.


Para O estopim, uma administração deve ser analisada também por quem recebe os benefícios, quem continua esperando, como os recursos são distribuídos e quais direitos permanecem sem resposta.


Na educação, a situação chegou ao ponto de obras milionárias desabarem literalmente sobre a comunidade escolar. Em julho, parte do telhado da Escola Estadual Presidente Arthur da Costa e Silva, na Mustardinha, caiu sobre estudantes e um professor. Treze pessoas foram atingidas; cinco alunos e o docente precisaram de atendimento médico. Uma estudante levou pontos.


A escola aparece vinculada a reformas que somavam aproximadamente R$ 2,5 milhões, incluindo R$ 242 mil destinados especificamente à segurança da cobertura e das estruturas metálicas. Apesar dos valores pagos, estudantes relataram infiltrações, fios expostos, ausência de climatização e precariedade na estrutura. O desabamento e os valores destinados à unidade foram noticiados pelo Jornal do Commercio.


A Secretaria de Educação afirmou que havia substituído parte da cobertura, realizado pintura e preparado salas para climatização. A resposta, porém, não modifica o fato central: uma escola relacionada a milhões de reais em reformas continuou funcionando em condições inseguras até que parte do teto caiu sobre estudantes e um professor.


E esse não é um caso isolado nem baseado somente em acusações políticas. Relatórios, boletins de medição, fotografias, documentos de pagamento e vistorias presenciais demonstram irregularidades concretas na execução do contrato de R$ 185,3 milhões firmado pela Secretaria de Educação com a Cetus Construtora.


Uma representação apresentada pelo Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União documentou serviços pagos sem comprovação, medições duplicadas, falhas na fiscalização e valores incompatíveis com o que foi encontrado nas escolas. Entre 2025 e 2026, mais de R$ 67,3 milhões foram empenhados em favor da empresa com recursos da complementação federal do Fundeb.


Em 14 unidades vistoriadas, foram encontradas infiltrações, corrosão estrutural, ausência de telhas, iluminação deficiente, banheiros sem manutenção e falta de aparelhos de ar-condicionado previstos no contrato. A análise estimou em R$ 7,9 milhões o prejuízo direto identificado apenas nessa amostra.


Na Escola Estadual Professor Nelson Chaves, em Camaragibe, foram medidos e pagos serviços de instalação de estruturas metálicas e alambrados que não existem no local. Na Escola Helena Pugó, no Recife, a quantidade de pintura registrada e paga superou em mais de seis vezes a área física da unidade. Na Escola Presidente Arthur da Costa e Silva, onde o teto atingiu estudantes e um professor, os documentos registram serviços pagos em duplicidade ou não executados. As irregularidades constam da representação divulgada pelo Diario de Pernambuco.


O trabalho do Sintepe foi decisivo para transformar as denúncias de professores e comunidades escolares em fiscalização pública. O sindicato comparou os boletins apresentados pela empresa com as condições encontradas nas unidades e comprovou repetição de imagens, utilização de fotografias de outras escolas e cobrança duplicada de serviços.


Na Escola Técnica Estadual Professor Agamenon Magalhães, relacionada a R$ 2,3 milhões em despesas, os relatórios utilizaram fotografias das escolas Clóvis Beviláqua e Oliveira Lima como se comprovassem intervenções realizadas na Etepam. Imagens de dezembro de 2025 também foram reapresentadas em boletins de janeiro de 2026.


No Erem Diário de Pernambuco, relacionado a R$ 2,5 milhões em obras, o mesmo serviço de capinação e limpeza apareceu cobrado mais de uma vez. A vistoria encontrou a unidade com mata alta, fiação exposta, quadros elétricos abertos, tomadas energizadas e infiltrações próximas à rede elétrica. Os documentos foram apresentados publicamente pelo Sintepe através de vídeo publicado pela presidenta licenciada e candidata a deputada estadual Ivete Caetano.


Portanto, o que está documentado não é uma acusação vaga de que uma escola inteira teria sido paga duas vezes. Há serviços específicos medidos ou cobrados em duplicidade e outros pagos sem correspondência física nas unidades. Também está comprovada a utilização de fotografias de outras escolas e de imagens repetidas para atestar intervenções. A responsabilização administrativa, civil e criminal ainda precisa ser individualizada pelos órgãos competentes, mas as irregularidades materiais já constam dos relatórios e documentos.


A Cetus negou superfaturamento e afirmou ter cumprido a legislação. A Secretaria de Educação declarou que as duplicações identificadas foram analisadas e corrigidas. Essas respostas precisam ser registradas, mas não apagam os documentos nem explicam por que o sistema de fiscalização permitiu pagamentos baseados em medições incompatíveis, fotografias de outras unidades e serviços que não existem fisicamente nas escolas.


A merenda escolar também se tornou objeto de decisões dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Pernambuco concluiu que a situação utilizada para justificar sucessivas contratações emergenciais não surgiu de um acontecimento imprevisível, mas de falhas da própria administração.


Em decisão unânime, o TCE classificou o caso como uma “emergência fabricada” dentro da Secretaria de Educação. Quatro gestores foram multados, incluindo o secretário Gilson José Monteiro Filho. A auditoria identificou falta de planejamento, ausência de documentos obrigatórios e utilização recorrente de mecanismos para pagar serviços executados sem contrato vigente. A decisão foi divulgada em junho.


Em outro processo, técnicos do TCE confirmaram sobrepreço em uma licitação para o fornecimento de pães às escolas estaduais. O prejuízo chegaria a R$ 1,3 milhão caso a contratação fosse concluída nos valores originais. O tribunal recomendou a suspensão do processo e determinou a correção das planilhas. O governo defendeu o método utilizado para formar os preços, mas teve de adequar os valores depois da intervenção do órgão de controle. O caso foi revelado pela revista Veja.


Em um Estado marcado pela pobreza e pela insegurança alimentar, qualquer irregularidade na merenda atinge diretamente crianças e adolescentes para quem a alimentação escolar representa uma das principais refeições do dia.


Na saúde, a distância entre propaganda e realidade também é evidente. O governo anuncia investimentos milionários, entrega setores requalificados e utiliza imagens de paredes novas, fachadas pintadas e equipamentos em sua comunicação. Enquanto isso, tetos continuam desabando, pacientes e trabalhadores são atingidos, leitos permanecem fechados por falta de equipes e usuários denunciam falta de medicamentos e interrupção de tratamentos.


No Hospital da Restauração, onde o governo afirma investir cerca de R$ 168 milhões em obras, parte do teto da sala de recuperação pós-anestésica caiu, em julho, sobre uma paciente recém-operada. O impacto atingiu o braço em que ela havia passado por uma cirurgia de correção de fístula. Houve sangramento, necessidade de nova intervenção e transferência para a UTI. Onze pessoas estavam no cômodo. O caso foi noticiado pelo Jornal do Commercio.


O governo afirmou que o setor ainda não havia sido reformado. Isso não retira a responsabilidade da gestão por garantir segurança em todas as áreas de uma unidade que continua funcionando durante obras milionárias. Em maio, parte do forro do sétimo andar do mesmo hospital já havia desabado, acompanhada de um vazamento provocado por problemas hidráulicos.


No Hospital Agamenon Magalhães, parte do teto do alojamento usado pelos profissionais caiu e feriu duas trabalhadoras. Foi o segundo desabamento registrado na unidade em dois meses. O caso foi documentado pelo Diario de Pernambuco.


Por isso, quando a população chama essas intervenções de “reformas de fachada”, não está negando que alguma obra física tenha sido realizada. Está denunciando que paredes pintadas e setores apresentados à imprensa convivem com tetos caindo, falta de medicamentos, equipes incompletas, superlotação e serviços que não funcionam em sua capacidade total.


Em junho, o Conselho Regional de Medicina constatou que a UTI Neurológica do Hospital da Restauração funcionava com apenas dez dos 30 leitos para os quais possuía estrutura física. A própria gestão informou que os outros 20 não haviam sido ativados porque ainda era necessário completar as equipes assistenciais e a escala médica.


A fiscalização ocorreu quase três meses depois de o governo entregar a reforma do setor e nove novos leitos. A estrutura havia sido inaugurada, mas dois terços da capacidade continuavam indisponíveis por falta dos profissionais necessários para fazê-la funcionar. A constatação foi divulgada pelo Cremepe.


No Hospital Dom Helder Câmara, relatório oficial do Cremepe registrou uma Sala Vermelha planejada para quatro leitos com 42 pacientes. A Sala Amarela, projetada para 14, abrigava 80. A Sala Verde, com capacidade para seis, estava com 23. O documento também registrou ausência de médico exclusivo para a sala de reanimação e estabilização de pacientes graves e inexistência da proporção formal de um médico para cada oito pacientes em observação. O relatório completo está disponível no Cremepe.


No Hospital dos Servidores, pacientes e parlamentares também denunciaram falta de medicamentos e interrupções em tratamentos oncológicos. Essas denúncias não podem ser descartadas por terem partido de usuários, sindicatos ou integrantes da oposição. São justamente as denúncias públicas que tornam problemas visíveis, mobilizam a sociedade e provocam a atuação dos órgãos de fiscalização.


Na educação, análise publicada por O estopim sobre o plano de Raquel para 2027 a 2030 mostrou propostas de formação, equipamentos e incentivos, mas apontou ausência de metas mais concretas em pontos como carreira, remuneração, jornada, concursos e condições de trabalho dos profissionais da educação.


É nesse terreno que uma campanha progressista precisa pressionar qualquer candidatura, inclusive aquela eventualmente mais próxima do campo democrático.


Política pública não é apenas obra entregue. É também qualidade do serviço, valorização do trabalho, acesso universal, financiamento e redução das desigualdades. E obra entregue não pode ser apenas placa, pintura ou fotografia: precisa corresponder ao que foi pago, funcionar e não cair sobre a cabeça da população.


O voto de baixa renda mostra que a eleição segue politicamente aberta


Há uma tentação de olhar os segmentos eleitorais e concluir que Pernambuco está simplesmente dividido entre uma candidatura conservadora e outra popular.


Os números não autorizam essa facilidade. Raquel tem forte apoio bolsonarista e evangélico, mas também mantém presença em setores de baixa renda e tenta preservar relação com Lula.


João domina o eleitorado petista e tem melhor desempenho entre pessoas pretas e de menor escolaridade, mas ainda não conquistou uma vantagem semelhante entre as famílias que vivem com até dois salários mínimos.


Essa contradição é o centro da disputa. Para João, crescer significa fazer a identificação com Lula chegar ao eleitor que aprova o presidente, mas ainda prefere Raquel para governadora. Significa também convencer trabalhadores e famílias de baixa renda de que sua candidatura representa ganhos materiais concretos.


Para Raquel, preservar a liderança significa impedir essa migração e sustentar a imagem de que a continuidade administrativa oferece mais segurança do que a mudança. É nesse eleitorado que campanha, programa e comparação de resultados podem fazer diferença.


A fotografia desta sexta favorece Raquel, mas campanha não é resultado de urna


O primeiro Datafolha realizado inteiramente durante a campanha oficial registra Raquel com 47% e João com 40%, diferença superior à margem de erro. Considerando apenas votos válidos, a pesquisa calcula 52% para a governadora e 44% para o socialista. Se esse resultado exato fosse reproduzido nas urnas, a eleição terminaria no primeiro turno.



Mas pesquisa eleitoral não é previsão. O levantamento de julho também testou um eventual segundo turno e encontrou Raquel com 49% e João com 45%, resultado classificado como empate técnico.



Há ainda outro alerta para João: sua rejeição na pesquisa desta sexta chega a 32%, contra 29% de Raquel. Em julho, os dois estavam praticamente iguais nesse indicador, com 29% para João e 30% para Raquel.



Ou seja, a campanha começa com vantagem real da governadora, mas também com espaço para disputa política, reorganização de alianças e mudança de voto.


Mais do que saber quem vence, é preciso perguntar para governar para quem


Uma leitura progressista das eleições 2026 em Pernambuco não pode se limitar a acompanhar pesquisas como se fossem placares esportivos.


Os números importam porque revelam relações sociais e políticas. Raquel lidera e construiu uma base capaz de combinar aprovação administrativa, forte adesão conservadora e presença em setores que também votam em Lula.


Mas sua avaliação positiva não pode retirar da campanha o debate sobre as escolas relacionadas a reformas milionárias que continuam precárias, as medições duplicadas, os serviços pagos sem existência física, o sobrepreço confirmado na merenda, os hospitais superlotados, a falta de profissionais e os tetos que estão caindo literalmente sobre estudantes, trabalhadores e pacientes.


João tem diante de si a tarefa de construir uma maioria a partir de uma base mais identificada com o lulismo, com eleitores pretos e com setores de menor escolaridade, sem supor que essa proximidade política produzirá votos automaticamente.


E as candidaturas mais à esquerda precisam encontrar espaço para inserir no debate questões que a polarização entre PSB e PSD não necessariamente resolverá por conta própria.


A pergunta central da campanha, portanto, não deveria ser apenas quem ocupará o Palácio do Campo das Princesas.


Deveria ser também qual projeto reduzirá desigualdades, fortalecerá serviços públicos, ampliará direitos, valorizará trabalhadores e fará o orçamento estadual chegar a quem mais precisa.


É nesse terreno que O estopim acompanhará a eleição. Não pelo slogan de cada lado, nem pelas placas, fachadas ou fotografias de inauguração, mas pelas alianças, propostas, recursos, contratos, compromissos, resultados e consequências para a vida concreta dos pernambucanos.


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O que acontece agora?


As próximas semanas mostrarão se João Campos consegue aproximar de sua candidatura os eleitores que votam em Lula, mas ainda escolhem Raquel para o Governo do Estado. O desempenho entre famílias de menor renda será um indicador especialmente importante.


Também será necessário acompanhar se Raquel mantém simultaneamente o apoio do eleitorado bolsonarista, a vantagem entre evangélicos e a capacidade de dialogar com eleitores sem identificação ideológica definida.


A presença de Lula na campanha, a propaganda eleitoral, os debates e a comparação entre programas devem aumentar a definição política da disputa.


As denúncias e os relatórios sobre merenda, reformas escolares e hospitais também precisarão ocupar a campanha. Não como questões secundárias diante das pesquisas, mas como elementos concretos para que a população compare propaganda, recursos aplicados e serviços efetivamente recebidos.


O estopim também acompanhará compromissos concretos em saúde, educação, trabalho, renda, moradia, segurança pública, direitos, transparência e financiamento das propostas.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, fiscalização e interesse público, com atenção às relações entre poder, desigualdade, direitos e território.

IPEC mostra só 14% de confiança nos vereadores; Luciano lidera lembrança e atuação, enquanto Câmara falha em representação, fiscalização e sintonia.


Por Mateus Ayres para O estopim |

8 de agosto de 2026

Análise política



Câmara de vereadores de Arcoverde, em Pernambuco | Foto: Reprodução/Google Street View
Câmara de vereadores de Arcoverde, em Pernambuco | Foto: Reprodução/Google Street View

A pesquisa institucional do IPEC sobre Arcoverde entrega à Câmara de Vereadores um diagnóstico bem mais duro do que o registrado para a Prefeitura. A avaliação positiva do Legislativo chega a apenas 26%, enquanto 35% consideram seu trabalho regular e 32% o classificam como ruim ou péssimo. Outros 7% não souberam ou não responderam.


Mas a avaliação geral nem sequer é o dado mais preocupante.


Quando o levantamento entra em confiança, representação dos interesses da população, fiscalização da Prefeitura e contribuição para o desenvolvimento da cidade, aparece uma instituição com baixo crédito político perante o eleitorado.


Nesse cenário, um vereador se descola claramente dos demais: Luciano Pacheco.


O presidente da Câmara é lembrado espontaneamente por 32% dos entrevistados e apontado por 31% como o vereador mais atuante. Na pergunta sobre atuação, o segundo colocado, Célia, aparece com apenas 5%. Todos os outros vereadores citados, somados, chegam a 21%, abaixo dos 31% de Luciano sozinho.


Isso não significa que 31% aprovem Luciano, pretendam votar nele ou concordem com suas posições. A pesquisa não perguntou isso.


Significa algo politicamente muito importante:


entre os atuais integrantes da Câmara, Luciano Pacheco conseguiu construir uma percepção de presença pública que os demais vereadores, individualmente, estão muito longe de alcançar.

A outra metade dessa história é ainda mais incômoda para a Casa.


A Câmara tem mais avaliação negativa do que positiva


O IPEC perguntou como os eleitores avaliam o trabalho da Câmara, lembrando aos entrevistados que compete ao Legislativo produzir leis e fiscalizar a Prefeitura.


Apenas 5% responderam excelente e 21% bom. A avaliação positiva consolidada é de 26%.


Outros 35% classificaram o trabalho como regular. Ruim aparece com 12% e péssimo com 20%, levando a avaliação negativa a 32%. Sete por cento não souberam ou não responderam.


Numericamente, a avaliação negativa supera a positiva em seis pontos percentuais. Mas o dado politicamente mais robusto está no conjunto: 67% dos entrevistados colocam o trabalho da Câmara entre regular, ruim ou péssimo, contra 26% que o avaliam como excelente ou bom.


A mensagem é difícil de ignorar. A maioria não enxerga no Legislativo municipal um desempenho claramente positivo.


O indicador mais grave talvez seja a confiança. Quando o IPEC perguntou diretamente se o eleitor confia na atuação dos vereadores de Arcoverde, apenas 3% responderam "confio muito" e 11% "confio". São 14% de confiança mais firme.


No sentido oposto, 37% disseram confiar pouco e 46% afirmaram não confiar. Somadas, essas duas categorias representam 83% da amostra. Outros 3% não souberam ou não responderam.


É difícil interpretar esse resultado como simples problema de comunicação. Quando mais de oito em cada dez entrevistados ficam entre pouca confiança e nenhuma confiança, a questão passa a atingir a própria legitimidade política da representação.


A Câmara existe para representar interesses diversos, controlar o Executivo, legislar e abrir espaço institucional para o conflito democrático. Se o cidadão não confia em quem ocupa as cadeiras, a instituição continua funcionando juridicamente, mas perde capacidade de representar politicamente.


Outro resultado reforça o problema. Apenas 8% dizem que os vereadores representam os interesses da população "sempre". Outros 9% respondem "na maioria das vezes". São apenas 17% que percebem representação de maneira frequente.


Para 28%, isso ocorre apenas às vezes. Outros 23% dizem raramente e 28% nunca. Quatro por cento não souberam ou não responderam. O dado permite uma leitura particularmente dura: 51% dizem que os interesses da população são representados raramente ou nunca.


Se acrescentados os 28% que respondem "às vezes", chega-se a 79% que não percebem representação de maneira contínua. A pesquisa não diz quais interesses esses entrevistados esperavam ver defendidos. Também não permite concluir que todo vereador esteja desconectado de sua própria base eleitoral. Mas mostra uma sensação coletiva de distância entre a Câmara e a cidade.


Luciano Pacheco virou exceção dentro de uma Câmara apagada


É nesse ambiente de baixa confiança que o desempenho espontâneo de Luciano Pacheco ganha dimensão.


Quando o entrevistado precisa citar, sem receber uma lista de nomes, um vereador ou vereadora que conhece ou de quem se lembra, Luciano aparece com 32%. Célia registra 13%, João Taxista 8%, Luiza Margarida 6%, Wellington Siqueira 5%, Heriberto do Sacolão, João Marcos e Paulinho Galindo aparecem com 4% cada, Rodrigo Roa com 2% e Sargento Brito abaixo de 0,5%. Dez por cento respondem "nenhum" e 12% não sabem ou não respondem.


A diferença fica ainda maior quando a pergunta muda de simples lembrança para quem é o vereador mais atuante de Arcoverde. Luciano Pacheco aparece com 31%. Célia vem muito atrás, com 5%. Luiza Margarida tem 4%, Wellington Siqueira 3%, Heriberto do Sacolão, João Marcos, João Taxista e Rodrigo Roa aparecem com 2% cada, Paulinho Galindo com 1% e Sargento Brito não registra percentual significativo.


Há um detalhe decisivo: os demais vereadores nominalmente citados somam 21%. Luciano, sozinho, tem 31%. A distância é grande demais para ser tratada apenas como uma diferença marginal.


Existe, porém, um número que impede que o resultado de Luciano seja confundido com uma percepção positiva sobre a Câmara como um todo. Na pergunta sobre o vereador mais atuante, 19% dizem "nenhum". Outros 29% não souberam ou não responderam. Somadas, as duas respostas chegam a 48%.


Ou seja, quase metade da amostra não consegue apontar espontaneamente uma atuação parlamentar que mereça destaque, seja porque considera que nenhum vereador se sobressai, seja porque não consegue ou não deseja citar alguém.


A Câmara vive, portanto, uma contradição. Luciano Pacheco alcançou uma visibilidade individual relevante, enquanto o Legislativo, coletivamente, enfrenta baixa confiança, baixo reconhecimento de sua capacidade fiscalizadora e dificuldade de demonstrar que representa a população.


Também seria equivocado transformar os 31% em um atestado irrestrito sobre Luciano Pacheco. O presidente da Câmara esteve no centro das maiores crises políticas do Legislativo em 2026.


Em fevereiro, os dez vereadores eram apresentados publicamente como integrantes da base do governo Zeca Cavalcanti. A ruptura política entre o prefeito e Luciano, anunciada em março, modificou completamente essa configuração.


Luciano depois se tornou alvo de um pedido de cassação relacionado a questionamentos sobre o exercício da advocacia enquanto presidia a Casa. Ele negou irregularidade.


A OAB-PE arquivou a denúncia administrativa relacionada ao caso, após o MPPE também não identificar ilícito penal naquela questão específica. Em 28 de maio, a própria Câmara arquivou o pedido de cassação após parecer pelo encerramento do processo.


Portanto, a pesquisa não deve ser usada para absolver ou condenar politicamente nenhum dos lados da crise. O que ela registra é percepção de atuação. E nesse quesito Luciano aparece muito à frente dos pares.


Parte dessa lembrança pode decorrer justamente de sua exposição como presidente e protagonista de conflitos que dominaram a agenda política local. Ainda assim, visibilidade também é um elemento da representação política. Um mandato que não é lembrado enfrenta dificuldade até para fazer seu trabalho ser reconhecido.


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A falta de senso institucional dos demais vereadores


Os acontecimentos recentes permitem falar de algo mais preciso: falta de senso institucional em determinadas decisões políticas que colocaram a disputa entre grupos acima do funcionamento regular da Câmara.


Após a ruptura entre Luciano e o grupo governista, sessões ordinárias passaram a ser prejudicadas por ausência de parlamentares.


Em 11 de maio, Célia Galindo, Luiza Margarida, Paulinho Galindo, Rodrigo Roa e Wellington Siqueira não compareceram, impedindo o quórum mínimo. Luciano, Sargento Brito, Heriberto do Sacolão, João Taxista e João Marcos estavam presentes.


Na semana seguinte, em 18 de maio, apenas Luciano Pacheco compareceu ao plenário, e a sessão novamente terminou sem deliberações. Os outros nove parlamentares divulgaram posição conjunta afirmando que não reconheciam a legitimidade de Luciano na presidência e relacionaram suas ausências às denúncias que apresentavam contra ele.


Os vereadores tinham direito de questionar Luciano, formular denúncias e buscar os instrumentos regimentais que considerassem cabíveis. O problema democrático surge quando o instrumento da disputa deixa de ser o voto, a fiscalização, o requerimento, a comissão ou o plenário e passa a ser a própria ausência do plenário.


O resultado concreto foi uma Câmara incapaz de deliberar. E é exatamente essa Câmara que, dois meses depois, aparece diante do eleitorado com somente 14% de confiança mais firme.


Não é possível demonstrar estatisticamente que uma coisa provocou a outra. É possível, no entanto, afirmar que os episódios ajudam a contextualizar um desgaste que a pesquisa tornou mensurável.


Fiscalizar a Prefeitura é o maior recado do eleitorado


Há um indicador particularmente importante para compreender o que a população espera dos vereadores. O IPEC perguntou se os atuais parlamentares fiscalizam adequadamente a Prefeitura. Apenas 15% responderam sim.


Para 32%, a fiscalização ocorre parcialmente. Para 46%, os vereadores não fiscalizam adequadamente a Prefeitura. Outros 7% não souberam ou não responderam. Ou seja, 78% colocam a fiscalização entre parcial e inexistente.


Esse resultado ganha relevância diante da composição política que marcou o início de 2026. Em fevereiro, os dez vereadores eram descritos como integrantes da bancada governista.


Ter relação política com o Executivo não é irregular. Governos municipais precisam construir maiorias legislativas para aprovar projetos e executar programas. O problema começa quando a maioria é percebida como incapaz de exercer controle sobre quem governa.


Um episódio recente ajuda a explicar por que a fiscalização aparece tão mal avaliada. Em julho, Luciano Pacheco apresentou requerimento solicitando informações sobre patrocinadores, valores repassados e gastos relacionados ao São João de Arcoverde. Segundo dois veículos locais que acompanharam a votação, o pedido foi rejeitado por 9 votos a 1.


O estopim não localizou, nas fontes consultadas para esta análise, uma justificativa pública detalhada dos nove vereadores explicando individualmente por que consideraram inadequado o requerimento. Por isso, não é correto afirmar que a votação tenha ocorrido necessariamente para esconder informações. Mas o efeito político é difícil de ignorar.


Quando apenas 15% dos entrevistados dizem que os vereadores fiscalizam adequadamente a Prefeitura e, semanas antes da pesquisa, nove parlamentares rejeitam um pedido de informações sobre receitas e despesas de um grande evento municipal, surge um problema de coerência institucional.


Fiscalizar não significa ser oposição. Fiscalizar significa exigir documentos, acompanhar contratos, verificar despesas, cobrar resultados e permitir que o cidadão saiba como o dinheiro e os bens públicos são administrados. A Câmara pode aprovar projetos do prefeito e, ao mesmo tempo, fiscalizá-lo. Uma função não elimina a outra.


A avaliação da contribuição dos vereadores para o desenvolvimento de Arcoverde é igualmente severa. Apenas 15% respondem que os atuais vereadores contribuem para o desenvolvimento da cidade. Outros 39% dizem que contribuem "em parte". Para 42%, os vereadores não estão contribuindo para o desenvolvimento de Arcoverde. Quatro por cento não souberam ou não responderam.


Novamente, há uma concentração das respostas fora do reconhecimento pleno. Somando "em parte" e "não", são 81%. O eleitorado parece cobrar uma Câmara cuja presença seja percebida para além de requerimentos de rotina, homenagens, disputas internas e alinhamentos de grupo.


A cidade nem sequer conhece bem a própria Câmara


Outro dado mostra o tamanho da distância institucional. O IPEC perguntou espontaneamente quantos vereadores existem atualmente em Arcoverde. A resposta correta é dez, informação que o próprio questionário utiliza depois ao perguntar sobre possível aumento de vagas.


Apenas 28% responderam dez. Mais da metade, 52%, não soube ou não respondeu. Outros 20% deram números diferentes. Não se pode responsabilizar exclusivamente os vereadores pelo desconhecimento do eleitor. Mas uma instituição cuja composição básica é desconhecida por grande parte da população precisa perguntar se está conseguindo ser presente, inteligível e acessível.


Há uma diferença entre aparecer em redes sociais e efetivamente integrar a vida política do cidadão.


O recado fica ainda mais explícito quando o IPEC aborda a ampliação das vagas. A pergunta informava aos entrevistados que Arcoverde poderia chegar a 17 vereadores e acrescentava que isso ocorreria sem aumento de despesas.


Mesmo com essa ressalva, 61% se disseram contra aumentar o número de vereadores. Apenas 33% foram favoráveis e 6% não souberam ou não responderam. Entre os 33% favoráveis, o levantamento perguntou quantas vagas seriam ideais. Nesse universo específico de 100 entrevistados, 33% escolheram 17 cadeiras e 29% preferiram 15.


Mas o resultado geral é inequívoco na fotografia da pesquisa: a maioria não quer ampliar a Câmara. Politicamente, esse é talvez o recado mais simples.


Antes de convencer a população de que Arcoverde precisa de mais vereadores, a Câmara precisa convencer a cidade da utilidade política dos vereadores que já possui.

Luciano ocupa um espaço que os demais deixaram vazio


A vantagem de Luciano Pacheco não pode ser explicada exclusivamente pelo conflito com Zeca Cavalcanti ou pela presidência da Casa. Esses fatores certamente aumentam sua exposição, mas não explicam sozinhos por que a percepção espontânea de atuação dos demais é tão baixa.


A diferença entre 31% e 5% para o segundo colocado é enorme. Mais importante ainda é constatar que nenhum outro vereador chega sequer a dois dígitos quando o eleitor é perguntado sobre quem mais atua. Isso sugere um problema coletivo de construção de mandato.


Vereador não é apenas alguém que comparece à sessão e vota. Representação exige presença territorial, prestação de contas, fiscalização, elaboração de propostas, capacidade de escuta e disposição para contrariar até o próprio grupo político quando o interesse público exigir.


A pesquisa indica que, para grande parte da população, esse trabalho ou não está acontecendo em intensidade suficiente ou não está sendo percebido. Nos dois casos, há um problema político.


O eleitorado deu um recado aos dez vereadores


Os indicadores permitem resumir os principais alertas da pesquisa:


  1. Reconstruir confiança. Apenas 14% confiam ou confiam muito nos vereadores, enquanto 83% confiam pouco ou não confiam.

  2. Representar a população com mais consistência. Só 17% percebem representação sempre ou na maioria das vezes; 51% respondem raramente ou nunca.

  3. Fiscalizar de verdade. Apenas 15% consideram adequada a fiscalização sobre a Prefeitura e 46% dizem que ela não é adequada.

  4. Mostrar utilidade para a cidade. Só 15% veem contribuição plena para o desenvolvimento, enquanto 42% não enxergam contribuição.

  5. Parar de transformar ausência em instrumento político. Os episódios de falta de quórum mostraram uma instituição vulnerável à disputa interna.

  6. Demonstrar por que mais cadeiras seriam necessárias. Sessenta e um por cento rejeitam ampliar o número de vereadores, mesmo após serem informados de que a mudança não implicaria aumento de despesas.


Há uma conclusão política que atravessa quase todos os dados. Luciano Pacheco conseguiu se separar da imagem coletiva da Câmara. A Casa é vista com desconfiança. Luciano é percebido como atuante por parcela muito maior do eleitorado do que qualquer colega. Isso não transforma Luciano em representante automático da maioria e tampouco elimina as controvérsias que cercaram sua presidência. Mas produz um problema para os outros nove vereadores.


Se a estratégia política era isolar Luciano após o rompimento com o governo, a fotografia do IPEC sugere que o resultado, ao menos na percepção de atuação, foi inverso: Luciano aparece isolado, mas isolado na frente. Enquanto isso, seus adversários dentro da Casa precisam explicar por que nenhum deles ultrapassa 5% na pergunta sobre atuação.


A democracia municipal não funciona plenamente quando o Legislativo é tratado como extensão administrativa da Prefeitura nem quando vira palco permanente de vinganças, boicotes e guerras pessoais. O papel de uma Câmara é justamente permitir que interesses divergentes sejam processados institucionalmente.


O conflito faz parte da política. A ausência deliberada, a paralisia e o abandono das funções de fiscalização não podem virar substitutos do conflito democrático.


Em maio, O estopim já havia apontado que a crise política local estava produzindo paralisia, personalismo e perda do foco no interesse público. A pesquisa do IPEC agora oferece números que ajudam a medir o tamanho dessa ruptura entre instituição e sociedade.


O eleitorado não parece pedir uma Câmara sem divergências. Pede uma Câmara que trabalhe apesar das divergências.


O que acontece agora?


Os vereadores de Arcoverde têm pouco mais de dois anos pela frente antes da eleição municipal de 2028. Até lá, os indicadores que mais merecem acompanhamento não são apenas popularidade individual ou quantidade de requerimentos apresentados.


O teste será verificar se a Câmara consegue recuperar confiança, ampliar a percepção de representação, exercer fiscalização mais visível e construir uma agenda reconhecida pela população como relevante para o desenvolvimento da cidade.


Luciano Pacheco, por sua vez, terá o desafio inverso: transformar grande visibilidade em capacidade institucional sem permitir que a presidência da Casa seja reduzida ao confronto permanente com adversários.


A pesquisa IPEC foi realizada entre 25 e 27 de julho de 2026 com 304 eleitores das áreas urbana e rural de Arcoverde, em entrevistas presenciais. O levantamento informa nível de confiança de 95% e margem máxima de erro de 5,62 pontos percentuais. O instituto recomenda cautela na interpretação dos cruzamentos por sexo, idade, renda, escolaridade e área quando as bases absolutas forem menores.


Os resultados entregam uma agenda clara para o restante da legislatura. A Câmara não precisa apenas melhorar sua imagem. Precisa mostrar por que existe, quem representa, o que fiscaliza e de que maneira suas decisões melhoram a vida da população.


Luciano Pacheco aparece como o vereador que mais conseguiu transformar mandato em percepção pública de atuação. Para os demais, o recado do eleitorado é menos confortável: ocupar uma cadeira não basta para ser percebido como representante.


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Mateus Ayres é jornalista e analista político de O estopim, com atuação em política nacional e internacional e análise de conjuntura. Seu trabalho acompanha instituições e relações de poder com atenção à justiça social, ao interesse público e ao rigor documental.

Auditoria apura documentos, medições, pagamentos e responsabilidades antes de eventual multa, débito ou correção administrativa


Por Raul Silva para O estopim | 8 de julho de 2026



Fachada do Tribunal de Contas de Pernambuco, órgão responsável por auditorias de controle externo
Fachada do Tribunal de Contas de Pernambuco, órgão responsável por auditorias de controle externo | Foto: Reprodução/TCE-PE

Uma auditoria do Tribunal de Contas começa quando há indício de falha, desperdício, ilegalidade ou dano em contrato, obra, compra ou serviço pago com dinheiro público. Nesses casos, o tribunal analisa documentos, ouve gestores e empresas, confronta medições com pagamentos e decide se houve erro formal, falha administrativa, irregularidade grave ou prejuízo ao erário.


A auditoria não é uma condenação antecipada. É um procedimento técnico de controle externo. No caso de contratos públicos, ela costuma verificar o planejamento da contratação, o edital ou a ata usada, os pareceres jurídicos, os aditivos, as notas fiscais, as medições, os pagamentos e a execução real do serviço. No TCE-PE, a Lei Orgânica prevê auditorias ordinárias e especiais como formas de exercício do controle externo.


O Tribunal de Contas é um órgão de controle externo. Em Pernambuco, o Regimento Interno do TCE-PE define o tribunal como órgão constitucional de controle externo e prevê competência para atuar conforme a Constituição do Estado e a Lei Orgânica.


Na prática, isso significa que o TCE fiscaliza a aplicação do dinheiro público. Ele não substitui a Polícia, o Ministério Público ou o Judiciário, mas pode julgar contas, determinar correções, aplicar multas, apontar débito e encaminhar informações a outros órgãos quando identificar indícios de crime ou improbidade.


A auditoria pode nascer de uma denúncia, representação, provocação do Ministério Público de Contas, fiscalização de rotina ou achado técnico identificado pelos auditores.


Em casos envolvendo contratos, o primeiro passo costuma ser a análise de risco: valor contratado, urgência, tipo de serviço, histórico do fornecedor, aditivos, forma de contratação, pagamentos já feitos e impacto para a população.


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Quando há risco de continuidade de dano, o relator pode decidir sobre medida cautelar. A cautelar é uma decisão preventiva. Ela pode suspender pagamentos, impedir prorrogação, determinar envio de documentos ou limitar atos administrativos até que o mérito seja analisado.


Em contratos públicos, a equipe técnica costuma examinar:


  1. Planejamento da contratação

  2. Justificativa da necessidade do serviço

  3. Pesquisa de preços

  4. Edital, ata ou processo de adesão

  5. Pareceres técnicos e jurídicos

  6. Contrato e aditivos

  7. Ordens de serviço

  8. Boletins de medição

  9. Notas fiscais

  10. Comprovantes de pagamento

  11. Fotos, laudos e relatórios de execução

  12. Compatibilidade entre o que foi pago e o que foi entregue


Em uma auditoria especial sobre contrato público, o TCE pode aprofundar a análise sobre edital, contrato e execução dos serviços. Em caso recente divulgado pelo próprio TCE-PE, a Corte informou que a auditoria avaliaria justamente essas etapas e até a necessidade de refazer licitação.


O achado é o ponto técnico que indica possível problema. Pode ser uma medição sem comprovação, pagamento acima do preço de mercado, ausência de parecer jurídico, serviço não executado, aditivo sem justificativa, liquidação irregular ou contratação sem planejamento suficiente.


Um achado precisa ser sustentado por evidência. Por isso, uma auditoria séria não se baseia apenas em opinião política, denúncia pública ou repercussão nas redes sociais. Ela cruza documentos, valores, datas, responsáveis e provas materiais.


Depois dos apontamentos técnicos, os responsáveis são chamados a apresentar explicações. Isso inclui gestores públicos, fiscais de contrato, ordenadores de despesa e, quando necessário, empresas contratadas.


Essa etapa é essencial porque uma falha pode ter explicação documental, correção posterior ou justificativa administrativa. Também pode ocorrer o contrário: a defesa pode não afastar os indícios e o caso avançar para responsabilização.


Ao final, o Tribunal pode considerar que não houve irregularidade, apontar ressalvas, determinar correções, aplicar multa, imputar débito, exigir ressarcimento ou recomendar a abertura de tomada de contas especial.


A Lei Orgânica do TCE-PE prevê tomada de contas especial quando há omissão no dever de prestar contas, não comprovação de recursos, desfalque, desvio de bens ou valores, ato ilegal, ilegítimo ou antieconômico com dano ao erário. O objetivo é apurar os fatos, identificar responsáveis e quantificar o dano.


Se houver débito ou multa e o valor não for recolhido, o Tribunal pode emitir certidão de débito e encaminhar o caso ao órgão titular do crédito para inscrição em dívida ativa e cobrança, inclusive judicial.


Uma auditoria não significa, por si só, condenação. Também não prova automaticamente corrupção, crime ou improbidade. Ela significa que há elementos suficientes para fiscalização técnica.


Mas o contrário também é verdadeiro: dizer que “é só uma auditoria” não encerra o problema. Quando o contrato envolve milhões de reais, escola pública, saúde, transporte, obra ou serviço essencial, a auditoria é um instrumento de proteção do interesse público.


O que acontece agora


Em casos como o contrato da Cetus na educação de Pernambuco, o caminho natural é a coleta de documentos, análise técnica, manifestação dos citados, eventual parecer do Ministério Público de Contas e julgamento pela Câmara ou pelo Pleno competente.


Se o TCE confirmar irregularidades, podem vir multas, determinações de correção, cobrança de valores, comunicação a outros órgãos e impactos em futuras contratações. Se as defesas afastarem os indícios, o processo pode ser arquivado ou julgado regular com ou sem ressalvas.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na cobertura de política, fiscalização pública, educação e temas de interesse social, com foco em contexto, documentos e responsabilidade editorial.

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