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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião do Comitê Gestor do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, no Palácio do Planalto | Foto: Ricardo Stuckert / PR


Governo federal reúne quatro leis e dois decretos para acelerar medidas protetivas, endurecer a resposta penal e obrigar empresas de internet a agir com mais rapidez diante da violência contra mulheres


Por Raul Silva para O estopim | 21 de Maio de 2026



O governo federal apresentou, em Brasília, um pacote de medidas legislativas e regulatórias para reforçar o enfrentamento à violência contra as mulheres no país. A ofensiva foi exibida publicamente nas peças da campanha do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio e combina quatro novas leis, sancionadas em 20 de maio, com dois decretos publicados no dia seguinte no Diário Oficial da União. Na prática, o conjunto mexe em três frentes ao mesmo tempo: amplia instrumentos de proteção imediata, endurece regras para agressores e impõe novos deveres às plataformas digitais em casos de violência online.



O movimento ocorre num momento em que a violência segue alta e também se desloca para o ambiente digital. A propaganda oficial aposta nessa leitura ao afirmar que o Estado deve responder tanto ao risco físico quanto às novas formas de exposição, perseguição, chantagem e difusão de conteúdo íntimo na internet. O eixo político do pacote é claro: reduzir brechas processuais, acelerar respostas e deslocar parte da responsabilidade para empresas que lucram com circulação de conteúdo.


As novas normas sancionadas em maio foram apresentadas como parte dos 100 dias do pacto nacional articulado entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Entre elas estão a Lei 15.409, que cria o Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Violência contra a Mulher; a Lei 15.410, conhecida como Lei Bárbara Penna, que endurece a execução penal para condenados ou presos provisórios que continuem ameaçando vítimas; a Lei 15.411, que amplia as hipóteses de afastamento imediato do agressor do lar; e a Lei 15.412, voltada à aplicação das medidas protetivas de urgência, inclusive nas obrigações alimentares previstas na Lei Maria da Penha.



No ambiente digital, os decretos 12.975 e 12.976 atualizam a regulamentação do Marco Civil da Internet e criam diretrizes específicas para proteção de mulheres na rede. O governo tenta, com isso, responder a um problema que já não cabe apenas na lógica da violência doméstica tradicional. Hoje, a agressão também passa por vigilância por aplicativos, perseguição reiterada, divulgação de imagens íntimas, ataques coordenados em redes sociais e manipulação de imagem e voz com uso de inteligência artificial.



Uma das mudanças mais relevantes, embora menos chamativa na propaganda, está na tentativa de acelerar a efetividade das medidas protetivas de urgência. A comunicação do governo resumiu esse ponto como menos burocracia para receber pensão alimentícia. O alvo é um problema antigo: a mulher consegue a medida protetiva, mas segue desamparada financeiramente enquanto a cobrança entra em outra fila processual.


A nova legislação reforça a aplicação de medidas cíveis dentro do próprio sistema de proteção da Lei Maria da Penha. O impacto prático é reduzir o intervalo entre a decisão judicial e a cobrança efetiva da obrigação alimentar. Em contextos de violência doméstica, isso não é detalhe técnico. É o tipo de providência que pode definir se a vítima terá condições reais de sair de casa, manter filhos e romper dependência econômica do agressor.


  1. Afastamento imediato agora alcança todas as formas de violência


    A Lei 15.411 fecha outra lacuna importante. Até aqui, a legislação já previa afastamento do agressor diante de risco à vida ou à integridade física e psicológica da mulher e de seus dependentes. Com a nova redação, entram de modo explícito também os riscos à integridade sexual, moral e patrimonial.


    Isso tem efeito direto sobre casos que muitas vezes eram tratados como periféricos ou secundários, apesar de produzirem danos profundos. A retenção de documentos, a destruição de bens, a exposição sexualizada da vítima, a difamação e a humilhação pública passam a sustentar, de forma mais clara, a retirada imediata do agressor do lar. O ajuste aproxima a resposta estatal do que a própria Lei Maria da Penha já reconhece há anos: a violência contra a mulher não se resume à agressão física.


  2. A prisão deixa de ser escudo para a continuidade da ameaça


    A Lei 15.410, batizada de Lei Bárbara Penna, mira um ponto menos discutido no debate público: o agressor que continua intimidando a vítima mesmo depois de preso ou condenado. O texto transforma essa conduta em fator de agravamento dentro da execução penal.


    A norma passa a considerar falta grave a aproximação do local de moradia, do trabalho ou dos familiares da vítima por condenados em regime aberto, semiaberto ou em saídas autorizadas. Também permite regime disciplinar diferenciado e transferência do preso para outra unidade da federação quando houver ameaça ou prática de nova violência. Em outras palavras, a prisão deixa de funcionar como argumento formal de proteção quando a ameaça continua operando por bilhetes, recados, terceiros, redes de apoio do agressor ou saídas temporárias.


    A escolha do nome da lei também tem peso simbólico. Bárbara Penna sobreviveu a uma tentativa de feminicídio e continuou sob ameaça mesmo após a condenação do agressor. O caso expôs um limite do sistema penal: prender não basta quando a vítima continua vulnerável.


  3. Cadastro nacional tenta integrar dados dispersos


    A Lei 15.409 cria o Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Violência contra a Mulher. O banco de dados será compartilhado entre órgãos de segurança pública da União, dos estados e do Distrito Federal. A promessa oficial é centralizar informações hoje espalhadas entre diferentes sistemas e melhorar o acompanhamento de condenados, a formulação de políticas preventivas e a execução de medidas protetivas.


    O cadastro reúne dados de pessoas condenadas em definitivo por crimes como feminicídio, estupro, assédio sexual, importunação sexual, lesão corporal contra a mulher, perseguição, violência psicológica e registro não autorizado da intimidade sexual. O nome da vítima permanece sob sigilo. A medida tende a fortalecer a capacidade de rastreamento estatal, mas também exigirá controle rigoroso sobre governança, acesso e proteção de dados, sob risco de transformar uma ferramenta de proteção em mais uma base sensível sem fiscalização adequada.



Quatro rostos diversos sob a frase "Todos Juntos por Todas". Embaixo, logo do "Pacto Nacional: Brasil contra o Feminicídio". Fundo escuro.
Pacto Nacional: Brasil Contra o Feminicídio | Foto: Divulgação/Gov.br

Se as quatro leis miram sobretudo a resposta institucional fora da internet, os dois decretos de maio deslocam o foco para as plataformas digitais. O Decreto 12.975 amplia deveres gerais dos provedores e formaliza o chamado dever de cuidado para conteúdos criminosos ou ilícitos, inclusive os relacionados à violência contra mulheres. O texto obriga empresas a manter sede e representante legal no Brasil, disponibilizar canal permanente de denúncia, adotar medidas contra redes artificiais de distribuição de conteúdo ilícito e fornecer informações que permitam fiscalização pela autoridade competente.


O Decreto 12.976 vai além ao tratar especificamente da violência contra mulheres em ambiente digital. A norma reconhece como parte desse universo práticas como perseguição online, violência política de gênero, ameaças, exposição íntima sem consentimento, importunação sexual por meios digitais, crimes de ódio e manipulação de imagem ou som com uso de inteligência artificial. O decreto também determina que notificações sobre esse tipo de conteúdo tenham canal oficial e dedicado, com exibição visível do Ligue 180.


O ponto de maior repercussão é o prazo: o decreto prevê remoção de conteúdo íntimo não autorizado em até duas horas após a notificação e estabelece, até regulamentação posterior, remoção em até seis horas para conteúdos manifestamente ilegais e em até 24 horas nos demais casos de violência digital contra a mulher. O governo tenta, assim, reduzir o tempo em que uma agressão continua produzindo dano depois de denunciada.


O governo busca ocupar um espaço em que a resposta estatal costuma chegar tarde, fragmentada ou insuficiente. Ao insistir em frases como “plataformas devem proteger mulheres da violência digital” e “mais proteção também no ambiente digital”, a campanha tenta combinar comunicação institucional com disputa por agenda pública.


Há, porém, um desafio evidente. Leis e decretos elevam o custo da omissão estatal e empresarial, mas não resolvem por si sós gargalos históricos de investigação, acolhimento, produção de prova e execução das medidas. A efetividade desse pacote dependerá da atuação de polícias, Ministério Público, Judiciário, defensorias, rede de assistência e órgãos reguladores. No caso das plataformas, dependerá também da capacidade de monitorar sistemas automatizados, exigir transparência e enfrentar a assimetria de poder entre Estado e big techs.


Gráfico de linha roxa mostrando aumento de vítimas de 2015 a 2025. Texto: 13.703 vítimas desde a promulgação da lei. Fundo branco.
Imagem: infográfico/FBSP

Os dados mais recentes do Ligue 180 ajudam a dimensionar o cenário em que esse pacote foi lançado. Em 2025, a central registrou 1.088.900 atendimentos e 155.111 denúncias de violência contra mulheres, alta de 17,4% nas denúncias em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, foram 45.735 denúncias, crescimento de 23% sobre o mesmo período de 2025. Entre os registros de 2025, o ambiente virtual apareceu em 4.584 denúncias.


Esses números não devem ser lidos automaticamente como simples piora estatística. Em parte, eles também refletem ampliação de canais, maior visibilidade do serviço e crescimento do acesso à denúncia. Ainda assim, revelam uma pressão contínua sobre a rede de proteção e mostram que a violência digital já não pode ser tratada como apêndice do problema central.


O pacote apresentado em maio tem densidade maior do que a estética de campanha sugere. Há mudanças relevantes na Lei Maria da Penha, na execução penal, na rastreabilidade de condenados e na responsabilização das plataformas. O desenho geral aponta para uma ideia de Estado mais interventor, menos dependente de reação judicial tardia e mais disposto a impor deveres positivos a empresas de tecnologia.


O desafio, a partir de agora, é fazer a promessa sobreviver ao cotidiano. A pergunta que ficará de pé nos próximos meses não é se o pacote foi robusto no papel. É se ele conseguirá produzir proteção real antes que a próxima denúncia vire estatística, processo parado ou dano irreversível.


Onde buscar ajuda: Mulheres em situação de violência e qualquer pessoa que queira denunciar podem acionar o Ligue 180, serviço gratuito, disponível 24 horas por dia, inclusive fins de semana e feriados. O atendimento também funciona pelo WhatsApp (61) 9610-0180 e pelo e-mail central180@mulheres.gov.br.

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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com foco em política, direitos humanos e comunicação pública.

Por Raul Silva para O estopim | 14 de maio de 2026



Homem de terno azul e óculos gesticula enquanto fala. Fundo escuro com luz amarela intensa à esquerda. Expressão séria e envolvente.
Juliano Cazarré rebate críticas feitas ao seu projeto chamado O Farol e a Forja, mas ao fazer isso expõe para todo o país a real natureza de seus discurso | Foto: Reprodução/GloboNews

Juliano Cazarré entrou no GloboNews Debate de 12 de maio cercado por uma controvérsia previsível: dias antes, havia lançado um encontro pago para homens, embalado por palavras como liderança, fé, família, responsabilidade e “enfraquecimento masculino”. Ao colocá-lo em horário nobre para discutir “o papel do homem nos tempos atuais”, a emissora assumiu um risco editorial que o programa não conseguiu controlar. O que foi vendido como debate virou, em vários momentos, vitrine. E vitrine para quê? Para um repertório já gasto, mas ainda socialmente perigoso: o da masculinidade ferida que se apresenta como cura moral do país enquanto relativiza a violência de gênero, recorre a estatísticas falsas e reposiciona o velho patriarcado como se fosse simples defesa da família.


Seria cômodo reduzir a cena a um erro individual de Juliano Cazarré. Não é suficiente. O ator é só a face televisiva mais recente de uma engrenagem bem maior, que mistura conservadorismo moral, oportunismo midiático, ressentimento masculino e verniz religioso. O discurso é conhecido. O homem teria perdido seu lugar. A sociedade teria “demonizado” a masculinidade. A família estaria ameaçada. A fé seria o último reduto de ordem. As mulheres, emancipadas demais. O feminismo, exagerado. A igualdade, uma espécie de desvio civilizatório.


Esse roteiro não nasceu no estúdio da GloboNews. Ele circula há anos em bolhas digitais, em influenciadores red pill, em setores bolsonaristas e em segmentos religiosos que transformaram púlpito, live e corte de rede social em aparelho de reprodução ideológica. O que a TV fez foi retirar esse discurso da margem e recolocá-lo sob luz respeitável, como se estivesse diante de uma opinião apenas “polêmica”, e não de uma narrativa que ajuda a naturalizar hierarquia entre homens e mulheres.


Debate televisivo com dois apresentadores sentados discutindo o papel dos homens. Tela ao fundo com convidado virtual. Texto da GloboNews.
Cazarré participou de debate na GloboNews nesta terça-feira (12) para falar a respeito do papel do homem na sociedade atual, ou para legitimar o discurso red pill e machista? | Foto: Reprodução/YouTube/GloboNews

Debate jornalístico não é sinônimo de deixar alguém falar o que quiser por tempo suficiente para viralizar. Quando um convidado usa números falsos ou sem base para relativizar a violência contra as mulheres, a mediação tem obrigação de interromper, contextualizar e corrigir. Não depois. Na hora.


Foi exatamente aí que o programa falhou, principalmente por causa do histórico do discurso machista que o ator já carregava consigo, ou seja, era totalmente previsível que alguma fala do tipo ocorresse ali. E ao permitir que a discussão deslizasse para a equivalência falsa entre violência geral e feminicídio, o debate abriu espaço para uma operação retórica conhecida. Primeiro, dissolve-se a especificidade da violência de gênero no caldo amplo da violência urbana. Depois, desloca-se o foco para o sofrimento masculino como se ele anulasse ou desautorizasse a denúncia feita pelas mulheres. Por fim, reapresenta-se o homem como vítima principal de um mundo que teria passado a culpá-lo por tudo.


Não há honestidade intelectual nisso. Há estratégia. Feminicídio não é qualquer homicídio. É o assassinato de mulheres em razão do gênero, geralmente em contexto doméstico, afetivo, de controle e posse. Misturar esse fenômeno com mortes violentas em contextos completamente distintos não é nuance. É distorção. E distorção, quando ganha palco jornalístico sem freio, vira munição para o obscurantismo.


Farois acesos à noite com faíscas. Texto: O Farol e A Forja, Um chamado à responsabilidade. Encontro de homens no Brasil.
Página oficial do tal evento sobre "masculinidade" | Fonte: Reprodução/Página do evento

O site do evento lançado por Cazarré fala em liderança, direção, proteção, presença masculina, homem de princípios, homem que assume seu lugar, homem que serve, marido, pai, fé vivida na prática. O vocabulário parece brando. Mas a gramática é antiga. A ideia central continua sendo a de que existe um lugar natural do homem na condução da família e da vida pública, enquanto às mulheres cabe gravitar ao redor dessa centralidade, desde que o homem exerça a chefia com “responsabilidade”.


É assim que o patriarcado sobrevive no século 21. Ele troca a brutalidade explícita pela linguagem da missão. Troca a imposição pela pedagogia da ordem. Troca o mando cru pela retórica do cuidado. Mas preserva a estrutura. O homem conduz. A mulher acompanha. O homem lidera. A mulher auxilia. Quando esse arranjo é apresentado como virtude espiritual ou remédio social, o que se está fazendo é reciclar desigualdade.


Monge rezando com terço em mãos, em fundo escuro com imagens de figuras religiosas. Expressão serena e luz suave ao redor.
Frei Gilson em momento de oração, conhecido por suas lives espirituais no YouTube, fará transmissão do Santo Rosário pela Havan neste sábado | Foto: Reprodução/Redes Sociais

No campo religioso, Frei Gilson virou hoje um dos casos mais evidentes dessa operação. Sua fala sobre a mulher ter nascido para “auxiliar” o homem e sua crítica ao chamado empoderamento feminino não são ruídos laterais. Elas fazem parte de uma pedagogia de subordinação que tenta dar fundamento sagrado a uma relação desigual. Quando um religioso com alcance massivo diz que o homem recebeu de Deus a liderança e que à mulher cabe outro papel, o que ele oferece não é só uma interpretação bíblica. Ele fornece uma autorização moral.


E essa autorização moral, em um país atravessado por violência doméstica, não é um detalhe teológico qualquer. É uma matéria de interesse público. Porque a mulher agredida não escuta essas falas num seminário abstrato. Ela escuta isso dentro de uma cultura que já a ensina a suportar, ceder, preservar o casamento, silenciar para não “destruir a família”, obedecer para não afrontar Deus. O resultado é um ambiente onde a opressão se espiritualiza e o abuso encontra linguagem de absolvição.


Não se trata de culpar uma única figura religiosa por toda a violência contra as mulheres. Trata-se de dizer o óbvio que muita gente se recusa a enfrentar: discursos de submissão feminina ajudam a manter viva a cultura que relativiza a violência, desculpa o controle masculino e cobra das vítimas uma santidade sacrificial que jamais é exigida dos agressores.


Sacerdote sorri em vestes verdes decoradas. Fundo com plantas e flores. Clima noturno, atmosfera serena. Texto na roupa é legível.
Padre Júlio Lancellotti é conhecido nacionalmente pelo trabalho que realiza com a população em situação de rua na capital paulista. | Foto: Reprodução/Instagram: @padrejulio.lancellotti

A crítica precisa ir além de Frei Gilson. Ela alcança a estrutura que o acolhe, o normaliza e o transforma em ativo de massa. A Igreja Católica no Brasil gosta de repetir que não pode ser julgada por recortes. Pois bem. Que seja julgada então por suas escolhas concretas.


Quando o padre Júlio Lancellotti, conhecido pelo trabalho com a população de rua e pela recusa a qualquer discurso de ódio, foi silenciado nas redes e impedido de seguir com transmissões ao vivo, a mensagem institucional foi cristalina: há vozes que incomodam mais do que outras. Incomoda mais um padre que denuncia a crueldade social do que um religioso conservador que mobiliza multidões enquanto reforça papéis hierárquicos entre homens e mulheres.


Em São Paulo, Dom Odilo Scherer se tornou símbolo dessa contradição. No Recife, Dom Paulo Jackson aparece em outro ponto do mesmo mapa, ao emprestar legitimidade institucional a eventos de grande escala com Frei Gilson sem que se veja resposta proporcional às implicações públicas desse discurso sobre mulheres. O contraste salta aos olhos. Para a voz evangélica da compaixão radical, freio. Para a voz rentável, multitudinária e disciplinadora, acolhimento.


A instituição pode alegar prudência, foro interno, autonomia canônica. O problema é que, fora dos muros e dos códigos eclesiásticos, o efeito social é outro. O que passa para o público é uma pedagogia perversa: o cristianismo que confronta a exclusão vira problema administrativo; o cristianismo que reforça obediência, gênero e autoridade masculina segue livre para crescer.


Logotipo da GloboNews em vermelho sobre fundo branco, com a palavra "NEWS" estilizada. Design limpo e moderno.
Logo GloboNews | Foto: Reprodução/X

Há também uma responsabilidade específica do jornalismo. Não basta dizer que ouvir lados diferentes é parte do ofício. Isso é verdade, mas é só o começo. Jornalismo não existe para equilibrar formalmente qualquer disputa. Existe para informar com método, contexto e compromisso com a realidade. Quando uma emissora põe no mesmo nível um discurso sustentado por distorções e outro lastreado em pesquisa e experiência concreta, corre o risco de fabricar uma simetria fraudulenta.


Esse é o ponto central. O jornalismo não pode funcionar como lavanderia reputacional da misoginia contemporânea. Não pode chamar de “polêmica” o que já se consolidou como engrenagem de rebaixamento feminino. Não pode vestir de pluralismo a omissão diante da mentira factual. E não pode, sobretudo, tratar como curiosidade cultural um ideário que oferece ao homem ressentido um pacote sedutor: culpa terceirizada, autoridade restaurada, religião como escudo e mulher como horizonte de serviço.


Se o debate vira vitrine para esse pacote, a imprensa deixa de iluminar o problema e passa a distribuí-lo.


Não estamos diante de um desacordo inocente sobre costumes. O que está em disputa é a possibilidade de fazer retroceder, com palavras aparentemente brandas, conquistas mínimas de autonomia feminina. O léxico pode variar. Valores familiares. Masculinidade sadia. Fé no lar. Mas a arquitetura permanece reconhecível: conter a liberdade das mulheres, recolocar o homem no centro e reabilitar a desigualdade como se fosse virtude.


Num país que segue registrando números brutais de feminicídio, denúncias de violência e agressões dentro de casa, tratar isso como debate abstrato é uma forma de cegueira editorial. A violência contra a mulher não começa no soco. Ela começa na ideia de posse. Na pedagogia da obediência. Na glamourização da chefia masculina. Na ridicularização do feminismo. Na catequese da resignação. Na mentira repetida para esvaziar a gravidade dos fatos.


Juliano Cazarré não inventou esse enredo. Frei Gilson tampouco. Mas ambos ajudam a atualizá-lo. E o jornalismo que lhes oferece palco sem a devida contenção crítica não está apenas falhando na mediação. Está ajudando a empurrar para a arena pública um discurso que já custou caro demais às mulheres brasileiras.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, mídia, direitos humanos e os mecanismos de poder que costumam se esconder atrás de discursos respeitáveis.

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