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Quaest mostra que 43% veem piora na economia e 68% dizem comprar menos, apesar do avanço do PIB, do emprego e da renda média.


Por Vitória Régis para O estopim | Cobertura especial das Eleições 2026

15 de julho de 2026


Contas domésticas e compras representam a perda de poder de compra apontada pela pesquisa Quaest
Contas domésticas e compras representam a perda de poder de compra apontada pela pesquisa Quaest | Foto: IA/Chat GPT/Com dados da pesquisa Genial/Quest

A economia brasileira apresenta crescimento do Produto Interno Bruto, desemprego menor e aumento da renda média real. A melhora, porém, ainda não chegou ao orçamento da maioria dos entrevistados pela nova pesquisa Genial/Quaest.


No levantamento divulgado nesta quarta (15), 43% afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses. Outros 33% avaliam que ficou quase do mesmo jeito. Apenas 20% dizem que houve melhora, enquanto 4% não souberam ou não responderam.


A distância entre a estatística econômica e a experiência cotidiana fica ainda mais evidente na pergunta sobre consumo. Para 68% dos entrevistados, o poder de compra é menor do que há um ano. Outros 21% dizem comprar a mesma quantidade e apenas 10% afirmam conseguir comprar mais. Os resultados aparecem nas páginas 49 e 51 do relatório.


A Quaest ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 120 municípios, entre 10 e 13 de julho. A margem de erro da amostra nacional é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07181/2026.


O PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com os três meses anteriores. Frente ao primeiro trimestre de 2025, a alta foi de 1,8%. Agropecuária, indústria e serviços apresentaram expansão na comparação trimestral, e o consumo das famílias avançou 1%.


O mercado de trabalho também registra números favoráveis. A taxa de desemprego ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio, abaixo dos 6,2% registrados um ano antes. A população ocupada chegou a 102,7 milhões de pessoas.


O rendimento médio real habitual foi estimado em R$ 3.726, alta de 4% em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação com o trimestre anterior, contudo, a renda permaneceu estável. A informalidade ainda atingia 37,3% da população ocupada, equivalente a 38,3 milhões de trabalhadores.


Os dados confirmam melhora em dimensões importantes da economia. Eles não demonstram, porém, que todas as famílias tiveram aumento de renda nem que o dinheiro disponível cresceu depois do pagamento das despesas fixas.


O PIB mede a produção de bens e serviços no país. Quando ele cresce, significa que a atividade econômica aumentou em termos agregados.


O indicador não revela sozinho como o crescimento foi distribuído entre trabalhadores, empresas, setores, regiões e faixas de renda. Também não informa quanto sobra no orçamento familiar depois de aluguel, alimentação, transporte, contas domésticas, parcelas e dívidas.


A renda média enfrenta limitação semelhante. Uma média pode subir porque determinados grupos tiveram ganhos maiores, mesmo que outros tenham ficado estagnados. Ela também considera a renda do trabalho antes de despesas obrigatórias e pagamentos financeiros.


Por isso, crescimento do PIB, redução do desemprego e perda de poder de compra podem coexistir.


A diferença também aparece na percepção sobre o mercado de trabalho. Para 55% dos entrevistados pela Quaest, está mais difícil conseguir emprego do que há um ano. Outros 36% consideram que está mais fácil, 4% dizem que a situação ficou igual e 5% não souberam ou não responderam. O resultado está na página 52 do relatório.


A taxa de desemprego e a facilidade de conseguir uma vaga medem situações diferentes. O desemprego considera quem procurou trabalho e não encontrou. A percepção de dificuldade pode envolver tempo de procura, salário oferecido, exigências das empresas, distância, jornada, formalização e qualidade da ocupação.


O próprio IBGE registrou que o rendimento médio ficou estável frente ao trimestre anterior. Na análise por atividade e posição profissional, nenhuma categoria apresentou crescimento estatisticamente significativo no período mais recente pesquisado.


A moradia ajuda a explicar por que parte do aumento da renda pode desaparecer antes de chegar ao consumo.


O Índice FipeZAP de Locação Residencial acumulou alta média de 9% nos 12 meses encerrados em junho. No mesmo período, o IPCA acumulou 4,64%. O indicador da Fipe acompanha valores anunciados de imóveis, e não todos os contratos efetivamente pagos, mas mostra uma pressão relevante no mercado de locação das cidades monitoradas.


No IPCA de junho, o grupo Habitação avançou 0,63%, a maior variação entre os grupos pesquisados no mês. A energia elétrica residencial subiu 1,53%, enquanto a taxa de água e esgoto aumentou 0,30%.


Aluguel, energia, água e condomínio são despesas difíceis de adiar. Quando esses custos sobem acima da renda de uma família, o ajuste costuma ocorrer no mercado, no lazer, no transporte ou na capacidade de poupar.


Na Quaest, 66% afirmam que os preços dos alimentos subiram nos mercados no último mês. Para 23%, ficaram iguais. Apenas 9% perceberam queda, enquanto 2% não souberam ou não responderam. Os números aparecem na página 50 do levantamento.


O IPCA apresentou uma fotografia diferente em junho. O grupo Alimentação e bebidas recuou 0,24%, depois de ter subido 1,33% em maio. A alimentação no domicílio caiu 0,39%, influenciada por café, frutas e carnes. Em sentido contrário, feijão-carioca e batata ficaram mais caros.


Os resultados não são diretamente equivalentes. O IPCA mede uma cesta média em períodos definidos de coleta. A pesquisa pergunta o que o entrevistado percebeu nas compras recentes. Cada família consome produtos diferentes, em estabelecimentos diferentes e com pesos diferentes no orçamento.


Além disso, inflação menor ou uma queda mensal não devolvem automaticamente o poder de compra perdido. Quando o preço de um produto sobe durante vários meses e recua apenas uma vez, ele pode continuar mais caro do que no início do período.


O grupo Transportes subiu 0,17% no IPCA de junho. As passagens aéreas avançaram, enquanto os combustíveis recuaram. O ônibus urbano apresentou alta de 0,72%, com resultados influenciados por reajustes e políticas tarifárias diferentes entre as cidades pesquisadas.


Para quem depende diariamente de ônibus, metrô, combustível ou transporte por aplicativo, pequenas variações sucessivas afetam o valor disponível para outras despesas.


Essa experiência não aparece integralmente no PIB. Ela aparece na parcela do salário que resta depois do deslocamento até o trabalho, do aluguel e das contas da residência.


A taxa Selic estava em 14,25% ao ano após a decisão do Banco Central de junho. Mesmo após reduções recentes, o patamar continua elevado e influencia o custo do crédito, das renegociações e dos financiamentos.


Em abril, o endividamento das famílias correspondia a 49,8% da renda disponível bruta restrita, segundo a metodologia do Banco Central. O comprometimento da renda com pagamentos de dívidas estava em 28,2%.


A inadimplência no crédito livre para pessoas físicas chegou a 7,6% em maio, com alta de 1,2 ponto percentual em 12 meses.


Esses indicadores ajudam a entender a diferença entre renda recebida e renda disponível. Um trabalhador pode ter reajuste salarial e, ainda assim, terminar o mês com menos dinheiro caso as prestações, os juros, o aluguel e os alimentos avancem mais rapidamente.


A comparação não permite afirmar que um indicador esteja certo e o outro errado.


A Quaest mede percepção. O IBGE mede produção, preços, ocupação e renda por metodologias próprias. O Banco Central acompanha crédito, endividamento e comprometimento da renda. A Fipe monitora preços anunciados de locação nas cidades cobertas pelo índice.


Os períodos de coleta também não são idênticos. A pesquisa da Quaest foi realizada entre 10 e 13 de julho. O IPCA de junho comparou preços coletados entre 30 de maio e 30 de junho com o período imediatamente anterior.


A reportagem confronta os indicadores para explicar a aparente distância entre eles, sem estabelecer relação automática de causa e efeito.


A percepção econômica é formada menos pelo valor total produzido pelo país e mais pela capacidade de pagar despesas, manter o consumo e enfrentar imprevistos.


Emprego e renda são fundamentais, mas não bastam quando uma parcela elevada do orçamento está comprometida com moradia, alimentação, transporte e dívidas.


A diferença entre macroeconomia e vida cotidiana mostra que crescimento econômico e bem-estar não são sinônimos. Para que a melhora seja percebida, ela precisa alcançar a renda disponível, reduzir a insegurança financeira e superar o aumento acumulado das despesas familiares.


O IBGE divulgará uma nova rodada mensal da PNAD Contínua em 30 de julho. O IPCA referente a julho está previsto para 11 de agosto. Os próximos dados mostrarão se o emprego e a renda mantêm a trajetória e se a desaceleração dos preços se prolonga.


Novas pesquisas de percepção serão necessárias para verificar se uma eventual continuidade da melhora macroeconômica passa a ser reconhecida pelas famílias.


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Vitória Régis é economista e editora de Economia e Mercados de O estopim. Especialista em traduzir o economês para a vida real, analisa finanças, investimentos e políticas econômicas com olhar crítico, social e atento aos impactos no Nordeste.

Opinião de Raul Silva, editor-chefe de O estopim | 24 de maio de 2026



Homem fala ao microfone sentado em palco azul, com telão ao fundo e texto esfera; clima de palestra/entrevista.
Apresentador Luciano Huck em "evento fechado" para o empreseriado em Guarulhos/SP | Foto: Divulgação/Esfera Brasil)

O problema na fala de Luciano Huck sobre o Bolsa Família não é apenas o desconhecimento. É a combinação de desconhecimento com autoridade midiática, juízo moral sobre a pobreza e uma tentativa de recuo que piora o quadro. Ao participar do 5º Fórum Esfera, no Guarujá, neste sábado (23), Huck afirmou que faltaria estímulo para uma família sair do programa e disse, ao citar Senhor do Bonfim, na Bahia, que famílias buscariam “atalhos” para permanecer no benefício “ad aeternum”. No dia seguinte, diante da repercussão, tentou reduzir o dano afirmando que se tratava de uma fala em “evento fechado” e que o trecho circulou “fora de contexto”. O recuo não responde ao essencial. Responde apenas ao constrangimento público.


O ponto central é simples. Em que contexto exatamente chamar beneficiários de um programa de proteção social de gente à procura de “atalhos” para ficar no sistema eternamente deixa de ser preconceituoso, raso e tecnicamente errado? Se a crítica era à gestão, por que a frase escolhida criminaliza o comportamento dos pobres? Se a preocupação era com emancipação econômica, por que o comentário despreza mecanismos do programa que já existem justamente para evitar dependência, facilitar a transição para o trabalho e garantir proteção em momentos de oscilação de renda?


A desculpa também produz uma pergunta incômoda. Se fosse um evento aberto, transmitido em rede nacional, ele diria a mesma coisa? Se não diria, o problema não está no corte. Está na sinceridade seletiva. E, se diria, então a tese do “fora de contexto” cai por terra. Em qualquer das hipóteses, sobra o mesmo dilema: dois pesos e duas medidas para a mesma fala, conforme o tamanho da plateia e o risco reputacional envolvido.


O mais impressionante é que Luciano Huck listou, na tentativa de correção, exatamente elementos que já estruturam o Bolsa Família. Ao se defender, disse ser favorável a aperfeiçoar programas sociais com tecnologia, eficiência, individualização, combate à corrupção, educação de qualidade, geração de oportunidades e direito de escolha. O problema é que essa formulação vende como novidade algo que o programa já carrega há anos, em desenho institucional e em regras formais.


O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social informa que o Bolsa Família exige inscrição e atualização no Cadastro Único, tem critério de renda por pessoa, acompanhamento cadastral e integração com políticas públicas. O programa também mantém condicionalidades de saúde e educação, com acompanhamento vacinal, pré-natal, estado nutricional de crianças e frequência escolar. Em janeiro de 2026, o próprio MDS reiterou que essas condicionalidades são instrumentos centrais para assegurar acesso das famílias à assistência social, à saúde e à educação, e que o descumprimento gera repercussões graduais e acompanhamento socioassistencial. Ou seja, não se trata de depósito cego de dinheiro. Trata-se de uma política pública articulada com direitos básicos e monitoramento permanente.


Mais do que isso, a chamada Regra de Proteção existe justamente para evitar o efeito perverso que críticos mal informados costumam atribuir ao programa. Quando a renda do trabalho aumenta, a família não perde imediatamente o benefício. Ela pode permanecer por um período de transição, e, se a renda voltar a cair, o valor integral pode ser restabelecido. O MDS também criou o Retorno Garantido, que permite a reintegração prioritária por até 36 meses para famílias que saem do programa e voltam à pobreza. Em português claro: o Bolsa Família já tem porta de entrada, ponte de transição e porta de retorno. Ele não desestimula o trabalho. Ele tenta impedir que um emprego precário, instável ou sazonal empurre a família de volta à fome por medo de perder tudo de uma vez.


Huck falou em mobilidade social como se o programa a bloqueasse. Os dados recentes caminham na direção oposta. Em outubro de 2025, o governo federal informou que 2 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família após aumento de renda. Isso não prova que todo problema foi resolvido, mas desmonta a caricatura segundo a qual o programa produziria acomodação em massa. Mostra, ao contrário, que proteção social e aumento de renda podem coexistir.


Há um padrão antigo na fala pública brasileira: exigência máxima de virtude para quem recebe transferência de renda e indulgência quase infinita com privilégios, renúncias, subsídios, lobby, isenções e ganhos privados. Quando o alvo é o pobre, tudo vira suspeita moral. Quando o alvo é o topo da pirâmide, tudo vira eficiência, mercado, oportunidade, empreendedorismo.


É nesse ponto que a fala de Luciano Huck se torna mais reveladora do que ele talvez gostaria. O apresentador não é um comentarista anônimo. É um dos comunicadores mais poderosos do país. Sua palavra ajuda a construir imaginários. Quando ele sugere, num fórum empresarial, que beneficiários procuram “atalhos” para eternizar o benefício, não está apenas emitindo opinião. Está reforçando um repertório histórico de desconfiança contra os pobres, repertório que costuma tratar a miséria como falha de caráter e a desigualdade como mero problema de esforço individual.


Essa chave moralista ganha contornos ainda mais contraditórios quando se observa o ecossistema comercial em que Huck circula. Em 2025, a revista Veja registrou que o apresentador passou a anunciar comercial da Bet MGM, no contexto da entrada mais agressiva das casas de aposta no mercado brasileiro. No mesmo período, levantamento do Procon-SP apontou que 39,7% dos apostadores se endividaram após o início da relação com bets, e que 56,6% dos apostadores disseram se sentir influenciados por propagandas com celebridades. A CNC, em dados divulgados pela Agência Brasil, estimou que as bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026 e podem ter levado 270 mil famílias à inadimplência severa.


O contraste é brutal. Para o pobre que recebe proteção social do Estado, desconfiança. Para o mercado de apostas, que cresce justamente em ambiente de vulnerabilidade, publicidade com celebridade. A pergunta é inevitável: de que lugar Luciano Huck fala quando acusa famílias pobres de procurar atalhos? Do lugar de quem monetiza a audiência em um setor que autoridades e entidades de defesa do consumidor já associam a endividamento, risco e influência publicitária sobre pessoas de renda baixa. A régua moral parece bastante seletiva.


Mão segurando cartão azul do Auxílio Brasil, com pessoa desfocada ao fundo em tons de verde e amarelo.
Antigo Auxílio Brasil, programa criado pelo governo Bolsonaro, envolvido em escândalos de desvio do público-alvo | Foto: Portal Contábeis

Também é intelectualmente desonesto discutir o Bolsa Família de 2026 ignorando o que foi feito com o programa social no governo Bolsonaro. O Auxílio Brasil não foi apenas uma troca de nome. Foi um rearranjo turbulento, com fragilidades de focalização e uso político explícito em ano eleitoral.


Em dezembro de 2022, o TCU concluiu auditoria apontando desvio do público-alvo no Auxílio Brasil, além de piora na custo-efetividade do combate à pobreza. Em 2024, o STF derrubou a emenda constitucional que havia liberado benefícios em pleno processo eleitoral de 2022, por considerá-la inconstitucional. Em outras palavras, a Justiça reconheceu que houve, sim, uma excepcionalidade indevida no uso de benefícios durante o ano da disputa presidencial.


A desorganização também apareceu nos cadastros. Em 2023, já no governo Lula, começou uma revisão ampla das distorções herdadas. A própria CGU avaliou procedimentos de inclusão e averiguação de famílias unipessoais no CadÚnico, e o MDS passou a endurecer regras e a exigir entrevista domiciliar em novas entradas desse perfil. O governo informou, ao longo da revisão, que milhões de benefícios foram bloqueados para averiguação e cerca de 3,7 milhões acabaram efetivamente cancelados por inconsistências, ao mesmo tempo em que a busca ativa incluiu famílias vulneráveis que estavam fora da rede. O MDS também divulgou a inclusão de 1,3 milhão de lares por busca ativa desde março de 2023. Isso mostra dois movimentos simultâneos: retirar pagamentos indevidos e recolocar para dentro quem tinha direito e estava invisível.


Esse ponto é de suma importância, porque desmonta outro vício do debate superficial. O problema real de programas sociais não é sua existência. O problema é sua captura política, seu desenho ruim, sua execução frouxa e seu uso eleitoral. Quando isso ocorreu no ciclo do Auxílio Brasil, a reação de setores da elite econômica e midiática foi muito menos ruidosa do que a indignação de hoje contra o pobre supostamente “acomodado”.


Captura de post no X sobre Bolsa Família; tweet com texto e vídeo de homem falando em palco azul, do Poder360.
Repercussão nas redes | Foto: Reprodução/X

A justificativa de Huck falha por outro motivo. Ela tenta deslocar a discussão do conteúdo para o ambiente. Como se uma fala dita diante de empresários, e não do grande público, tivesse menor peso ético. Isso é indefensável para qualquer comunicador profissional.


A responsabilidade sobre o que se diz não depende do local do microfone. Ao contrário. Em ambientes de elite, muitas falas são mais reveladoras porque escapam do filtro da linguagem publicitária.


Luciano Huck conhece o poder da comunicação. Vive dela. Lucra com ela. Construiu carreira inteira na interseção entre entretenimento, consumo, emoção e autoridade pública. Por isso, a tese do “eu não disse isso desse jeito, disseram por mim” convence pouco. O registro público mostra que ele falou em falta de estímulo e em “atalhos” para permanência eterna. A reação não nasce de má-fé alheia. Nasce do que foi dito.


Não é a primeira vez que Huck entra em rota de colisão com grupos socialmente vulneráveis ou produz comentários que revelam um olhar paternalista. Em 2025, foi alvo de críticas após pedir que indígenas escondessem celulares e roupas “comuns” em gravação no Xingu, afirmando “limpa a cultura de vocês aí”. O episódio foi repudiado porque reproduzia a ideia de que só existe “cultura original” quando o outro cabe no enquadramento exótico que a televisão deseja exibir. A lógica é parecida: o Brasil real atrapalha a fantasia confortável das elites.


No fundo, o que parece incomodar parte da elite brasileira não é a dependência do Estado. É quem depende dele. Quando o Estado garante renda mínima para impedir que famílias passem fome, surge uma patrulha moral disposta a vigiar o prato alheio. Quando o Estado concede vantagens tributárias, crédito subsidiado, renúncia fiscal ou socorro a setores poderosos, quase nunca se ouve a mesma fúria moral.


Luciano Huck poderia ter usado seu alcance para defender melhora de gestão, qualificação profissional, expansão de creches, ensino integral, integração com políticas de emprego, redução das desigualdades regionais e combate a fraudes com base em evidência. Preferiu o caminho mais preguiçoso e mais cruel: insinuar que famílias pobres querem viver de atalhos.


Errou no diagnóstico. Errou no alvo. E errou de novo no remendo. Porque um comentário injusto não vira responsável só porque foi proferido em auditório seleto. E uma fala preconceituosa não ganha contexto salvador quando a internet a arranca da bolha onde ela parecia socialmente aceitável.


O debate sério sobre pobreza exige método, dado e humanidade. Não slogan de fórum empresarial. Muito menos aula sobre mérito vinda de um dos homens mais bem remunerados da televisão, cuja renda anual, segundo estimativas de imprensa que apontam salário fixo de cerca de R$ 4 milhões por mês, supera com folga o total anual do Novo Bolsa Família em pequenos municípios brasileiros, como Ouro Branco (AL), com R$ 5,55 milhões em 2025, e Curral Novo do Piauí (PI), com R$ 4,64 milhões. O contraste não torna sua opinião inválida por si só. Mas torna ainda mais grave falar da fome alheia sem rigor, sem escuta e sem noção do próprio privilégio.


A fala de Luciano Huck não caiu porque foi mal editada. Caiu porque, confrontada com os fatos, não se sustenta.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com foco em política, transparência pública, desinformação e análise crítica de temas de interesse coletivo.

Por Raul Silva para O estopim | 9 de abril de 2026



Três homens de meia-idade em close com expressões sérias. Todos usam ternos escuros e gravatas coloridas. Fundo neutro.
Pré-candidatos à Presidência, o presidente Lula, o senador Flávio Bolsonaro e o governador Ronaldo Caiado destacam-se na política nacional enquanto planejam suas campanhas. | Foto: Montagem com fotos de Brenno Carvalho/Agência O Globo

A nova pesquisa Meio/Ideia, realizada entre 3 e 7 de abril, mostra que a corrida presidencial de 2026 entra em uma fase de maior incerteza. Depois do fim da janela partidária e do período de desincompatibilização para parte dos pré-candidatos, 51,4% dos entrevistados dizem que ainda podem mudar de voto até outubro. O dado, somado ao empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro em um dos cenários de segundo turno, indica uma eleição aberta, com espaço real para reorganização das forças políticas nos próximos meses.


O principal achado do levantamento não é apenas a liderança de Lula no primeiro turno estimulado, com 40,4%, diante de 37% de Flávio Bolsonaro. O dado mais relevante é a erosão da convicção do eleitor. Em janeiro, 64,5% se declaravam decididos. Em abril, esse grupo caiu para 48,6%. A curva se inverteu, e os eleitores disponíveis para trocar de candidato passaram a ser maioria.


Gráfico mostra queda na decisão de voto de 64,5% a 51,4% e aumento de indecisos de 35,5% a 48,6%, de jan a abr/2026.
Evolução da decisão de voto de janeiro a abril de 2026: A proporção de eleitores decididos diminui de 64,5% para 48,6%, enquanto a porcentagem de eleitores que ainda podem mudar seu voto aumenta de 35,5% para 51,4%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Essa mudança ajuda a explicar por que o quadro permanece instável mesmo depois de uma etapa importante do calendário eleitoral. A janela partidária terminou em 3 de abril, e os prazos de desincompatibilização passaram a incidir em abril para parte dos ocupantes de cargos públicos, o que tende a reduzir a zona cinzenta sobre quem de fato pretende disputar a Presidência. Ainda assim, a definição institucional não se converteu em cristalização do voto.


No cenário estimulado de primeiro turno, Lula aparece na dianteira, mas sem uma vantagem capaz de encerrar a disputa. Flávio Bolsonaro concentra a maior parte do voto de direita já transferido, porém ainda opera em terreno menos consolidado do que o do presidente. Entre os eleitores de Lula, 73,4% dizem estar decididos. Entre os de Flávio, esse índice cai para 39,6%.


Gráfico de barras horizontais mostra Lula com 40,4% e Flávio Bolsonaro com 37% no 1º turno. Outros candidatos têm percentuais menores.
Cenário eleitoral do 1º turno estimulado: Lula lidera com 40,4%, seguido por Flávio Bolsonaro com 37,0%. Outros candidatos apresentam porcentagens menores, enquanto 8,5% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

A espontânea reforça esse retrato. Lula marca 32,6%, enquanto Flávio tem 19,4%. Jair Bolsonaro ainda aparece com 6%, mesmo fora do jogo formal. Isso sugere que uma parcela do eleitorado bolsonarista continua dispersa, seja por resistência à transferência automática do capital político, seja por espera estratégica de novos movimentos no campo conservador.


Em termos práticos, Lula tem hoje um eleitorado mais consistente. Flávio, por sua vez, demonstra maior capacidade de competitividade numérica imediata, mas com base mais fluida. É uma diferença decisiva para entender a campanha: um candidato pode estar perto no placar e, ainda assim, depender mais de reacomodações do que de fidelidade consolidada.


O levantamento mostra que a direita ainda não concluiu seu processo de aglutinação. Ronaldo Caiado aparece com 6,5% no cenário estimulado, enquanto Romeu Zema e Renan Santos marcam 3% cada. Aldo Rebelo surge com 0,6%. O número mais eloquente, porém, está no grau de firmeza desses eleitorados. Entre os apoiadores de Caiado, 69,4% ainda admitem mudar de voto. Entre os de Zema, o índice chega a 80%.


Isso significa que a disputa no campo conservador está longe de resolvida. Há voto disponível, mas ainda sem travamento definitivo. Para Lula, esse quadro tem duas leituras possíveis. A primeira é positiva: a fragmentação adversária dificulta a formação de uma maioria estável já no primeiro turno. A segunda é mais arriscada: uma eventual convergência mais adiante pode reduzir rapidamente a vantagem hoje observada.


É no segundo turno que a pesquisa ganha maior densidade política. Contra Flávio Bolsonaro, Lula marca 45,5%, e o adversário, 45,8%. A diferença de 0,3 ponto percentual configura empate técnico dentro da margem de erro. Contra Caiado, Lula vence por 45% a 39%. Contra Zema, a vantagem é de 44,7% a 38,7%. Diante de Renan Santos e Aldo Rebelo, a distância cresce ainda mais.


Gráfico de barras horizontais mostra porcentagens de votos no 2º turno. Flávio empata; Lula e Adversário em azul e verde. Texto indica disputa equilibrada.
Gráfico comparativo do 2º turno mostra empate com Flávio Bolsonaro e vantagem dos adversários sobre outros candidatos. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

A leitura é objetiva. O nome que hoje apresenta maior potência eleitoral contra Lula é Flávio Bolsonaro. Não porque tenha o eleitorado mais sólido, mas porque já ocupa o ponto de maior eficiência na transferência do campo bolsonarista para um cenário competitivo. Ao mesmo tempo, a alta volatilidade do seu apoio indica que esse desempenho ainda pode crescer ou encolher de forma relevante.


A pesquisa também ajuda a entender o humor material do eleitor. Sete em cada dez brasileiros afirmam que o custo de vida aumentou no último ano. Quatro em cada dez dizem estar mais endividados. E 74,7% classificam custo de vida e endividamento como temas muito importantes ou importantes na hora de votar.


Gráfico de barras mostrando a pressão econômica como fator eleitoral: custo de vida 70,4%, endividamento 40%, tema relevante no voto 74,7%.
Avaliação do governo Lula: 70,4% dos entrevistados percebem aumento no custo de vida, 40% sentem maior endividamento, e 74,7% consideram esses temas importantes na decisão de voto. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Esse bloco de dados dialoga diretamente com a avaliação do governo. Na medição geral, Lula soma 46,4% de ruim ou péssimo, contra 32,2% de ótimo ou bom. Na economia, o saldo negativo também é superior ao positivo. Na segurança pública, a diferença piora e o governo registra seu pior desempenho setorial, com 53,9% de ruim ou péssimo.


Gráfico de barras mostra avaliação do governo nas áreas Geral, Economia e Segurança. Cores indicam Ótimo/Bom, Regular, Ruim/Péssimo.
Avaliação do governo: segurança pública recebe a pior avaliação, com 53,9% considerando ruim/péssimo, enquanto a economia tem 44,6% de avaliação negativa e a geral 46,4%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Em uma eleição nacional, percepção econômica e sensação de ordem cotidiana costumam funcionar como chaves de decisão tardia. Quando mais da metade do eleitorado declara que ainda pode mudar de voto, essas variáveis ganham peso adicional. Não se trata apenas de rejeição ideológica ou identidade partidária. Trata-se de custo de vida, dívida e sensação de perda de controle sobre a rotina.


Outro aspecto relevante do levantamento é a presença de temas institucionais no imaginário do eleitor. Para 42,5% dos entrevistados, a maior ameaça à democracia brasileira hoje é a concentração de poder no Judiciário. O índice supera com folga a corrupção dos políticos, a polarização, a desinformação e a influência estrangeira nas eleições.


Gráfico de barras mostrando ameaças à democracia segundo entrevistados. "Poder no Judiciário" lidera com 42,5%. Título: "Para os entrevistados, principal ameaça à democracia está no Judiciário".
Para os entrevistados, a principal ameaça à democracia é o "Poder no Judiciário", com 42,5%, seguido pela "Corrupção dos políticos" com 16,5%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Na pergunta sobre anistia após os atos de 8 de janeiro, 41% se dizem contra qualquer tipo de perdão. Mas a soma dos favoráveis chega a 53%, dividida entre anistia ampla, inclusive para Jair Bolsonaro e militares, e anistia restrita aos manifestantes, sem alcançar lideranças. O tema, portanto, não está resolvido socialmente. Ele segue aberto e pode ser mobilizado tanto pelo campo conservador quanto por setores que apostam no discurso de pacificação.


Esses números sugerem que a eleição de 2026 não será decidida apenas entre economia e rejeição partidária. Haverá também uma disputa de narrativa sobre sistema de Justiça, limites institucionais, memória do 8 de janeiro e legitimidade da mediação internacional sobre o processo eleitoral.


A pesquisa oferece três conclusões firmes. A primeira é que Lula continua competitivo e lidera o primeiro turno estimulado. A segunda é que Flávio Bolsonaro, hoje, é o adversário mais forte para um eventual segundo turno. A terceira é que a maioria do eleitorado ainda não fechou posição.


Mas há também limites claros. Pesquisa é fotografia, não roteiro definitivo. O levantamento capta um momento em que o cardápio de candidaturas ficou mais nítido, mas ainda não entrou na fase mais intensa de campanha, alianças, exposição publicitária, debates e eventual deslocamento de apoios regionais. Em outras palavras, o cenário está menos nebuloso do que no começo do ano, mas segue longe de uma consolidação.


A implicação política é evidente. Lula chega ao meio do primeiro semestre com vantagem competitiva, porém sem margem para acomodação. A direita, por sua vez, já tem um nome capaz de ameaçar o presidente, mas ainda depende de coesão, disciplina e retenção de voto para transformar potencial em maioria.


A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 pessoas entre 3 e 7 de abril de 2026, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00605/2026-BRASIL.


O retrato de abril deixa um diagnóstico central: a eleição presidencial de 2026 está aberta porque o eleitor está aberto. E, quando o eleitor ainda não travou sua decisão, a campanha deixa de ser apenas disputa entre nomes e passa a ser uma guerra por sensação de segurança, memória política, autoridade institucional e capacidade de falar ao bolso.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, eleições, dados públicos e temas de interesse coletivo.

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