Evento reuniu apoiadores na noite de sábado; Ivete concentrou discurso em educação, saúde e estrutura dos serviços públicos, enquanto João colocou disputa estadual no campo da eleição presidencial.
Por Clara Mendes para O estopim |
23 de agosto de 2026
Cobertura das Eleições 2026
Ivete Caetano reúne apoiadores em inauguração de comitê no Recife. | Foto: Reprodução/Redes Sociais
A candidata a deputada estadual Professora Ivete Caetano, do PT, inaugurou na noite deste sábado (22), seu comitê de campanha na região central do Recife diante de um público numeroso e com a participação de João Campos, candidato do PSB ao Governo de Pernambuco, da senadora Teresa Leitão, do PT, de Marília Arraes, candidata do PDT ao Senado, além de Liana Cirne candidata a Deputada Federal, pelo PT e do Prefeito do Recife Victor Marques do PCdoB. João e Ivete fizeram os discursos de maior confronto político da noite, com críticas ao grupo da governadora Raquel Lyra, do PSD, e defesa do alinhamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
João Campos usou a passagem pelo comitê para colocar a disputa pernambucana dentro da polarização da eleição presidencial. Ao falar dos adversários, declarou que “do outro lado, está a turma do Bolsonaro todinha”. Na sequência, afirmou que seu grupo tem como “prioridade máxima”a reeleição de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin.
O candidato ao governo citou Ivete Caetano e Teresa Leitão ao delimitar o campo político que pretende representar em Pernambuco. João afirmou que as forças reunidas no ato têm diferenças internas, mas integram, segundo ele, um campo “popular e democrático”. O discurso reforçou uma linha adotada pela Frente Popular desde a formação da chapa estadual: vincular a candidatura de João ao palanque de Lula e associar integrantes do grupo de Raquel Lyra a setores do bolsonarismo.
A fala também deu peso estadual à candidatura de Ivete. Em vez de restringir o apoio à disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de Pernambuco, João apresentou a candidata petista como integrante do conjunto político que pretende eleger governador, senadores, deputados e manter Lula na Presidência.
Marília Arraes, candidata ao Senado, posa ao lado da senadora Teresa Leitão durante a inauguração do comitê de Ivete Caetano, no Recife. | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Ivete respondeu com um discurso concentrado em sua principal área de atuação, a educação pública, e ampliou as críticas para a saúde estadual. Em um dos momentos centrais da fala, afirmou:
“Lula trouxe indústrias para Pernambuco. E Raquel Lyra trouxe o quê? Teto de hospital e de escola caindo.”
A candidata relacionou os problemas estruturais dos prédios públicos à falta de manutenção e afirmou que a educação não recebeu prioridade política do governo estadual. Ivete disse que pretende levar essa cobrança para a Alepe caso seja eleita. A professora também recorreu à própria experiência de mais de três décadas no serviço público para sustentar o argumento de que manutenção predial precisa ser permanente.
A crítica feita no palanque ocorre após uma sequência real de problemas estruturais em equipamentos estaduais. Em 7 de julho, parte do teto da Escola Estadual Presidente Arthur da Costa e Silva, na Mustardinha, desabou e deixou seis estudantes e um professor feridos. Em 29 de julho, parte do forro de uma sala de recuperação do Hospital da Restauração caiu sobre uma paciente que havia passado por cirurgia. Em agosto, novos episódios envolvendo coberturas e forros foram registrados em escola e hospital da rede estadual.
O Governo de Pernambuco disse ter adotado providências nos casos. Após o desabamento no Hospital da Restauração, anunciou investigação administrativa, perícia, interdição parcial do setor e auditoria para apurar causas e responsabilidades. No episódio da escola estadual no bairro de São José, a Secretaria de Educação informou que quatro folhas de PVC se desprenderam devido aos fortes ventos e foram recolocadas.
Teresa Leitão também transformou o apoio a Ivete em crítica direta ao governo estadual. A senadora questionou o discurso de neutralidade ideológica na administração pública e argumentou que decisões de governo expressam escolhas políticas. A fala convergiu com a estratégia adotada por João de cobrar de Raquel Lyra uma definição de campo na eleição nacional.
O apoio de Teresa a Ivete antecede a campanha atual e tem origem em uma trajetória política compartilhada. Antes de disputar a Alepe, Ivete trabalhou ao lado de Teresa quando a atual senadora exercia mandato de deputada estadual, com atuação na Comissão de Educação e Cultura da Assembleia. As duas também têm trajetória ligada às lutas de trabalhadores da educação.
Ivete Caetano abriu seu comitê no Recife com grande público e apoio de João Campos, Teresa Leitão e Marília Arraes. Educação e serviços públicos dominaram o discurso da candidata. | Foto: Divulgação.
Marília Arraes também esteve na inauguração e reforçou publicamente o apoio à candidatura. Depois do ato, a candidata ao Senado publicou que participou da abertura do comitê e destacou a trajetória de Ivete na educação, classificando essa luta como “inspiradora”.
A presença conjunta de João Campos, Victor Marques. Teresa Leitão, Liana Cirne e Marília Arraes colocou no mesmo evento representantes de PSB, PT, PCdoB e PDT e reproduziu, na disputa proporcional, a composição política construída em torno da candidatura de João ao Governo de Pernambuco e da reeleição de Lula.
Professora de História, Ivete Caetano tem 60 anos, é presidente licenciada do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em Educação de Pernambuco, o Sintepe, e disputa uma cadeira na Alepe pelo PT com o número 13613. A candidatura integra a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV.
A inauguração do comitê marca uma nova etapa da campanha de Ivete, agora com estrutura própria no Recife, presença de dirigentes do campo governista federal e um discurso que coloca educação, valorização dos servidores e fiscalização dos serviços públicos no centro da disputa pela Assembleia.
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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista de O estopim. Cobre política, poder e acontecimentos do dia com foco em apuração, verificação e interesse público.
Peças reforçam número 13613, destacam educação e direitos sociais e vinculam candidatura a Lula, João Campos e Teresa Leitão
Por Clara Mendes para O estopim |
Cobertura das Eleições 2026
22 de Agosto de 2026
A campanha da professora Ivete Caetano, candidata do PT a deputada estadual em Pernambuco, passou a divulgar vídeos que combinam mobilização de rua e linguagem de animação para apresentar o número 13613 e os principais eixos políticos da candidatura.
Em um dos vídeos analisados por O estopim, Ivete aparece no centro de uma concentração de apoiadores, com bandeiras e material eleitoral. A peça cita educação, defesa das mulheres, cultura e trabalho enquanto participantes repetem o nome e o número da candidata.
O segundo vídeo substitui as imagens de rua por uma personagem digital inspirada em Ivete. A animação repete o número 13613 e utiliza expressões como “deputada estadual” e “mudança pra vida inteira”. A peça também afirma que a candidata “está com Lula”, “está com João” e “também com a senadora Teresa Leitão”.
A associação política apresentada no material coincide com a movimentação pública da candidata. Ivete integra o PT, mantém relação política com Teresa Leitão e participa do campo que apoia João Campos na disputa estadual. Veículos locais também registraram recentemente movimentos de apoio à candidatura ligados ao grupo da senadora.
Ivete Caetano de Oliveira concorre formalmente a uma cadeira na Assembleia Legislativa de Pernambuco com o número 13613. Dados derivados do sistema de candidaturas do TSE registram a candidata pelo PT e pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV.
Professora de História e sindicalista, Ivete está licenciada da presidência do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em Educação de Pernambuco, o Sintepe. A trajetória na entidade é um dos elementos utilizados pela campanha para concentrar a comunicação eleitoral em educação pública e direitos dos trabalhadores. O próprio Sintepe registra Ivete na presidência da entidade antes do afastamento para a disputa eleitoral.
Os dois vídeos mostram estratégias diferentes para o mesmo objetivo eleitoral: fixar o número 13613 e apresentar a candidatura a partir da trajetória sindical, das pautas sociais e das alianças políticas de Ivete em Pernambuco.
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Datafolha revela clivagem política: Raquel é mais forte entre bolsonaristas e evangélicos; João, entre petistas, pretos e eleitores de menor escolaridade.
Por Raul Silva para O estopim |
Cobertura das Eleições 2026
21 de agosto de 2026
Raquel lidera, mas os recortes do Datafolha mostram uma disputa política mais profunda, atravessada por lulismo, bolsonarismo, voto popular e avaliação dos serviços públicos. | Foto: Reprodução
A eleição para o Governo de Pernambuco entrou na campanha oficial com Raquel Lyra (PSD) na liderança e João Campos (PSB) tentando reorganizar a disputa a partir de uma frente política apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Datafolha divulgado nesta sexta-feira, 21 de agosto, registra 47% para Raquel e 40% para João. O levantamento anexado a esta análise, realizado no fim de julho, mostrava 48% a 42%. Mais importante do que observar apenas a distância entre os dois, porém, é entender quem está votando em cada candidatura e que campos políticos começam a se formar em torno delas.
A pesquisa de julho ouviu 1.022 eleitores entre 28 e 30 de julho, antes do início oficial da campanha, com margem de erro de três pontos percentuais. A nova rodada entrevistou 1.204 pessoas entre 18 e 20 de agosto, já com candidatos nas ruas. Os dois levantamentos mostram uma eleição concentrada em Raquel e João, mas os cruzamentos revelam uma disputa social e ideológica muito menos homogênea do que os números gerais sugerem.
A eleição não é apenas Raquel Lyra contra João Campos
A corrida pernambucana não pode ser reduzida a um confronto de personalidades, máquinas partidárias ou estilos de comunicação.
Há uma disputa por direção política do Estado. De um lado, Raquel Lyra tenta transformar a condição de governadora, a avaliação de sua gestão e uma ampla rede de alianças municipais em voto pela continuidade. Ao mesmo tempo, evita assumir um lado na eleição presidencial e tenta preservar interlocução com o governo Lula.
Do outro, João Campos procura reorganizar a tradicional Frente Popular em torno do PSB, do PT e de outras forças, apresentando-se como o candidato ligado a Lula em Pernambuco e tentando aproximar sua candidatura de um campo popular, progressista e democrático.
Essa divisão, porém, não é perfeita. Nem todo eleitor de Lula está com João. Nem todo eleitor de Raquel é bolsonarista. E João tampouco representa sozinho toda a esquerda pernambucana. Os dados ajudam justamente a desmontar essas simplificações.
Raquel lidera, mas sua força é especialmente alta no eleitorado conservador
No Datafolha de julho, Raquel registrava 48% das intenções de voto. Mas alguns segmentos estavam muito acima dessa média.
Entre os evangélicos, chegava a 60%, contra 29% de João. Entre eleitores que declaravam preferência pelo PL, Raquel alcançava 77%, enquanto João tinha 14%. Entre os que pretendiam votar em Flávio Bolsonaro para presidente, a governadora chegava a 76%.
O novo Datafolha reforça essa característica da base eleitoral. Entre os eleitores classificados como bolsonaristas, Raquel aparece com 69%, contra 22% de João. Entre os que não se identificam nem com o petismo nem com o bolsonarismo, ela também lidera, com 49%.
Isso não autoriza chamar Raquel de candidata formal do bolsonarismo. A governadora não assumiu Flávio Bolsonaro como candidato presidencial e mantém posição de neutralidade na disputa nacional.
O que os números permitem afirmar é outra coisa: o eleitorado bolsonarista de Pernambuco encontra hoje em Raquel sua principal opção competitiva para o Governo do Estado.
Essa diferença é fundamental. A política não se resume às declarações dos candidatos. Também é formada pela composição concreta de suas bases, pelos setores que sustentam cada candidatura e pelos interesses que encontram representação em cada projeto de poder.
A neutralidade de Raquel produz um efeito político particular
A posição presidencial adotada por Raquel permite uma movimentação eleitoral incomum. Ao mesmo tempo em que recebe apoio majoritário entre bolsonaristas, a governadora afirma que pretende continuar trabalhando com o governo Lula. Em caminhada no Recife no início da campanha, disse que quer ampliar a parceria com o Governo Federal mesmo depois de o presidente declarar apoio a João Campos.
Na prática, a estratégia permite que Raquel tente separar a eleição estadual da presidencial. Mas ao mesmo tempo, o fato de ela não ter posicionamento e se rodear de bolsonarista da extrema-direita faz com que haja uma grande desconfiança na população, de um estado que é majoritariamente de esquerda, sobre o seu posicionamento político. Some-se a isso a divulgação de anotações e estratégias do PL, que apontam uma preferência velada ou pragmática do senador Flávio Bolsonaro pela reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, onde o partido não lançou candidato próprio.
No final ela não rompe com Lula, porque Pernambuco depende de relações federativas, convênios e investimentos da União. Também não confronta diretamente o eleitorado conservador que hoje forma uma parcela importante de sua sustentação eleitoral.
Do ponto de vista eleitoral, essa posição tem até agora um efeito assimétrico: Raquel consegue receber uma parcela expressiva do voto bolsonarista sem precisar assumir formalmente o candidato presidencial desse campo e ainda procura disputar eleitores que aprovam Lula.
É uma estratégia eficiente para uma candidata governista. Politicamente, porém, ela também impõe uma pergunta que a campanha terá de responder: qual projeto nacional e quais valores políticos estarão associados a um eventual segundo mandato?
A resposta não pode ser deduzida apenas da pesquisa. Precisa ser buscada nas alianças, no programa de governo, nos compromissos assumidos e nas escolhas concretas da candidata.
João encontra força no eleitorado petista, preto e de menor escolaridade
Os dados de julho mostram uma composição diferente na candidatura de João. Entre eleitores que declaravam preferência pelo PT, João tinha 60%, contra 35% de Raquel. Entre aqueles que pretendiam votar em Lula para presidente, chegava a 59%. Entre os que aprovavam o governo federal, tinha 57%.
Há também diferenças sociais importantes. Entre os entrevistados com ensino fundamental, João alcançava 52%, enquanto Raquel tinha 38%. Entre pessoas pretas, João aparecia com 51%, contra 42% da governadora. Entre católicos, o socialista tinha 48%, diante de 45% de Raquel.
Esses números ajudam a localizar uma base potencialmente mais próxima do campo popular que João tenta representar.
Mas há uma ressalva decisiva. Menor escolaridade não é sinônimo automático de menor renda, e o voto popular ainda está em disputa.
Entre famílias com renda de até dois salários mínimos, Raquel registrava 47% e João, 43%. A governadora, portanto, continuava numericamente à frente justamente em uma faixa de renda decisiva para qualquer candidatura que pretenda construir maioria entre os setores populares.
Esse talvez seja um dos dados politicamente mais importantes da pesquisa. João já é forte entre petistas, eleitores de Lula, pessoas pretas e eleitores com menor escolaridade. Mas ainda precisa fazer essa identidade política alcançar de forma mais ampla quem vive com renda mais baixa e enfrenta diariamente as consequências da desigualdade. Não basta falar em campo popular. É preciso conquistá-lo.
Lula é o principal ativo de João, mas transferência de voto não é automática
O Datafolha perguntou diretamente aos pernambucanos sobre o impacto do apoio presidencial.
Se Lula apoiasse um candidato a governador, 36% disseram que votariam com certeza nesse nome. Outros 20% afirmaram que talvez votassem. Já 40% disseram que não votariam de jeito nenhum apenas por causa do apoio presidencial.
Nenhum dos outros nomes presidenciais testados chegou perto dessa capacidade de influência. No caso de Flávio Bolsonaro, 16% disseram que certamente votariam em um candidato apoiado por ele, enquanto 67% responderam que não votariam de jeito nenhum por causa desse apoio.
Lula, portanto, é o maior cabo eleitoral disponível na disputa pernambucana. João já incorporou esse dado à campanha.
Em vídeo divulgado no dia 17, Lula pediu votos diretamente para João Campos, Marília Arraes e Humberto Costa, consolidando um palanque estadual que reúne PSB, PT e aliados.
O movimento é politicamente coerente com os números. Se parte dos eleitores que aprovam Lula ou se identificam com o PT ainda está com Raquel, João precisa aproximar a escolha presidencial da escolha para governador.
Para João, o desafio é transformar identidade política em agenda material
Uma candidatura ligada ao campo popular precisa ser medida não apenas pelas alianças que anuncia, mas pelo que propõe para trabalho, renda, educação, saúde, moradia, transporte, direitos e serviços públicos.
João começou a campanha tentando fazer essa conexão. Na primeira caminhada oficial, em Brasília Teimosa, apresentou a promessa de construir quatro hospitais, incluindo um Hospital Geral Metropolitano, além de unidades no Agreste, Araripe e Vale do São Francisco. A campanha afirma que os projetos terão participação do Governo Federal.
É uma proposta de forte impacto social caso seja executada. Mas promessa eleitoral não é entrega. Os valores anunciados, fontes de financiamento, cronograma, disponibilidade de profissionais, custeio permanente e integração à rede existente precisarão ser acompanhados e cobrados durante a campanha.
Ser aliado de Lula pode abrir portas institucionais. Não substitui planejamento estadual. Essa cobrança vale ainda mais para uma candidatura que pretende ocupar o espaço do campo democrático e popular.
A gestão de Raquel também precisa ser julgada por direitos, não apenas por entregas
Raquel entra na eleição com uma vantagem que João não possui: governa Pernambuco. O Datafolha divulgado nesta sexta mostra 50% de avaliação ótima ou boa da administração estadual, 30% de regular e 18% de ruim ou péssima. Esse índice ajuda a explicar sua competitividade e não pode ser ignorado em qualquer análise séria da eleição.
Mas avaliação positiva de governo não encerra o debate sobre políticas públicas nem apaga as irregularidades documentadas na educação, as denúncias de desabastecimento na saúde e os problemas estruturais encontrados em unidades apresentadas pelo governo como símbolos de reconstrução do Estado.
Para O estopim, uma administração deve ser analisada também por quem recebe os benefícios, quem continua esperando, como os recursos são distribuídos e quais direitos permanecem sem resposta.
Na educação, a situação chegou ao ponto de obras milionárias desabarem literalmente sobre a comunidade escolar. Em julho, parte do telhado da Escola Estadual Presidente Arthur da Costa e Silva, na Mustardinha, caiu sobre estudantes e um professor. Treze pessoas foram atingidas; cinco alunos e o docente precisaram de atendimento médico. Uma estudante levou pontos.
A escola aparece vinculada a reformas que somavam aproximadamente R$ 2,5 milhões, incluindo R$ 242 mil destinados especificamente à segurança da cobertura e das estruturas metálicas. Apesar dos valores pagos, estudantes relataram infiltrações, fios expostos, ausência de climatização e precariedade na estrutura. O desabamento e os valores destinados à unidade foram noticiados pelo Jornal do Commercio.
A Secretaria de Educação afirmou que havia substituído parte da cobertura, realizado pintura e preparado salas para climatização. A resposta, porém, não modifica o fato central: uma escola relacionada a milhões de reais em reformas continuou funcionando em condições inseguras até que parte do teto caiu sobre estudantes e um professor.
E esse não é um caso isolado nem baseado somente em acusações políticas. Relatórios, boletins de medição, fotografias, documentos de pagamento e vistorias presenciais demonstram irregularidades concretas na execução do contrato de R$ 185,3 milhões firmado pela Secretaria de Educação com a Cetus Construtora.
Uma representação apresentada pelo Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União documentou serviços pagos sem comprovação, medições duplicadas, falhas na fiscalização e valores incompatíveis com o que foi encontrado nas escolas. Entre 2025 e 2026, mais de R$ 67,3 milhões foram empenhados em favor da empresa com recursos da complementação federal do Fundeb.
Em 14 unidades vistoriadas, foram encontradas infiltrações, corrosão estrutural, ausência de telhas, iluminação deficiente, banheiros sem manutenção e falta de aparelhos de ar-condicionado previstos no contrato. A análise estimou em R$ 7,9 milhões o prejuízo direto identificado apenas nessa amostra.
Na Escola Estadual Professor Nelson Chaves, em Camaragibe, foram medidos e pagos serviços de instalação de estruturas metálicas e alambrados que não existem no local. Na Escola Helena Pugó, no Recife, a quantidade de pintura registrada e paga superou em mais de seis vezes a área física da unidade. Na Escola Presidente Arthur da Costa e Silva, onde o teto atingiu estudantes e um professor, os documentos registram serviços pagos em duplicidade ou não executados. As irregularidades constam da representação divulgada pelo Diario de Pernambuco.
O trabalho do Sintepe foi decisivo para transformar as denúncias de professores e comunidades escolares em fiscalização pública. O sindicato comparou os boletins apresentados pela empresa com as condições encontradas nas unidades e comprovou repetição de imagens, utilização de fotografias de outras escolas e cobrança duplicada de serviços.
Na Escola Técnica Estadual Professor Agamenon Magalhães, relacionada a R$ 2,3 milhões em despesas, os relatórios utilizaram fotografias das escolas Clóvis Beviláqua e Oliveira Lima como se comprovassem intervenções realizadas na Etepam. Imagens de dezembro de 2025 também foram reapresentadas em boletins de janeiro de 2026.
No Erem Diário de Pernambuco, relacionado a R$ 2,5 milhões em obras, o mesmo serviço de capinação e limpeza apareceu cobrado mais de uma vez. A vistoria encontrou a unidade com mata alta, fiação exposta, quadros elétricos abertos, tomadas energizadas e infiltrações próximas à rede elétrica. Os documentos foram apresentados publicamente pelo Sintepeatravés de vídeo publicado pela presidenta licenciada e candidata a deputada estadual Ivete Caetano.
Portanto, o que está documentado não é uma acusação vaga de que uma escola inteira teria sido paga duas vezes. Há serviços específicos medidos ou cobrados em duplicidade e outros pagos sem correspondência física nas unidades. Também está comprovada a utilização de fotografias de outras escolas e de imagens repetidas para atestar intervenções. A responsabilização administrativa, civil e criminal ainda precisa ser individualizada pelos órgãos competentes, mas as irregularidades materiais já constam dos relatórios e documentos.
A Cetus negou superfaturamento e afirmou ter cumprido a legislação. A Secretaria de Educação declarou que as duplicações identificadas foram analisadas e corrigidas. Essas respostas precisam ser registradas, mas não apagam os documentos nem explicam por que o sistema de fiscalização permitiu pagamentos baseados em medições incompatíveis, fotografias de outras unidades e serviços que não existem fisicamente nas escolas.
A merenda escolar também se tornou objeto de decisões dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Pernambuco concluiu que a situação utilizada para justificar sucessivas contratações emergenciais não surgiu de um acontecimento imprevisível, mas de falhas da própria administração.
Em decisão unânime, o TCE classificou o caso como uma “emergência fabricada” dentro da Secretaria de Educação. Quatro gestores foram multados, incluindo o secretário Gilson José Monteiro Filho. A auditoria identificou falta de planejamento, ausência de documentos obrigatórios e utilização recorrente de mecanismos para pagar serviços executados sem contrato vigente. A decisão foi divulgada em junho.
Em outro processo, técnicos do TCE confirmaram sobrepreço em uma licitação para o fornecimento de pães às escolas estaduais. O prejuízo chegaria a R$ 1,3 milhão caso a contratação fosse concluída nos valores originais. O tribunal recomendou a suspensão do processo e determinou a correção das planilhas. O governo defendeu o método utilizado para formar os preços, mas teve de adequar os valores depois da intervenção do órgão de controle. O caso foi revelado pela revista Veja.
Em um Estado marcado pela pobreza e pela insegurança alimentar, qualquer irregularidade na merenda atinge diretamente crianças e adolescentes para quem a alimentação escolar representa uma das principais refeições do dia.
Na saúde, a distância entre propaganda e realidade também é evidente. O governo anuncia investimentos milionários, entrega setores requalificados e utiliza imagens de paredes novas, fachadas pintadas e equipamentos em sua comunicação. Enquanto isso, tetos continuam desabando, pacientes e trabalhadores são atingidos, leitos permanecem fechados por falta de equipes e usuários denunciam falta de medicamentos e interrupção de tratamentos.
No Hospital da Restauração, onde o governo afirma investir cerca de R$ 168 milhões em obras, parte do teto da sala de recuperação pós-anestésica caiu, em julho, sobre uma paciente recém-operada. O impacto atingiu o braço em que ela havia passado por uma cirurgia de correção de fístula. Houve sangramento, necessidade de nova intervenção e transferência para a UTI. Onze pessoas estavam no cômodo. O caso foi noticiado pelo Jornal do Commercio.
O governo afirmou que o setor ainda não havia sido reformado. Isso não retira a responsabilidade da gestão por garantir segurança em todas as áreas de uma unidade que continua funcionando durante obras milionárias. Em maio, parte do forro do sétimo andar do mesmo hospital já havia desabado, acompanhada de um vazamento provocado por problemas hidráulicos.
No Hospital Agamenon Magalhães, parte do teto do alojamento usado pelos profissionais caiu e feriu duas trabalhadoras. Foi o segundo desabamento registrado na unidade em dois meses. O caso foi documentado pelo Diario de Pernambuco.
Por isso, quando a população chama essas intervenções de “reformas de fachada”, não está negando que alguma obra física tenha sido realizada. Está denunciando que paredes pintadas e setores apresentados à imprensa convivem com tetos caindo, falta de medicamentos, equipes incompletas, superlotação e serviços que não funcionam em sua capacidade total.
Em junho, o Conselho Regional de Medicina constatou que a UTI Neurológica do Hospital da Restauração funcionava com apenas dez dos 30 leitos para os quais possuía estrutura física. A própria gestão informou que os outros 20 não haviam sido ativados porque ainda era necessário completar as equipes assistenciais e a escala médica.
A fiscalização ocorreu quase três meses depois de o governo entregar a reforma do setor e nove novos leitos. A estrutura havia sido inaugurada, mas dois terços da capacidade continuavam indisponíveis por falta dos profissionais necessários para fazê-la funcionar. A constatação foi divulgada pelo Cremepe.
No Hospital Dom Helder Câmara, relatório oficial do Cremepe registrou uma Sala Vermelha planejada para quatro leitos com 42 pacientes. A Sala Amarela, projetada para 14, abrigava 80. A Sala Verde, com capacidade para seis, estava com 23. O documento também registrou ausência de médico exclusivo para a sala de reanimação e estabilização de pacientes graves e inexistência da proporção formal de um médico para cada oito pacientes em observação. O relatório completo está disponível no Cremepe.
No Hospital dos Servidores, pacientes e parlamentares também denunciaram falta de medicamentos e interrupções em tratamentos oncológicos. Essas denúncias não podem ser descartadas por terem partido de usuários, sindicatos ou integrantes da oposição. São justamente as denúncias públicas que tornam problemas visíveis, mobilizam a sociedade e provocam a atuação dos órgãos de fiscalização.
Na educação, análise publicada por O estopim sobre o plano de Raquel para 2027 a 2030 mostrou propostas de formação, equipamentos e incentivos, mas apontou ausência de metas mais concretas em pontos como carreira, remuneração, jornada, concursos e condições de trabalho dos profissionais da educação.
É nesse terreno que uma campanha progressista precisa pressionar qualquer candidatura, inclusive aquela eventualmente mais próxima do campo democrático.
Política pública não é apenas obra entregue. É também qualidade do serviço, valorização do trabalho, acesso universal, financiamento e redução das desigualdades. E obra entregue não pode ser apenas placa, pintura ou fotografia: precisa corresponder ao que foi pago, funcionar e não cair sobre a cabeça da população.
O voto de baixa renda mostra que a eleição segue politicamente aberta
Há uma tentação de olhar os segmentos eleitorais e concluir que Pernambuco está simplesmente dividido entre uma candidatura conservadora e outra popular.
Os números não autorizam essa facilidade. Raquel tem forte apoio bolsonarista e evangélico, mas também mantém presença em setores de baixa renda e tenta preservar relação com Lula.
João domina o eleitorado petista e tem melhor desempenho entre pessoas pretas e de menor escolaridade, mas ainda não conquistou uma vantagem semelhante entre as famílias que vivem com até dois salários mínimos.
Essa contradição é o centro da disputa. Para João, crescer significa fazer a identificação com Lula chegar ao eleitor que aprova o presidente, mas ainda prefere Raquel para governadora. Significa também convencer trabalhadores e famílias de baixa renda de que sua candidatura representa ganhos materiais concretos.
Para Raquel, preservar a liderança significa impedir essa migração e sustentar a imagem de que a continuidade administrativa oferece mais segurança do que a mudança. É nesse eleitorado que campanha, programa e comparação de resultados podem fazer diferença.
A fotografia desta sexta favorece Raquel, mas campanha não é resultado de urna
O primeiro Datafolha realizado inteiramente durante a campanha oficial registra Raquel com 47% e João com 40%, diferença superior à margem de erro. Considerando apenas votos válidos, a pesquisa calcula 52% para a governadora e 44% para o socialista. Se esse resultado exato fosse reproduzido nas urnas, a eleição terminaria no primeiro turno.
Mas pesquisa eleitoral não é previsão. O levantamento de julho também testou um eventual segundo turno e encontrou Raquel com 49% e João com 45%, resultado classificado como empate técnico.
Há ainda outro alerta para João: sua rejeição na pesquisa desta sexta chega a 32%, contra 29% de Raquel. Em julho, os dois estavam praticamente iguais nesse indicador, com 29% para João e 30% para Raquel.
Ou seja, a campanha começa com vantagem real da governadora, mas também com espaço para disputa política, reorganização de alianças e mudança de voto.
Mais do que saber quem vence, é preciso perguntar para governar para quem
Uma leitura progressista das eleições 2026 em Pernambuco não pode se limitar a acompanhar pesquisas como se fossem placares esportivos.
Os números importam porque revelam relações sociais e políticas. Raquel lidera e construiu uma base capaz de combinar aprovação administrativa, forte adesão conservadora e presença em setores que também votam em Lula.
Mas sua avaliação positiva não pode retirar da campanha o debate sobre as escolas relacionadas a reformas milionárias que continuam precárias, as medições duplicadas, os serviços pagos sem existência física, o sobrepreço confirmado na merenda, os hospitais superlotados, a falta de profissionais e os tetos que estão caindo literalmente sobre estudantes, trabalhadores e pacientes.
João tem diante de si a tarefa de construir uma maioria a partir de uma base mais identificada com o lulismo, com eleitores pretos e com setores de menor escolaridade, sem supor que essa proximidade política produzirá votos automaticamente.
E as candidaturas mais à esquerda precisam encontrar espaço para inserir no debate questões que a polarização entre PSB e PSD não necessariamente resolverá por conta própria.
A pergunta central da campanha, portanto, não deveria ser apenas quem ocupará o Palácio do Campo das Princesas.
Deveria ser também qual projeto reduzirá desigualdades, fortalecerá serviços públicos, ampliará direitos, valorizará trabalhadores e fará o orçamento estadual chegar a quem mais precisa.
É nesse terreno que O estopim acompanhará a eleição. Não pelo slogan de cada lado, nem pelas placas, fachadas ou fotografias de inauguração, mas pelas alianças, propostas, recursos, contratos, compromissos, resultados e consequências para a vida concreta dos pernambucanos.
As próximas semanas mostrarão se João Campos consegue aproximar de sua candidatura os eleitores que votam em Lula, mas ainda escolhem Raquel para o Governo do Estado. O desempenho entre famílias de menor renda será um indicador especialmente importante.
Também será necessário acompanhar se Raquel mantém simultaneamente o apoio do eleitorado bolsonarista, a vantagem entre evangélicos e a capacidade de dialogar com eleitores sem identificação ideológica definida.
A presença de Lula na campanha, a propaganda eleitoral, os debates e a comparação entre programas devem aumentar a definição política da disputa.
As denúncias e os relatórios sobre merenda, reformas escolares e hospitais também precisarão ocupar a campanha. Não como questões secundárias diante das pesquisas, mas como elementos concretos para que a população compare propaganda, recursos aplicados e serviços efetivamente recebidos.
O estopim também acompanhará compromissos concretos em saúde, educação, trabalho, renda, moradia, segurança pública, direitos, transparência e financiamento das propostas.
O estopim — O começo da notícia!
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, fiscalização e interesse público, com atenção às relações entre poder, desigualdade, direitos e território.