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Em entrevista, vereadora e candidata a deputada federal relembra ataque de 2021, relata ameaças e diz que episódio deixou marcas psicológicas.


Por Raul Silva para O estopim |

24 de agosto de 2026

Cobertura das Eleições 2026

Vereadora do Recife, foi agredida com spray de pimenta no rosto pela PM durante manifestação contra o governo Bolsonaro | Crédito: Tarsio Alves
Vereadora do Recife, foi agredida com spray de pimenta no rosto pela PM durante manifestação contra o governo Bolsonaro | Foto: Tarsio Alves

Cinco anos depois de ser atingida no rosto por spray de pimenta disparado por um policial militar durante a repressão a um protesto no centro do Recife, Liana Cirne (PT) voltou a falar sobre o episódio e, desta vez, destacou também o que aconteceu depois das imagens que ganharam repercussão nacional. Em entrevista divulgada em vídeo, a vereadora e candidata a deputada federal relata que recebeu ameaças, foi ridicularizada nas redes sociais e conta como o caso provocou um trauma que a levou à depressão naquele período.


O episódio ocorreu em 29 de maio de 2021, durante uma manifestação contra o então presidente Jair Bolsonaro. Imagens registraram o momento em que Liana, à época em seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Recife, aproximou-se de uma viatura da Polícia Militar e foi atingida no rosto por spray de pimenta.


A ação policial daquele dia envolveu também disparos de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Dois homens que não participavam da manifestação foram atingidos nos olhos por projéteis e um deles perdeu a visão de um dos olhos. A repressão provocou uma crise na segurança pública estadual e levou ao afastamento de policiais e a mudanças no comando da Polícia Militar.


Liana diz que tentou impedir disparos contra manifestantes



No vídeo analisado por O estopim, Liana reconstrói os momentos anteriores ao disparo de spray.


Ela fala que viu pessoas correndo na contramão e percebeu que estavam fugindo da polícia. Segundo seu relato, desceu do carro com a carteira funcional de vereadora e tentou conversar com os policiais.


Liana diz que questionou os disparos de balas de borracha porque, na avaliação dela, os manifestantes que estavam sendo perseguidos não representavam risco aos agentes.


A parlamentar relata que um policial desceu da viatura e passou a disparar balas de borracha em direção às pessoas.


Foi então, segundo Liana, que ela decidiu cobrar a identificação funcional do agente.


“Eu quero seu nome e seu número de matrícula porque eu vou abrir um PAD contra você”, relata ter dito ao policial, em referência a um procedimento administrativo disciplinar.

Na sequência, conforme a vereadora e as imagens registradas à época, o spray de pimenta foi lançado em direção ao seu rosto.


O vídeo do episódio mostra Liana próxima à janela da viatura quando o jato é disparado. Ela cai no chão, enquanto o veículo deixa o local. Registros jornalísticos feitos naquele dia confirmam que a parlamentar precisou receber atendimento médico.


“Eu fiquei desorientada”


Na nova entrevista, Liana enfatiza a intensidade do ataque. Segundo ela, o spray foi lançado a cerca de um palmo de distância e por tempo suficiente para provocar dificuldade para respirar.


“Eu fiquei desorientada”, disse Liana.

O relato atual é compatível com declarações dadas pela parlamentar nos dias seguintes ao episódio. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em junho de 2021, Liana descreveu forte ardência no rosto e nos olhos e afirmou que os efeitos do produto permaneceram por horas.


Mas o ponto central da nova fala não está apenas no ataque físico. Liana concentra parte da entrevista no que veio depois.


Ameaças e ataques nas redes sociais


A vereadora conta que passou a receber ameaças após a circulação das imagens. Ela relata que um deputado de extrema direita publicou mensagem dizendo que a polícia deveria ter passado com o carro por cima dela.


Liana conta que a publicação foi seguida por centenas de comentários e que alguns usuários repetiram ameaças e mensagens que defendiam novas agressões.


Segundo ela, houve inclusive comentários de pessoas dizendo que passariam por cima dela.


A existência de ameaças dirigidas à parlamentar naquele período foi registrada institucionalmente pela Câmara Municipal do Recife. Em junho de 2021, a Casa aprovou um pedido para que o Ministério Público de Pernambuco investigasse ofensas e ameaças feitas contra Liana depois da manifestação.


Na ocasião, ela já relatava ameaças de morte, estupro e agressão e classificava o movimento como violência política dirigida contra uma mulher que exercia mandato eletivo.


“Miss Spray de Pimenta”


A entrevista também revela como a transformação do episódio em deboche atingiu Liana. Ela diz em seu relato, que passou a ser chamada de “Miss Spray de Pimenta”, expressão usada para ridicularizar a agressão.


“Isso me magoou”, contou Liana.

Na sequência, Liana diz que as consequências psicológicas foram profundas.


“Eu fiquei muito traumatizada”, declara.

A vereadora disse ainda que entrou em depressão naquele período. Essa parte da entrevista é um relato pessoal de Liana sobre sua saúde e sobre a forma como vivenciou as consequências do episódio.


Para Liana, transformar o episódio em piada reduz a gravidade de uma situação na qual, segundo ela, tentou proteger pessoas que estavam sendo alvo de disparos.


Ao final do vídeo, ela critica quem ridiculariza essa atitude. Para a parlamentar, tratar o caso como brincadeira demonstra “uma falta de noção muito grande”.


Caso resultou em punição administrativa contestada por Liana Cirne


A atuação dos policiais foi investigada pela Polícia Civil, pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social e por outros órgãos.


Em maio de 2022, a Corregedoria da SDS aplicou 21 dias de detenção a um soldado apontado no procedimento administrativo como responsável pelo disparo do spray.


Liana, porém, contestou a conclusão. Ela afirmou não reconhecer o soldado punido como o homem que havia disparado o produto contra seu rosto e sustentou que outro policial seria o responsável.


A defesa do soldado informou, na época, que ele havia confessado o disparo. A Câmara Municipal também registrou a crítica de Liana à punição. Para ela, além de insuficiente, o resultado do procedimento não identificou corretamente o autor da agressão.


Defesa de policiais alegou provocação


Durante a investigação, a defesa dos policiais apresentou uma versão diferente sobre a aproximação de Liana da viatura.


Em julho de 2021, o advogado Rafael Nunes afirmou que a vereadora teria provocado os policiais, buscado confronto e tentado se autopromover. Liana negou as acusações e questionou como poderia ter planejado um episódio que dependia da rota da viatura, do horário da operação e do próprio ataque.


Uma notícia-crime apresentada por um grupo conservador também acusou a então vereadora de usar o cargo para dar uma “carteirada” e impedir a atuação policial.


Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a representação foi considerada improcedente e indeferida pelo Ministério Público, que reconheceu no procedimento que Liana havia sido violentamente agredida por policiais militares.


Episódio volta ao centro da trajetória política


O depoimento ganha novo significado em 2026. Liana Cirne está em seu segundo mandato como vereadora do Recife e disputa uma vaga de deputada federal por Pernambuco pelo PT, com o número 1310. A Câmara Municipal registra que ela exerce mandato na legislatura 2025-2028.


Isso transforma a lembrança do episódio de 2021 também em elemento da narrativa eleitoral de Liana, que associa sua trajetória à defesa dos direitos humanos, da democracia, dos direitos das mulheres e ao enfrentamento político da extrema direita.


O caso do spray de pimenta deixa, assim, de aparecer somente como uma imagem conhecida da repressão policial daquele protesto.


Na entrevista, Liana busca mostrar o que a gravação não registrou: o medo posterior, as ameaças, o deboche e o impacto psicológico que, segundo ela, permaneceram muito depois de o jato de spray terminar.


O que acontece agora


Liana Cirne segue na campanha para a Câmara dos Deputados nas eleições de 2026, cujo primeiro turno será realizado em 4 de outubro.


A retomada do episódio coloca novamente em debate temas que atravessaram o caso desde 2021: limites da ação policial em manifestações, responsabilização de agentes públicos, proteção de parlamentares, violência política contra mulheres e consequências de campanhas de hostilidade nas redes sociais.


Também mantém aberta uma questão histórica daquele protesto. Em junho de 2022, mais de um ano após a repressão, o Governo de Pernambuco ainda não havia esclarecido publicamente quem dera a ordem para o avanço policial contra os manifestantes, segundo levantamento publicado pelo Jornal do Commercio.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder e direitos humanos, com foco em apuração, contexto e fiscalização de agentes públicos.

Por: Raul Silva para o Radar Literário do Teoria Literária.

A escritora Igiaba Scego ilumina as complexas relações entre Itália e Somália em sua obra

Igiaba Scego, renomada escritora italiana de origem somali, tem se destacado no cenário literário por sua habilidade em tecer narrativas que exploram as intrincadas e muitas vezes dolorosas relações entre Itália e Somália. Em suas obras, Scego investiga as memórias silenciadas do colonialismo italiano na Somália, revelando as histórias ocultas e as feridas não cicatrizadas que persistem até os dias atuais.

Igiaba Scego é uma das vozes mais significativas da literatura contemporânea
Igiaba Scego é uma das vozes mais significativas da literatura contemporânea

Nascida em Roma em 1974, filha de pais somalis que buscaram refúgio na Itália após um golpe de Estado em seu país natal, Scego cresceu imersa em duas culturas distintas. Essa experiência bilíngue e bicultural moldou sua identidade e sua escrita, conferindo-lhe uma perspectiva única sobre as questões de identidade, migração e pertencimento. A infância de Scego em Roma foi marcada pela ausência física da Somália, um lugar que existia principalmente em memórias familiares e relatos orais. Essas narrativas construíram um imaginário rico e complexo sobre a Somália, que contrastava fortemente com a realidade da vida na Itália e com as representações estereotipadas que circulavam na sociedade italiana. A jovem Igiaba cresceu nutrindo uma profunda curiosidade sobre suas raízes e sobre a história de seu povo, uma busca que se tornaria um dos motores de sua produção intelectual e artística.

Em seus romances, ensaios e artigos, Scego aborda temas como o racismo, a discriminação e a violência que marcaram a história da presença italiana na Somália. Ela resgata vozes esquecidas e dá visibilidade às experiências de somalis que foram marginalizados e oprimidos durante o período colonial e além. Scego utiliza a literatura como um espaço de resistência e de denúncia, no qual ela pode dar voz aos que foram silenciados pela história oficial. Suas obras nos confrontam com as atrocidades do colonialismo italiano, com a violência do regime fascista e com as injustiças que continuam a ser cometidas contra os imigrantes e refugiados somalis na Itália. A escrita de Scego é um ato de memória e de justiça, uma tentativa de reparar as feridas do passado e de construir um futuro mais humano e igualitário.

Uma das obras mais aclamadas de Scego, o romance "Oltre Babilonia" (Além de Babel), publicado em 2008, narra a história de três gerações de mulheres somalis que vivem na Itália. O livro explora as complexidades da identidade diaspórica, as dificuldades de integração e os desafios de conciliar diferentes heranças culturais. A narrativa de Scego mergulha nas profundezas da experiência feminina, revelando a força, a resiliência e a capacidade de superação dessas mulheres diante de adversidades como o exílio, a perda e o preconceito. Ao traçar um paralelo entre o passado colonial e o presente da diáspora somali na Itália, a autora nos convida a refletir sobre as continuidades e rupturas na história das relações entre os dois países. Além disso, a obra destaca a importância da memória e da transmissão oral na preservação da identidade cultural e na luta contra o apagamento histórico.

Em "La mia casa è dove sono" (Minha casa é onde estou), uma coletânea de ensaios publicada em 2010, Scego investiga as memórias de sua infância em Roma e suas viagens à Somália. Ela reflete sobre a história do colonialismo italiano, a violência do regime fascista e o impacto duradouro desses eventos nas relações entre os dois países. A autora nos leva a uma viagem pessoal e histórica, na qual memórias familiares se entrelaçam com relatos de figuras importantes da resistência somali ao colonialismo italiano. Scego examina criticamente o papel da Itália na Somália, desde a imposição do domínio colonial até a exploração dos recursos naturais e a repressão cultural. Ela também aborda as contradições e ambiguidades da identidade italiana, questionando a narrativa oficial que busca minimizar ou apagar os crimes do passado. Ao fazê-lo, a autora nos desafia a confrontar as feridas não cicatrizadas do colonialismo e a reconhecer as responsabilidades do presente.

A escrita de Scego é caracterizada por sua honestidade brutal, sua prosa poética e sua capacidade de combinar história pessoal e coletiva. Ela não hesita em confrontar os aspectos mais sombrios do passado colonial italiano, lançando luz sobre as atrocidades cometidas e as injustiças sofridas pelo povo somali. A autora utiliza uma linguagem evocativa e sensorial para descrever as paisagens da Somália, os sons e os cheiros dos mercados, as cores e os sabores da culinária local. Ao mesmo tempo, ela não se furta em denunciar a violência do regime fascista, os massacres de civis, a pilhagem do patrimônio cultural e a imposição de uma ideologia racista e discriminatória. Scego nos mostra como o passado colonial continua a assombrar o presente, manifestando-se nas desigualdades sociais, na marginalização dos imigrantes e na persistência do racismo na sociedade italiana.

Além de seu trabalho literário, Scego também é uma ativa defensora dos direitos dos imigrantes e refugiados na Itália. Ela participa de debates públicos, escreve artigos e concede entrevistas para aumentar a conscientização sobre as questões da migração e do racismo. A autora utiliza sua visibilidade como intelectual e escritora para dar voz aos que não têm vez, para denunciar as injustiças e para propor soluções para os problemas que afligem a sociedade italiana contemporânea. Scego critica as políticas migratórias restritivas e xenófobas da Itália, que transformam o país em um lugar hostil e perigoso para os imigrantes e refugiados. Ela defende a necessidade de uma abordagem mais humana e solidária, baseada no respeito aos direitos humanos e na promoção da integração intercultural. Além disso, a autora questiona o racismo estrutural que permeia a sociedade italiana, manifestando-se em diversas formas de discriminação e violência contra os negros e outras minorias étnicas.

A obra de Igiaba Scego é de fundamental importância para a compreensão das complexas relações entre Itália e Somália. Ao revelar as histórias ocultas da presença italiana na Somália, ela contribui para a construção de uma memória mais completa e honesta do passado colonial, além de promover o diálogo intercultural e a reflexão sobre as questões do presente. Scego nos convida a revisitar a história da colonização italiana na Somália, a reconhecer as responsabilidades da Itália e a reparar as injustiças do passado. Ela nos mostra como o passado colonial continua a moldar o presente, influenciando as relações entre os dois países e as experiências dos somalis na diáspora. Ao fazê-lo, a autora nos desafia a construir um futuro mais justo e igualitário, baseado no respeito à diversidade cultural e na promoção do diálogo intercultural. A obra de Scego é, portanto, um instrumento poderoso de transformação social e um testemunho da capacidade da literatura de iluminar as sombras do passado e de inspirar a construção de um futuro melhor.

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