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Moradia, renda, saúde, educação, cultura e infraestrutura concentram ações federais que alcançaram o município entre 2023 e 2026.


Por Raul Silva para O estopim |

Cobertura das Eleições 2026

18 de agosto de 2026



Governo Lula em Arcoverde: ações de 2023 a 2026
Governo Lula levou a Arcoverde ações em moradia, renda, saúde, educação, cultura e infraestrutura entre 2023 e 2026. Veja o balanço. | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O governo Lula em Arcoverde ampliou, entre 2023 e 2026, a presença de programas federais nas áreas de habitação, transferência de renda, saúde, educação, cultura, agricultura familiar e infraestrutura. O balanço reúne desde benefícios pagos diretamente à população até obras, equipamentos públicos e investimentos estruturantes que alcançam o município e o entorno do Sertão do Moxotó.


Entre os números estão 645 novas moradias pelo Minha Casa, Minha Vida, cerca de 11,1 mil famílias atendidas pelo Bolsa Família, 1,4 mil famílias beneficiadas pelo programa de auxílio ao gás, duas ambulâncias do Samu 192, recursos para estudantes do Pé-de-Meia, investimentos culturais e mais de R$ 16,2 milhões em ações relacionadas ao Novo PAC.


O conjunto mostra que a atuação federal em Arcoverde não se restringiu a uma única obra. Os recursos chegaram por diferentes caminhos, como transferências de renda, crédito, construção de equipamentos, aquisição de veículos, políticas educacionais, financiamento cultural e projetos de infraestrutura.


Parte dessas ações é executada em parceria com o Governo de Pernambuco, Prefeitura de Arcoverde, instituições públicas e consórcios. Isso faz com que o impacto federal apareça tanto em obras físicas quanto em serviços e benefícios percebidos diretamente pela população.


Governo Lula em Arcoverde amplia política habitacional


A habitação está entre os principais eixos do período. O Minha Casa, Minha Vida contabiliza 645 novas moradias em Arcoverde, ampliando a presença da política habitacional federal no município.


O programa voltou a ocupar posição central na estratégia do Governo Federal para reduzir o déficit habitacional e ampliar o acesso de famílias de menor renda à casa própria.


Em uma cidade que funciona como polo regional de comércio, saúde, educação e serviços, a expansão da oferta habitacional também interfere na ocupação urbana, no acesso a serviços públicos e na movimentação da economia local.


Moradia, nesse contexto, não representa apenas a construção de imóveis. A implantação dos empreendimentos envolve infraestrutura urbana, saneamento, mobilidade, equipamentos comunitários e novas demandas para os bairros onde as unidades são construídas.


Bolsa Família chega a 11,1 mil famílias


A transferência direta de renda aparece como uma das políticas federais de maior alcance social em Arcoverde. O Bolsa Família atende cerca de 11,1 mil famílias no município.


O programa funciona como renda mensal para famílias enquadradas nos critérios federais e também mantém relação com acompanhamento de saúde, vacinação, frequência escolar e proteção social.


Outro programa ligado ao orçamento doméstico é o auxílio para compra do gás de cozinha, que alcança aproximadamente 1,4 mil famílias de Arcoverde.


Na prática, são recursos que entram diretamente na economia municipal. O dinheiro recebido pelas famílias tende a circular no comércio, nas farmácias, supermercados, feiras, serviços e pequenos estabelecimentos.


Agricultura familiar recebe crédito do Plano Safra


O meio rural também aparece no balanço. Por meio do Plano Safra, foram contabilizados 62 contratos e R$ 1,3 milhão em créditos destinados a produtores.


O financiamento é uma das ferramentas usadas pelo Governo Federal para apoiar produção, custeio, investimentos e estruturação das atividades rurais.


Em Arcoverde, município que exerce influência econômica sobre comunidades rurais e cidades vizinhas, o crédito agrícola também tem reflexo na circulação de mercadorias, equipamentos e serviços.


A agricultura familiar ainda se conecta a programas de segurança alimentar e abastecimento, formando uma cadeia que vai da produção no campo ao consumo nas cidades.


Duas ambulâncias reforçam implantação do Samu 192


Na saúde, um dos avanços mais visíveis foi a chegada de duas ambulâncias destinadas ao Samu 192.


Os veículos integram o processo de estruturação do atendimento móvel de urgência em Arcoverde.


O Samu é estratégico porque permite atendimento pré-hospitalar em situações como acidentes, infartos, acidentes vasculares cerebrais, crises respiratórias e outras emergências em que o tempo de resposta pode influenciar diretamente o resultado do atendimento.


Além das ambulâncias, os investimentos federais incluem equipamentos e uma Unidade Básica de Saúde, ampliando a estrutura da atenção primária.


Farmácia Popular e Mais Médicos ampliam atendimento


Outro eixo é o acesso a medicamentos. Arcoverde conta com sete unidades vinculadas ao Farmácia Popular, com aproximadamente 11,1 mil pessoas atendidas.


O programa permite retirar gratuitamente ou com subsídio medicamentos definidos pela política federal, reduzindo despesas especialmente para pessoas que fazem tratamento contínuo.


Na assistência médica, o município conta ainda com 13 profissionais vinculados ao Mais Médicos.


A presença desses profissionais reforça principalmente a atenção básica, porta de entrada para acompanhamento de pacientes, prevenção de doenças e encaminhamento para serviços especializados.


Quando observadas em conjunto, ambulâncias, profissionais, medicamentos, equipamentos e UBS mostram que os investimentos federais na saúde alcançam diferentes etapas do atendimento.


Pé-de-Meia alcança 2,6 mil estudantes


Na educação, cerca de 2,6 mil estudantes de Arcoverde são beneficiados pelo Pé-de-Meia, programa criado para estimular a permanência e a conclusão do ensino médio.


O volume relacionado ao programa chega a R$ 13,5 milhões em investimentos. O estudante que atende às regras recebe incentivos financeiros associados à matrícula, frequência, conclusão das etapas escolares e participação no Enem.


A política enfrenta um problema que ultrapassa os muros das escolas: jovens que abandonam os estudos por necessidade de trabalhar ou por dificuldades econômicas.


Ao criar uma poupança vinculada à permanência escolar, o Governo Federal tenta diminuir esse abandono.


Arcoverde também recebeu ações ligadas ao transporte escolar e à retomada de obras de creches e unidades de educação infantil.


Cultura recebe mais de R$ 1,3 milhão


A política cultural federal também chegou diretamente ao município. Por meio da Lei Paulo Gustavo, Arcoverde recebeu R$ 698,4 mil.


A política alcançou artistas, produtores, coletivos, grupos culturais e atividades do audiovisual e de outras linguagens.


Já a Lei Aldir Blanc destinou R$ 633,7 mil ao município. Somados, os valores citados para as duas políticas superam R$ 1,3 milhão destinados à cultura local.


Os recursos ganham peso adicional em Arcoverde devido à tradição cultural do município, marcada por música, artes cênicas, manifestações populares, audiovisual, literatura e grupos que mantêm produção ao longo de todo o ano.


CEU da Cultura amplia infraestrutura cultural


Outra ação é a implantação de um CEU da Cultura. O equipamento faz parte da política federal de criação de espaços públicos voltados à formação, convivência, atividades culturais e participação comunitária.


A proposta amplia a política cultural para além do financiamento de projetos individuais.


Enquanto editais garantem recursos para quem produz cultura, equipamentos permanentes podem oferecer estrutura para oficinas, apresentações, formação artística, encontros comunitários e outras atividades.


Mais de R$ 16,2 milhões pelo Novo PAC


O Novo PAC concentra outra parte relevante dos investimentos federais ligados a Arcoverde.

São mais de R$ 16,2 milhões relacionados a ações de infraestrutura, mobilidade, saúde, educação e habitação.


O programa reúne projetos de diferentes ministérios e setores do Governo Federal e funciona como uma das principais ferramentas de investimento público do terceiro mandato de Lula.


Em Arcoverde, aparecem tanto equipamentos diretamente instalados no município quanto grandes projetos regionais que alteram infraestrutura e logística no interior de Pernambuco.


Adutora do Agreste muda cenário do abastecimento


A Adutora do Agreste está entre as obras estruturantes de maior impacto para Arcoverde e para dezenas de municípios pernambucanos.


O sistema foi projetado para levar água associada à infraestrutura da Transposição do São Francisco para cidades historicamente submetidas a crises de abastecimento.


Arcoverde ocupa posição estratégica dentro desse sistema.


A segurança hídrica tem consequência direta sobre o crescimento das cidades. Sem abastecimento regular, expansão habitacional, instalação de empresas, serviços públicos e desenvolvimento econômico encontram limites.


Por isso, investimentos em água ultrapassam a política de abastecimento e interferem no planejamento econômico e urbano de longo prazo.


Transnordestina e rodovias entram no mapa regional


O balanço inclui ainda projetos estruturantes de dimensão regional, como a Transnordestina no eixo Salgueiro-Suape e intervenções relacionadas às BR-223 e BR-424/PE.


São obras que precisam ser analisadas pelo impacto regional, porque infraestrutura logística não respeita os limites administrativos de um único município.


Arcoverde funciona como entroncamento entre diferentes regiões de Pernambuco. Melhorias nas conexões ferroviárias e rodoviárias podem afetar transporte de mercadorias, circulação de pessoas, custos logísticos e capacidade de atração de novos negócios.


É nesse sentido que obras localizadas dentro e fora do território municipal podem produzir consequências econômicas para Arcoverde.


368 cisternas ampliam segurança hídrica no campo


Outra frente é a implantação de 368 cisternas. A política atende principalmente famílias residentes na zona rural e em comunidades que convivem com períodos de escassez de água.


As cisternas permitem armazenar água e reduzem a vulnerabilidade das famílias diante das características climáticas do Semiárido.


Quando associadas a outras políticas, como crédito rural, assistência técnica e programas de produção de alimentos, também podem contribuir para melhorar as condições de permanência das famílias no campo.


Do benefício individual à grande obra


O balanço do período mostra diferentes escalas de atuação do Governo Federal em Arcoverde.


De um lado estão programas que chegam diretamente às famílias, como Bolsa Família, auxílio para gás, Pé-de-Meia e Farmácia Popular.


Em outra frente aparecem profissionais, equipamentos e serviços públicos, como Mais Médicos, Samu e UBS.


Há ainda investimentos produtivos, como o Plano Safra, políticas culturais e programas habitacionais.


Por fim estão grandes obras de infraestrutura e segurança hídrica, como Adutora do Agreste, rodovias, cisternas e projetos de integração logística.


Essas categorias não devem ser confundidas. Benefício social, financiamento, equipamento, obra e investimento regional têm naturezas diferentes.


Juntas, porém, ajudam a dimensionar como as decisões tomadas pelo Governo Federal chegam a uma cidade do interior de Pernambuco.


O que acontece agora?


O último ano do mandato 2023-2026 será decisivo para acompanhar a execução das obras iniciadas, a implantação dos equipamentos anunciados e a continuidade dos programas sociais.


Em Arcoverde, a atenção deverá permanecer sobre o funcionamento do Samu, a execução da nova UBS, os empreendimentos habitacionais, o CEU da Cultura e os projetos do Novo PAC.


Também será necessário acompanhar os próximos ciclos de programas como Pé-de-Meia, Bolsa Família, Plano Safra e políticas culturais.


Grandes projetos, como Adutora do Agreste, Transnordestina e intervenções rodoviárias, ultrapassam calendários eleitorais e dependem de continuidade administrativa.


O balanço entre 2023 e 2026 mostra, portanto, que a presença do Governo Federal em Arcoverde foi distribuída entre renda, moradia, saúde, educação, cultura, produção rural e infraestrutura.


Mais do que contabilizar anúncios, o próximo passo é observar como cada investimento altera, na prática, a vida dos moradores e a capacidade de desenvolvimento do município.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, gestão pública e temas de interesse de Arcoverde e de Pernambuco, com foco em informação, contexto e impacto para a população.

Último dia do festival neste domingo (9) reúne samba, coco, forró, circo, gastronomia, artes visuais e atividades gratuitas em diferentes pontos da cidade


Por Clarice Drummond para O estopim Cultura |

9 de Agosto de 2026

Palco principal Festival Pernambuco Meu País
Palco principal Festival Pernambuco Meu País | Foto: Divulgação/Governo de Pernambuco

O Festival Pernambuco Meu País encerra neste domingo (9) sua passagem por Arcoverde, no Sertão pernambucano, com uma programação que espalha diferentes linguagens culturais pelo município. No Pátio de Eventos, o samba ganha protagonismo com apresentações de Jorge Aragão e Grupo Revelação, além de Clara Sobral, Samba de Coco Trupé de Arcoverde e Psirico.


A programação do palco principal começa às 18h com o Samba de Coco Trupé de Arcoverde, manifestação ligada à identidade cultural da própria cidade. Clara Sobral se apresenta às 19h10, seguida pelo Grupo Revelação, às 20h40. Jorge Aragão sobe ao palco às 22h10 e o Psirico encerra os shows a partir das 00h10. O DJ Dagga assume o som nos intervalos.


Além dos grandes shows, o festival ocupa outros espaços de Arcoverde desde a manhã. O Centro de Artesanato e Gastronomia Municipal recebe atividades do País da Cultura Alimentar a partir das 10h e apresentações do País das Matrizes do Forró, com Os Três do Cariri, Zelyto Madeira e Mazinho de Arcoverde.


Circo, artes cênicas, música instrumental, cultura periférica e exposições também integram o último dia. Entre as atrações estão o espetáculo "Auto da Compadecida", no Sesc, apresentações circenses no Largo do Cecora, o show instrumental de Makamo na Paróquia Nossa Senhora do Livramento e uma programação de breaking, batalha, baile charme e música na Praça Virgínia Guerra.


A Caravana Pernambuco Meu País também chega ao povoado de Riacho do Meio, com atrações como Mateus e Katilinda, Pastoril Estrela Celeste, Trupe Gargalhada e Cinema de Brincar.


Todas as atividades são gratuitas. O Festival Pernambuco Meu País é promovido pelo Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura, Fundarpe e Empetur, em parceria com os municípios.


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Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.

Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026


A Grande Rio fez o que sabe fazer quando está no seu melhor: transformou a Sapucaí em tese e tese com corpo, suor e risco. A escola que vem assinando, nos últimos anos, um Carnaval de ideias (às vezes desconfortáveis, quase sempre necessárias) apostou em narrativa, pesquisa, linguagem cênica e identidade. O problema é que, no miolo do desfile, ali onde a bateria é coração e termômetro, a Grande Rio aceitou um atalho de “alcance” que custou caro: coroar Virgínia Fonseca.

A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.
Desfile da Grande Rio | Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Não é moralismo de arquibancada, nem birra com a cultura pop. É método. O Carnaval, quando é Grande Rio, não é vitrine de celebridade: é construção de comunidade. E toda vez que uma escola troca pertencimento por engajamento, quem paga a conta não é o algoritmo. É a avenida.


A Grande Rio que aprendeu a falar de conflito


Há escolas que fazem Carnaval para agradar. A Grande Rio, especialmente na fase recente, fez Carnaval para disputar sentidos.


Quando levou Exu ao centro da narrativa e ajudou a reposicionar, com linguagem de massa, um personagem demonizado por séculos, a escola não estava apenas “fazendo um enredo afro”. Estava enfrentando a engrenagem cotidiana da intolerância religiosa. O recado era duplo: ao público, a lição estética; aos próprios terreiros e praticantes, o gesto de reconhecimento em horário nobre.


Quando virou o olhar para cosmologias indígenas, para a Amazônia encantada e para repertórios que o Brasil urbano costuma transformar em folclore sem sujeito, a Grande Rio reafirmou uma assinatura: não basta citar a “diversidade”. É preciso narrar o Brasil de baixo para cima e com pesquisa.


E o Manguebeat, agora, é a escolha perfeita para uma escola de Duque de Caxias que conhece, na pele, a palavra “periferia”. O movimento que nasceu de um Recife ferido por desigualdade e abandono e que reagiu com estética, crítica e invenção tem tudo a ver com o que uma escola pode ser quando se recusa a desfilar “bonito” e decide desfilar “com sentido”. A Grande Rio acertou o enredo justamente por isso: porque entende que arte popular é também diagnóstico social.



A bateria não é cenário: é o lugar do pacto

É aqui que a discussão fica séria e técnica.


Rainha de bateria não é uma moldura. É um posto simbólico que organiza a atenção do público e, na prática, altera a dinâmica do chão. A rainha está no campo de visão da bateria, do mestre, do diretor, dos ritmistas, das câmeras e do público. Ela pode elevar o astral e o desempenho coletivo; pode também virar obstáculo, ruído, foco de tensão.


E não adianta fingir que “não vale ponto”. No Carnaval real, tudo vale ponto quando atrapalha evolução, quando quebra a leitura do conjunto, quando provoca correria no recuo, quando desloca o centro do desfile para um drama particular.


O Manual do Julgador é cristalino ao lembrar que a fantasia precisa permitir boa evolução; e que o julgador observa dificuldades do componente no uso completo da indumentária. A rainha é componente, com holofote, mas componente. Quando ela entra na avenida sem dominar a convivência com o peso, com o calor, com o espaço apertado e com a responsabilidade do recuo, o problema não é “da celebridade”. É da escola.


No Carnaval 2026, o enredo e a bateria pediam uma rainha que soubesse ouvir. Ouvir o surdo de marcação, ouvir o repique, ouvir o mestre, ouvir a comunidade. E, sobretudo, ouvir o sentido do desfile, porque é aí que mora o tal “carisma” que ninguém compra.


O caso Virgínia: quando a coroa vira cupom


A escolha de Virgínia Fonseca foi vendida como “diálogo com novos públicos”. É uma formulação simpática, moderna, e totalmente preguiçosa.


A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.


Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo
Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo

A rainha que faltou antes de reinar


O trabalho de uma rainha começa muito antes da Sapucaí. Começa em ensaio de quadra, em ensaio técnico, em visita a barracão, em conversa com ritmista e com velha guarda, em aula com passistas, em humildade para aprender o que não se aprende em reels.


Só que, ainda na temporada de preparação, Virgínia virou notícia por ausência em ensaio de quadra e por tratar a ausência como detalhe da agenda pessoal. O que, para quem vive o Carnaval, não é detalhe: é linguagem. É a velha mensagem de que o tempo da comunidade é um “evento”, enquanto o tempo da celebridade é “vida”.


O desfile como palco de autopropaganda


A estreia na avenida foi, por si, um resumo do problema: a rainha virou pauta por percalços com a fantasia e por uma estratégia comercial que transformou a Sapucaí em extensão de marca.


A Grande Rio, que vinha de enredos que questionam o reducionismo e o preconceito, apareceu, nesse ponto, permitindo que um posto simbólico se confundisse com produto. O nome da marca pessoal estampado em uniforme de equipe de apoio, explorando brechas, pode até ser “inteligente” do ponto de vista do marketing. Para o Carnaval, é um rebaixamento: a bateria vira background de campanha.


O que era para ser “mangue”, crítica, contracultura, coletividade, virou “feed”: eu no centro, o resto como cenário.


A biografia pública de um negócio


Virgínia é, indiscutivelmente, um fenômeno de audiência e conversão. E aí mora o ponto que muita gente evita: a lógica de influência contemporânea monetiza intimidade. A vida privada vira produto, a emoção vira gatilho de consumo, e a presença pública passa a ser medida por venda, não por vínculo.


Isso não é crime. Mas é incompatível com um posto que, para funcionar, exige justamente o contrário: deslocar o foco do “eu” para o “nós”.


Nos últimos anos, Virgínia esteve no centro de controvérsias relacionadas a publicidade de apostas e ao papel de influenciadores na promoção desse mercado. Em depoimento no Senado, afirmou que não se arrepende das propagandas e declarou não ter como atender pedidos de ajuda de seguidores prejudicados por perdas em jogos. A frase pode ser interpretada como honestidade, mas, para quem ocupa um lugar de poder comunicacional, ela soa como um confessionário de indiferença: eu ganho com o alcance; o dano não é meu problema.


Somam-se, ainda, episódios envolvendo sua marca de cosméticos e conflitos de consumo que chegaram ao sistema de justiça e a órgãos de defesa do consumidor, num país em que “empreendedorismo” costuma ser usado como biombo para práticas comerciais agressivas. Quando o Ministério Público entra na história para impor obrigações, o debate deixa de ser fofoca e vira interesse público.


Nada disso impede uma pessoa de desfilar. Mas impede, ao menos para mim, que ela simbolize uma bateria de escola popular que constrói, há anos, uma imagem pública de enfrentamento cultural.


A antirrepresentatividade não é sobre “lacrar”. É sobre coerência

Representatividade, no Carnaval, não é slogan. É coerência estética e política.


Quando uma escola escolhe contar histórias de terreiros, povos originários, periferias e movimentos de contracultura, ela assume um compromisso com sujeitos coletivos. E esse compromisso precisa aparecer nas escolhas internas: quem ocupa o microfone, quem assina pesquisa, quem desenha, quem dança, quem reina.


Virgínia pode dizer que ama o Carnaval. Mas amar não basta. É preciso compreender que o Carnaval não é um palco neutro: é um território em disputa, uma máquina de visibilidade, um espaço onde minorias sociais lutam para não serem apenas tema e sim autoria.


Ao coroar uma figura cuja trajetória pública é marcada por publicidade controversa e por uma cultura de ostentação, a Grande Rio escorrega justamente no lugar em que deveria ser mais cuidadosa: na imagem que projeta para fora sobre o que é “Caxias”, sobre o que é “comunidade”, sobre o que é “povo”.


E há uma ironia triste nisso. O Manguebeat nasceu gritando que a lama não era atraso: era potência. A Grande Rio, com sua escolha, parece ter dito o contrário: que a potência precisa de uma vitrine para “valer”.


O que a Grande Rio poderia ter feito (e ainda pode)


A escola não precisa demonizar Virgínia para corrigir o erro. Precisa, isso sim, reconhecer a natureza do equívoco: não foi “a internet que pegou no pé”. Foi a comunidade dizendo, com vaias e desconforto, que o posto não é prêmio de popularidade.


Há alternativas, e todas passam por um princípio simples: rainha de bateria é pacto, não contrato.


  1. Reafirmar o posto como trabalho: presença mínima em ensaios, vivência real com a bateria, rituais internos respeitados, e uma postura pública que não trate o Carnaval como “conteúdo”.

  2. Blindar o desfile de autopromoção: se a escola precisa de patrocínio, que o patrocínio seja tratado com transparência e limites. A Sapucaí não é vitrine pessoal.

  3. Investir na casa: passistas, musas de comunidade, mulheres da bateria, lideranças locais. A Grande Rio tem material humano de sobra para ocupar o posto com verdade.

  4. Coerência com o enredo: se o desfile é contracultura, a escolha simbólica precisa dialogar com contracultura, não com o manual do “branding”.


A Grande Rio acertou em tudo, menos no coração do desfile


O Carnaval é uma soma de escolhas. A Grande Rio foi brilhante naquilo que sustenta uma escola campeã: narrativa, estética, risco e identidade. Mas errou onde não podia errar: no coração do desfile, na bateria, no ponto em que a comunidade se reconhece.


Virgínia Fonseca pode ter carisma, seguidores e dinheiro. O que ela não tem, ou, ao menos, não demonstrou ter até aqui, é a disposição de desaparecer um pouco para que a escola apareça. E ser rainha de bateria, no fim, é isso: ser destaque sem ser dono; ser estrela sem virar produto; ser figura sem sequestrar o sentido.


A Grande Rio, que aprendeu a falar de conflito, precisa agora encarar o seu próprio.


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Clarice Drummond

Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.


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