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Por Murilo Alencar

20 de junho de 2026


O podcast Teoria Literária desta semana entra em uma das discussões mais inflamadas do mercado editorial contemporâneo: afinal, o BookTok está salvando ou destruindo a literatura?



Homem com óculos em fundo amarelo em HQ; texto: O Booktok está destruindo os livros e a literatura? Episódio 40
Capa do episódio 40 do Podcast Teoria Literária | Fonte: Reprodução/YouTube

Com o episódio “BookTok está destruindo a literatura? A verdade sobre livros virais, romantasy e algoritmo”, Raul Silva, jornalista, escritor e professor, analisa o fenômeno que transformou recomendações literárias em vídeos curtos, vendas expressivas, novas comunidades leitoras e também em alvo de críticas severas de professores, críticos literários e leitores mais tradicionais.


O ponto de partida do episódio é uma provocação: “E se a maior revolução literária do século XXI não veio da universidade, mas de vídeos de 30 segundos?”


A pergunta resume a tensão central da pauta. De um lado, o BookTok se consolidou como uma das maiores forças de descoberta de livros no mundo. De outro, cresce a preocupação de que a lógica algorítmica esteja reduzindo a experiência literária a fórmulas emocionais de consumo rápido.


Segundo divulgação do TikTok baseada em dados da NielsenIQ BookData e da Media Control, mais de 50 milhões de livros recomendados pela comunidade #BookTok foram vendidos na Europa em 2025, movimentando €800 milhões. A plataforma também afirma que mais de um terço dos leitores entre 16 e 39 anos descobre novos livros por meio do BookTok.


No Brasil, o fenômeno também ganhou escala. Levantamento publicado pelo PublishNews informou que publicações com as hashtags #BookTok e #BookTokBrasil cresceram 39% no primeiro semestre de 2025, com mais de 6 bilhões de visualizações no período e cerca de 12 mil vídeos semanais.


Assista ao episódio completo | Fonte: O estopim no YouTube

O episódio discute esse crescimento sem cair em respostas simplistas. A análise parte da ideia de que o BookTok não pode ser visto apenas como uma ameaça à leitura tradicional, mas também não deve ser romantizado como uma revolução neutra. O fenômeno amplia o acesso ao livro, mas ocorre dentro de uma plataforma orientada por retenção, engajamento e recomendação algorítmica.


A reflexão se apoia em três lentes teóricas. A primeira é a indústria cultural, conceito associado a Theodor Adorno e Max Horkheimer, usado para pensar como produtos culturais podem ser padronizados para consumo em massa. A segunda é a estética da recepção, especialmente a noção de horizonte de expectativas de Hans Robert Jauss, segundo a qual o leitor chega à obra com repertórios prévios que orientam sua interpretação. A terceira é a teoria de Pierre Bourdieu sobre capital simbólico, isto é, a disputa por autoridade cultural: quem tem poder para legitimar o que deve ser lido?


No episódio, Raul Silva argumenta que o BookTok desloca o poder da mediação literária. Antes, a recomendação passava principalmente pela escola, pela universidade, pela crítica especializada, pelas editoras, por livrarias e suplementos culturais. Agora, um vídeo emocional pode ter mais impacto sobre a venda de um livro do que uma resenha publicada em veículo tradicional.


Essa mudança, porém, não elimina hierarquias. Apenas desloca o centro da disputa. A autoridade do crítico perde espaço para a autoridade afetiva do influenciador; e a curadoria humana passa a conviver com a curadoria algorítmica.


O episódio também dedica atenção especial à romantasy, gênero híbrido entre romance e fantasia que se tornou um dos grandes símbolos do BookTok. A explosão de obras marcadas por dragões, reinos mágicos, casais intensos, cenas sensuais e estruturas de fantasia épica revela uma força de renovação do mercado, mas também uma tendência à repetição de fórmulas de sucesso.


O veredito do episódio é direto: o BookTok salva a circulação da literatura, mas pode destruir a complexidade da leitura se virar o único critério de valor.


A tese não é condenar livros virais nem ridicularizar jovens leitores. Pelo contrário: o episódio reconhece que a leitura também nasce do afeto, da identificação, do prazer, da catarse e da comunidade. A crítica se volta ao empobrecimento da experiência quando todo livro passa a ser julgado apenas pela capacidade de viralizar.



A abordagem segue os princípios editoriais do Grupo O estopim, que defendem método, transparência, distinção entre fato, análise e opinião, além do compromisso de evitar sensacionalismo e deformação da realidade para explorar medo, ódio ou preconceitos. O próprio documento editorial do grupo reforça que conteúdos opinativos preservam liberdade crítica, mas devem se apoiar em dados corretos, contextualizados e checados.


No encerramento, o episódio convida o público a participar do debate com uma pergunta simples e provocadora: qual livro viral do BookTok realmente valeu a pena — e qual foi pura propaganda algorítmica?


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Murilo Alencar é editor e crítico literário, com atuação em literatura comparada e sociologia da cultura. No O estopim, escreve sobre o que a vida literária revela do país: seus mecanismos de consagração, suas ausências e suas disputas por voz.

Diário de leitura de Raul Silva

Um defeito de cor — Capítulo 1


Leitura realizada entre sexta-feira, 03/04/2026, e terça-feira, 07/04/2026



Capa do livro "Um Defeito de Cor" de Ana Maria Gonçalves, com fundo marrom e ilustração amarela de pessoa pensativa em flores.
Banner do livro "Um Defeito de Cor" de Ana Maria Gonçalves, destacando a extraordinária jornada de Kehinde, uma africana escravizada que busca sua liberdade e o reencontro com seu filho no Brasil do século XIX. Uma obra rica em detalhes históricos e culturais, explorando temas de identidade, resistência e perseverança. | Foto: Divulgação/Editora Record

Sexta-feira, 03/04/2026


Hoje comecei a leitura do capítulo 1 de Um defeito de cor e, antes mesmo de entrar propriamente na voz de Kehinde, fiquei profundamente tomado pela origem da história narrada. Não é um detalhe periférico. Não é um enfeite de prólogo. É a chave ética da leitura. O romance se apresenta como fruto de um achado: papéis velhos, manuscritos quase perdidos, reaproveitados como suporte para desenhos de uma criança, salvos por acaso do fogo, do lixo e do esquecimento. O trecho marcado em que Ana Maria Gonçalves encontra a palavra “Licutan” me parece decisivo, porque ele transforma a leitura num gesto de escavação. Não estamos entrando apenas em uma ficção histórica; estamos entrando num arquivo ferido. Num arquivo quase destruído. Num arquivo que só chega até nós porque escapou por pouco da banalidade do descarte. Isso me atingiu muito. A história negra, tantas vezes, não some apenas por censura oficial: ela some porque foi considerada papel velho, resto, entulho, coisa sem valor. E esse mecanismo do desprezo é, em si, uma política de apagamento.


O segundo trecho marcado, ainda nesse limiar entre prólogo e capítulo, me deixou pensando por muito tempo. A narradora sugere que aquele manuscrito talvez seja de uma mulher escravizada muito especial, talvez até da mãe de um homem célebre, de um defensor da abolição, de alguém cuja inteligência a história oficial aceitou registrar. O que me abala aqui é a inversão: por trás do nome consagrado do filho, pode existir o vulto imenso da mãe que o país não quis ver. Essa possibilidade reorganiza o meu modo de ler.


Fiquei pensando no quanto a história brasileira aceita celebrar exceções masculinas enquanto enterra as mulheres negras que tornaram essas trajetórias possíveis. É como se o país dissesse: posso até admitir um grande homem negro, desde que a origem negra feminina continue na penumbra. Esse raciocínio, hoje, me parece diretamente legível à luz do que Cida Bento chama de pacto da branquitude: a engrenagem pela qual o poder branco se preserva não apenas acumulando privilégios, mas administrando quem pode ser lembrado, quem pode ascender simbolicamente e quem deve permanecer como chão invisível da nação. O manuscrito encontrado por acaso denuncia justamente isso: a memória negra, sobretudo feminina, no Brasil, foi tratada como matéria descartável.


Quando finalmente entro no capítulo 1, a voz de Kehinde me desmonta logo nas primeiras linhas. Ela diz ter seis anos, quase sete, quando a história começa. É um dado devastador. A narradora não é só uma criança: é uma criança obrigada a organizar o horror dentro de uma gramática ainda em formação. E o capítulo constrói sua violência maior exatamente aí. Não é a narração de uma adulta lembrando didaticamente a infância; é uma consciência infantil tentando nomear o mundo quando o mundo já se tornou insuportável. A apresentação de Kehinde, Taiwo, Kokumo, da mãe e da avó, com todo o universo dos ibêjis, dos abikus, dos nomes que significam destino, permanência, apelo à vida, dá ao texto uma densidade civilizatória extraordinária. Antes de a violência colonial e escravista esmagar esses corpos, o romance faz questão de nos mostrar que existe ali uma ordem simbólica plena, rica, complexa, espiritual, linguística, comunitária. Isso é central. O livro não começa na falta. Começa na plenitude. E isso desmonta a velha imaginação racista segundo a qual a história negra começaria apenas no cativeiro. Não. Kehinde chega ao leitor já inteira, já inscrita numa cultura, já nomeada por uma cosmologia.


Mas há também um detalhe que me perseguiu o resto da noite: o trecho marcado em que Kehinde diz que só teve certeza de ser separada de Taiwo depois que a irmã morreu, quando a parte da alma da gêmea ficou somente nela. Esse trecho é de uma tristeza quase metafísica. Não é apenas a morte de uma irmã. É a fratura de uma unidade original. É como se a violência da história, antes de roubar a casa, o corpo e a terra, roubasse primeiro a completude interior. Fiquei longamente parado nesse ponto. Porque ali o livro já anuncia o que fará o tempo todo: mostrar que a escravidão e o tráfico não destruíram só economias domésticas ou laços familiares; destruíram arquiteturas íntimas do ser. O capítulo 1, desde já, me obriga a entender que o trauma não é só físico nem só social. Ele é ontológico.



Sábado, 04/04/2026


Hoje avancei até o núcleo mais brutal do capítulo, e precisei parar várias vezes. O episódio sob o iroco é de uma violência quase irrespirável. E o que mais me arrasou não foi apenas a crueldade dos atos, mas a forma como eles aparecem filtrados pela percepção de uma menina. Kehinde não dispõe de linguagem adulta para nomear o estupro; ela descreve o que vê, o que sente, o que intui. Justamente por isso, a cena se torna quase intolerável. O trecho marcado em que a mãe é jogada no chão, violentada, enquanto a avó implora e enquanto Kokumo já foi assassinado, me parece uma das passagens mais duras que já li na literatura brasileira. Não porque o texto queira chocar por excesso, mas porque ele não nos oferece nenhum álibi. Não há ornamento, não há metáfora que alivie, não há distância civilizada. Há apenas a pedagogia do terror em operação.


O que me rasgou por dentro foi o fato de as meninas serem forçadas a tocar os corpos dos agressores. Esse detalhe é monstruoso. A violência não se contenta em destruir a mãe diante das filhas; ela precisa capturar também o corpo infantil para dentro da cena. Isso revela uma lógica de dominação total. Não basta violar uma mulher. É preciso comprometer a memória das crianças, sujar a infância, instalar o trauma como lembrança tátil. Fiquei pensando o quanto esse tipo de terror explica por que a escravidão não pode jamais ser tratada como “mão de obra”, “sistema econômico” ou “período histórico” em tom neutro. O capítulo 1 não deixa ninguém falar disso em abstrato. Ele devolve à escravidão o seu nome concreto: estupro, assassinato, humilhação, expropriação, espetáculo da força.


Aqui comecei a pensar de modo mais frontal na branquitude, embora a cena inicial da violência imediata seja praticada por guerreiros de Adandozan, isto é, não por homens brancos. Faço questão de registrar essa nuance porque ela importa: o romance não simplifica a África nem transforma toda violência numa invenção europeia. Há conflitos internos, perseguição política, poder monárquico, terror local. Mas a leitura do capítulo mostra também que essa violência entra, depois, numa engrenagem maior, racial e transatlântica, que a converte em mercadoria. É nesse ponto que a chave de Cida Bento me parece iluminadora: o pacto da branquitude não depende de que cada ato violento seja praticado por pessoas brancas. Ele opera quando o sistema branco acumula proveito, legitimidade, riqueza e centralidade a partir da devastação de povos negros. O capítulo 1 expõe a fase inaugural dessa máquina. A destruição começa localmente, mas a branquitude a transforma em lucro global e, depois, em herança histórica.


O outro trecho marcado de hoje, o dos abikus surgindo, Kokumo cantando, a mãe sorrindo e se movendo para junto das crianças espirituais enquanto o horror prossegue, me deixou num estado muito estranho. É uma passagem de beleza terrível. Quase insuportável. A mãe, ao ser atravessada pela lança, ainda sorri porque já está sendo chamada por outra ordem de existência. A cena não suaviza a violência; ao contrário, a torna ainda mais lancinante. O espiritual não apaga o crime. Ele apenas impede que a violência do agressor tenha a última palavra sobre o sentido daquela morte. É um gesto literário e cosmológico de resistência. Fiquei muito comovido com isso. O colonizador, o guerreiro, o violador podem dominar o corpo; mas o texto insiste que eles não dominam completamente a travessia da alma. É uma espécie de insubmissão final.


Saio desta leitura com uma impressão muito clara: o capítulo 1 está me obrigando a rever a história do Brasil a partir da sua cena anterior, africana. Antes do navio, antes do porto, antes do senhor branco no engenho, houve o massacre da intimidade, da infância e da cosmologia. O Brasil herdou pessoas que já chegavam aqui arrancadas de si. E nós, enquanto sociedade, ainda vivemos entre os escombros dessa operação.



Domingo, 05/04/2026


Hoje li a parte da fuga para Uidá e a impressão foi paradoxal. Depois do massacre, o capítulo abre um breve intervalo de respiração. Não de paz plena, mas de reorganização precária da vida. A avó enterra a filha e o neto, reparte a comida em cinco partes, carrega as estátuas sagradas, toma as meninas pela mão e segue. Fiquei muito tocado pela sobriedade desse luto. Não há melodrama. Há ritual. Há trabalho. Há continuidade mínima. A literatura de Ana Maria Gonçalves me impressiona porque entende que, para pessoas esmagadas pela história, sobreviver também é uma técnica. A avó não “supera” nada. Ela administra o irreparável.


A viagem até Uidá, vista pelos olhos infantis de Kehinde, é das coisas mais belas e tristes do capítulo. A menina ainda consegue se maravilhar com cores, corpos, rios, montanhas, lagartos, mercados, o mar. Essa capacidade de encanto, depois do horror, me parece uma das formas mais radicais de humanidade do capítulo. A escravidão precisou esmagar não apenas gente, mas a própria faculdade de maravilhamento, porque um sujeito capaz de perceber o mundo em sua pluralidade ainda não foi completamente reduzido a objeto. Kehinde continua criança, apesar de tudo. E isso me feriu muito, porque torna ainda mais atroz o que virá depois.


O trecho marcado em que a avó admite a possibilidade de dançar para sustentar as netas, herdando da filha esse direito, me parece um daqueles momentos discretos que sustentam a grandeza do capítulo. Há ali economia, gênero, memória e transmissão. A sobrevivência feminina se organiza pela circulação de um gesto corporal, de uma prática social, de um direito simbólico. A dança, que antes era festa e sustento da mãe, converte-se em recurso de continuidade depois da catástrofe. É um trecho marcado que me fez pensar muito naquilo que a história oficial costuma ignorar: as mulheres negras sustentaram a vida, a economia cotidiana e a transmissão de cultura em condições de devastação quase absoluta. Se o país existe, existe também porque elas inventaram meios de manter alguém vivo no dia seguinte.


Uidá, por sua vez, começa a introduzir de forma mais nítida a presença branca e o horizonte do tráfico. Os brancos aparecem como compradores ricos, cercados de carregadores negros, dispensados da barganha comum do mercado, dotados de uma autoridade material que já reorganiza o espaço. Foi impossível não ler essas passagens pela chave do pacto da branquitude. O privilégio branco aqui não nasce apenas da cor visível; ele nasce da posição de quem chega ao mercado já investido do direito de pagar, levar, mandar, escolher, converter pessoas e coisas em propriedade. O capítulo me fez pensar que a branquitude não é uma identidade inocente, mas uma posição histórica de concentração de poder. Ela se alimenta de uma rede: marinheiros, padres, guardas, comerciantes, tradutores, compradores. Um branco sozinho talvez fosse só um homem. Mas o branco dentro do sistema atlântico escravista é uma instituição.


Hoje também não consegui deixar de pensar no quanto esse capítulo explica nossas mazelas sociais atuais. A desigualdade racial brasileira não começa na “falta de oportunidade” contemporânea. Ela começa aqui: na autorização histórica para que certos corpos sejam arrancados, avaliados, vendidos, renomeados e usados, enquanto outros corpos acumulam capital, mobilidade, proteção e memória. Ler isso sendo um leitor formado dentro de um mundo ainda organizado por vantagens brancas é profundamente constrangedor. Porque a pergunta que o capítulo me impõe não é apenas “o que aconteceu com eles?”, mas “o que foi construído para nós a partir disso?”. E a resposta é dura: muito do conforto branco, da herança branca, do acesso branco e até da naturalidade com que o país lê a si mesmo nasceu desse subterrâneo de sangue.


Segunda-feira, 06/04/2026


Hoje cheguei à captura em Uidá, ao barracão, à mediação brutal dos guardas, à cena dos presentes, da triagem, dos brancos escolhendo destinos. Foi um dia de leitura muito pesado. A sensação que tive é de que o capítulo 1 vai deixando para trás a violência episódica e entra na violência sistêmica. Se o massacre inicial em Savalu é convulsão, aqui a violência já virou administração. E talvez isso seja ainda pior. O horror agora tem rotina, método, fila, mercadoria, escolha, presente, inspeção. Isso me parece central para compreender o tráfico atlântico e, por extensão, o pacto da branquitude. O sistema branco não se sustenta apenas por sadismo explosivo; ele se sustenta por normalização. Transformar pessoas em problema logístico, em lucro, em transporte, em nome de batismo, em carga, em presente.


O trecho marcado em que Tanisha abraça as meninas e elas sentem pela primeira vez Xangô, Nana, Iemanjá e os Ibêjis junto delas me comoveu profundamente. A fé aqui não é abstração. É último abrigo psíquico. É aquilo que ainda não foi tomado. Kehinde registra uma quentura por dentro, não exatamente alegria, mas algum tipo de abrigo contra a desolação. Esse trecho me parece importantíssimo porque mostra como a espiritualidade africana não é folclore no romance; ela é tecnologia de sobrevivência emocional. Quando toda a ordem material ruiu, é pela cosmologia que se reconstrói um mínimo de sustentação interior.


Mas a passagem que mais me atingiu hoje foi a da avó diante do branco. Ela gesticula, mostra o corpo, os pés, os dentes, os braços, tenta provar alguma coisa, tenta convencer aquele homem a deixá-la ir junto com as meninas. O branco ri. Esse riso me parece uma síntese perfeita da violência da branquitude. Ele não precisa gritar. Não precisa bater naquela hora. Basta rir. Basta ocupar a posição de quem pode decidir se uma família permanece junta ou é desfeita. Basta reconhecer no corpo negro não uma pessoa, mas uma peça a ser avaliada. A avó, para acompanhar as netas, precisa se submeter a uma espécie de demonstração humilhante de aptidão. Não há como não ler isso como genealogia do racismo moderno: o corpo negro examinado, testado, medido, autorizado ou rejeitado por um olhar branco que se julga soberano.


Quando um guarda toma das mãos da avó a estátua dos Ibêjis, senti que o capítulo tocava num ponto quase insuportável. Não é apenas a separação das pessoas. É a tentativa de separar também os sujeitos de seus mediadores sagrados, de seus objetos de proteção, de sua continuidade simbólica. A escravidão quer capturar tudo: o nome, o corpo, o parentesco, a fé, o amuleto, a memória, a linguagem. E a breve marcação “não adiantava” no trecho seguinte, justamente quando já os fazem entrar na água, é uma frase minúscula, mas devastadora. Porque ali o capítulo enuncia a passagem para o irreversível. Há um momento em que ainda se pede, ainda se argumenta, ainda se acredita. Depois há o momento em que não adianta mais. Essa frase curta é um abismo.


Comecei a pensar com mais dureza no presente brasileiro. O pacto da branquitude, em Cida Bento, é também um pacto de autodesculpa: a capacidade de usufruir do resultado histórico sem querer se ver no espelho da origem. O capítulo 1 quebra esse espelho e o devolve em pedaços para o leitor. Quem hoje habita o conforto simbólico da branquitude brasileira, acesso, herança, segurança, presunção de humanidade plena, habita uma casa erguida depois que outros foram lançados à água com tochas e lanças nas costas. Sei que essa frase pode soar dura, mas a leitura de hoje me impede qualquer suavização.


Terça-feira, 07/04/2026


Terminei hoje o capítulo 1 e saio dele devastado. O tumbeiro, descrito pelos olhos de uma criança, talvez seja uma das experiências literárias mais violentas que já tive. O trecho marcado sobre a dificuldade de urinar no porão, sobre o pano molhado com o xixi da irmã, sobre o constrangimento físico de um corpo infantil que já não tem privacidade alguma, é de uma força imensa. Porque ele rebaixa a análise ao nível exato em que a escravidão operou: o corpo. Não o corpo em abstrato, mas o corpo apertado, úmido, envergonhado, nauseado, sujo, sem espaço para mover as pernas, sem ar, sem luz, sem tempo. A escravidão é isso também: a destruição metódica das condições mínimas de dignidade fisiológica.


O outro trecho marcado, sobre os dias em que a portinhola não se abre, o cheiro de urina e fezes, o esforço para respirar o casco do navio, é um soco. Ali percebi com clareza que o capítulo 1 não quer que o leitor “entenda” o tráfico; ele quer que o leitor sinta o quanto for possível da sua materialidade. O cheiro, o vômito, o frio, a madeira velha, a dor no pescoço, o corpo jogado contra o chão: tudo isso impede a transformação da escravidão em conceito limpo. Essa é talvez a maior lição ética da literatura aqui. Ela não nos deixa higienizar o passado. E isso me parece fundamental num país que ainda fala de escravidão com uma abstração que favorece a branquitude, porque a abstração absolve. A concretude acusa.


Os acontecimentos finais do capítulo me deixaram num estado de tristeza muda. A doença de Taiwo, o medo da avó, a percepção de que os mortos voltavam para buscá-la, a transmissão dos ensinamentos sobre voduns, memória, África e ancestrais, e depois a morte da própria avó junto da neta, lançadas ao mar como comida de peixe. Não consegui ler isso sem interromper muitas vezes. O capítulo 1 termina de modo exemplarmente cruel: Kehinde chega viva, mas chega despojada de quase tudo. Mãe, irmão, irmã, avó, terra, casa, proteção, infância linear. Resta a memória. Resta o nome. Resta a obrigação de lembrar. E talvez seja por isso que esse capítulo exista: para fundar na perda uma ética da recordação.


Hoje fechei o livro pensando que o capítulo 1 explica, de maneira literariamente avassaladora, por que a desigualdade brasileira não pode ser lida apenas como dado econômico. Ela é também uma continuidade psíquica, simbólica, racial e memorial de um mundo construído a partir da desumanização negra. O pacto da branquitude aparece aqui não como tese pronta, mas como embrião histórico: o branco que compra, o branco que escolhe, o branco que ri, o branco que batiza, o branco que transporta, o branco que lucra, o branco cuja humanidade não é posta em dúvida enquanto a humanidade negra é diariamente reduzida a carga, presente ou carneiro. Os privilégios que permanecem até hoje não caíram do céu. Eles foram acumulados sobre esse fundo de oceano, de porão, de barracão, de mercado. Ler o capítulo 1 como leitor branco ou, mais precisamente, como leitor formado numa sociedade organizada para proteger a branquitude, é perceber que o desconforto moral não basta. É preciso reconhecer herança. E reconhecer herança significa admitir que houve uma transmissão desigual de mundo: para uns, capital e legitimidade; para outros, mutilação e silêncio.


Encerrando este diário, a minha impressão final é esta: o capítulo 1 de Um defeito de cor é uma obra dentro da obra. Um começo que já contém um país inteiro. Um começo que rasga a ideia confortável de Brasil, devolve à escravidão sua face abjeta, restitui densidade à vida africana anterior ao cativeiro e mostra que a nossa história social continua adoecida porque continua mal lembrada. Não é uma leitura apenas pesada. É uma leitura necessária, urgente e acusatória. E eu termino o capítulo 1 com a sensação de que fui menos um leitor do que uma testemunha tardia de algo que o Brasil preferiu transformar em ruído de fundo, quando na verdade era (e é) o centro do nosso drama histórico.



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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, poder local e fiscalização do setor público.

Por Murilo Alencar | 2 de abril de 2026



Mulher em roupa vermelha segura celular, com árvore e pássaro ao fundo. Fundo de tijolos, visual retrô, cores vivas e expressão neutra.
Ilustração da capa de "O Conto da Aia", destacando uma mulher vestida de vermelho, simbolizando opressão e resistência, com um fundo de galhos negros e um pássaro, remetendo à vigilância constante e à luta pela liberdade. A figura central segura um objeto em chamas, representando esperança e transformação em meio à escuridão. | Foto: Reprodução/Capa O conto da Aia editora Rocco

Em seu novo episódio, o podcast/videocast Teoria Literária volta-se para um dos romances mais inquietantes da ficção contemporânea: O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Apresentado por Raul Silva, jornalista, escritor e professor, o programa propõe uma leitura que se afasta do consumo apressado da obra como simples “distopia famosa” e a recoloca no terreno que ela exige: o da crítica literária, da história política e da disputa em torno da linguagem.


A aposta do episódio é clara desde a abertura. Mais do que perguntar por que o livro ainda assusta, Raul procura demonstrar por que ele continua funcionando como chave interpretativa do presente. O argumento central do programa sustenta que Atwood não constrói apenas um regime totalitário de ficção, mas uma engrenagem narrativa capaz de mostrar como o autoritarismo se normaliza, como a violência aprende a falar em nome da ordem e como o corpo feminino pode ser transformado em peça de administração estatal.


Publicado originalmente em 1985, o romance de Margaret Atwood acompanha a experiência de uma narradora submetida à República de Gilead, uma teocracia que reorganiza a vida social por meio de hierarquias rígidas, vigilância permanente e controle reprodutivo. No episódio, esse ponto de partida não aparece como pretexto para um resumo de enredo, mas como base para uma discussão mais ampla sobre forma literária. Raul destaca que a grandeza do romance não reside apenas em seu tema, e sim na carpintaria do texto: a primeira pessoa fragmentada, a memória interrompida, a hesitação narrativa, a ironia, os silêncios e o esforço contínuo da narradora para transformar trauma em relato.


Ao longo da análise, o episódio investe em uma hipótese forte: em O Conto da Aia, a linguagem não apenas descreve o poder, ela é uma ferramenta do poder. O vocabulário de Gilead, os rituais, a reorganização dos nomes e a captura simbólica do corpo produzem um universo em que a opressão se sustenta tanto por coerção física quanto por manipulação discursiva. É nesse ponto que o programa amplia sua leitura e se insere em um debate que extrapola a literatura, alcançando questões de interesse público como autoritarismo, fundamentalismo, misoginia institucional e erosão democrática.


Assista ao episódio completo sobre O Conto da Aia de Margaret Atwood | Podcast: Teoria Literária do Canal O estopim

Outro mérito do episódio está em não tratar a obra no vazio. Fiel a uma perspectiva de literatura comparada, Raul aproxima Atwood de George Orwell, Aldous Huxley e José Saramago. A comparação permite identificar diferenças decisivas entre modelos de distopia: se Orwell enfatiza a vigilância e a produção oficial da verdade, Huxley radicaliza a administração biopolítica dos corpos e dos desejos; já Saramago expõe o colapso ético de uma comunidade em ruínas. Atwood, por sua vez, tensiona essas tradições ao mostrar um regime que sequestra o corpo feminino e apresenta essa violência como salvação moral. O resultado é um episódio que combina clareza didática com densidade interpretativa, sem perder o ritmo oral necessário ao formato.


Há, ainda, um segundo eixo que dá espessura ao programa: a atenção ao desenho formal do romance. Raul chama o público para observar as epígrafes do livro, em especial o fragmento bíblico que fundamenta a exploração reprodutiva em Gilead e a presença de Jonathan Swift como sombra satírica da racionalidade perversa. Em vez de tratar essas passagens como ornamento erudito, o episódio as apresenta como chaves de leitura. A violência, sugere a análise, nem sempre se impõe aos gritos; muitas vezes ela se instala com a serenidade de uma justificativa, com a aparência de necessidade histórica ou com a autoridade de uma interpretação sagrada.


O clímax crítico do programa chega quando a leitura se volta para as célebres “Notas Históricas”, bloco final do romance que muda o enquadramento da narrativa e reabre a discussão sobre memória, arquivo e poder. Raul lê esse desfecho como uma das operações mais agudas de Atwood: mesmo depois do horror, a dor feminina ainda corre o risco de ser absorvida por discursos que classificam, arquivam, relativizam e explicam demais. Em outras palavras, o autoritarismo não termina necessariamente quando o regime cai; ele pode persistir na linguagem de quem narra o passado, na falsa neutralidade institucional e no riso deslocado diante da violência.


Esse movimento dá ao episódio um alcance que vai além da recomendação de leitura. O programa não se limita a afirmar que O Conto da Aia “continua atual”. Ele procura mostrar por que a obra ainda produz fricção. Sua atualidade não decorre de uma suposta capacidade profética simplificada, mas do modo como identifica mecanismos recorrentes de poder: censura, fundamentalismo, captura moral da política, domesticação da linguagem e naturalização progressiva do intolerável.



No panorama do conteúdo literário em língua portuguesa, o episódio se destaca por recusar tanto a simplificação escolar quanto a reverência vazia. Há rigor conceitual, mas há também oralidade. Há teoria literária, mas em conexão direta com a escuta do público. O resultado é um formato que informa, interpreta e convoca à reflexão, três dimensões que o jornalismo cultural costuma perder quando se reduz a agenda promocional ou a opinião impressionista.


Ao fim, a pergunta deixada por Raul ao público resume bem o espírito do episódio: Gilead começa onde? No medo, na religião instrumentalizada, na indiferença ou na naturalização da violência? A força dessa pergunta está em deslocar a discussão do exotismo distópico para o terreno das concessões cotidianas. E talvez seja justamente aí que resida a permanência de Margaret Atwood: não em ter imaginado um pesadelo distante, mas em ter mostrado como o absurdo pode aprender a parecer normal.


Para quem acompanha o Teoria Literária, o novo episódio confirma a proposta do programa de transformar obras canônicas e contemporâneas em debate vivo, sem abrir mão de densidade, contexto e responsabilidade crítica. Para quem chega agora, trata-se de uma porta de entrada robusta para compreender por que certos livros não sobrevivem apenas como clássicos: sobrevivem como advertência.


O estopim — O começo da notícia!

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Murilo Alencar é editor e crítico literário, com atuação em literatura comparada e sociologia da cultura. No O estopim, escreve sobre o que a vida literária revela do país: seus mecanismos de consagração, suas ausências e suas disputas por voz.

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