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Por Raul Silva para O estopim | 19 de maio de 2026



A política de Arcoverde entrou, nos últimos meses, numa espiral de desgaste que mistura denúncia, pedido de cassação, renúncia, confusão em plenário, sessão sem quórum e troca permanente de acusações entre vereadores e grupos ligados ao Executivo. O resultado prático é um só: enquanto a Câmara se fecha em disputas internas e a relação com a Prefeitura desce ao nível do confronto aberto, a população fica sem o debate sério que deveria orientar um Poder Legislativo eleito para fiscalizar, legislar e representar.


Fachada de um prédio do Poder Legislativo, com janelas espelhadas refletindo o céu. Bandeiras hasteadas. Um cartaz anuncia itens por R$ 1,50.
Prédio da Câmara Municipal de Arcoverde | Fonte: Reprodução/Facebook

O contraste é eloquente. No início de fevereiro, o discurso oficial era de convergência entre os poderes, com presença de representantes do Executivo na abertura dos trabalhos e promessa de diálogo institucional. Menos de quatro meses depois, o ambiente é outro. O que era anunciado como harmonia virou disputa por narrativa, guerra por controle político da Câmara e uma sequência de episódios que corroem a credibilidade do parlamento municipal.


A crise ganhou força com o avanço de denúncias contra o presidente da Câmara, Luciano Pacheco, acusado por adversários de ter exercido atividade privativa da advocacia enquanto ocupava cargo incompatível na Mesa Diretora. Ele nega irregularidade e sustenta que é alvo de perseguição política. Em paralelo, o então vice-presidente Claudelino Costa renunciou ao mandato em meio a outra frente de desgaste político e jurídico, o que ampliou o ambiente de excepcionalidade dentro da Casa.


Em vez de produzir contenção institucional, o episódio abriu mais frentes de conflito. As sessões passaram a ser contaminadas por disputas que extrapolaram a divergência política e migraram para o terreno da provocação, da exposição pessoal e da desordem.


A sessão de 20 de abril virou símbolo desse rebaixamento. O que deveria ser espaço de debate público terminou associado a bate-boca, interrupção dos trabalhos e tensão fora do rito parlamentar. Não se trata apenas de um incidente isolado. Trata-se de um sintoma. Quando uma Casa legislativa perde a capacidade de manter ordem, foco e decoro, ela deixa de ser arena democrática e passa a operar como palco de conflito performático.


Esse desvio ficou ainda mais evidente quando, em 11 de maio, a sessão ordinária não ocorreu por falta de quórum. A ausência de parlamentares já seria grave em qualquer contexto. Em meio a uma crise instalada, torna-se ainda mais reveladora. Faltar a uma sessão numa conjuntura assim significa aumentar a sensação de que a política local está concentrada mais na disputa entre grupos do que na obrigação com a cidade.


No material em vídeo que circulou após os episódios, uma frase resume com precisão o sentimento predominante: “Faltas às sessões e troca de acusações entre vereadores: só quem perde é a população de Arcoverde”. O ponto central é esse. Não importa qual ala grite mais alto. Numa cidade que depende da regularidade institucional para votar projetos, fiscalizar gastos e destravar agendas públicas, a desorganização do Legislativo deixa de ser um problema de bastidor e passa a ser um problema coletivo.


A pauta da sessão de 18 de maio mostra que a crise deixou de ser lateral e passou ao centro da atividade legislativa. Em vez de um parlamento concentrado em prioridades urbanas, serviços, saúde, infraestrutura, mobilidade e políticas sociais, o que se vê é uma Casa absorvida por requerimentos de cassação e por uma agenda moldada pela luta interna de poder.



Não há democracia madura quando o mecanismo excepcional de responsabilização política passa a ocupar o coração da agenda sem que a população consiga enxergar, com clareza, uma saída institucional rápida, transparente e estável. Instrumentos de apuração e responsabilização são legítimos. O problema surge quando a sucessão de denúncias, notas e embates transforma a Câmara num organismo voltado para si mesmo.


Arcoverde não elegeu vereadores para assistir a sessões consumidas por vaidade, revide e cálculo de facção. E também não elegeu uma Câmara para servir como extensão emocional de brigas entre grupos que até ontem dividiam o mesmo palanque e hoje disputam a narrativa do rompimento. O eleitor vota esperando representação. O que recebe, neste momento, é um espetáculo de instabilidade.


A crise na Câmara não pode ser lida como um problema apenas interno do Legislativo. Ela revela também o esgarçamento da relação política com o Executivo municipal. De um lado, a Prefeitura adotou postura pública de distanciamento formal em relação a parte das denúncias e tenta evitar a imagem de interferência direta. De outro, o ambiente político local é atravessado por acusações de articulação, rompimento de alianças e reposicionamento de lideranças de olho no tabuleiro estadual e nas eleições futuras.


Esse tipo de guerra quase nunca fica restrito ao discurso. Quando Executivo e Legislativo entram numa lógica de hostilidade permanente, a cidade inteira sente. Projetos atrasam, votações se contaminam, a pauta administrativa perde previsibilidade e a confiança do cidadão desaba. A população não acompanha apenas um duelo de versões. Ela convive com o risco real de paralisia.


É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. A política de Arcoverde não está vergonhosa porque existe conflito. Conflito faz parte da democracia. Ela está vergonhosa porque o conflito deixou de produzir mediação, fiscalização e deliberação e passou a produzir ruído, constrangimento público e infantilização da vida institucional.


Retrato com nove quadros de pessoas sorrindo em roupas formais, emoldurados na parede branca. Expressão amigável e formal.
Onde estão os vereadores de Arcoverde? | Foto: Reprodução/IA Gemini

Nas redes sociais e na cobertura local, a reação predominante foi de desgaste. O vocabulário que passou a circular em publicações, comentários e chamadas de vídeos é revelador: crise, caos, semana turbulenta, questionamentos, omissão, vexame. Não é coincidência. É a linguagem que emerge quando a população deixa de enxergar firmeza institucional e passa a perceber a política como descontrole.


Há, de um lado, o registro da sessão de 18 de maio, já sob o peso da crise. Há, de outro, vídeos curtos produzidos para redes sociais e grupos de mensagem em que o foco deixa de ser a deliberação parlamentar e passa a ser o comentário sobre faltas, acusações e desgaste público. Quando a principal narrativa sobre uma Câmara não é a lei que ela discute, mas a confusão que ela produz, o problema político já ultrapassou o limite do tolerável.


Vista aérea de uma cidade ao pé das montanhas em dia nublado. Prédios e casas com tetos alaranjados destacam-se sob nuvens cinza.
Vista da cidade de Arcoverde do Alto do Cruzeiro | Fonte: Wikipédia

Arcoverde tem mais de 82 mil habitantes e não pode naturalizar um padrão de degradação institucional como se fosse folclore político do interior. Não é. É falha de representação. É desvio de prioridade. É quebra de compromisso com a função pública.


A cidade tem o direito de cobrar, no mínimo, cinco coisas imediatas.


  • Regularidade das sessões e presença dos parlamentares

  • Transparência integral sobre denúncias, ritos e votações

  • Contenção do uso da tribuna e do plenário para ataques pessoais

  • Separação clara entre disputa política legítima e sabotagem institucional

  • Retomada urgente da agenda concreta da cidade


Sem isso, a Câmara continuará parecendo menos uma instituição republicana e mais uma arena de humilhação pública. E uma democracia local começa a adoecer justamente quando seus representantes perdem a noção do ridículo institucional, ainda que mantenham intacta a capacidade de ocupar microfones, publicar notas e alimentar trincheiras.


Arcoverde merece divergência, fiscalização e debate duro. O que não merece é a substituição da política por um teatro de ressentimentos em que quase todos falam em nome do povo, mas poucos demonstram disposição real para trabalhar por ele.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, interesse público e os impactos concretos das decisões de poder na vida local.


Por Raul Silva para O estopim | 6 de abril de 2026



Fachada da Câmara de Vereadores de Arcoverde com placa verde "Poder Legislativo". Edifício cinza, entrada central. Ambiente urbano.
Fachada da Câmara de Vereadores de Arcoverde, conhecida como Casa James Pacheco, destacando a instituição do Poder Legislativo Municipal em Pernambuco. | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Um pedido de cassação protocolado nesta segunda-feira (6) contra o presidente da Câmara de Arcoverde, Luciano Pacheco, abriu um novo capítulo da crise política no município. A denúncia sustenta que o vereador teria exercido a advocacia de forma incompatível com o cargo que ocupa na Mesa Diretora da Casa, enquanto a defesa do parlamentar afirma que há perseguição política em curso após o rompimento com o grupo do prefeito Zeca Cavalcanti.


A peça foi apresentada pela cirurgiã-dentista Mércia Cavalcante de Lira Lumba, representada pelo advogado Tércio Soares Belarmino, e aponta que Pacheco teria praticado atos privativos da advocacia em 29 e 30 de abril de 2025, no âmbito de uma ação penal que tramita na 4ª Vara Criminal de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. A acusação se apoia no artigo 28, inciso I, do Estatuto da Advocacia, que estabelece incompatibilidade para o exercício da advocacia por membros da Mesa do Poder Legislativo.


No documento consultado pela reportagem, o pedido é dirigido ao vice-presidente da Câmara, Claudelino Costa, e pede a abertura do rito político-administrativo previsto no Regimento Interno da Casa. A denúncia também anexou referências a documentos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e ofícios da OAB de 2011 para sustentar a tese de reincidência.


Homem de terno cinza e gravata roxa em um escritório, com bandeiras brasileiras ao fundo. Expressão séria. Ambiente formal.
O vereador Luciano Pacheco, que ocupa a presidência da câmara, está enfrentando um pedido de cassação que envolve Mércia Cavalcante Lira Lumba. Ela é irmã da Secretária de Ação Social do Governo Zeca Cavalcanti. | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Nas páginas iniciais do material, a autora da denúncia afirma que Luciano Pacheco, eleito presidente da Câmara em 1º de janeiro de 2025, não poderia mais advogar enquanto ocupasse a função. A peça menciona uma certidão processual segundo a qual o vereador teria ido ao cartório buscar informações sobre mídias anexadas ao processo no Rio de Janeiro e, depois, participado da sessão do júri “na defesa do acusado”. O texto ainda cita um episódio de 2011, quando a incompatibilidade entre presidência da Câmara e advocacia já teria sido levada à OAB.


Do ponto de vista jurídico, o centro da controvérsia está menos na atividade política de Pacheco e mais na interpretação da vedação profissional prevista em lei. O Estatuto da Advocacia trata a hipótese como incompatibilidade, e não como mero impedimento parcial, o que, em tese, veda a prática da advocacia enquanto o agente estiver na Mesa Diretora. Isso não significa, por si só, cassação automática. Significa que a Câmara precisará decidir primeiro se recebe a denúncia e, em seguida, se entende haver prova suficiente para abrir comissão processante.


Na reação pública, Luciano Pacheco disse ver no pedido uma tentativa de esvaziar politicamente sua atuação à frente do Legislativo. Na nota divulgada após o protocolo, ele afirmou que virou alvo de “perseguição implacável” por defender a autonomia da Câmara e por colocar seu nome à disposição para uma pré-candidatura a deputado federal. Também acusou o grupo governista de usar a máquina pública e vínculos familiares para tentar atingir sua reputação.


Foi nessa mesma manifestação que Pacheco deu tom político ainda mais agudo ao caso. Ele afirmou que Mércia Cavalcante de Lira Lumba é mãe de Caio Lira, descrito por ele como comissionado da área de Turismo, Esportes e Eventos, e irmã de Neila Lira, citada na nota como ligada à Assistência Social da gestão municipal. A referência foi usada pelo presidente da Câmara para sustentar a tese de que a denúncia tem motivação política, e não apenas jurídica.


Dois homens de camisa amarela levantam as mãos sorrindo em um comício. Fundo azul e verde. Camisetas com adesivos "Zeca 20". Atmosfera alegre.
Prefeito Zeca e vice-prefeito Siqueirinha que romperam politicamente com Luciano Pacheco, sinalizando um novo rumo na administração municipal. | Foto: Reprodução/Divulgação de Campanha Zeca Cavalcanti

O pedido de cassação não aparece num ambiente neutro. Em 24 de março, o prefeito Zeca Cavalcanti e o vice-prefeito Siqueirinha divulgaram nota oficial tornando público o afastamento político de Luciano Pacheco do grupo da gestão. O comunicado não detalhou os motivos do rompimento e informou apenas que, dali em diante, a relação com o vereador passaria a ser exclusivamente institucional.


Seis dias depois, a temperatura subiu. A sessão ordinária da Câmara prevista para 30 de março foi cancelada por falta de quórum. Dos dez vereadores, apenas Luciano Pacheco compareceu ao plenário. A ausência coletiva travou a pauta, impediu a abertura formal dos trabalhos e virou símbolo do racha entre o presidente da Casa e a base alinhada ao Executivo. Coberturas locais e reações institucionais passaram a tratar o episódio como um esvaziamento político do Legislativo.


A repercussão foi imediata. A UVP - UNIÃO DE VEREADORES DE PERNAMBUCO classificou o caso como grave e disse que a ausência coletiva compromete a representação popular e a credibilidade das instituições democráticas. A ANV - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE VEREADORES, em nota repercutida dias depois, também demonstrou preocupação com possível interferência do Executivo nas atividades do Legislativo e reforçou a necessidade de independência entre os poderes locais.


LEIA O PEDIDO DE CASSAÇÃO NA INTEGRA OU FAÇA O DOWNLOAD




Presidente da Câmara de Arcoverde, Luciano Pacheco, se manifesta contra o pedido de cassação em nota oficial, denunciando perseguição política e uso indevido da máquina pública. | Foto: Reprodução/Rede Social do vereador Luciano Pacheco
Presidente da Câmara de Arcoverde, Luciano Pacheco, se manifesta contra o pedido de cassação em nota oficial, denunciando perseguição política e uso indevido da máquina pública. | Foto: Reprodução/Rede Social do vereador Luciano Pacheco

Arcoverde entrou numa disputa em que o processo jurídico e a guerra política caminham lado a lado. De um lado, há uma acusação formal baseada em lei federal, em registros processuais e em documentos anexados ao protocolo. De outro, há um presidente de Câmara que responde dizendo ser alvo de retaliação política logo após romper com o grupo do prefeito e depois de ver o plenário esvaziado numa sessão ordinária.


A próxima etapa será institucional. Caberá à Câmara decidir se recebe ou não a denúncia e se abre o rito previsto em seu regimento. O que está em julgamento, portanto, não é apenas a permanência de Luciano Pacheco no cargo, mas a capacidade do Legislativo municipal de separar prova, disputa de poder e pressão política num momento em que a crise já transbordou para o centro da cena pública em Arcoverde.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, poder local e fiscalização do setor público.

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