Escolhido em 5 de agosto, deputado nega acusação sexual
Por Raul Silva para O estopim | Cobertura especial das Eleições 2026
7 de agosto de 2026
Alfredo Gaspar, escolhido como vice de Flávio Bolsonaro, durante anúncio em Brasília. | Foto: Vittor Sales
A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro levou para o centro da eleição presidencial de 2026 uma acusação criminal grave ainda sem conclusão. Anunciado por Flávio em 5 de agosto, Gaspar é alvo de diligências relacionadas a uma notícia de fato que pede apuração de suposto estupro de vulnerável contra uma menina que teria 13 anos à época dos fatos. Ele nega a acusação. A Procuradoria-Geral da República pediu novas diligências à Polícia Federal, enquanto a abertura formal de inquérito ainda depende de decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.
A escolha ocorre antes do encerramento formal da fase de registro das candidaturas. Pela legislação eleitoral, partidos e coligações têm até as 19h de 15 de agosto para protocolar no Tribunal Superior Eleitoral os pedidos de registro das chapas à Presidência e à Vice-Presidência. Portanto, Gaspar foi escolhido e anunciado como vice, mas a formalização eleitoral ainda passa pelo procedimento no TSE.
O que a notícia de fato contra Alfredo Gaspar realmente diz
A peça foi apresentada à Polícia Federal em 27 de março pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke. O documento é dirigido ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e pede tramitação sob sigilo, preservação de provas e proteção das pessoas envolvidas.
Segundo o texto, os parlamentares afirmam ter recebido informações, registros documentais e conversas que indicariam, em tese, relação sexual com uma menina de 13 anos. A narrativa sustenta ainda que da suposta violência teria resultado uma gravidez e, posteriormente, o nascimento de uma criança. Os nomes foram omitidos da parte pública por envolver dados sensíveis.
A notícia de fato também apresenta uma segunda acusação, ligada a uma possível tentativa de impedir que o episódio chegasse às autoridades. De acordo com a peça, um intermediário teria participado de tratativas que mencionavam R$ 70 mil supostamente já pagos e novas negociações no valor de R$ 400 mil. Os autores pediram rastreamento da origem, do destino e da forma de transferência desses recursos.
Alfredo Gaspar nega a acusação desde que ela veio a público. Sua defesa afirmou que os fatos apresentados por ele aos jornalistas envolveriam um primo e divulgou o relato de uma mulher adulta que disse não ser filha biológica do deputado. Segundo ela, seu pai seria Maurício Breda, primo de Gaspar, relação que teria sido confirmada por exame de DNA realizado anos atrás.
A controvérsia, contudo, não terminou com essa apresentação. Lindbergh Farias e Soraya Thronicke sustentaram que o episódio apresentado pela defesa seria diferente daquele informado à Polícia Federal, inclusive por divergências de cronologia. Reportagem publicada em março registrou que as versões mencionavam datas distintas.
Em 23 de abril, Gaspar realizou coleta de material genético na Perícia Oficial de Alagoas. Ele declarou que o objetivo era permitir a produção antecipada de prova e afastar a acusação.
Nesta sexta-feira, 7 de agosto, a defesa voltou a cobrar celeridade das autoridades para que seja realizado o confronto genético oficial. Até a publicação desta reportagem, não havia resultado público dessa comparação capaz de encerrar a controvérsia.
A denúncia sexual chegou ao debate público em 27 de março, no ambiente já altamente conflagrado da CPMI do INSS, da qual Alfredo Gaspar era relator.
No dia seguinte, o relatório produzido por ele, com cerca de 4 mil páginas e pedidos de indiciamento de mais de 200 pessoas, foi rejeitado por 19 votos a 12. A comissão terminou sem relatório final aprovado.
A coincidência entre o encerramento da CPMI e a apresentação da notícia de fato alimentou acusações políticas dos dois lados. Gaspar afirmou ser vítima de uma ofensiva para desmoralizá-lo. Seus acusadores sustentaram que a gravidade do material exigia intervenção imediata da Polícia Federal.
Ao anunciar Alfredo Gaspar como candidato a vice, Flávio Bolsonaro transformou uma controvérsia até então concentrada no Congresso e no STF em tema da eleição presidencial.
Gaspar não é mais apenas um deputado discutindo acusações com adversários em uma comissão parlamentar. Ele foi escolhido para integrar uma chapa que disputa a Presidência da República.
A Reuters registrou que a escolha ocorreu num cenário de dificuldades do PL em ampliar alianças nacionais e depois de Flávio ter discutido outros perfis para a vice. A chapa anunciada permanece integralmente dentro do PL.
O que acontece agora?
A Polícia Federal deve cumprir as novas diligências solicitadas pela PGR no caso da acusação por estupro de vulnerável. Depois disso, o material poderá subsidiar a decisão do ministro Gilmar Mendes sobre a abertura formal de investigação no STF. A defesa de Gaspar pressiona pela realização rápida do confronto de DNA.
Na esfera eleitoral, o PL tem até 15 de agosto, às 19h, para formalizar no TSE o pedido de registro da chapa presidencial.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na produção de conteúdo jornalístico com foco em apuração, análise documental e interesse público.
Por Raul Silva para O estopim | 29 de março de 2026
O deputado federal Alfredo Gaspar de Mendonça Neto (PL-AL), relator da CPMI do INSS, virou alvo de uma notícia de fato protocolada na Polícia Federal por Lindbergh Farias (PT-RJ) e Soraya Thronicke (Podemos-MS). A peça sustenta, em tese, a necessidade de apuração de um possível estupro de vulnerável contra uma menina de 13 anos, do qual teria resultado uma gravidez e o nascimento de uma criança, além de uma posterior tentativa de silenciamento por meio de intermediação e valores que, segundo o documento, somariam R$ 470 mil. Gaspar nega as acusações, diz que a história foi atribuída a ele de forma falsa, afirma que o caso mencionado envolve um primo e promete reação judicial e política.
O deputado Alfredo Gaspar apresenta seu relatório em uma sessão da CMPI, enquanto o senador Carlos Viana e o deputado Paulo Pimenta acompanham atentamente. | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
O caso rompeu a última barreira entre a guerra política da comissão e a esfera criminal. O que começou como confronto verbal no plenário da CPMI terminou com um pedido formal de investigação à PF, exposição nacional de uma acusação gravíssima e disputa pública sobre paternidade, DNA, cronologia dos fatos e identidade dos envolvidos. O centro do problema, porém, é mais profundo: há uma denúncia formalizada que fala em possível violência sexual contra menor de 14 anos e em tentativa de impedir que os fatos chegassem às autoridades. Isso, por si só, exige apuração rigorosa, técnica e urgente.
O que diz a notícia de fato
A notícia de fato assinada por Lindbergh e Soraya foi apresentada em 27 de março com pedido de tramitação sob sigilo, preservação probatória e proteção integral para vítima, criança e testemunhas. Logo na abertura, a peça afirma tratar de fatos de “extrema gravidade” relacionados, em tese, a crime sexual contra vulnerável, com possível nascimento de criança e elementos de ocultação posterior.
O documento registra que chegaram aos parlamentares “informações graves, acompanhadas de registros documentais e conversas” que indicariam, em tese, a prática de estupro de vulnerável contra uma menina que tinha 13 anos na época. Em outro trecho, a peça afirma que da violência teria resultado uma gravidez, com posterior nascimento de uma criança, e que os autores receberam dados mínimos de identificação para conferência pela autoridade competente em autos apartados e sigilosos.
A notícia de fato vai além da acusação sexual. Ela sustenta que uma pessoa interposta teria atuado como intermediadora em tratativas destinadas a impedir a comunicação do caso às autoridades. Segundo a peça, essas tratativas fariam referência a R$ 70 mil já pagos e a novas negociações de R$ 400 mil, sempre com a finalidade de assegurar silêncio e garantir impunidade.
Os próprios autores do documento registram que não pretendem substituir a investigação estatal nem formular “juízo definitivo de culpabilidade”. Ainda assim, pedem à PF providências imediatas: preservação de mensagens, metadados, aparelhos, extratos financeiros, registros telemáticos, documentos de maternidade, certidão de nascimento da criança, além da oitiva reservada dos envolvidos e avaliação de inclusão em programa de proteção a vítimas e testemunhas.
Deputado Lindbergh Farias e senadora Soraya Thronicke falam à imprensa no Senado Federal, acusando Alfredo Gaspar de estupro. | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Da acusação política à exigência de investigação criminal contra Alfredo Gaspar
A explosão pública do caso ocorreu durante a 38ª reunião da CPMI do INSS, em 27 de março. O registro oficial das notas taquigráficas do Senado mostra o momento em que, em meio ao tumulto da sessão, Lindbergh Farias chama Alfredo Gaspar de “estuprador”, provocando reação imediata do relator, da presidência da comissão e de outros parlamentares.
A cena expôs duas camadas do episódio. A primeira foi a da disputa política mais rasteira, marcada por gritos, interrupções e acusações no calor do embate. A segunda, muito mais séria, foi a conversão dessa acusação em peça formal entregue à Polícia Federal horas depois. Quando uma imputação dessa natureza deixa o terreno retórico e ingressa no circuito institucional, o foco precisa sair do espetáculo e ir para a prova.
Também pesa o contexto em que tudo ocorreu. Alfredo Gaspar lia o relatório final da CPMI, um documento de mais de 4 mil páginas que acabou rejeitado pela maioria da comissão. A CPMI terminou sem relatório final aprovado, o que ampliou o ambiente de radicalização e transformou a sessão derradeira num campo de confronto total entre governistas e oposição. Ainda assim, o fato de o caso ter emergido em meio ao caos político não reduz a gravidade do que foi levado à PF. Pelo contrário. A mistura entre denúncia criminal gravíssima e disputa de poder amplia o risco de contaminação do debate público, desinformação e destruição de prova.
Deputado Alfredo Gaspar participa da CPMI do INSS no Congresso durante a sessão. | Foto: Reprodução
Gaspar reagiu dizendo que as acusações são “falsas, levianas e absolutamente irresponsáveis”. Em nota pública, afirmou que a ofensiva foi uma tentativa de desviar o foco da CPMI do INSS por meio de ataque pessoal sem respaldo na realidade.
A principal linha de defesa do deputado é a de que o caso mencionado por seus adversários não o envolve. Segundo ele, a história diria respeito a um primo, e não a ele próprio. Para sustentar essa versão, Gaspar divulgou vídeo de uma jovem identificada como Lourilene Pereira da Silva, que diz não ser filha do deputado e afirma ser filha biológica de Maurício Breda, primo de Gaspar. No vídeo compartilhado pelo parlamentar, ela declara que “não é fruto de estupro algum” e menciona o que seria um exame de DNA para comprovar a paternidade.
Essa reação, no entanto, não encerra o caso. Primeiro porque a notícia de fato apresentada à PF sustenta que o episódio denunciado é distinto daquele trazido pelo deputado em sua defesa. Segundo porque a divulgação de um vídeo nas redes sociais não substitui perícia oficial, cadeia de custódia, apuração de documentos e exame técnico da cronologia dos fatos.
A posição de Soraya e o ponto em aberto
Neste domingo, 29 de março, Soraya Thronicke afirmou publicamente que pedirá desculpas a Gaspar caso um exame de DNA não confirme a acusação. Ao mesmo tempo, manteve a avaliação de que havia indícios suficientes para o registro da notícia-crime e reiterou que a apuração precisa avançar.
Esse ponto é decisivo. A crise pública passou a girar em torno de duas narrativas concorrentes. De um lado, a acusação formalizada por dois parlamentares, com referência a documentos, conversas, suspeita de silêncio comprado e pedido de diligências urgentes. De outro, a negativa categórica do deputado, sustentada na versão de que o caso real envolve outro homem da família e numa prova divulgada unilateralmente em rede social.
Entre uma narrativa e outra, o que falta é o que mais importa: investigação oficial. Sem isso, o país assiste a um jogo de versões em que um crime sexual gravíssimo corre o risco de ser instrumentalizado por conveniência política de todos os lados.
A peça entregue à Polícia Federal aponta diligências objetivas e verificáveis. Não se trata de uma controvérsia abstrata. Há pelo menos cinco eixos que podem ser testados por investigação formal:
A existência e autenticidade dos prints, mensagens e metadados citados pelos autores da notícia de fato.
A cronologia registral da criança mencionada, inclusive maternidade, filiação e documentos civis.
A origem, destino e forma dos valores de R$ 70 mil e R$ 400 mil citados na peça.
A identidade da pessoa intermediadora apontada como elo de uma possível operação de silêncio.
A correspondência biológica e documental entre as versões apresentadas publicamente e os fatos efetivamente narrados à PF.
Se os elementos resistirem à checagem, a gravidade penal e política será devastadora. Se não resistirem, o caso também exigirá responsabilização exemplar por eventual acusação infundada. Em qualquer dos cenários, a resposta não pode ser produzida por gritos em comissão, vídeos de rede social ou vazamentos seletivos.
NOTÍCIA DE FATO - COM PEDIDO DE TRAMITAÇÃO SOB SIGILO, PRESERVAÇÃO PROBATÓRIA E ADOÇÃO URGENTE DE PROVIDÊNCIAS DE POLÍCIA JUDICIÁRIA
O peso jurídico do caso
A peça protocolada na PF invoca o artigo 217-A do Código Penal, que trata do estupro de vulnerável. O documento ainda menciona o reforço recente dado pela Lei nº 15.353/2026, sancionada em 8 de março, que tornou explícita a presunção absoluta de vulnerabilidade de menores de 14 anos e afastou interpretações relativizadoras baseadas em consentimento, experiência sexual anterior, relacionamento afetivo ou gravidez decorrente da violência.
Na prática, isso significa que, em tese, eventual alegação de relação “consensual” não afastaria a incidência do tipo penal caso a vítima tivesse menos de 14 anos à época. O documento também aponta, em tese, possível fraude processual, caso se confirmem as suspeitas de intermediação financeira e construção de obstáculo à persecução penal.
O escândalo não está apenas no bate-boca que transformou a reta final da CPMI do INSS em vale-tudo. O verdadeiro estopim está no conteúdo do documento formalizado à PF e no que ele sugere: uma denúncia de violência sexual contra adolescente, seguida por possível engrenagem de abafamento.
É esse ponto que separa jornalismo de torcida. Não cabe absolver nem condenar antecipadamente. Cabe registrar, com precisão, que existe uma acusação formal e documentada, que o acusado nega, que há divergência frontal sobre os fatos centrais e que a única saída institucional compatível com a gravidade do caso é uma apuração célere, protegida de manipulação e centrada na prova.
Se a política brasileira transformou o episódio em trincheira, a Polícia Federal e os órgãos de persecução têm o dever de retirá-lo do terreno do espetáculo e devolvê-lo ao campo onde crimes dessa natureza devem ser tratados: o da investigação séria, do sigilo necessário, da proteção das vítimas e da verdade material.
O que já se pode afirmar, com segurança, é o seguinte:
houve uma notícia de fato protocolada por Lindbergh Farias e Soraya Thronicke na Polícia Federal;
o documento pede investigação sobre estupro de vulnerável, ocultação dos fatos e possível compra de silêncio;
a sessão da CPMI registrou oficialmente o momento em que Lindbergh chamou Gaspar de “estuprador”;
Alfredo Gaspar negou a acusação e apresentou publicamente uma versão alternativa baseada em paternidade atribuída a um primo;
Soraya afirmou que manterá a acusação até a investigação, mas disse que pedirá desculpas se um exame de DNA desmentir a narrativa apresentada por ela e por Lindbergh.
O restante ainda depende de prova. E é justamente por isso que o caso não pode ser normalizado como mais um barraco do Congresso.
O estopim — O começo da notícia!
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com foco em política, poder e interesse público. Atua na cobertura de temas que exigem apuração documental, contextualização e vigilância sobre os mecanismos de ocultação de fatos relevantes.