- Raul Silva

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Rótulo surgiu para criticar mulheres que buscam validação masculina diminuindo outras mulheres, mas pesquisa de 2026 mostra que o termo também pode alimentar policiamento de gênero, autovigilância e hostilidade feminina
Por Clara Mendes para O estopim |
14 de Agosto de 2026

Uma pesquisa publicada em 15 de maio de 2026 na revista científica Affilia analisou comentários de 360 vídeos do TikTok marcados com a hashtag #pickmegirl e identificou uma contradição no uso do termo. Embora “pick-me girl” seja empregado para criticar mulheres que buscam aprovação masculina se distanciando ou diminuindo outras mulheres, o próprio rótulo pode funcionar como uma nova forma de policiamento de gênero entre elas.
Na prática, “pick-me girl” é uma gíria usada para descrever uma mulher que procura atenção ou validação masculina e tenta se apresentar como mais desejável, interessante ou diferente das demais. O Dictionary.com registra o termo em uso desde pelo menos 2016 e aponta como característica recorrente a tentativa de obter aprovação de homens às custas de outras mulheres.
A lógica aparece em discursos como “não sou como as outras garotas” ou em situações nas quais interesses associados às mulheres são tratados como inferiores. Uma pessoa pode, por exemplo, valorizar o próprio gosto por esportes enquanto ridiculariza mulheres que gostam de maquiagem, moda ou outras atividades consideradas femininas. O problema não está no gosto pessoal, mas na criação de uma hierarquia em que uma mulher tenta se valorizar desqualificando outras.
Isso significa que uma mulher que não usa maquiagem, prefere futebol, tem mais amigos homens ou rejeita determinados padrões de feminilidade não é automaticamente uma “pick-me”. Nenhuma dessas características demonstra, isoladamente, busca por validação masculina. O ponto central do conceito está no ato de diminuir outras mulheres para conquistar aprovação ou preferência de homens.
“Pick-me girl”: O que a misoginia internalizada tem a ver com isso
Pesquisas acadêmicas relacionam parte dos comportamentos classificados como “pick-me” à chamada misoginia internalizada. O termo descreve a incorporação, por mulheres, de ideias que desvalorizam mulheres, inclusive elas próprias. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Counseling Psychology definiu o fenômeno a partir de sentimentos e atitudes de desvalorização dirigidos a si e a outras mulheres.
O trabalho, conduzido por Melissa M. Ertl, da Universidade de Minnesota, e Lydia HaRim Ahn, da Arizona State University, analisou 797 mulheres cisgênero nos Estados Unidos para desenvolver e validar uma medida de misoginia internalizada. Os resultados encontraram associação entre o construto, sofrimento psicológico e níveis de bem-estar. A pesquisa não trata “pick-me girl” como diagnóstico, nem estabelece que toda mulher chamada dessa forma apresente misoginia internalizada.
Um estudo de 2022 especificamente sobre vídeos classificados como “pick me girl” no TikTok identificou comportamentos relacionados à competição pela atenção masculina, auto-objetificação, padrões de beleza e humilhação de outras mulheres. Os autores interpretaram essas manifestações como formas de sexismo internalizado.
O problema, portanto, não é reconhecer que mulheres também podem reproduzir ideias sexistas. A dificuldade começa quando um comportamento específico vira uma identidade fixa.
Quando a crítica vira outro ataque contra mulheres
O estudo mais recente, publicado em 2026 pela pesquisadora Aybüke Büyükkağnıcı, identificou quatro dinâmicas nos comentários dos 360 vídeos analisados: feminilidade orientada para validação masculina, regulação entre mulheres, construção de um modelo considerado correto de feminilidade e autovigilância.
Essa autovigilância ocorre quando mulheres passam a observar o próprio comportamento com receio de serem enquadradas no rótulo. A crítica deixa de mirar apenas atitudes de desvalorização e começa a definir como uma mulher deve falar, vestir, se relacionar e demonstrar interesses para não ser considerada uma “pick-me”.
Nesse processo, uma expressão criada para denunciar a busca por aprovação masculina pode terminar reproduzindo outro mecanismo de controle sobre mulheres.
O alargamento do significado já é visível no debate nas redes. Mulheres podem receber o rótulo por dizer que preferem amizades masculinas, por discordarem de outras mulheres, por demonstrarem interesses considerados masculinos ou simplesmente porque outras pessoas as consideram irritantes. Uma reportagem da Glamour registrou críticas de jovens usuárias do TikTok ao uso excessivo da expressão, justamente porque ela passou a ser aplicada a mulheres que não necessariamente apresentam o comportamento que originalmente motivou o termo.
O resultado é uma inversão. Em vez de questionar a ideia de que mulheres precisam competir entre si pela atenção dos homens, a discussão pode criar uma nova competição para decidir qual mulher é feminista o suficiente, solidária o suficiente ou feminina da maneira considerada correta.
A mulher “certa” contra a mulher “errada”
Nas redes, a “pick-me girl” passou a ser frequentemente colocada em oposição à chamada “girl’s girl”, expressão usada para definir uma mulher que apoia outras mulheres e não as trata como adversárias.
A defesa da solidariedade entre mulheres não é, por si só, o problema. A pesquisa publicada na Affilia aponta, porém, que a oposição entre as duas categorias pode construir uma nova feminilidade normativa. Em vez de libertar mulheres de regras anteriores, o ambiente digital estabelece outro conjunto de comportamentos pelo qual elas passam a ser julgadas.
Uma mulher deixa de ser avaliada pelo que efetivamente fez e passa a ser classificada como pertencente a um dos dois grupos. De um lado, a “boa mulher”, solidária e aprovada pelo grupo. Do outro, a “pick-me”, vista como traidora, desesperada por homens ou inimiga de outras mulheres. Essa divisão simplifica relações que são mais complexas.
Uma mulher pode reproduzir um comentário machista em determinada situação e, em outra, apoiar outras mulheres. Pode ter aprendido valores sexistas e revê-los posteriormente. Também pode simplesmente ter interesses diferentes dos estereótipos associados ao feminino sem que isso signifique desprezo pelas demais mulheres.
Transformar essas possibilidades em uma identidade única facilita o ataque, mas dificulta compreender o comportamento.
Não é um diagnóstico
“Pick-me girl” não é categoria clínica nem diagnóstico psicológico. É uma gíria criada e difundida no ambiente digital. Já a misoginia internalizada é um conceito pesquisado academicamente e possui instrumentos próprios de investigação psicológica. Misturar os dois termos pode levar à falsa impressão de que é possível diagnosticar alguém por um vídeo, comentário ou preferência pessoal.
A diferença é central. Dizer que uma pessoa diminuiu outra mulher para buscar aprovação masculina descreve uma ação que pode ser discutida e confrontada. Chamar essa pessoa inteira de “pick-me” transforma o comportamento em identidade e abre espaço para ataques que podem atingir desde suas roupas até sua personalidade.
A pesquisa de 2026 conclui justamente que o discurso em torno da “pick-me girl” funciona de forma ambígua. Ele pode denunciar a misoginia internalizada, mas também pode produzir regulação horizontal, quando mulheres passam a vigiar e disciplinar outras mulheres dentro das próprias comunidades digitais.
É essa contradição que torna o conceito problemático. O comportamento de colocar mulheres umas contra as outras para obter aprovação masculina reproduz desigualdade. Usar um insulto contra mulheres para combatê-lo pode repetir a mesma lógica por outro caminho.
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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista de O estopim, com atuação voltada à cobertura factual, verificação de informações e notícias de interesse público.
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