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Datafolha revela clivagem política: Raquel é mais forte entre bolsonaristas e evangélicos; João, entre petistas, pretos e eleitores de menor escolaridade.


Por Raul Silva para O estopim |

Cobertura das Eleições 2026

21 de agosto de 2026



Raquel Lyra e João Campos durante a campanha ao Governo de Pernambuco nas eleições de 2026.
Raquel lidera, mas os recortes do Datafolha mostram uma disputa política mais profunda, atravessada por lulismo, bolsonarismo, voto popular e avaliação dos serviços públicos. | Foto: Reprodução

A eleição para o Governo de Pernambuco entrou na campanha oficial com Raquel Lyra (PSD) na liderança e João Campos (PSB) tentando reorganizar a disputa a partir de uma frente política apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Datafolha divulgado nesta sexta-feira, 21 de agosto, registra 47% para Raquel e 40% para João. O levantamento anexado a esta análise, realizado no fim de julho, mostrava 48% a 42%. Mais importante do que observar apenas a distância entre os dois, porém, é entender quem está votando em cada candidatura e que campos políticos começam a se formar em torno delas.


A pesquisa de julho ouviu 1.022 eleitores entre 28 e 30 de julho, antes do início oficial da campanha, com margem de erro de três pontos percentuais. A nova rodada entrevistou 1.204 pessoas entre 18 e 20 de agosto, já com candidatos nas ruas. Os dois levantamentos mostram uma eleição concentrada em Raquel e João, mas os cruzamentos revelam uma disputa social e ideológica muito menos homogênea do que os números gerais sugerem.



A eleição não é apenas Raquel Lyra contra João Campos


A corrida pernambucana não pode ser reduzida a um confronto de personalidades, máquinas partidárias ou estilos de comunicação.


Há uma disputa por direção política do Estado. De um lado, Raquel Lyra tenta transformar a condição de governadora, a avaliação de sua gestão e uma ampla rede de alianças municipais em voto pela continuidade. Ao mesmo tempo, evita assumir um lado na eleição presidencial e tenta preservar interlocução com o governo Lula.


Do outro, João Campos procura reorganizar a tradicional Frente Popular em torno do PSB, do PT e de outras forças, apresentando-se como o candidato ligado a Lula em Pernambuco e tentando aproximar sua candidatura de um campo popular, progressista e democrático.


Essa divisão, porém, não é perfeita. Nem todo eleitor de Lula está com João. Nem todo eleitor de Raquel é bolsonarista. E João tampouco representa sozinho toda a esquerda pernambucana. Os dados ajudam justamente a desmontar essas simplificações.


Raquel lidera, mas sua força é especialmente alta no eleitorado conservador


No Datafolha de julho, Raquel registrava 48% das intenções de voto. Mas alguns segmentos estavam muito acima dessa média.


Entre os evangélicos, chegava a 60%, contra 29% de João. Entre eleitores que declaravam preferência pelo PL, Raquel alcançava 77%, enquanto João tinha 14%. Entre os que pretendiam votar em Flávio Bolsonaro para presidente, a governadora chegava a 76%.



O novo Datafolha reforça essa característica da base eleitoral. Entre os eleitores classificados como bolsonaristas, Raquel aparece com 69%, contra 22% de João. Entre os que não se identificam nem com o petismo nem com o bolsonarismo, ela também lidera, com 49%.


Isso não autoriza chamar Raquel de candidata formal do bolsonarismo. A governadora não assumiu Flávio Bolsonaro como candidato presidencial e mantém posição de neutralidade na disputa nacional.


O que os números permitem afirmar é outra coisa: o eleitorado bolsonarista de Pernambuco encontra hoje em Raquel sua principal opção competitiva para o Governo do Estado.


Essa diferença é fundamental. A política não se resume às declarações dos candidatos. Também é formada pela composição concreta de suas bases, pelos setores que sustentam cada candidatura e pelos interesses que encontram representação em cada projeto de poder.


A neutralidade de Raquel produz um efeito político particular


A posição presidencial adotada por Raquel permite uma movimentação eleitoral incomum. Ao mesmo tempo em que recebe apoio majoritário entre bolsonaristas, a governadora afirma que pretende continuar trabalhando com o governo Lula. Em caminhada no Recife no início da campanha, disse que quer ampliar a parceria com o Governo Federal mesmo depois de o presidente declarar apoio a João Campos.


Na prática, a estratégia permite que Raquel tente separar a eleição estadual da presidencial. Mas ao mesmo tempo, o fato de ela não ter posicionamento e se rodear de bolsonarista da extrema-direita faz com que haja uma grande desconfiança na população, de um estado que é majoritariamente de esquerda, sobre o seu posicionamento político. Some-se a isso a divulgação de anotações e estratégias do PL, que apontam uma preferência velada ou pragmática do senador Flávio Bolsonaro pela reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, onde o partido não lançou candidato próprio.



No final ela não rompe com Lula, porque Pernambuco depende de relações federativas, convênios e investimentos da União. Também não confronta diretamente o eleitorado conservador que hoje forma uma parcela importante de sua sustentação eleitoral.


Do ponto de vista eleitoral, essa posição tem até agora um efeito assimétrico: Raquel consegue receber uma parcela expressiva do voto bolsonarista sem precisar assumir formalmente o candidato presidencial desse campo e ainda procura disputar eleitores que aprovam Lula.


É uma estratégia eficiente para uma candidata governista. Politicamente, porém, ela também impõe uma pergunta que a campanha terá de responder: qual projeto nacional e quais valores políticos estarão associados a um eventual segundo mandato?


A resposta não pode ser deduzida apenas da pesquisa. Precisa ser buscada nas alianças, no programa de governo, nos compromissos assumidos e nas escolhas concretas da candidata.


João encontra força no eleitorado petista, preto e de menor escolaridade


Os dados de julho mostram uma composição diferente na candidatura de João. Entre eleitores que declaravam preferência pelo PT, João tinha 60%, contra 35% de Raquel. Entre aqueles que pretendiam votar em Lula para presidente, chegava a 59%. Entre os que aprovavam o governo federal, tinha 57%.


Há também diferenças sociais importantes. Entre os entrevistados com ensino fundamental, João alcançava 52%, enquanto Raquel tinha 38%. Entre pessoas pretas, João aparecia com 51%, contra 42% da governadora. Entre católicos, o socialista tinha 48%, diante de 45% de Raquel.



Esses números ajudam a localizar uma base potencialmente mais próxima do campo popular que João tenta representar.


Mas há uma ressalva decisiva. Menor escolaridade não é sinônimo automático de menor renda, e o voto popular ainda está em disputa.


Entre famílias com renda de até dois salários mínimos, Raquel registrava 47% e João, 43%. A governadora, portanto, continuava numericamente à frente justamente em uma faixa de renda decisiva para qualquer candidatura que pretenda construir maioria entre os setores populares.


Esse talvez seja um dos dados politicamente mais importantes da pesquisa. João já é forte entre petistas, eleitores de Lula, pessoas pretas e eleitores com menor escolaridade. Mas ainda precisa fazer essa identidade política alcançar de forma mais ampla quem vive com renda mais baixa e enfrenta diariamente as consequências da desigualdade. Não basta falar em campo popular. É preciso conquistá-lo.


Lula é o principal ativo de João, mas transferência de voto não é automática


O Datafolha perguntou diretamente aos pernambucanos sobre o impacto do apoio presidencial.


Se Lula apoiasse um candidato a governador, 36% disseram que votariam com certeza nesse nome. Outros 20% afirmaram que talvez votassem. Já 40% disseram que não votariam de jeito nenhum apenas por causa do apoio presidencial.



Nenhum dos outros nomes presidenciais testados chegou perto dessa capacidade de influência. No caso de Flávio Bolsonaro, 16% disseram que certamente votariam em um candidato apoiado por ele, enquanto 67% responderam que não votariam de jeito nenhum por causa desse apoio.


Lula, portanto, é o maior cabo eleitoral disponível na disputa pernambucana. João já incorporou esse dado à campanha.


Em vídeo divulgado no dia 17, Lula pediu votos diretamente para João Campos, Marília Arraes e Humberto Costa, consolidando um palanque estadual que reúne PSB, PT e aliados.


O movimento é politicamente coerente com os números. Se parte dos eleitores que aprovam Lula ou se identificam com o PT ainda está com Raquel, João precisa aproximar a escolha presidencial da escolha para governador.


Para João, o desafio é transformar identidade política em agenda material


Uma candidatura ligada ao campo popular precisa ser medida não apenas pelas alianças que anuncia, mas pelo que propõe para trabalho, renda, educação, saúde, moradia, transporte, direitos e serviços públicos.


João começou a campanha tentando fazer essa conexão. Na primeira caminhada oficial, em Brasília Teimosa, apresentou a promessa de construir quatro hospitais, incluindo um Hospital Geral Metropolitano, além de unidades no Agreste, Araripe e Vale do São Francisco. A campanha afirma que os projetos terão participação do Governo Federal.



É uma proposta de forte impacto social caso seja executada. Mas promessa eleitoral não é entrega. Os valores anunciados, fontes de financiamento, cronograma, disponibilidade de profissionais, custeio permanente e integração à rede existente precisarão ser acompanhados e cobrados durante a campanha.


Ser aliado de Lula pode abrir portas institucionais. Não substitui planejamento estadual. Essa cobrança vale ainda mais para uma candidatura que pretende ocupar o espaço do campo democrático e popular.


A gestão de Raquel também precisa ser julgada por direitos, não apenas por entregas


Raquel entra na eleição com uma vantagem que João não possui: governa Pernambuco. O Datafolha divulgado nesta sexta mostra 50% de avaliação ótima ou boa da administração estadual, 30% de regular e 18% de ruim ou péssima. Esse índice ajuda a explicar sua competitividade e não pode ser ignorado em qualquer análise séria da eleição.



Mas avaliação positiva de governo não encerra o debate sobre políticas públicas nem apaga as irregularidades documentadas na educação, as denúncias de desabastecimento na saúde e os problemas estruturais encontrados em unidades apresentadas pelo governo como símbolos de reconstrução do Estado.


Para O estopim, uma administração deve ser analisada também por quem recebe os benefícios, quem continua esperando, como os recursos são distribuídos e quais direitos permanecem sem resposta.


Na educação, a situação chegou ao ponto de obras milionárias desabarem literalmente sobre a comunidade escolar. Em julho, parte do telhado da Escola Estadual Presidente Arthur da Costa e Silva, na Mustardinha, caiu sobre estudantes e um professor. Treze pessoas foram atingidas; cinco alunos e o docente precisaram de atendimento médico. Uma estudante levou pontos.


A escola aparece vinculada a reformas que somavam aproximadamente R$ 2,5 milhões, incluindo R$ 242 mil destinados especificamente à segurança da cobertura e das estruturas metálicas. Apesar dos valores pagos, estudantes relataram infiltrações, fios expostos, ausência de climatização e precariedade na estrutura. O desabamento e os valores destinados à unidade foram noticiados pelo Jornal do Commercio.


A Secretaria de Educação afirmou que havia substituído parte da cobertura, realizado pintura e preparado salas para climatização. A resposta, porém, não modifica o fato central: uma escola relacionada a milhões de reais em reformas continuou funcionando em condições inseguras até que parte do teto caiu sobre estudantes e um professor.


E esse não é um caso isolado nem baseado somente em acusações políticas. Relatórios, boletins de medição, fotografias, documentos de pagamento e vistorias presenciais demonstram irregularidades concretas na execução do contrato de R$ 185,3 milhões firmado pela Secretaria de Educação com a Cetus Construtora.


Uma representação apresentada pelo Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União documentou serviços pagos sem comprovação, medições duplicadas, falhas na fiscalização e valores incompatíveis com o que foi encontrado nas escolas. Entre 2025 e 2026, mais de R$ 67,3 milhões foram empenhados em favor da empresa com recursos da complementação federal do Fundeb.


Em 14 unidades vistoriadas, foram encontradas infiltrações, corrosão estrutural, ausência de telhas, iluminação deficiente, banheiros sem manutenção e falta de aparelhos de ar-condicionado previstos no contrato. A análise estimou em R$ 7,9 milhões o prejuízo direto identificado apenas nessa amostra.


Na Escola Estadual Professor Nelson Chaves, em Camaragibe, foram medidos e pagos serviços de instalação de estruturas metálicas e alambrados que não existem no local. Na Escola Helena Pugó, no Recife, a quantidade de pintura registrada e paga superou em mais de seis vezes a área física da unidade. Na Escola Presidente Arthur da Costa e Silva, onde o teto atingiu estudantes e um professor, os documentos registram serviços pagos em duplicidade ou não executados. As irregularidades constam da representação divulgada pelo Diario de Pernambuco.


O trabalho do Sintepe foi decisivo para transformar as denúncias de professores e comunidades escolares em fiscalização pública. O sindicato comparou os boletins apresentados pela empresa com as condições encontradas nas unidades e comprovou repetição de imagens, utilização de fotografias de outras escolas e cobrança duplicada de serviços.


Na Escola Técnica Estadual Professor Agamenon Magalhães, relacionada a R$ 2,3 milhões em despesas, os relatórios utilizaram fotografias das escolas Clóvis Beviláqua e Oliveira Lima como se comprovassem intervenções realizadas na Etepam. Imagens de dezembro de 2025 também foram reapresentadas em boletins de janeiro de 2026.


No Erem Diário de Pernambuco, relacionado a R$ 2,5 milhões em obras, o mesmo serviço de capinação e limpeza apareceu cobrado mais de uma vez. A vistoria encontrou a unidade com mata alta, fiação exposta, quadros elétricos abertos, tomadas energizadas e infiltrações próximas à rede elétrica. Os documentos foram apresentados publicamente pelo Sintepe através de vídeo publicado pela presidenta licenciada e candidata a deputada estadual Ivete Caetano.


Portanto, o que está documentado não é uma acusação vaga de que uma escola inteira teria sido paga duas vezes. Há serviços específicos medidos ou cobrados em duplicidade e outros pagos sem correspondência física nas unidades. Também está comprovada a utilização de fotografias de outras escolas e de imagens repetidas para atestar intervenções. A responsabilização administrativa, civil e criminal ainda precisa ser individualizada pelos órgãos competentes, mas as irregularidades materiais já constam dos relatórios e documentos.


A Cetus negou superfaturamento e afirmou ter cumprido a legislação. A Secretaria de Educação declarou que as duplicações identificadas foram analisadas e corrigidas. Essas respostas precisam ser registradas, mas não apagam os documentos nem explicam por que o sistema de fiscalização permitiu pagamentos baseados em medições incompatíveis, fotografias de outras unidades e serviços que não existem fisicamente nas escolas.


A merenda escolar também se tornou objeto de decisões dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Pernambuco concluiu que a situação utilizada para justificar sucessivas contratações emergenciais não surgiu de um acontecimento imprevisível, mas de falhas da própria administração.


Em decisão unânime, o TCE classificou o caso como uma “emergência fabricada” dentro da Secretaria de Educação. Quatro gestores foram multados, incluindo o secretário Gilson José Monteiro Filho. A auditoria identificou falta de planejamento, ausência de documentos obrigatórios e utilização recorrente de mecanismos para pagar serviços executados sem contrato vigente. A decisão foi divulgada em junho.


Em outro processo, técnicos do TCE confirmaram sobrepreço em uma licitação para o fornecimento de pães às escolas estaduais. O prejuízo chegaria a R$ 1,3 milhão caso a contratação fosse concluída nos valores originais. O tribunal recomendou a suspensão do processo e determinou a correção das planilhas. O governo defendeu o método utilizado para formar os preços, mas teve de adequar os valores depois da intervenção do órgão de controle. O caso foi revelado pela revista Veja.


Em um Estado marcado pela pobreza e pela insegurança alimentar, qualquer irregularidade na merenda atinge diretamente crianças e adolescentes para quem a alimentação escolar representa uma das principais refeições do dia.


Na saúde, a distância entre propaganda e realidade também é evidente. O governo anuncia investimentos milionários, entrega setores requalificados e utiliza imagens de paredes novas, fachadas pintadas e equipamentos em sua comunicação. Enquanto isso, tetos continuam desabando, pacientes e trabalhadores são atingidos, leitos permanecem fechados por falta de equipes e usuários denunciam falta de medicamentos e interrupção de tratamentos.


No Hospital da Restauração, onde o governo afirma investir cerca de R$ 168 milhões em obras, parte do teto da sala de recuperação pós-anestésica caiu, em julho, sobre uma paciente recém-operada. O impacto atingiu o braço em que ela havia passado por uma cirurgia de correção de fístula. Houve sangramento, necessidade de nova intervenção e transferência para a UTI. Onze pessoas estavam no cômodo. O caso foi noticiado pelo Jornal do Commercio.


O governo afirmou que o setor ainda não havia sido reformado. Isso não retira a responsabilidade da gestão por garantir segurança em todas as áreas de uma unidade que continua funcionando durante obras milionárias. Em maio, parte do forro do sétimo andar do mesmo hospital já havia desabado, acompanhada de um vazamento provocado por problemas hidráulicos.


No Hospital Agamenon Magalhães, parte do teto do alojamento usado pelos profissionais caiu e feriu duas trabalhadoras. Foi o segundo desabamento registrado na unidade em dois meses. O caso foi documentado pelo Diario de Pernambuco.


Por isso, quando a população chama essas intervenções de “reformas de fachada”, não está negando que alguma obra física tenha sido realizada. Está denunciando que paredes pintadas e setores apresentados à imprensa convivem com tetos caindo, falta de medicamentos, equipes incompletas, superlotação e serviços que não funcionam em sua capacidade total.


Em junho, o Conselho Regional de Medicina constatou que a UTI Neurológica do Hospital da Restauração funcionava com apenas dez dos 30 leitos para os quais possuía estrutura física. A própria gestão informou que os outros 20 não haviam sido ativados porque ainda era necessário completar as equipes assistenciais e a escala médica.


A fiscalização ocorreu quase três meses depois de o governo entregar a reforma do setor e nove novos leitos. A estrutura havia sido inaugurada, mas dois terços da capacidade continuavam indisponíveis por falta dos profissionais necessários para fazê-la funcionar. A constatação foi divulgada pelo Cremepe.


No Hospital Dom Helder Câmara, relatório oficial do Cremepe registrou uma Sala Vermelha planejada para quatro leitos com 42 pacientes. A Sala Amarela, projetada para 14, abrigava 80. A Sala Verde, com capacidade para seis, estava com 23. O documento também registrou ausência de médico exclusivo para a sala de reanimação e estabilização de pacientes graves e inexistência da proporção formal de um médico para cada oito pacientes em observação. O relatório completo está disponível no Cremepe.


No Hospital dos Servidores, pacientes e parlamentares também denunciaram falta de medicamentos e interrupções em tratamentos oncológicos. Essas denúncias não podem ser descartadas por terem partido de usuários, sindicatos ou integrantes da oposição. São justamente as denúncias públicas que tornam problemas visíveis, mobilizam a sociedade e provocam a atuação dos órgãos de fiscalização.


Na educação, análise publicada por O estopim sobre o plano de Raquel para 2027 a 2030 mostrou propostas de formação, equipamentos e incentivos, mas apontou ausência de metas mais concretas em pontos como carreira, remuneração, jornada, concursos e condições de trabalho dos profissionais da educação.


É nesse terreno que uma campanha progressista precisa pressionar qualquer candidatura, inclusive aquela eventualmente mais próxima do campo democrático.


Política pública não é apenas obra entregue. É também qualidade do serviço, valorização do trabalho, acesso universal, financiamento e redução das desigualdades. E obra entregue não pode ser apenas placa, pintura ou fotografia: precisa corresponder ao que foi pago, funcionar e não cair sobre a cabeça da população.


O voto de baixa renda mostra que a eleição segue politicamente aberta


Há uma tentação de olhar os segmentos eleitorais e concluir que Pernambuco está simplesmente dividido entre uma candidatura conservadora e outra popular.


Os números não autorizam essa facilidade. Raquel tem forte apoio bolsonarista e evangélico, mas também mantém presença em setores de baixa renda e tenta preservar relação com Lula.


João domina o eleitorado petista e tem melhor desempenho entre pessoas pretas e de menor escolaridade, mas ainda não conquistou uma vantagem semelhante entre as famílias que vivem com até dois salários mínimos.


Essa contradição é o centro da disputa. Para João, crescer significa fazer a identificação com Lula chegar ao eleitor que aprova o presidente, mas ainda prefere Raquel para governadora. Significa também convencer trabalhadores e famílias de baixa renda de que sua candidatura representa ganhos materiais concretos.


Para Raquel, preservar a liderança significa impedir essa migração e sustentar a imagem de que a continuidade administrativa oferece mais segurança do que a mudança. É nesse eleitorado que campanha, programa e comparação de resultados podem fazer diferença.


A fotografia desta sexta favorece Raquel, mas campanha não é resultado de urna


O primeiro Datafolha realizado inteiramente durante a campanha oficial registra Raquel com 47% e João com 40%, diferença superior à margem de erro. Considerando apenas votos válidos, a pesquisa calcula 52% para a governadora e 44% para o socialista. Se esse resultado exato fosse reproduzido nas urnas, a eleição terminaria no primeiro turno.



Mas pesquisa eleitoral não é previsão. O levantamento de julho também testou um eventual segundo turno e encontrou Raquel com 49% e João com 45%, resultado classificado como empate técnico.



Há ainda outro alerta para João: sua rejeição na pesquisa desta sexta chega a 32%, contra 29% de Raquel. Em julho, os dois estavam praticamente iguais nesse indicador, com 29% para João e 30% para Raquel.



Ou seja, a campanha começa com vantagem real da governadora, mas também com espaço para disputa política, reorganização de alianças e mudança de voto.


Mais do que saber quem vence, é preciso perguntar para governar para quem


Uma leitura progressista das eleições 2026 em Pernambuco não pode se limitar a acompanhar pesquisas como se fossem placares esportivos.


Os números importam porque revelam relações sociais e políticas. Raquel lidera e construiu uma base capaz de combinar aprovação administrativa, forte adesão conservadora e presença em setores que também votam em Lula.


Mas sua avaliação positiva não pode retirar da campanha o debate sobre as escolas relacionadas a reformas milionárias que continuam precárias, as medições duplicadas, os serviços pagos sem existência física, o sobrepreço confirmado na merenda, os hospitais superlotados, a falta de profissionais e os tetos que estão caindo literalmente sobre estudantes, trabalhadores e pacientes.


João tem diante de si a tarefa de construir uma maioria a partir de uma base mais identificada com o lulismo, com eleitores pretos e com setores de menor escolaridade, sem supor que essa proximidade política produzirá votos automaticamente.


E as candidaturas mais à esquerda precisam encontrar espaço para inserir no debate questões que a polarização entre PSB e PSD não necessariamente resolverá por conta própria.


A pergunta central da campanha, portanto, não deveria ser apenas quem ocupará o Palácio do Campo das Princesas.


Deveria ser também qual projeto reduzirá desigualdades, fortalecerá serviços públicos, ampliará direitos, valorizará trabalhadores e fará o orçamento estadual chegar a quem mais precisa.


É nesse terreno que O estopim acompanhará a eleição. Não pelo slogan de cada lado, nem pelas placas, fachadas ou fotografias de inauguração, mas pelas alianças, propostas, recursos, contratos, compromissos, resultados e consequências para a vida concreta dos pernambucanos.


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O que acontece agora?


As próximas semanas mostrarão se João Campos consegue aproximar de sua candidatura os eleitores que votam em Lula, mas ainda escolhem Raquel para o Governo do Estado. O desempenho entre famílias de menor renda será um indicador especialmente importante.


Também será necessário acompanhar se Raquel mantém simultaneamente o apoio do eleitorado bolsonarista, a vantagem entre evangélicos e a capacidade de dialogar com eleitores sem identificação ideológica definida.


A presença de Lula na campanha, a propaganda eleitoral, os debates e a comparação entre programas devem aumentar a definição política da disputa.


As denúncias e os relatórios sobre merenda, reformas escolares e hospitais também precisarão ocupar a campanha. Não como questões secundárias diante das pesquisas, mas como elementos concretos para que a população compare propaganda, recursos aplicados e serviços efetivamente recebidos.


O estopim também acompanhará compromissos concretos em saúde, educação, trabalho, renda, moradia, segurança pública, direitos, transparência e financiamento das propostas.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, fiscalização e interesse público, com atenção às relações entre poder, desigualdade, direitos e território.

No episódio final da série sobre Bíblia e autoritarismo, O Estopim investiga como uma leitura seletiva das Escrituras foi transformada em tecnologia de legitimação política — da Roma imperial ao Brasil da guerra cultural


Por Clara Mendes

21 de março de 2026


Homem com camisa preta e óculos. Texto no fundo vermelho: "O estopim Podcast. De Romanos 13 ao Bolsonarismo: Bíblia, Autoritarismo e Resistência".
Podcast "O Estopim" discute a relação entre Romanos 13, bolsonarismo e resistência, com Raul Silva no episódio 16 | Arte de Capa: Raul Silva

A disputa entre religião e política não é nova. O que muda, de época em época, é a forma como essa tensão se organiza, se comunica e se torna socialmente eficaz. Em certos momentos, a fé aparece como linguagem de justiça, limite moral ao poder e defesa dos vulneráveis. Em outros, ela é convertida em instrumento de disciplinamento, obediência e sacralização da autoridade.


É justamente nesse ponto de inflexão que se situa o episódio final da série Bíblia e autoritarismo, de O Estopim, apresentado por Raul Silva. O tema — “De Romanos 13 ao bolsonarismo: Bíblia, autoritarismo e resistência” — parte de uma passagem central do Novo Testamento para examinar uma questão decisiva da conjuntura brasileira: como a religião foi mobilizada para blindar lideranças políticas, enquadrar moralmente a sociedade e disputar a própria gramática da democracia.


O texto em questão é Romanos 13, tradicionalmente invocado para defender obediência às autoridades constituídas. Durante séculos, essa passagem foi usada em chave conservadora para sustentar a ordem vigente, conter a dissidência e associar resistência política a rebeldia moral. A operação hermenêutica é conhecida: retira-se o trecho de seu contexto histórico, reduz-se a complexidade do texto a uma fórmula simples e, em seguida, converte-se essa fórmula em mandamento político.


O resultado é uma teologia da submissão. Nela, o governante aparece menos como agente passível de julgamento moral e mais como figura protegida por um verniz transcendente. A autoridade deixa de ser avaliada pela justiça de seus atos, pela legalidade de sua conduta ou por seu compromisso com o bem comum. O foco desloca-se para o dever de obediência do governado. Em vez de se perguntar se o poder protege a dignidade humana, pergunta-se apenas se o cidadão tem o direito de contestá-lo.


O contexto de Paulo e os limites de uma leitura literalista


Uma leitura rigorosa de Romanos 13 não autoriza essa simplificação. A carta é escrita num contexto imperial, endereçada a uma comunidade cristã vulnerável e desprovida de poder institucional. Não se trata de um tratado universal e atemporal sobre legitimidade estatal, mas de uma intervenção situada numa conjuntura marcada por prudência, sobrevivência e tensão política sob o Império Romano.


Essa diferença é central. O problema não está em reconhecer que Paulo fala de autoridade; o problema está em transformar essa observação em salvo-conduto para qualquer governo, em qualquer regime, sob qualquer circunstância. Quando isso acontece, a Bíblia deixa de ser lida como texto histórico-teológico e passa a funcionar como selo religioso para a manutenção da ordem.


Ao longo do episódio, Raul Silva chama atenção para esse deslizamento. Em sua leitura, texto sem contexto vira slogan, e slogan nas mãos do poder vira obediência organizada. A frase resume não apenas o dilema de Romanos 13, mas o método pelo qual passagens religiosas são frequentemente capturadas por projetos de poder.



Da obediência à hegemonia: quando o púlpito organiza consentimento


A relação entre fé e poder não se esgota na coerção. Em muitos casos, ela opera pelo consentimento. É aqui que a ciência política oferece uma chave importante. Não basta a um projeto autoritário controlar instituições; ele precisa também produzir legitimidade moral, naturalizar sua visão de mundo e apresentar seus interesses como se fossem princípios universais.


Nesse terreno, a religião pode se tornar recurso estratégico de hegemonia. O púlpito não funciona apenas como espaço devocional, mas como instância de produção de sentido, confiança e pertencimento. Quando lideranças religiosas passam a enquadrar a vida pública em categorias absolutas — bem e mal, escolhidos e inimigos, povo de Deus e ameaça civilizacional — a política deixa de ser percebida como disputa democrática e passa a ser encenada como guerra moral.


É justamente esse mecanismo que ajuda a explicar a eficácia simbólica do bolsonarismo.


O bolsonarismo e a sacralização da política no Brasil


Jair Bolsonaro não inaugurou a presença da religião na arena pública brasileira. O país sempre viveu tensões e acomodações entre fé, Estado e representação política. O que o bolsonarismo fez foi outra coisa: profissionalizou a fusão entre linguagem religiosa, guerra cultural, ressentimento social e mobilização digital.


O slogan “Deus acima de todos” sintetiza essa operação. À superfície, a frase oferece identificação espiritual. Em profundidade, ela produz uma equivalência entre liderança política, destino nacional e mandato moral. O efeito é poderoso: a crítica ao líder pode ser percebida como crítica à fé; a oposição política pode ser recodificada como ameaça à ordem moral; a disputa eleitoral pode ser sentida como combate entre salvação e decadência.


Essa engenharia simbólica não se sustentou sozinha. Ela encontrou base em setores conservadores do campo religioso, sobretudo em lideranças com grande capilaridade midiática e institucional. A presença crescente da Frente Parlamentar Evangélica, a influência de pregadores e influenciadores confessionais, a mobilização contra pautas de gênero e sexualidade, a retórica anticomunista e a guerra cultural contra universidades, imprensa e direitos humanos compuseram uma infraestrutura política de alta potência.


O bolsonarismo, assim, converteu autoridade espiritual em capital político. E fez isso não apenas em campanhas eleitorais, mas também na rotina do debate público, onde a linguagem bíblica passou a funcionar como instrumento de enquadramento da realidade.



Família, medo moral e disciplinamento social


Um dos elementos centrais dessa estratégia foi a fabricação permanente de pânicos morais. A defesa abstrata da família, a denúncia inflada de ameaças à infância, o combate à chamada “ideologia de gênero” e a demonização do campo progressista criaram um ambiente emocional favorável à disciplina coletiva.


Esse tipo de mobilização é particularmente eficaz porque opera menos pelo argumento racional e mais pelo afeto político: medo, ressentimento, sensação de perda, desejo de ordem, nostalgia de autoridade. Nesse processo, a religião oferece não apenas vocabulário, mas legitimidade. O líder aparece como defensor da civilização; seus críticos, como agentes de corrupção moral.


A consequência sociopolítica é conhecida. O adversário deixa de ser tratado como interlocutor democrático e passa a ser visto como inimigo existencial. É nesse ponto que a polarização deixa de ser mera divergência e assume traços de radicalização autoritária.


Do discurso à ruptura institucional


O episódio também conecta essa sacralização da política aos desdobramentos antidemocráticos que marcaram o pós-eleição de 2022. O país assistiu à persistência de mobilizações radicalizadas, acampamentos, apelos à tutela militar, disseminação de desinformação e culminância golpista no 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três poderes foram invadidas e depredadas em Brasília.


Ainda que o bolsonarismo não possa ser reduzido a esse evento, ele tampouco pode ser separado de uma cultura política que normalizou a desconfiança permanente em relação às regras do jogo, estimulou a fantasia de exceção e ofereceu cobertura moral à ideia de que a vontade do líder ou do “povo verdadeiro” estaria acima da institucionalidade.


Nesse cenário, a religião atuou, em muitos casos, como linguagem de blindagem. Não necessariamente para organizar tecnicamente a ruptura, mas para criar o ambiente simbólico em que a ruptura pudesse ser sentida como gesto legítimo, patriótico ou até providencial.



A tradição que o autoritarismo omite: Bíblia e resistência


Mas a reportagem — assim como o episódio — insiste num ponto decisivo: a tradição bíblica e cristã não se resume à obediência.


Se Romanos 13 foi frequentemente usado para conter a resistência, a própria Escritura oferece outros marcos de leitura. O Êxodo é uma narrativa contra a sacralização do império. Os profetas confrontam reis e denunciam opressão. Em Atos dos Apóstolos, a frase “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” estabelece um limite moral à autoridade política. A legitimidade do poder, nessa linhagem, não decorre apenas de sua existência, mas de sua relação com justiça, verdade e dignidade humana.


Na modernidade, essa tradição reaparece em figuras como Dietrich Bonhoeffer, diante do nazismo, e Martin Luther King, ao articular fé e desobediência civil. Na América Latina, ela ganha densidade com a teologia da libertação e com experiências eclesiais voltadas à cidadania, à organização popular e à defesa dos direitos humanos.


A conclusão é incontornável: resistir ao autoritarismo não significa abandonar a fé; em muitos casos, significa impedir que a fé seja sequestrada pelo poder.


Estado laico: o terreno comum da convivência democrática


Ao trazer esse debate para o presente, o episódio recupera outra noção frequentemente distorcida no debate público: o Estado laico.


Longe de ser inimigo da religião, a laicidade é a condição institucional que protege a liberdade religiosa em sociedades plurais. Ela impede que uma crença específica se transforme em norma coercitiva para todas as demais. Garante o direito de crer, de não crer, de mudar de crença, de discordar e de coexistir sem tutela confessional do Estado.


No Brasil contemporâneo, essa distinção tornou-se especialmente relevante. Em vez de defender liberdade de fé, muitos atores políticos passaram a reivindicar privilégios de influência, confundindo presença pública da religião com direito de capturar o aparelho estatal. O efeito dessa confusão é corrosivo: enfraquece a institucionalidade, rebaixa o pluralismo e reintroduz na esfera pública a lógica do privilégio moral travestido de maioria.


O que está em disputa


O mérito maior do episódio final de O Estopim está em recolocar a discussão em seu eixo correto. A questão não é se a religião pode participar da vida pública. Ela sempre participou e continuará participando. A questão é sob quais condições essa participação ocorre: como testemunho ético aberto ao pluralismo ou como aparelho de hegemonia voltado à blindagem do poder.


Essa é uma disputa de longa duração. Ela envolve a interpretação da Bíblia, o papel das igrejas, a formação política das massas, a arquitetura da comunicação digital, a permanência de estruturas conservadoras no Congresso e a capacidade da democracia de se defender de quem tenta corroê-la por dentro.


Entre a fé que consola o poder e a fé que confronta a injustiça, o Brasil atravessa um dos seus testes mais profundos. E talvez por isso Romanos 13 tenha voltado ao centro da cena. Não porque seja apenas uma passagem antiga, mas porque nele se espelha uma pergunta permanentemente brasileira: a autoridade deve ser obedecida por existir, ou deve ser julgada pelo que faz?


A resposta a essa pergunta não interessa apenas a teólogos ou religiosos. Ela interessa à democracia.


No coração da guerra cultural que varreu o Brasil nos últimos anos encontra-se uma das mais perversas operações de distorção intelectual já documentadas: a transformação de Antonio Gramsci, filósofo marxista que morreu nas prisões fascistas, em arquiteto de uma suposta conspiração comunista global. Esta inversão, orquestrada principalmente por Olavo de Carvalho, não representa apenas um equívoco acadêmico, mas constitui uma estratégia deliberada para desarmar o pensamento crítico e legitimar agendas políticas autoritárias.



A apropriação e distorção sistemática do pensamento gramsciano forneceu a base ideológica para o movimento que culminou no bolsonarismo, permitindo ataques coordenados às instituições democráticas brasileiras - universidades, imprensa, sistema educacional e organizações culturais - sob o pretexto de combater uma ameaça inexistente. Esta matéria revela como uma mentira intelectual se transformou em política de Estado e como a batalha pelas ideias se tornou, literalmente, uma batalha pela democracia.


O verdadeiro Antonio Gramsci: mártir do antifascismo


Para compreender a magnitude da distorção perpetrada pela extrema-direita, é fundamental primeiro conhecer o verdadeiro Antonio Gramsci. Nascido em 1891 na Sardenha, uma das regiões mais pobres da Itália, Gramsci cresceu numa família de poucos recursos, enfrentando desde cedo limitações físicas que marcariam sua vida - uma má formação na coluna vertebral que lhe causava uma corcunda visível.


O contexto histórico em que Gramsci viveu foi decisivo para a formação de seu pensamento. A Europa estava sendo devastada pela Primeira Guerra Mundial, e a Itália enfrentava uma crise social e econômica sem precedentes. Foi neste cenário turbulento que Gramsci se tornou não apenas um intelectual, mas um militante comunista ativo e um dos fundadores do Partido Comunista da Itália.


Sua trajetória tomou um rumo dramático com a ascensão de Benito Mussolini ao poder em 1922. Como deputado eleito em 1924 e principal opositor intelectual do regime fascista, Gramsci se tornou um alvo prioritário. Em novembro de 1926, foi preso pelas autoridades fascistas. O promotor Michele Isgrò pronunciou então uma frase que se tornaria histórica: "Devemos impedir que este cérebro funcione por vinte anos".


Contrariando as intenções do regime, foi justamente no silêncio forçado da prisão que Gramsci produziu sua obra mais genial. Entre 1929 e 1935, apesar da saúde progressivamente debilitada, ele preencheu 33 cadernos escolares com milhares de páginas sobre história, política, filosofia e cultura - os famosos "Cadernos do Cárcere". Gramsci morreu em abril de 1937, poucos dias após conquistar a liberdade condicional, vítima das condições desumanas do encarceramento fascista.


Hegemonia Cultural: uma teoria da resistência


O conceito central desenvolvido por Gramsci - hegemonia cultural - nasceu de uma pergunta urgente: por que o fascismo conseguiu chegar ao poder e conquistar o apoio popular? Sua resposta revolucionou a teoria política do século XX.


Para Gramsci, o poder nas sociedades modernas não se sustenta apenas pela força bruta do Estado - polícia, exército, tribunais. Fundamentalmente, ele se mantém pela fabricação de consenso na sociedade civil. A sociedade civil - escolas, igrejas, mídia, sindicatos, família - dissemina valores e crenças que legitimam a ordem social vigente, fazendo com que a visão de mundo da classe dominante seja percebida como natural e benéfica para todos.


A hegemonia é, portanto, a liderança moral, intelectual e cultural que uma classe exerce sobre toda a sociedade. O Estado, nessa concepção ampliada, é "sociedade política + sociedade civil", ou seja, "hegemonia couraçada de coerção". Era uma análise sofisticada de como o poder realmente funciona, não um manual de conspiração.


Esta teoria levou Gramsci à distinção estratégica entre "guerra de movimento" - o ataque frontal ao aparelho de Estado possível em sociedades com sociedade civil frágil, como a Rússia czarista - e "guerra de posição" - a luta de longo prazo no terreno da cultura e das ideias, necessária nas democracias ocidentais com suas complexas "trincheiras" da sociedade civil.


Olavo de Carvalho: o arquiteto da grande inversão


A transformação de Gramsci em vilão conspirador não foi obra do acaso, mas resultado de uma operação sistemática conduzida por Olavo de Carvalho (1947-2022), autodidata sem formação acadêmica formal que se tornou o principal arquiteto intelectual da nova direita brasileira.


Operando nas margens da academia, Carvalho construiu uma vasta audiência através de livros, artigos em grandes jornais, um influente curso online de filosofia e uma presença massiva nas redes sociais. Sua influência foi decisiva para a ascensão de Bolsonaro, não apenas fornecendo a base ideológica para o movimento, mas atuando como guru político, indicando nomes para ministérios-chave como Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Weintraub (Educação).


O conceito de "marxismo cultural", central na obra de Carvalho, não tem qualquer base na teoria marxista ou nos estudos acadêmicos. Trata-se de uma teoria conspiratória de extrema-direita que remonta ao termo propagandístico nazista "Kulturbolschewismus" (Bolchevismo Cultural), usado para atacar a arte moderna, o pensamento crítico e os intelectuais judeus na Alemanha de Weimar.


A versão moderna foi desenvolvida nos Estados Unidos na década de 1990 por figuras da ultra-direita como William S. Lind e Pat Buchanan, que alegavam que intelectuais da Escola de Frankfurt haviam arquitetado um plano para destruir a civilização ocidental promovendo feminismo, direitos LGBTQ, multiculturalismo e "politicamente correto".


Carvalho importou essa teoria para o Brasil com uma adaptação crucial: colocou Gramsci no centro da trama. Na versão olavista, o marxismo cultural seria a aplicação da estratégia gramsciana de hegemonia - uma revolução silenciosa para corroer os pilares da sociedade através da dominação da cultura, educação e mídia.


A leitura que Carvalho faz de Gramsci constitui uma desfiguração completa e sistemática. Primeiro, transforma o teórico num personagem quase mítico - um "gênio do mal" que, do cárcere fascista, teria orquestrado um plano secreto para a dominação comunista global. Era uma narrativa cinematográfica, muito mais atraente que a realidade de um intelectual escrevendo teoria política em condições adversas.


Segundo, esvazia o conceito de hegemonia do seu conteúdo analítico, transformando-o numa técnica de conspiração. Carvalho descreve hegemonia como "aggressão molecular", uma guerra invisível que age "milímetro a milímetro, cérebro por cérebro" para preparar o terreno para um golpe de Estado. Era paranoia transformada em doutrina.


Terceiro, distorce o conceito de intelectual orgânico. Na teoria gramsciana, são indivíduos que articulam a visão de mundo de qualquer classe social. Na versão de Carvalho, tornam-se um "exército de agentes infiltrados" - professores, jornalistas, artistas conscientemente trabalhando para contaminar a cultura com valores marxistas.


Da teoria à política: Os Efeitos Devastadores


A teoria conspiratória não permaneceu no plano das ideias. Durante o governo Bolsonaro (2019-2022), a guerra cultural se materializou em políticas concretas que atacaram sistematicamente as instituições democráticas brasileiras.


O primeiro alvo foi a educação. Cortes orçamentários brutais atingiram universidades federais - quase 20 bilhões de reais a menos em 2020 comparado a 2019. Os ataques foram justificados como medidas necessárias para expurgar a "ideologia de esquerda" das instituições. Abraham Weintraub chegou a usar a palavra "balbúrdia" para descrever as universidades federais.


A cultura também foi sistematicamente atacada. Museus, teatros, centros culturais foram vistos como "aparelhos de hegemonia gramsciana". Roberto Alvim, ex-secretário de Cultura, chegou a parafrasear o ministro da Propaganda nazista Joseph Goebbels num pronunciamento oficial. Não foi acidente - foi coerência ideológica com uma visão que enxerga a cultura como campo de batalha.


A retórica da guerra cultural eliminou a possibilidade de debate democrático racional. O adversário político deixou de ser alguém com projeto diferente e passou a ser retratado como agente do mal, inimigo da nação a ser eliminado. Essa dinâmica criou a "polarização extrema" que envenenou o debate público brasileiro.


A distorção de Gramsci não foi caso isolado. A extrema-direita aplicou a mesma técnica a outros pensadores da emancipação humana. Paulo Freire, educador mundialmente reconhecido, foi transformado em "doutrinador marxista". Sua Pedagogia do Oprimido, que propõe educação como prática da liberdade, foi reconfigurada como ameaça à ordem social.

George Orwell, socialista que combateu o fascismo, é constantemente invocado pela extrema-direita como crítico da esquerda. Suas distopias, que denunciam o totalitarismo, são descontextualizadas para atacar a imprensa investigativa e o pensamento crítico - exatamente as instituições que combatem a desinformação.


Simone de Beauvoir teve sua análise filosófica sobre a construção social do gênero transformada no epicentro da teoria conspiratória da "ideologia de gênero". O Segundo Sexo, ferramenta de libertação feminina, foi reconfigurado como ameaça à família tradicional.


A maior ironia de todo o processo é que, enquanto denunciavam um suposto plano gramsciano da esquerda, a extrema-direita estava aplicando magistralmente a verdadeira estratégia gramsciana. Construíram uma rede capilar de think tanks, influenciadores digitais, canais de comunicação, produtoras como a Brasil Paralelo - seus próprios "aparelhos privados de hegemonia".


Disputaram o senso comum da sociedade brasileira, educaram a "espontaneidade" das massas, criaram consenso em torno de seus valores. Não estavam combatendo Gramsci - estavam sendo gramscianos, aplicando com eficiência uma guerra de posição para construir nova hegemonia conservadora.


As Consequências para a Democracia


O impacto dessa guerra cultural transcendeu a política partidária. Famílias se fragmentaram, amizades se romperam, comunidades se dividiram. O tecido social brasileiro foi corroído pela lógica que transformou diferenças políticas normais em abismos existenciais intransponíveis.


A pesquisa "O Jornalismo Frente às Redes de Ódio no Brasil" revelou que, durante as eleições de 2022, a cada três segundos um jornalista foi agredido nas redes sociais. Era o resultado de anos de campanha sistemática para deslegitimar a imprensa como "aparelho gramsciano" da esquerda.


A guerra cultural criou o que João Cezar de Castro Rocha chamou de "Brasil pós-político" - um país onde o debate racional foi substituído pela retórica do ódio, onde a complexidade foi sacrificada em nome da simplificação conspiratória.


Mesmo com o fim do governo Bolsonaro, o legado da guerra cultural persiste. A distorção do pensamento crítico, a deslegitimação das instituições democráticas, a polarização extrema continuam como desafios centrais para a democracia brasileira.


A batalha pelas ideias revelou-se, literalmente, uma batalha pela democracia. Quando se permite que pensadores da emancipação sejam sistematicamente demonizados, quando a complexidade é substituída pela conspiração, quando a análise vira paranoia, os próprios fundamentos da sociedade democrática ficam ameaçados.


O caso Gramsci demonstra que a defesa da democracia no século XXI passa necessariamente pela defesa da integridade intelectual e do pensamento crítico. Combater a desinformação exige mais que checagem de fatos - exige educação crítica, contextualização histórica e resgate contínuo dos autores de seus sequestradores ideológicos.

A verdade, por mais complexa que seja, permanece como o único antídoto eficaz contra a mentira organizada. E hoje, mais do que nunca, essa verdade precisa ser defendida para que a democracia brasileira possa não apenas sobreviver, mas prosperar diante dos desafios contemporâneos.

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